Zebedias, o monstrólogo do ermo

Rapaz, eu crio morcego desde que a estátua da deusa era menina. Vendo a bosta do animal. O povo compra, eu vendo. Os “mago”. Não sei o que chinfra de […]

Rapaz, eu crio morcego desde que a estátua da deusa era menina. Vendo a bosta do animal. O povo compra, eu vendo. Os “mago”. Não sei o que chinfra de boi é um ‘mago’, compadre. Mas… Bom…

O filho da senhora Bangi agora deu de fumar cachimbo e andar cum um pedaço de pau. Todo dia lê uma carniça de livro embolorado. Ele agora mora ali, na torre torta. O cheiro de furico de morcegim forma uma cerca invisível, você vai achar.

Só sei que o povo acha que eu sou sabedor de bicho. Sou mesmo.

Dia desse o filho de Van Pés Limpo voltou “das aventura” diz ela. Trouxe a curriola de vagabundo com ele. Um atarracado barbudo e dois solta-brilho de cara lisa.

O garoto é um ladrão. Acha bonito dizer isso. Meu pai do trovãozinho. Ô geração perdida.

Ai já chega perguntando “seu Zeb, é verdade que tem uns Troll aqui? Como eles é?”.

É muito algibeira frouxa.

Aí eu digo: tem mesmo. Os bicho fica lá na toca do Não-Vai-Não, perto da torre do Kadrad Pau de Fogo, o tal “mago” da vila (que só dorme). É uma ruma de cába grande, verde-desespero. A primeira vez que eu vi um eu me mijei. Cada um é guenzo, mal das costas, graaande, de unha cumprida, cabelo ensebado e todo gororobado; parece recém-parido.

Ele tem umas trança, credita? Um monte de cabelo grosso, pingando babosa, acho.

Aí o moleque pergunta “quais os puderes deles?”

Eu digo logo: meu filho: leve o cu pra casa. Os bicho morde, azunha e inda taca umas coisas na cabeça, jogada de longe, se teimar. E num morre nããão. Corte um e você vai vê: nasceu o cortado de novo. É como arte num rabo de calango, mas no bicho todo. É um diabo de um dia ruim. Aí você tá lá, nos mato, fazendo seu barro e os bicho vem. É azar. Mas ir atrás? Aí não. Aí é caganeira na mãe.

Olha, meu filho: monstro é sério. É rampa torta. É um deus-num-quis. Brinque não.

Ontem eles foram lá, atrás das besta-fera. E eu digo o que pra Van? Que ela faça outro menino?

Minha certeza nessa vida é duas: nem vaca dá leite pela venta, nem aventureiro é gente.

– Zebedias Riscadaga, micropecuarista.

 

 

About Mário Castro

Mário Castro é professor e pesquisador, apaixonado por narrativas de todos os tipos. Joga, narra e lê RPGs desde os anos 1990. Tem CA 38, 422 PVs e faz cinco ataques por rodada.