Resenha: One Piece

Strong World: disputando em preferência com Avatar nos cinemas japoneses


Oda Eiichiro. Lembre-se deste nome. Daqui a dez ou quinze anos ele será tão famoso quanto outras lendas da indústria de entretenimento japonesa. Assim como Akira Toryama com seu Dragon Ball se tornou célebre a ponto de receber adoração de milhões de fãs espalhados pelo globo, Oda está trilhando passo a passo o caminho do sucesso há mais de dez anos, e caminha para superar todas as lendas que aprendemos a praticamente cultuar da década de noventa para cá.
One Piece, sua obra sobre um jovem sonhador em sua jornada para se tornar o Rei dos Piratas, vem quebrando recordes atrás de recordes: o volume #60 da série terá a maior tiragem inicial da História dos quadrinhos com avassaladores três milhões de exemplares, apenas para uma comparação do tamanho do sucesso, Harry Potter e as Relíquias da Morte teve tiragem inicial nos Estados Unidos, país de maior sucesso da série, de doze milhões de exemplares. Vale lembrar também que o recorde anterior já pertencia à obra de Eiichiro, cujo volume #59 teve uma tiragem inicial de dois milhões e oitocentos e cinqüenta mil exemplares. Turma da Mônica Jovem, o quadrinho mais vendido do ocidente, tem como recorde cerca de quatrocentos mil exemplares. Nos Estados Unidos, o último ranking dos mangás traduzidos mais vendidos trouxe a série em cinco das dez primeiras posições, mostrando que a força se mantém no ocidente.
A série animada caminha para quebrar outro recorde, já com mais de quatrocentos e quarenta episódios exibidos em mais de dez anos no ar, em pouco mais de um ano deve superar Dragon Ball como o anime shounen mais extenso da História, e provavelmente vai elevar o recorde às alturas, considerando que Oda já disse que até agora contou apenas metade da sua história. O décimo filme da franquia, Strong World, quase igualou o sucesso de Avatar nas terras nipônicas, arrecadando cinqüenta milhões de dólares nos quinze primeiros dias de exibição contra setenta milhões do arrasa-quarteirão de James Cameron no mesmo período.
Mas afinal o que torna One Piece um sucesso comercial e de crítica tão grande?

Akuma no Mi: passe livre para a imaginação

Um dos elementos mais famosos da série é a Akuma no Mi, uma fruta de origem desconhecida que pode dar poderes assombrosos àqueles que as comem, de acordo com o tipo da fruta, que pode variar absurdamente. Ao criar um recurso narrativo como esse Oda conseguiu adquirir completa liberdade para apresentar personagens com praticamente qualquer poder, um recurso muito interessante nos mangás shounen.
É um problema clássico: quando um autor cria uma nova mitologia para os poderes dos personagens de uma série, acaba ficando preso a essa mitologia. Se os leitores se cansaram de ver poderes associados a fantasmas, como apresentar uma novidade em uma série com, vixe!, personagens com poderes associados a fantasmas?

Positivismo: um sonho de liberdade e companheirismo

One Piece é uma das obras mais densamente baseada em valores positivos da história dos mangás. Toda a história, para começo de conversa, é baseada no poder de um sonho. O tal One Piece do título é o tesouro de um pirata lendário que amealhou o título de Rei dos Piratas ao conquistar todas as ilhas da Grande Rota e juntar fama, glória e dinheiro neste único grande tesouro escondido em Laftel, a última ilha da Grande Rota onde ninguém além dele conseguiu chegar.
Em sua execução o Rei dos Piratas, Gold Roger, desafiou o mundo a encontrar seu tesouro, o One Piece, e é aí que o protagonista entra, como mais um dos sonhadores da nova era dos piratas que começou no dia da execução quase vinte anos atrás.
Outro elemento positivista da série se mostra aqui: a determinação da liberdade. Luffy, o protagonista, é ingênuo e bondoso, provavelmente a pior pessoa do mundo para ser um pirata, mas decidiu em sua infância que seria um depois do encontro com a tripulação de Shanks, o Ruivo. Para cumprir esse sonho, Luffy lutou para ficar mais forte e partiu em busca de companheiros que pudessem ajudá-lo onde suas deficiências o tornavam fraco.
Mais um elemento positivista: companheirismo. Os piratas de Oda tem suas relações baseadas na em uma filosofia onde cada homem em uma embarcação deve cumprir seus deveres para o bem de todos. Assim, cada companheiro é importante além da imaginação, e os outros tripulantes devem lutar com suas vidas para protegê-lo, porque se espera o mesmo dele com relação a eles.
O elemento é tão importante dentro do universo de Eiichiro que na saga atual do mangá uma verdadeira guerra entre o Governo Mundial e o mais poderoso grupo de piratas é travada para resgatar apenas um tripulante deste grupo capturado e marcado para execução.

Viradas de trama ou “Puta que pariu! Não acredito que isto aconteceu, que foda!”

Uma coisa sobre a história de Oda Eiichiro: ela não pode ser tachada de previsível. Chamado de gênio dos shounens pelo próprio Akira Toryama, Oda faz por merecer o título, utilizando de viradas de trama às vezes sucessivas ele é capaz de deixar o leitor em constante estado de choque ou animação, de acordo com sua vontade.
O protagonista é derrotado, sofre reveses diversos, mas continua lutando para chegar a um desfecho aceitável para os problemas que enfrenta em sua jornada. E as vezes tem vitórias fáceis contra poderes até então absolutos ou derrotas terríveis em algo que o leitor poderia considerar como certo.
Mesmo pilares que os leitores identificaram como fundamentais da trama ao longo dos últimos dez anos podem cair. Por exemplo, era comum para o público achar que qualquer morte jamais aconteceria em One Piece, dado o espírito positivista da série. E isto realmente perdurou por mais de dez anos. Até que recentemente não um, mas vários personagens morreram na guerra contra o Governo Mundial, incluindo dois grandes favoritos do público!

Finalizando

No ocidente a série é muitas vezes tachada de infantil, seja pela ação da ridícula censura estadunidense que trocou cigarros por pirulitos, cerveja por refrigerante e sangue por baba e cortou cenas inteiras, seja pelo choque de uma obra tão positiva em uma sociedade tão pessimista como a nossa. Ainda assim a série faz sucesso entre o público jovem e alcança recordes de vendas e boas críticas na imprensa especializada.
No Brasil a série foi publicada pela Conrad durante alguns anos, no formato de meio volume (em relação aos volumes originais japoneses), para então ter sua publicação paralisada pelos erros administrativos da falecida editora. Hoje em dia as edições antigas são verdadeiro tesouro caçado com ânsia pelos leitores.
A série animada foi veiculada em canais por assinatura durante algum tempo e na televisão aberta foi transmitido durante algum tempo pelo SBT. Se você não puder agüentar a censura estadunidense imposta ao anime, existem vários canais de fãs na internet onde você pode acompanhar tanto o mangá nos volumes atuais japoneses quanto o anime com áudio original em japonês. Tudo traduzido e legendado pelos fãs.

João Paulo Francisconi

Amante de literatura e boa comida, autor de Cosa Nostra, coautor do Bestiário de Arton e Só Aventuras Volume 3, autor desde 2008 aqui no RPGista. Algumas pessoas me conhecem como Nume.

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15 Resultados

  1. Armageddon disse:

    One Piece é foda. É o tipo de história que você vira a página e sempre vê algo mais incrível do que na página anterior XD
    .-= Último post no blog de Armageddon: O Enigma das Arcas – Ato IX =-.

  2. Filipi disse:

    Tenho a edição 1,2 e 3 do mangá aqui comigo, vendo pra quem pagar mais! 🙂

  3. Guiguimn disse:

    Uhn… Positivismo é uma doutrina filosófica baseada na racionalidade, não tem nada a ver com positivo como sinônimo de bom ou otimista. =D

    • Nume Finório disse:

      Eu sei, amigo, mas tive a liberdade de tomar o termo e usar com outro significado. Meu erro mesmo foi não deixar isto claro no texto. :S

      • Shido disse:

        É, Nume, o camarada Guiguimn não foi o único que estranhou — eu cheguei a me engasgar com o café quando li. Pensei "pela Galáxia!, o One Piece mudou *mesmo* durante esse tempo em que deixei de acompanhar!" — afinal, o Oda é tão loucão no desenvolvimento de temas que seria perfeitamente possível ele incluir um arco de estória inteiro com base no positivismo (filosófico).
        Para evitar ambiguidade, troque a palavra por "positividade," que tem o sentido que você pretende e, de fato, existe. (Eu conferi.)

  4. Meks disse:

    O artigo ficou bom, apesar de só elogiar e não citar probleminhas que a série tem (como sofrer da síndrome de "uma hora em vinte capítulos", ou das corridas armamentistas absurdas que chegam a níveis DBZ de ridículos) e apelar demais pra números pra dizer que é bom e imperdível (o que, como todo mundo sabe dando uma olhada nos produtos culturais de maior vendagem, é mentira na maioria dos casos).
    Outra coisa. Endosso o que o Guiguimn disse – positivismo não é bem isso que você citou. Melhor trocar o termo por alguma outra coisa equivalente pra não gerar confusões.

    • Armageddon disse:

      A série animada tem esse problema mesmo, Meks, pelo problema que é comum a todas as séries de animes de longa duração. Em dado momento, eles alcançam a história e então precisam enrolar com os fillers. Só que até a maioria dos fillers de OP são legais.
      E o mangá não sofre de falta de ação ou enrolação em nenhum momento, IMHO. Tampouco as “corridas armamentistas” são ruins na história. Não sei até que ponto você acompanhou (talvez tenha visto tudo, coisa que eu não fiz XD) mas os novos golpes, quando surgem aumentando o poder dos personagens também são legais. Ou você esperava pela transformação do Chopper contra a CP9? =D
      .-= Último post no blog de Armageddon: O Enigma das Arcas – Ato IX =-.

  5. MalkavFelipe disse:

    To com os 400 primeiros episodios aqui (axei um MEGA torrent =P) e só vi os 3 primeiros por enquanto ^^
    Alguém saberia me dizer se o anime é fiel ao manga em todos os quesitos??
    Mas anime bom mesmo é Code Geass. Meu preferido. ^^

  6. “Anime infinito” é uma boa definição.
    Gilson
    .-= Último post no blog de Gilson • RPG • Educação: Melhor texto explicativo sobre o que é RPG e como jogar, além do sistema Zip simplificado mais ainda =-.

  7. @caioviel disse:

    Eu assiste One Piece até o episódio 75 mais ou menos há uns 3 anos arás. Eu gostei muito sim! Acho que mais pelo cenário de piratas do que qualquer outra coisa. Mas eu sinceramente não tenho mais paciência para animês com mais de 100 episódios, pra mim não dá.
    Prefiro ver 4 séries de 25 episódios cada do que um animê infinito. Mas de fato, se um animê infinito vale a pena, seu nome é One Piece.

  8. chikago666 disse:

    One piece é absoluto. Querendo ou não ele é diferente de bleach ou de Naruto, que depois de X eps viram DBZ.

  9. Synapse disse:

    O "spam dbz" Sempre existirá no gênero enquanto houver a possibilidade do herói ficar mais forte. É muito mais fácil aumentar o poder do inimigo do que dar desafios que contornam o poder do herói. Victory é um exemplo do segundo, já que nunca foi feito esperando que ela encontrasse um oponente mais poderoso do que ela.
    A diferença entre One Piece e as outras séries sendo "comparadas" é justamente esse espírito de perseverança e busca de sonhos que, embora presente nas outras séries, é mostrado de forma muito mais evidente em One Piece. Chega a soar piegas, para os que acreditam que "arte é triste" ou qualquer coisa do tipo. Talvez seja mesmo, mas não é de forma alguma RUIM.
    Synapse.
    Último post no blog de Synapse:http://ramblingthrough.wordpress.com/2010/05/12/e

  10. jozeilson disse:

    cara amor manga de mais

  11. Willian Marinho disse:

    depois desses bons argumentos, assim que terminar de ver o naruto (que era um cabeça dura pra assistir, até entender mesmo a série) eu pego para ver One Piece, que vai ser uma novela pelo tamanho de eps xD

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