Criatura

Acho que eu poderia dizer que foi rápido, mas durou. No eco mais distante, o Demiurgo rangia, com um onda de radiação que varreu o sistema. Sete planetóides e algumas […]

Acho que eu poderia dizer que foi rápido, mas durou.

No eco mais distante, o Demiurgo rangia, com um onda de radiação que varreu o sistema. Sete planetóides e algumas luas sucumbiram. Lembro do céu sem fim.

Zedos e seu círculo assistiam ao processo, levitando na escuridão partida, respirando em suas armaduras de hidronea. Fiquei na forma alternada, entre duas dimensões-Y, de onde podia deslocar a percepção. Era como nadar no limbo, um ser-fantasma; mesmo que dentro de uma cabine esférica.

Em 240 horas, o ciclo acelerou e os raios de ligação começaram a forjar o globo. Achávamos que o Demiurgo teria de ser regenerado desde a criação de Gaana, mas Ele estava bem. Aceitou os indicativos e continuou, com cada batida de pulsar adensando a localização escolhida para abrigar o mundo. Zedos deslocou seus homens para o perímetro externo e vigiou o passadiço dimensional. Os efreet viriam logo. As estrelas distantes pareciam acenar.

80 horas depois, os nanos choveram na superfície do planeta rochoso e olhei o outro astro, uma coisa verde lodosa a 45 milhões de quilômetros, feita em outra época. Não seria um problema para a órbita nova. Zedos o chamava de V3, mas os garotos da Ordem de Vesta dariam um nome melhor.

Concentrei-me na tarefa de então. Os níveis de valia do Demiurgo eram altos naquele momento. Calculei dezesseis rompimentos no gerador de nanos, mas isso estava dentro das especificações. Olhei no núcleo bulboso do Criador, no centro do sistema, onde bilhões de cúpulas de possibilidade concentrada ferviam sem desintegrar e quase senti saudade do tempo em que usávamos aranhas de terraformação. Meu dever era manter aquilo estável, configurando os espíritos altaicos para distender o tempo em caso de mais de trinta rupturas. Respirei dentro da esfera dimensional e fiz uma prece – e é a primeira vez que admito isso.

Então senti a chegada.

Os efreet usaram vinte e oito mil navegantes para nos atacar. Emergiram da Sombra oito bilhões de quilômetros do Demiurgo, rasgando o passadiço. Eram um enxame de esferas luminosas. Vi Zedos abrir a formação e seus seis soldados ativarem os campos hidroneos. Seria difícil.

O Demiurgo já orientava nova aceleração a essa altura. O planeta já ondulava uma atmosfera tempestuosa e doze milhões de milhões de nanos já haviam se instalado. Mas a chegada pesada dos efreet me obrigou a garantir uma estabilidade extra para os próximos ciclos, então fiz os altaicos separarem toda aquela sessão de tempo. Vivi na crisálida por 880 horas por segundo lá fora.

Assisti a cada disparo de fogo solar do inimigo. Vi quando Kamun e Raka foram desintegrados. Eram os dois melhores. Mas Zedos e os outros não pouparam esforços. Seus ataques de lâmina altaica fatiaram legiões de invasores em cada movimento, pontilhando o sistema de fragmentos iridescentes e fluídos. Contemplei cada respiração e monitorei cada bravata. Quando Zedos terminou de alimentar o Colisor para usá-lo, os efreet estavam já moralmente feridos e eram menos de dez mil. A implosão dimensional que se seguiu teria destruído uma Ceifadora de Nuvens, mas nosso pelotão de defesa aguentou firme.

Havia uma poeira solitária e em espiral, onde os atacantes estavam.

Dezesseis anos originais se passaram para mim naqueles minutos. Milhares de ciclos. O planeta ficou pronto: uma pequena civilzação ágrafa, mas já operando o bronze, nasceu e se espalhou. Admimistrei sete correções nos nanos e eles responderam bem. O Demiurgo contava vinte e quatro rompimentos. Eu havia feito meu trabalho. Interrompi a estabilidade e reuni o tempo.

Caduceu chegou seis horas depois. Olhou para mim através da porta da esfera dimensional com um ar debochado.

Que dia, cara. Que dia. – disse ele – Pode ir. Soube do resultado do jogo?

(Lembrei ali de um poema idiota de Hadra:

Serviram certas cenas

Ao zelador dos anjos

Ele as comeu com o mecenas

Ao afinar os banjos)

Meu turno tinha acabado.

 

* * *

Este miniconto de trapaça é inspirado nos esforços e ideias da Liga Narrativa: uma parceria entre escritores com publicações  (misteriosamente periódicas, almejamos) de contos sob um mesmo tema. O tema deste momento é Nascimento. A provocação está maldosamente lançada.

 

Sobre Mário Castro

Mário Castro é professor e pesquisador, apaixonado por narrativas de todos os tipos. Joga, narra e lê RPGs desde os anos 1990. Tem CA 38, 422 PVs e faz cinco ataques por rodada.