O bom, o mau e o neutro: tendências em Tormenta RPG

Em decorrência do meu artigo sobre a lei e a justiça, um jogador entrou em contato comigo pedindo por um artigo que iluminasse algumas questões que ele possui sobre o […]

Em decorrência do meu artigo sobre a lei e a justiça, um jogador entrou em contato comigo pedindo por um artigo que iluminasse algumas questões que ele possui sobre o sistema de tendências. Decidi ajudar, então deixem-me abrir o artigo com a seguinte afirmação: o sistema de tendências não funciona.

Isso não é exatamente novidade para a maioria de vocês. Que as infinitas nuances de cinza da natureza humana não poderiam ser capturadas por um sistema que pressupõe bem e mal absolutos é de se esperar. Mas é como diz o ditado, “você vai à guerra com o exército que tem, não com o que gostaria de ter”. O sistema de tendências não é só uma regra aleatória dentro do sistema, ele representa uma tendência das histórias de fantasia, onde bem e mal são discerníveis e palpáveis e mundos cheios de cinza como a Westeros de A guerra dos tronos são uma exceção. Por isso, é justo que tenhamos que viver com ele se quisermos a experiência do gênero de fantasia apresentada em Tormenta RPG, da mesma forma que é justo que tenhamos que viver com o Dado do Medo se quisermos a experiência do gênero de zumbis apresentada em The Shotgun Diaries.

O primeiro passo para entender o sistema de tendências, portanto, é aceitar que ele é fundamentalmente quebrado e vai lhe trazer muita dor de cabeça em suas campanhas. Por que é para isto mesmo que ele serve. Se você nunca ficou até duas da manhã discutindo com seu mestre de jogo que seu paladino ao deixar a princesa morrer para o dragão está fundamentalmente realizando um ato bondoso porque isto vai enfraquecer a monarquia e consequentemente ajudar o povo a se livrar do rei tirano, salvando milhares de vidas no processo, então você nunca experimentou o sistema de tendências verdadeiramente… Ok, raramente é algo tão elaborado, mas vocês entenderam o ponto, certo?

Então, o que podemos fazer para melhor compreender as tendências de Tormenta RPG?

A principal questão, aqui, é pensar em absolutos. Há exemplos disto na vida real. O facista na sua timeline do Facebook pedindo pela volta da ditadura militar, pela redução da maioria penal, pela pena de morte, por direitos humanos para humanos direitos, pela morte dos esquerdopatas, etc. Esse cara fanático, cheio de certezas, é alguém que pensa em absolutos, em Tormenta RPG ele provavelmente seria alguém Leal e Maligno. Alguém bondoso em termos absolutos é mais difícil de encontrar na sua vida diária, claro, porque alguém bondoso de verdade não perde tempo com o Facebook fazendo autopromoção da sua bondade. Ele é aquele amigo do fundamental que você ouviu falar, pela tia do primo do sobrinho da sua mãe, que foi para a África fazer trabalho voluntário e nunca mais voltou, é o colega de trabalho que trazia lanches pro pessoal no almoço e um dia tirou as férias fora de época e voltou depois de um mês, todo bronzeado e mais magro, pedindo desculpas pelo transtorno pra todo mundo no escritório e você só descobre o que ele fez naquele tempo porque um ano depois assiste um documentário e ele tá ali, casualmente limpando entulho em uma das cenas panorâmicas sobre um terremoto no Chile.

Pensar em absolutos, no entanto, não é da natureza humana. Nós normalmente pensamos no curto a médio prazo em termos egoístas ou, no máximo, tribais (lealdade para nossa “tribo”: família, amigos, empresa, etc), raramente somos pessoas com princípios éticos e morais bem definidos. Quantos de nós podem dizer ser verdadeiramente educados em filosofia, moral e ética? E daqueles entre nós que podem dizer ser educados nestas áreas, quantos realmente seguem os princípios que aprenderam? Provavelmente nenhum de vocês, leitores, é alguém assim, absoluto. Mas isso não impede ninguém de interpretar um personagem com tal atitude absoluta nos eixos morais e éticos de Tormenta RPG. Você só precisa de um pouco de empatia (ou nenhuma) e estará pronto para começar sua jornada com um personagem bondoso (ou maligno).

No fim, é com isto que o eixo ético lida, com empatia. Alguém com grande empatia tem uma enorme capacidade de se colocar no lugar do outro e tentar compreendê-lo, e por isto é o último a levantar a mão em violência, e isto é a verdadeira bondade. Um paladino leal e bondoso não será o primeiro a sacar sua espada apenas porque seu detectar o mal lhe diz que os goblins são malignos. Ele será aquele que se colocará no lugar do outro e irá pensar em como é viver como goblin em um mundo onde são tratados como cidadãos de segunda classe e vivem na mais absoluta miséria, e por isso será o primeiro a defender o direito deles à vida, à uma segunda chance (o que não significa que eles devem ser deixados livres para cometer maldades, mas sim que o herói bondoso encontra soluções não-violentas em primeiro lugar). Até porque alguém bondoso em absoluto sabe que o mal é uma doença que infecta o individuo, mas pode ser curada, afinal de contas, histórias de redenção são um lugar comum no gênero, como quando Thorin Escudo de Carvalho supera a febre de dragão para fazer a coisa certa em O Hobbit. O assassinato é, para alguém bondoso, o último recurso, que só deve ser empregado em situações extremas e do qual ele irá se arrepender para o resto da sua vida.

Sendo assim, interpretar alguém bondoso é um exercício de empatia constante, e interpretar alguém maligno é exercitar sua indiferença pelo próximo ao máximo.

O eixo moral, ordem e caos, é menos complexo para se entender porque é uma discussão que existe no mundo real com bastante frequência. Embora alguém abertamente defendendo coisas malignas seja algo raro (porque alguém assim é ostracizado pela sociedade), os defensores de ordem e caos estão por toda parte. Aqueles seus amigos discutindo liberalismo e socialismo são dois caras Leais discutindo políticas Leais em um mundo Leal. O carinha que usa um perfil fake, ri da cara dos dois, diz que são ambos paus mandados do sistema e que o governo, seja liberal ou socialista, vai foder o povo e que a anarquia é s solução, esse é o cara Caótico. (Claro que não é assim tão preto no branco, pois tanto o liberal, o socialista e o anarquista tem como objetivo último a extinção do Estado, mas como exemplo nesta situação está bom o bastante).

O eixo entre ordem e caos, portanto, envolve as relações do personagem com as convenções sociais. Um personagem ordeiro não é só alguém que segue as leis, ele também é alguém que você poderia descrever como “certinho” ou “conformado”. É o guerreiro de armadura cinza e simples, mas bem cuidada, o mago que fala com uma gramática perfeita, mas jamais rebuscada, o clérigo que tem o mesmo penteado e a mesma roupa que todos os outros clérigos que você já conheceu. Em resumo, eles são chatos, pois se conformam completamente às regras sociais, da aparência ao vocabulário passando pelo comportamento social e até mesmo sua sexualidade (um personagem Leal e gay numa sociedade homofóbica provavelmente entraria em conflito com sua própria sexualidade). O personagem caótico, então, é o contestador, aquele cara que faz as perguntas incômodas na aula de educação moral e cívica da época da ditadura, que ri das convenções sociais enquanto fuma um baseado e faz uma tatuagem no rosto e pinta o cabelo de azul e é abertamente gay em uma sociedade homofóbica e geralmente age de maneira diferente dos outros. Veja bem, não é só porque alguém é diferente que ela será caótica, ela pode apenas representar uma ordem social diferente que, inserido na ordem social geral, parece diferente. Um membro de uma guilda de palhaços pode parecer “caótico” para o seu personagem Leal, mas só pelo fato dele estar inserido numa estrutura hierárquica que é uma guilda depõe contra essa concepção.

Sendo assim, interpretar alguém leal é um exercício de contínua conformação às convenções sociais, e interpretar um personagem caótico é a exercitar sua indiferença por estas mesmas convenções sociais.

E o pessoal Neutro? A neutralidade em Tormenta RPG envolve todos aquelas infinitas tonalidades de cinza que citamos lá no começo do artigo. É o cara normal. É você, com uns 98% de chance. A menos que você tenha largado tudo e ido pro Nepal ser voluntário na reconstrução. Ou tenha um cadáver dissolvendo na banheira…

Ficou claro? Discorda de algo? É só comentar ali embaixo!

Sobre Nume Finório

João Paulo Francisconi, entre outras enormes perdas de tempo, é blogueiro há dez anos, escreveu para a finada Dragon Slayer, publicou alguns livros de RPG e assistiu quatro episódios de Punho de Ferro.