Tormenta: escravidão e o futuro cultural e econômico do Império de Tauron

Quando Caio Júlio César, o lendário ditador perpétuo da República Romana, finalizou a conquista da Gália em 52 a.C ele não apenas iniciou sua jornada para tornar seu nome como sinônimo de imperador em toda a Europa, ele também daria início a um problema que hoje em dia é considerado como uma das principais causas do processo de ascensão e queda do Império Romano: um fluxo enorme de escravos!
Com a vitória de César, um milhão de escravos gauleses foram trazidos para trabalhar nas terras romanas, acelerando dois efeitos que já vinham crescendo com as conquistas militares romanas no Mediterrâneo. Primeiro, com tantos escravos para trabalhar nos campos e manufaturas, temos uma diminuição dos custos de produção ao mesmo tempo que há um aumento da produção, aumentando a fortuna da classe aristocrática e o surgimento dos chamados “homens novos” ou “cavaleiros”, que deviam suas fortunas às atividades ligadas à guerra no aspecto logístico como fornecimento de alimentos, construção de pontes e estradas, cobrança de impostos nos novos territórios, etc. No entanto, nem todos podiam prosperar nesse cenário, e a enorme quantidade de escravos gerou também uma enorme quantidade de romanos livres que ficavam desempregados e, sem perspectivas de empregabilidade no campo com tantos escravos, se mudavam para as cidades em busca de melhores oportunidades. Que eles não encontravam, afinal haviam escravos também nas cidades.
Com medo de revoltas dessas massas de desempregados, os imperadores romanos instituíram a conhecida política do pão e circo, mantendo os cidadãos livres romanos alimentados e distraídos com espetáculos nos coliseus onde era distribuída comida em nome do imperador. Para além dos problemas econômicos imediatos, há também os problemas culturais de longo prazo desse influxo de escravos estrangeiros: a perda da identidade cultural. Os escravos introduziram nas famílias romanas práticas culturais que traziam de suas terras natais, indo da gastronomia à linguística, do vestuário à religião, com a cultura grega possuindo especial força nesse processo. Os primeiros imperadores tentaram diminuir essa influência, mas ela iria, através dos séculos, se consolidar e levar em última análise à queda do Império de acordo com alguns historiadores.
Cáspita, Nume, obrigado pela lição de História, mas e daí, o que isso tem a ver com Tormenta?!
Bem, o Império de Tauron nada mais é que a versão artoniana do Império Romano, em seus primeiros estágios. E assim como a conquista da Gália por Júlio César acelerou a crise da República Romana com o enorme influxo de escravos, o mesmo deve ter acontecido com a conquista de Hershey, Petrynia, Fortuna, Lomatubar e Tollon. Somados, estes reinos facilmente ultrapassam dois milhões de habitantes dos quais uma parte significativa deve ter sido capturada como prisioneiros de guerra e vendidos como escravos pelo estado, soma-se a isso os capturados em Deheon e a grande imigração de elfos devotos de Glórienn que voluntariamente se entregam em escravidão e é possível imaginar que o número de novos escravos pode facilmente ter ultrapassado um milhão desde as Guerras Táuricas. Atualmente, apenas 54% da população de Tapista é composta de minotauros. Chegou-se a um ponto onde a qualquer momento os minotauros podem ser minoria em suas próprias cidades.
Além dos efeitos econômicos já descritos no caso romano que previsivelmente devem estar afetando Tapista neste momento e nas próximas décadas, é preciso lembrar que descrições anteriores diziam que as famílias táuricas gostavam de empregar tutores élficos, então extremamente raros, para educar seus filhos. Agora que elfos compõem um quarto da população de Tapista, é seguro imaginar que praticamente toda família de classe média deve ter pelo menos um tutor élfico ensinando suas crianças. Com tamanha influência, é provável que a língua, hábitos alimentares e de vestuário, além de práticas religiosas e outros traços da cultura élfica logo permearão a sociedade táurica como um todo.
Mas, por mais estranho que pareça, agora que o influxo de escravos se iniciou, será muito mais prejudicial para o Império de Tauron que ele pare. O maior erro estratégico do Império Romano, que, entre outras razões, eventualmente o levaria à sua queda, foi a de escolher consolidar suas fronteiras em vez de realizar uma expansão contínua que manteria o influxo de escravos na forma de prisioneiros de guerra. Sem esse influxo, o sistema escravista entrou em crise, afetando toda a economia romana com escassez de produtos e alimentos e inflação que deixaram o Império sem condições de se defender das invasões bárbaras.
Percebeu que as condições táuricas se alinham com as condições históricas de Roma? Tapista tem um acordo de paz com o Reinado, ao menos por enquanto inviabilizando a captura de mais escravos, e a ameaça bárbara representada pela Aliança Negra pode ser fatal se acontecer uma invasão ao mesmo tempo que o Império estiver passando por uma crise econômica.
Então, vamos resumir o que aprendemos até aqui? Tapista ganhou um enorme influxo de escravos com as Guerras Táuricas e a grande migração élfica pós-queda de Glórienn, esse influxo tem dois efeitos principais: desemprego e diminuição da unidade cultural táurica devido à influência cultural élfica nos lares tapistanos. Agora que esse sistema escravista “pegou”, a parada do influxo de escravos pode causar uma crise econômica muito maior que, se acontecer ao mesmo tempo que uma invasão da Aliança Negra, pode significar a queda do Império de Tauron.
Então, o que acham, viajei na maionese?

Nume Finório

Você sabe quem eu sou.

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16 Resultados

  1. Bob disse:

    Adoro esse tipo de postagem, rende muito gancho para campanhas e evolução do cenário. TRPG deveria ter um consultor nesses assuntos.

  2. Wilgraff disse:

    Já tinha pensado nisso, mais nunca investi muita pesquisa… além de acontecimentos diferentes na minha mesa (tipo a princesa Tannya já ter sido resgatada em 1397 pelos players, ter estudado na Academia Arcana com outro grupo de players e ultimamente planejar a Invasão Elfica junto a outros players), os assuntos do Império sempre foram muito distantes pro meu grupo. Mas com esse artigo já fico mais instigado… Vlw Nume!

  3. Pedro disse:

    Opa! Muito boa a postagem, deu àquela inspirada para umas aventuras futuras. Pena que minha campanha de TRPG esta quase no fim e não posso aproveitar muito as ideias apresentadas aqui, mas com certeza em outra oportunidade vou aproveitar.
    Como disse lá no facebook: “vc ta on fire ” com essas postagens haha continue assim xD

  4. Alexandre disse:

    Eu não tenho certeza se houve um fluxo de escravos tão grande dos reinos conquistados para Tapista como houve da Gália para Roma.Pelo menos de acordo com o Guerras Taúricas, os minos escravizaram criminosos e membros dos exércitos derrotados, e depois da conquista, qualquer um que fosse considerado desordeiro seria escravizado. Pelo que me disseram, os romanos capturaram e escravizaram vilas inteiras. É difícil fazer uma estimativa sem ter registros de traficantes de escravos, mas acho que Julio César fez pior que os minotauros fizeram durante as guerras e anos seguintes. É claro, a expansão de Tapista é recente. Não dá pra dizer com certeza como os minos vão fazer nas próximas décadas… o resto, não dá pra por defeito na análise.

    • Nume Finório disse:

      Alexandre, é preciso pensar, também, na escala. Enquanto o Reinado define a população de Tapista como cerca de 4,8 milhões, sendo cerca de 40% disso de escravos, o primeiro censo feito por Augusto César, não muito tempo depois da conquista da Gália, mostrou uma população entre 4 e 5 milhões… de cidadãos romanos do sexo masculino. Se lembrarmos que cidadãos reconhecidos na época eram apenas uma fração da população romana mesmo entre homens livres, é fácil notar a diferença de escala aqui. 100 mil escravos pode ter o mesmo efeito em Tapista que um milhão teve sobre Roma pouco antes do início da era Cristã.
      Além disso é preciso pensar no perfil dos escravos deste influxo. Os 40% da população escrava de Tapista apresentada no antigo Reinado é formada, na maioria, de esposas mantidas nos haréns minotauros para, cê sabe, estupros contínuos com o objetivo de produzir mais filhos que se tornarão novos estupradores em série ou filhas que são criadas para serem vendidas como novos alvos de estupros… Mas os escravos trazidos pela guerra são, em geral, do sexo masculino: guerreiros dos exércitos derrotados, membros da Resistência, criminosos, “desordeiros”, etc. Estes não vão para os haréns, mas para os campos, para as obras públicas. E cada escravo significa menos um minotauro com um emprego.

      • Bruno Kopte disse:

        E mais um minotauro a se alistar para a gloriosa invasão a Moreannia! Ou continuar saqueando as savanas, invadir o deserto como Roma fez com Parthia!
        Ou…influenciados pela necessidade de escravos, melhor condições diplomáticas com o Reinado, vitórias que distraíam, os elfos que os ensinam, eles ataquem a Aliança Negra de vez.
        Tauron: “Vocês são fortes ou não? Um continente inteiro daqueles de criaturas como aquelas que os escravizavam, repleto de escravos já domesticados, vamo lá chifrudos!”
        PS: “estupros contínuos”? É tudo contra a vontade então? Não tem espaço para nuances no cenário, é coisa reservada pro Caldela?
        Feministas muçulmanas podem dar umas inspirações:
        https://musfem.wordpress.com/2012/04/25/the-politics-of-reproduction-in-the-golden-cages/

  5. Julio disse:

    Bacana sua idéia. Mas é preciso lembrar também que a Conquista da Gália foi um processo muito anterior se formos relacioná-lo com a queda do Império Romano do Ocidente. E que, sem dúvida aumentou o fluxo de escravos para a cidade. Porém a conquista da Gália significou muito mais uma tributação dessas novas religiões conquistadas do que uma migração massiva de escravos de fato. O Império Romano colapsou também porque passou a ser um Império majoritariamente tributário. E a Gália, assim como outras regiões tributadas se rebelaram contra eles.

    • Julio disse:

      *região

    • Nume Finório disse:

      Oi, Julio, é bem anterior, sim, mas o processo de deterioração de Roma tem raízes nas decisões tomadas durante esta era. Mas os processos iniciados aqui não apenas deram vida ao Império, mas também criaram as condições, na longa duração, para a deterioração desse império.
      Claro que não estou dizendo que a crise da escravidão foi o único motivo para a queda de Roma, porque não foi. Só estou apontando que Tapista está cometendo os mesmos erros que a Roma histórica cometeu.

  6. Icaro disse:

    Otimo texto, incrivel essa sacada da introdução da cultura escrava em Tapista, podemos tirar varios ganchos bons. Só discordo com relação ao fim das conquistas iniciar o fim do imperio, em roma esse influxo de escravos foi constante durante anos a fio o que fez a economia se moldar a isso esperando cada vez mais escravos, no caso de arton a conquista foi rapida e curta, gerando um influxo unico.

  7. herrDoktorat disse:

    Excelentes artigo, mas o que me deixou intrigado mesmo foi o seu comentário sobre a cultura élfica permeando a sociedade táurica… imagina só, um elfo de Lenórienn entrando em Tapista e reconhecendo uma variedade de elementos, justamente no reino que escravizou sua raça. Daria pra desenvolver um personagem legal assim.

  8. Fernando disse:

    eu achei interessante mas ainda não entendi por que os minos não invadiram e tomaram as montanhas lannestul ainda

    • Nume Finório disse:

      Não há lá muita coisa nas Montanhas Lannestul em primeiro lugar, e entre os minotauros e essas montanhas, há uma enorme floresta chamada Greenleaf. Basicamente a floresta serve de fronteira natural para Tapista, que não tem interesse em cruzar essa enorme barreira natural para conquistar algumas vilas que existem nas montanhas.

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