Entrevista – Old Dragon

A partir de hoje (mas sem nenhum tipo de prazo ou data definida) o Roleplayer vai publicar  algumas entrevistas descompromissadas feitas com pessoas que arriscam seu pescoço todos os dias […]

A partir de hoje (mas sem nenhum tipo de prazo ou data definida) o Roleplayer vai publicar  algumas entrevistas descompromissadas feitas com pessoas que arriscam seu pescoço todos os dias para criar e desenvolver RPG no Brasil. E começamos com uma das iniciativas mais conhecidas da turma on-line, o Old Dragon.

Logo do Old Dragon

1) Como estamos? Todos se sentindo famosos e animados com a perspectiva de ser entrevistados?

Neme: Sim, me sinto um beatle!

POP: Ô!

2) A promessa de um Old Dragon surgiu numa época em que a maioria dos desenvolvedores no país prometiam OGLs  que se aproximassem da finada versão 3.x devido ao descontentamento de muitos em relação a 4E. Vocês também pensaram nisso a principio ou desde o começo pretendiam um jogo mais próximo do AD&D do que da versão de 2000?

AMBOS: Inicialmente o Old Dragon era pra ser um retroclone tunado do Basic D&D do Frank Mentzer com alguns  elementos do AD&D 1E. Tunado porque sempre tínhamos em mente a progressão de ataques e a divisão entre classe e raça. Mas daí o projeto começou a evoluir e fomos nos distanciando cada vez mais das progressões padrão do AD&D para uma mistura entre o D&D original e coisas totalmente novas, como a nossa jogada de proteção e os itens mágicos.

Quanto à versão de 2000, ela sempre foi uma referência em termos de mecânica de jogo. A nossa progressão de  atributos, ataque e classe de armadura é toda baseada na 3E, embora com algumas particularidades. Mas a inspiração é 3E, definitivamente. Por mais que se busque o “old school”, não tem porque ficar abraçado a uma mecânica de jogo  ruim, como as tabelas de ataque ou o thac0. O mesmo vale para as jogadas de proteção, que inicialmente eram no  modelo tradicional, divididas em 5. Mas na minha mesa de jogo achamos que é muito contra-intuitivo esse formato,  então optamos por mudar para a progressão única, que acabou sendo a versão definitiva.

3) Vejo muitos desenvolvedores de RPG que simplesmente não jogam o que criam. Vocês tem jogado Old Dragon? Ou, pelo menos, tem jogado RPG?

Neme: Eu acho que se tu não tá jogando o jogo que tu tá criando é porque tem alguma coisa errada. Mas estou muito feliz com a minha campanha quinzenal de Old Dragon, que fez aniversário de um ano mês passado. Atualmente os personagens estão no nível 7. Muitas coisas legais do Old Dragon surgiram nessa mesa de jogo. Muitas correções também, na verdade, hehehe.

POP: Eu não jogo! Mas por pura falta de tempo, infelizmente! Espero resolver isso o mais breve possível com a publicação do Módulo Básico.

4) Sei que haviam vários suplementos criados por fãs e amigos que estavam disponíveis no site de OD. Eles voltarão reformulados após a versão impressa? Haverá um cuidado maior com o que levará a marca de vocês ou não?

Neme: Eles já estão sendo reformulados, na verdade.

POP: Um deles foi ampliado significativamente, o de Equipamentos e já se encontra diponível para download. No mês de Dezembro, faremos o lançamento do guia de Combate, com algumas regras opcionais e que foi totalmente construído a partir da reformulação de materiais dos antigos suplementos.

5) A caixa básica do jogo esgotou em apenas uma hora. Se vocês soubessem que venderia tão bem, teriam prometido da mesma forma que aquelas primeiras cinquenta unidades seriam as únicas?

Neme: Eu não gosto de banalizar um produto, por mais bem sucedido que ele seja. A versão box é pra ser um lance mais único mesmo. Mas virão outros para outros produtos, então fiquem atentos!

POP: É ficaríamos numa versão mais restrita mesmo. Acredito que parte da graça da coisa estava justamente naquele sentimento de “eu-tenho-vc-não-tem” que nós rpgistas, nerds, evoluídos, adultos e de pêlo na cara temos!

6) De onde surgiu a idéia de tentar bancar a impressão de um livro básico? E qual foi a tiragem desta vez?

Ambos:  Eu e o Antonio estudamos duas opções de publicação para o Old Dragon: a Daemon e a Conclave. A Daemon arcaria com todos os custos de impressão e distribuição, enquanto a Conclave só arcaria com a distribuição. Mas
esbarramos em um item que eu nunca imaginei que fosse tão determinante: o custo da logística. Pra se ter uma ideia, se o livro fosse lançado pela Daemon, o preço final dele ficaria em torno de R$ 39,90, o que eu considero inaceitável para os padrões nacionais. Estudando as explicações que nos deram, vimos que os custos de logística no Brasil são infernais. Então preferimos cortar alguns passos e vender diretamente para o consumidor final, o que nos permitiu deixar esse precinho barbada de R$ 19,90 com frete grátis. A tiragem inicial é de 300 exemplares.

7) Uma reclamação constante nos encontros de RPG em que ocorre um contato entre editoras, autores e leitores é que   não são feitas pesquisas de mercado para descobrir quais são as necessidades e desejos dos consumidores. E ai, vocês fizeram lição de casa? Ou usaram a fórmula “eu gosto disso, então vou colocar no meu jogo”?

Neme: O Old Dragon é um RPG que rema contra a maré, né? Em um mercado em que a moda são “opções de     customização”, “equilíbrio” e “uniformidade”, o Old Dragon veio clean, desequilibrado e caótico. Mas a gente sempre ouviu a comunidade que se criou ao redor do Old Dragon, formada por aqueles que
simpatizaram e compreenderam a PROPOSTA do jogo.

Então o que a gente fez? A gente criou um esqueleto pro jogo, que foi a versão Fast-Play-Test original. A partir disso,  fomos aparando arestas, como a própria jogada de proteção. Em um evento de RPG que teve ano passado, a grande  reclamação quanto ao Old Dragon era o sistema de jogadas de proteção, nos moldes do AD&D. Ouvimos a comunidade,  testamos na mesa e aí está, o sistema foi modificado. Mas de fazer pesquisa prévia, essas coisas, não, nunca fizemos. Até  pela própria natureza do Old Dragon, que é meio que um sistema-protesto com relação à versão atual do D&D.*

8 ) Planos para outros livros impressos após OD?

Neme: Sim, sim, definitivamente. E outras caixas também!

POP: Ano que vem (PS: No caso, 2011), ano novo e caixa nova.

9) Sei que isso é meio novo para os três também, mas num mercado de nicho como o nosso, qualquer passo além já é  uma jornada. Alguma dica para quem está querendo publicar seus trabalhos?

Neme: Procure o Antonio. Ele faz tudo e muito bem feito.

Pop: o/

Acho que pesquisar e googlear faz parte do processo inteiro. Pesquise, analise, descubra, se informe, perca preconceitos e pergunte.

É incrível como detalhes pequenos que nós os leigos não dominamos, pode fazer diferença em um livro. Da escolha da fonte que você usa nas caixas de destaque à até se subtítulos podem ou não podem começar com letras maiúsculas.

Vá a uma gráfica, se informe, peça pra ver o maquinário, as amostras de papel, descubra por que uma reserva de verniz é tão cara, como se calcula a lombada de um livro, enfim, ou pague a alguém pra fazer por você, ou nãotenha medo de aprender um mundo completamente novo!

E é isso, obrigado a todos e até a próxima.

About Marlon Teske

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.