A tecnologia em Arton

Já comentei várias vezes em fóruns e conversas nas redes sociais que Arton, o mundo de Tormenta RPG, não é um cenário de fantasia medieval. Na maior parte de Arton nobres existem, mas o poder do regente é muito maior que o da nobreza, num esquema mais absolutista que feudal. O esquema de servidão também está basicamente extinto, com apenas algumas poucas nações ainda utilizando-o, e por isto restrições às viagens entre reinos são quase inexistentes, em contraste com as dificuldades que se esperaria de viajar mesmo entre feudos de um mesmo reino na era medieval. Não há, portanto, muito de medieval em Arton, as estruturas sociais e políticas na maior parte das nações se assemelham mais à idade moderna (1453~1789) do que à idade média (476~1453). No máximo há ilhas de atraso, como Bielefeld e Ahlen, da mesma forma que aconteceu com a Rússia na Europa (cujo sistema de servidão feudal só foi abolido em 1861!).
Mas é claro que existe uma outra razão, além das discrepâncias sociais e políticas, para dizer que Arton não é nem um pouco medieval: tecnologia. Arton possui tecnologia muito acima do que você esperaria da era medieval, e não estou só falando de itens mágicos que fazem coisas maravilhosas, mas de tecnologia baseada em ciência, que realmente pode fazer a diferença para a continuidade do cenário em seus próximos séculos de cronologia.
A primeira evidência disto são as armas de fogo. No mundo real o surgimento das armas de fogo no período final da idade média não mudou muito a maneira como se fazia combate num primeiro momento, mas a evolução delas ao longo do tempo e a facilidade com que qualquer um poderia ser treinado com uma delas para lutar efetivamente em um exército levaria a mudanças profundas ao longo da idade moderna que culminariam nos grandes exércitos de centenas de milhares ou mesmo milhões da idade contemporânea. Hoje em dia, Arton possui armas de fogo dignas da Renascença, como mosquetes e pistolas de fecho de mecha, além de canhões simples. Tapista já utiliza canhões em sua marinha de guerra há tempos, e com a criação da Liga Independente e Malpetrim como uma cidade-estado, surgem os primeiros estados que utilizam mosquetes e pistolas em seus exércitos. Somado ao centralismo político que já acontece na maioria dos reinos artonianos, o cenário caminha para os mesmos grandes exércitos nacionais que vimos no mundo real a partir das guerras napoleônicas.
E já que falamos indiretamente de Napoleão, isso me lembra de uma das paixões dele, balões. Balões são uma invenção realmente avançada. Apesar do conceito geral ter sido teorizado por gênios renascentistas como Da Vinci, a primeira viagem experimental de balão só aconteceria em 1709 e o primeiro balão capaz de transportar pessoas largamente conhecido é do final da Idade Moderna, em 1783. Em um mundo como Arton, cheio de magia, o voo não é exatamente algo tão especial e balões podem não parecer tão importantes. Mas é preciso lembrar da velocidade entre os primeiros voos não controlados em 1783 e a invenção do primeiro dirigível em 1852 e então do primeiro dirigível com motor à gasolina em 1898 por Santos Dumont. Em cerca de 70 à 120 anos, portanto, Arton pode sofrer uma revolução de transportes quase tão poderosa quanto a que vimos no século XIX com as ferrovias. Imagine um mundo onde, por alguns tibares de ouro, prata ou cobre (dependendo se estamos falando de 1ª, 2ª ou 3ª classe), nobres, burgueses e plebeus podem viajar entre Valkaria e alguma outra capital em apenas algumas horas ou dias de viagem pelos céus, em vez de meses através das rotas terrestres?
E já que estamos falando de transportes, o que dizer então de navegação oceânica? É dito que a costa artoniana não é muito propensa para a navegação oceânica, mas ao mesmo tempo as opções para navios apresentados no suplemento Piratas & Pistoleiros trazem caravelas e galeões, ambos navios tipicamente usados pelos impérios ultramarinos europeus para realizar as longas viagens oceânicas entre a Europa e regiões coloniais das Américas, África e Ásia entre os séculos XVI e XVIII. Apesar de contrariar a ideia de um litoral acidentado pouco propenso a portos naturais, não é exatamente uma surpresa quando lembramos que o subcontinente de Galrasia é repleto de tesouros valendo dezenas de milhares de tibares de ouro a peça e está a apenas cerca de 800 quilômetros de mar aberto de distância. Galrasia tem o mesmo papel para o desenvolvimento da ciência náutica artoniana que os frotas espanholas entupidas de ouro do Novo Mundo tiveram na era colonial. E se Galrasia age como as nossas Américas, o que são os Reinos de Moreania? Vejamos, eles viajaram por meses através do oceano, encontraram Arton, e montaram uma rede de comércio intercontinental. Parece que o caso aqui é que Arton é a Ásia, e os Reinos de Moreania são a Europa. Eita! Mas calma, só porque Arton não possui uma navegação oceânica tão avançada quanto a moreana não quer dizer que o continente vá ser colonizado no futuro pelos homens-fera de lá… talvez. De qualquer maneira, essas viagens oceânicas causam um contato de culturas externas da mesma maneira que Vectora faz com Arton internamente, diminuindo o mundo num processo que todos nós conhecemos muito bem hoje em dia mas começou lá no século XV com a Era das Grandes Navegações: a Globalização.
Mas falta algo nessa mistura ainda, certo? Globalização envolve uma diminuição do tempo de viagem entre locais distantes, é verdade, mas também envolve trocas culturais em escala global. Então, em que pé está a “tecnologia cultural” de Arton? Em alguns aspectos, academicamente falando, Arton está bastante avançada em relação ao mundo real. A medicina de Sallistick é descrita de maneira tal que lembra nosso entendimento médico do século XIX, e graças à Academia Arcana o método científico já existe em Arton (vejam os talentos de Teoria Arcana do Manual do Arcano). O fato de que a igreja de Tanna-Toh foi capaz de ensinar a todos ao menos a ler e escrever também é algo muito avançado, mesmo se você considerar que existam uma cacetada de tribos bárbaras que levam o índice de alfabetização artoniano para, sei lá, 40% da população mundial, esse é mais ou menos o nível de alfabetização no mundo real na década de 1960! Com esse nível de alfabetização mundial nós colocamos um homem na Lua!
Então, se Arton é tão avançada, o que falta exatamente para a tecnologia decolar de vez? Bem, uma coisa muito simples, mas que ninguém fez ainda: imprensa de tipos móveis. Sem a imprensa de tipos móveis, a produção literária fica limitada em números, e assim mesmo os livros mais populares só terão algumas centenas de unidades produzidas por copistas e seu valor será altíssimo. Isto torna a viagem de ideias muito difícil, e se um engenheiro de Tapista não entra em contato com o trabalho teórico de um professor quase desconhecido de Sallistick, um dirigível não será construído em 50 anos, mas em 500 em vez disto. Sem imprensa móvel para espalhar os escritos de um explorador sobre os Reinos de Moreania, menos aventureiros e mercadores tentarão estabelecer rotas comerciais os Moreau. Enfim, ponto central sendo que quanto maior a troca de ideias, maior o desenvolvimento tecnológico, e a imprensa móvel é o multiplicador de ideias que separa a Arton de Tormenta RPG de uma Immoren Ocidental de Reinos de Ferro RPG.
Então, esse é meu entendimento sobre a tecnologia em Arton, dúvidas?

Nume Finório

Você sabe quem eu sou.

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17 Resultados

  1. Roen disse:

    Ótimo texto, mas tenho que perguntar, se não existem imprensas, como foram feitas as propagandas durante as guerras táuricas e como a Gazeta do Reinado consegue se manter ativa?

    • Nume Finório disse:

      Roen, periódicos, livros e propaganda de guerra existem há muito mais tempo que a imprensa de tipos móveis. Porra, alguns dos exemplos mais antigos de escrita são propaganda de guerra escrita em pedra e espalhada por reis em seus países da Antiguidade, como no Egito. Os primeiros jornais, então, existem desde a Roma antiga, quando Júlia César criou a Acta Diurna em 69 a.C. e mais ou menos pela mesma época um boletim de notícias do governo circulava entre os funcionários governamentais da Dinastia Han da China (séculos II a.C a II d.C) também. A sua confusão, aqui, é achar que a imprensa de tipos móveis, uma máquina criada para acelerar a produção, é a mesma coisa que a imprensa em si, que é uma tecnologia com milênios de idade.

  2. Renato N42 disse:

    Realmente interessante o ponto de vista sobre imprensa, é o tipo de coisa que não paramos pra pensar em um cenário de RPG mas que realmente faz diferença.
    Imagino se os goblins não podem acabar criando isso e ganhando um maior destaque no cenário, talvez influenciando textos ou monopolizando o mercado, gostaria de vê-los como uma força intelectual e não somente bárbara vinda do Sul.

    • Nume Finório disse:

      Os goblins já são meio que uma força intelectual em Arton, mas como engenheiros. Eles são bons em construir coisas, mas não especialmente em trabalho teórico (não quer dizer que não possam ser, apenas que eles tem um bônus racial em Ofícios, né). E se você chegar a ler O Mundo de Arton, vai ver que os goblins da Aliança Negra tem muito mais a apresentar que simples barbarismo para Arton. De fato, talvez até mais que seus primos “civilizados” do norte.

  3. Elimar Filho disse:

    Excelente texto! A tecnologia em Arton é algo que venho pesquisando e indagando há tempos e muitas das suas respostas no texto foram bastante úteis para clarear alguns pontos.
    Quanto a conclusão acredito que a imprensa móvelpode ser facilmente substituída por magia. Os Clérigos de Tanna Toh certamente teriam interesse em desenvolver magias para copiar e multiplicar livros e poder espalhá-los por toda Arton. E pelo nível de personagens e da magia em si no cenário acredito que seria algo bem simples de ser criado.
    Na minha opinião algo (que tem em certo ponto a ver com a imprensa que você citou) que atrapalha a evolução tecnológica em Arton é a comunicação. Vemos pouco sobre isso no cenário e pelo que temos as formas de comunicação são apenas mágicas (exigindo um usuário de magia dos dois lados para envio e recepção) e o básico do básico como cartas, passáros com mensagens ou mensageiros. Tão importante quanto o engenheiro de Tapista não entrar em contato com o trabalho teórico de um professor quase desconhecido de Sallistick é esse engenheiro poder conversar com outros engenheiros, professores, construtores, receber informações e discutir suas idéias.
    Parabéns pelo seu trabalho e obrigado!

    • Nume Finório disse:

      Elimar, boas considerações! Magia realmente poderia ser usada como substituta para a prensa móvel, mas você está esquecendo do preço para conjuração. Na página 140 de Tormenta RPG, na tabela de preços por serviços, é mostrado que a simples conjuração de uma magia de 1º nível é um serviço de 10 TO. Se você for bonzinho e considerar que a magia necessária para criar uma cópia de um livro seja de 1º nível e que a igreja de Tanna-Toh vai cobrar só o preço de custo da magia no livro para não ir a falência… ainda é um livro de 10 TO, que para um trabalhador comum, não aventureiro, é quase impossível de comprar. Em Arton um trabalhador qualificado (com a perícia Ofícios ou outra aplicável), que seria o público alvo para esses livros, faz em média 1 TO por semana de trabalho “comum” (não-aventuresco). Considerando que ele gaste cerca de 80% disso para se sustentar, ele poupa 2 TP por semana, então o preço de 10 TO de um livro produzido por magia é o equivalente a 50 semanas, ou 11 meses e meio, de poupança. É como se você fosse hoje na livraria e tudo lá custasse por volta de 4 a 5 mil reais. Magia é conveniente, é verdade, mas também cara e por isso não é pensada para o cidadão comum não-aventureiro do cenário. Faz muito mais sentido que a Igreja de Tanna-Toh faça o mesmo que mosteiros cristãos faziam na idade média: pega os monges e coloca eles para copiar livros a mão o dia inteiro. Em uma ou duas semanas, com esforço e dedicação, o monge copia um livro inteiro que pode ser vendido por 1 ou 2 TO (garantindo os 1 TO por semana necessários pra sustentar o monge pra que ele possa fazer só isso o dia inteiro).
      Sobre comunicação, sim, é extremamente importante. É isso que a Globalização é: troca de ideias que geram novas ideias e tecnologias exponencialmente. Para isso também é importante, além da diminuição das distâncias físicas, a criação de espaços acadêmicos para debates. Arton tem alguns espaços assim: a Academia Arcana, o Colégio Real de Médicos de Yuton, a Universidade Imperial de Valkaria e as guildas de ofício (que assumem o mesmo papel em Arton que tiveram no mundo real).

      • Bruno Kopte disse:

        Peraí, e Vectora? Ela não funciona como disseminadora de idéias e ponto de encontro?
        Essa coisa do minotauro engenheiro dá uma história. Os custos, dificuldades e ostracizações de um minotauro querendo aprender um mínimo de magia em segredo para poder se comunicar com pessoas fora do império de Tauron.
        Escravos élficos seriam uma alternativa, mas capaz de chantageá-lo. Família e desonra, etc, quem sabe explorar Tapista a fundo, torná-la mais que uma cópia vaga do império romano. Minotauros romanos é uma coisa em Tormenta que mesmo quem não gosta do cenário acha legal, um diferencial pouco explorado.

  4. Vitor disse:

    Se formos pensar pela lógica do mundo real, concordo completamente com seu argumento do porquê de a tecnologia ainda não avançar tão rapidamente quanto poderia em Arton. Contudo, dentro da lógica artoniana, entendo que a razão de isso não acontecer foi a queda de Tillian. Dada a importância que a influência dos deuses tem na vida dos cidadãos, mesmo aqueles que nem conhecem o nome de todos no Panteão (a queda de Glorienn deixou isso bem evidente), a ausência do deus da curiosidade e inventividade no Panteão com certeza é a causa de isso não ser um aspecto tão importante na vida das pessoas comuns. Eu pessoalmente gostaria de ver um dia o pai dos gnomos de volta ao seu status divino, só pra ver o rebuliço que isso causaria no mundo, certamente uma revolução industrial, somada a poderes arcanos e divinos em profusão, como já existem em Arton.

    • Nume Finório disse:

      Vitor, a influência dos deuses maiores no cenário está justamente em ajeitar as coisas para que elas aconteçam. Por exemplo, se Tillian fosse um deus maior ainda, o livro daquele professor desconhecido de Sallistick com o trabalho teórico sobre balões “por acaso” iria parar nas mãos exatamente do engenheiro minotauro capaz de ter a ideia para o dirigível, e então ele “por acaso” conheceria um goblin que aceitaria testar o design do dirigível (o minotauro, apesar de ser o cara certo para fazer o projeto não iria querer testar ele mesmo por causa do seu medo de altura racial), as condições climáticas do dia do teste do protótipo seriam “por acaso” perfeitas, e então “por acaso” os dois conheceriam exatamente o único mercador capaz de ver o potencial comercial da invenção e iniciar uma companhia de transporte de cargas e pessoas usando os dirigíveis. Todas esses “acasos” seriam obra do Tillian, da mesma forma que todos os “acasos” que levaram a invenção das armas de fogo foram obra do Wayne Boggard/Keenn que tem um interesse na invenção delas. Então, yeah, um deus maior da invenção faria Arton virar Reinos de Ferro rapidinho, mas isso não quer dizer que o cenário não pode chegar lá por conta própria, apenas que com ele isso seria alcançado muito, muito mais rápido.

  5. Denilson disse:

    Muito bom o texto e os comentários. Sempre soube que não era um cenário feudal, mas nunca tinha pensado a respeito do que faltava para ser contemporâneo.

  6. mikemwxs disse:

    Acho que quando alguém diz “fantasia medieval” está se referindo mais a um estilo de história, com todo esse papo de espada, magia, reinos, do que à Terra medieval propriamente dito… No mais, é interessante encarar Arton como uma colcha de retalhos cheia de anacronismos.

    • Nume Finório disse:

      Mike, não acha que anacronismo é uma palavra fora de lugar quando estamos falando de um mundo de fantasia? Não sendo um cenário histórico, Arton não está sendo anacrônico por colocar um mecha e uma espada longa na mesma história porque ele não está inserido na nossa linha cronológica, mas na sua própria.
      Anacrônico, em Arton, seria uma história falar de Vectora como se ela já existisse 400 anos atrás (quando a cidade voadora tem apenas 120 anos de fundação) ou, como aconteceu no texto de descrição da própria Vectora, falar de Mestre Arsenal como existindo 120 anos atrás quando ele só surgiu no cenário uns 20 ou 30 anos atrás.

  7. Vlademir disse:

    Texto bem interessante!
    Esta de parabéns!
    Mas acho legal tbm pensarmos na tecnologia que a Aliança Negra (AL) vai nos trazer.
    Já que guerras sempre fazem sociedades darem um “salto” em sua tecnologia… O que será que a AL nos reserva?

    • Nume Finório disse:

      Vlademir, uma olhada no texto da Aliança Negra em O Mundo de Arton mostra uma sociedade que, sem grandes avanços mágicos, está confiando mais e mais na tecnologia. Os goblins engenheiros da AN já criaram até um automato/mecha para ajudar eles em combates. 🙂

      • vlademir disse:

        Interessante!
        Eu mesmo na campanha que estou narrando. Os jogadores estão em Tirondir para enfrentar a AN.
        E vão conhecer algumas maquinas goblinoides! hehehehehe…
        (Eis a ‘I Grande Guerra’ de Arton? hehehe)

  8. Lukas Malk disse:

    Falta um Radio/televisor/ computador em Arton.
    Pois celular/telefone é substituido por itens magicos.

    • Nume Finório disse:

      Tem o item mágico A Voz da Rebelião, que aparece no Guerras Táuricas, e faz as vezes de rádio. Televisores podem ser substituídos por itens mágicos com magia de ilusão. E por último os computadores, e cara, computadores são high tech, calm down! XD

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