RPGista Entrevista — Leonel Caldela

Para preparar o terreno do lançamento de Tormenta 20, o Blog RPGista fará uma  série de entrevistas com os cinco autores desse que promete ser um marco da história do […]

Para preparar o terreno do lançamento de Tormenta 20, o Blog RPGista fará uma  série de entrevistas com os cinco autores desse que promete ser um marco da história do cenário e do próprio RPG no Brasil. Hoje, o rei da escatologia e do sadismo, Leonel Caldela!

Caso alguém ainda não saiba: quem é Leonel Caldela?

Tudo bem? Leonel Caldela sou eu mesmo! Sou escritor de fantasia medieval/ficção científica/terror e tudo mais que me deixarem colocar as mãos… Casado, dono de gatos, RPGista fanático, mestre sádico e jogador azarado.

Em que momento você decidiu se tornar um escritor?

Na verdade isso sempre foi meu grande desejo profissional, desde a infância. Naquela fase que as crianças dizem que querem ser astronautas, eu dizia que queria ser escritor! E me olhavam com a mesma cara de “ele vai crescer e desistir disso”, hehe. O que mudou várias vezes foi o foco: eu já quis ser roteirista de quadrinhos (nessa fase também tentei desenhar, mas isso não é pra mim), já quis escrever ficção urbana literária, já fiz teste para roteirista de novela… Mas sempre orbitei em torno da escrita.

Entre RPG e literatura, você já publicou mais de duas dezenas de títulos. Cada novo livro ainda é um desafio? Qual deles deu mais trabalho?

Todo livro tem seus desafios, mas com certeza o processo ficou mais fácil ao longo do tempo. Quando estava escrevendo meu primeiro romance, O Inimigo do Mundo, eu cheguei a achar que não conseguiria terminar e abandonaria o projeto pela metade. Foi um desafio que parecia impossível! Logo depois de OIdM, achei que não teria mais nenhuma história para contar, que aquele tinha sido o início e o fim. Hoje em dia não existem mais desafios desse tipo: quando abraço um projeto, sei que vou chegar ao fim, a menos que ele seja cancelado ou algo assim. Contudo, sempre resta uma dúvida sobre qualidade. Eu tento não me deixar cair totalmente numa fórmula. Um livro como A Flecha de Fogo é um desafio porque é bem diferente dos outros, tanto em conteúdo quanto em forma. Já algo como A Lenda de Ruff Ghanor é desafio pelo simples escopo, pelo tamanho da história e pela necessidade de manter a coerência em uma narrativa que dura décadas. Atualmente, estou planejando um romance que está se mostrando um grande desafio – o que mais deu trabalho até agora! Vamos ver no que vai dar.

O seu primeiro romance, o Inimigo do Mundo, mudou o jeito que muitos jogadores viam Arton. Você já esperava algo assim?

Eu sabia que OIdM era bem diferente das histórias que costumavam ser contadas em Arton – não tanto pela história em si, mas pela maneira como eram contadas. Holy Avenger é uma história cheia de dor e decepção, mas misturadas com momentos de humor e uma roupagem leve. Então para mim havia duas chances: ou o público enxergaria OIdM como uma anomalia, algo que não se encaixava em Arton porque era apresentado numa linguagem diferente, ou aceitaria essa faceta e passaria a enxergar o mundo como mais variado. Quase todos os elementos presentes em OIdM já faziam parte de Tormenta, apenas não eram muito destacados (ou alguém aí achava que uma tempestade de sangue era algo bonitinho?). Acho que o livro serviu como “vitrine” para este outro lado de Arton.

O Código Élfico e o Caçador de Apóstolos têm ambientações próprias. Já outros de seus livros, como a Trilogia Tormenta e os livros de Ruff Ghanor fazem parte de universos maiores, envolvendo outros autores. Qual dessas abordagens dá mais trabalho pro autor?

Eu diria que ambas dão a mesma quantidade de trabalho, apenas é um tipo de trabalho diferente. Numa ambientação própria, o autor está totalmente livre. Isso é ótimo por um lado, mas existe a tentação de tentar “abraçar o mundo” e trabalhar temáticas e linhas narrativas demais numa obra só. Já uma ambientação estabelecida exige certos parâmetros, mas apresenta um leque de opções definido, que funciona como impulso. Claro, é frustrante quando uma ideia quase se encaixa com algo da ambientação… Digamos que eu quisesse escrever uma história sobre elfos em guerra contra dragões, mas em Arton os elfos tiveram a guerra contra os goblinoides. A vontade de distorcer o cenário para se enquadrar na ideia existe, mas é preciso resistir! É claro que, mesmo em ambientações estabelecidas, eu acabo tendo muita liberdade. O mundo de A Lenda de Ruff Ghanor foi quase todo criado por mim, exceto pelo reino principal.

Apesar de ter sido planejada por mais tempo, a Flecha de Fogo foi escrita em alguns meses. Qual é o segredo para escrever tanto e com tanta qualidade em tão pouco tempo?

Obrigado! Eu acho que a minha rapidez na escrita vem de dois fatores. Se eu quiser ser pomposo, posso falar de estudo e disciplina. Mas na verdade eu diria que vem de obsessão e medo. “Obsessão” porque eu li muito ao longo da vida (embora atualmente menos do que gostaria). E, enquanto lia, eu tentava analisar a prosa dos meus escritores favoritos, como eles faziam o que faziam e porque o texto funcionava. Eu levava isso como um estudo paralelo, mas durante muito tempo não havia qualquer indicativo de que seria algo útil. O resultado é que a primeira versão do meu texto é bem próxima da última, o que economiza muito tempo. Claro, sempre existe o segundo tratamento, a reescrita, etc., mas por causa dessa análise de outros escritores e de um arsenal de truques eu consigo chegar a um resultado quase satisfatório logo no início. E “medo” porque eu tenho uma enorme tendência à procrastinação! Já perdi anos inteiros procrastinando, períodos longos em que eu não estudava, não trabalhava, não escrevia, não fazia nada! Embora racionalmente eu saiba que isso ficou no passado, existe o medo de que essa tendência me atrapalhe. Então acabo trabalhando com bastante intensidade e sem deixar quase nenhum dia passar em branco. Também ajuda o fato de que amo o meu trabalho. Às vezes, mesmo um fim de semana sem trabalhar acaba sendo frustrante.

Tormenta 20: podemos esperar um Guia da Flecha de Fogo já para o novo sistema?

Provavelmente haverá um guia, mas vai ser mais focado na descrição do continente do que na história em si.

Num episódio do podcast da DB, você disse que uma das coisas que mudaria em Tormenta era a idade do Reinado, pois tudo parece muito recente no cenário, não houve tempo para criar tradições. Podemos esperar algum tipo de retcon em Tormenta 20?

Não posso falar categoricamente, porque não depende só de mim, mas provavelmente isso não sofrerá um retcon. Eu não sou contra retcon em pontos que podem ser explicados. Por exemplo, se uma cidade está em um ponto do mapa e depois aparece em outro, pode ser que os mapas estivessem errados. Mas o volume da história de Arton em si é algo que dificilmente poderia mudar com uma explicação razoável. Bem, mas posso estar errado!

A Flecha de Fogo acabou de sair, mas há planos para algum próximo romance seu no mundo de Arton?

Por enquanto, não. Gosto muito de me aventurar por outros cenários para ficar muito tempo parado num lugar só. Vou escrever outro romance artoniano quando houver uma ideia tão diferente quanto A Flecha de Fogo é da Trilogia da Tormenta. Mas um dia…

Algum recado final para os fãs?

Às vezes eu me dou conta de como é extraordinário poder contar histórias profissionalmente, e como é mais extraordinário ainda que as pessoas queiram ler! Então o meu recado eterno é um obrigado de coração a todo mundo que lê, joga, ouve podcasts e acompanha o nosso trabalho em geral. Tormenta 20 está sendo feito para vocês, para tentar retribuir todo o carinho que vocês têm conosco!

Muito obrigado pelas respostas , Leonel! Todo mundo daqui do RPGista agradece! E ai, qual será a próxima entrevista? Nos vemos em breve!

About Marlon Teske

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.