Resenha de Ledd Volume 5

No final de 2018 eu recebi pelo correio o volume 5 de Ledd, autografado por J.M. Trevisan e Hector Amatsu com um agradecimento pela paciência. E eu digo: valeu muito […]

No final de 2018 eu recebi pelo correio o volume 5 de Ledd, autografado por J.M. Trevisan e Hector Amatsu com um agradecimento pela paciência. E eu digo: valeu muito a pena esperar.

O retorno de Ledd é muito bem vindo nesta onda de lançamentos da editora Jambô para o cenário de Tormenta, juntamente com Império de Jade, Reinos de Moreania e A Flecha de Fogo¹. Situada em Arton, Ledd é a história de um jovem desmemoriado que dá nome ao título, se aventurando ao lado de dois companheiros, Drikka e Ripp, em busca de seu passado. Criado por J.M. Trevisan e Lobo Borges, o mangá é um mergulho no cenário do RPG mais querido do Brasil.

O roteirista J.M. Trevisan, consegue colocar muito sentimento na história e constrói personagens cheios de características e maneirismos com poucas palavras (e quadros), mesmo aqueles que só aparecem em uma ou duas páginas. O ilustrador Lobo Borges manteve sua qualidade dos volumes anteriores e seu substituto, Heitor Amatsu preservou o carisma dos personagens com seus traços muito parecidos com seu antecessor, mantendo o dinamismo das cenas de ação, comédia e horror…

Nestes quatro episódios vemos a história avançar, onde Ledd e seus amigos partem em busca de uma pista antiga (vista em outro volume), tomando ativamente a ação, ao invés de esperar que as cópias os visitem. Eu tendo a gostar mais de protagonistas agilizados, que tomam iniciativa e vão atrás de seus objetivos ao invés daqueles que esperam o destino carregá-los. Em outros volumes, Ledd acaba por se envolver com os problemas de Drikka, enquanto seu passado bate a porta para atormentá-lo. Neste, ele vai atrás de si mesmo.

Agora, finalmente, ele está diante de novas descobertas. Só pela capa do volume 5 podemos ver garras vermelhas serpenteando seu corpo. Uma clara alusão à Tormenta, a terrível tempestade rubra que dá nome ao cenário de RPG.

Enfim, eu recomendo. Para comprar Ledd volume 5 (e as edições anteriores), clique em: https://jamboeditora.com.br/produto/ledd-vol-5/.

Spoilers do volume 5 abaixo

No começo do mangá, temos um prefácio do escritor Leonel Caldela contando sua experiência com a cultura nerd e seu gosto por histórias serializadas. Seguindo a escola Holy Avenger de mangá, Ledd tem sua página contando um resuminho das últimas edições e uma divertida descrição dos personagens principais. As primeiras páginas coloridas dão uma noção que eu sempre gostei de ter das roupas e cabelos dos personagens. Vale destacar a presença de personagens negros (mesmo nas páginas preto e branco) tão ausentes em outras histórias desse tipo de mídia.

O episódio 17 começa mostrando de um personagem querido por muitos: Barba Branca, desaparecido no episódio 4 do volume 1. No final do volume 4 descobrimos que ele havia morrido e estava em Werra, o mundo de Keenn, e agora descobre que precisa vencer uma série de obstáculos para conseguir seu objetivo. Eu imagino que seja ressuscitar e fazer Ledd pagar por seu infortúnio. Mas não duvido que ele queira acertar contas com o General Klinsmann, o qual tem uma participação muito importante na Guilda do Macaco ². Curioso ver uma nova forma de ressurreição que não através de um milagre de algum clérigo. Neste modo é reforçada a máxima de Mestre Arsenal, citado por Barba Branca, de que você deve fazer seu caminho e superar obstáculos.

Na sequência temos Ledd, Drikka e Ripp na cidade de Fhazzit, no reino de Deheon, interagindo com Ciça, uma personagem feita em uma bonita homenagem a uma amiga de J.M. Trevisan falecida há anos. Gostei bastante das palavras dela ao protagonista sobre a morte, renovação e como as pessoas continuam vivas através de seus feitos no mundo e suas marcas nas pessoas. Esse tipo de mensagem pessoal torna o mangá bastante diferenciado.

Então, depois dos três firmarem seus laços de amizade para continuarem ajudando Ledd em sua busca, o grupo é levado por Ciça a mais um personagem cativante: Kalinka. Nela vemos mais uma vez a fuga do padrão: uma “bruxa de Tanna-Toh”. Você, jogador de Tormenta e conhecedor do cenário, sabe como clérigos e paladinos da Deusa do Conhecimento têm aquele estereótipo do certinho, mala sem alça, não é? Mas Kalinka nem gosta de ser chamada de clériga. Ela é fofinha, pequeninha e tem um nariz muito esquisito! Logo se afeiçoou aos três (principalmente por Ripp e sua lustrosa careca) e ajuda Ledd através de uma magia exuberante tentando pescar alguma memória útil. Vale o destaque para a representação das memórias provocada pela magia, retratada em cenas dos episódios anteriores, e a clássica explosão de quem mexe com grandes poderes misteriosos.

Ledd lembrou do nome daquele homem misterioso, de bigode farto, trajando mantos negros esvoaçantes e capuz. Ele apareceu logo no episódio 1 sempre murmurando o nome do protagonista e teve um encontro violento com os três aventureiros no episódio 10 do volume 3. Agora eles querem encontrá-lo de novo em busca de respostas sobre o passado do protagonista. O episódio 17 termina com Ledd enigmaticamente falando que sabia onde Lohr estava. Sim, este é o nome do misterioso encapuzado bigodudo.

O episódio 18 começou com um teleporte feito por Kalinka até uma região em Trebuck revelada pela mágica/ritual feita em Ledd no episódio anterior. Uma curiosidade: sendo uma devota de Tanna-Toh, mas talvez não sendo mesmo uma clériga, a personagem deve ter alguns níveis de maga ou mesmo de bruxa ³, embora ela não parecesse ser do tipo que amaldiçoa os outros. Vai saber. Bom, é minha cabeça de jogador de Tormenta RPG maquinando…

Depois de uma rápida e ilustrativa teoria do teleporte (uma referência a Star Trek, talvez?) os três encontraram um elfo ferido em uma carroça derrubada. Pelas orelhas curtas e seu nome muito humano, Aaron Blankenship deve ser um meio-elfo. Será que aparece de novo? Acho que sim…

Suas palavras levam ao leitor atento e jogador de RPG mais experiente a ficar com a pulga atrás da orelha. Um meio-elfo sozinho, carregando um artefato importante que desequilibraria a balança da luta contra a Tormenta? É um papo muito do furado e Drikka, a mais esperta dos três, percebeu isso rapidinho. Ledd é um protagonista bem shonen, com muita determinação, senso de amizade e bondade no coração. Mas é muito cabeça oca… Ripp faz o estilo mago de inteligência introspectiva e distraído demais com as relações com o mundo exterior. Por isso, acabam querendo ajudar Aaron.

Claro que era uma armadilha. Havia um grupo de bandidos esperando Ledd e os demais numa clareira na floresta. Cercados, parecia que uma boa briga ia começar ali. Porém, algo bizarro aconteceu.

Antes de falar disso, quero dizer o quanto eu ri das expressões dos personagens. Essa parte em que os aventureiros foram emboscados pelos bandidos teve um teor cômico maravilhoso, com Drikka tentando passar a perna neles para evitar uma luta. O design dos personagens bandidos também é interessante, embora somente o encapuzado com uma máscara de metal e o armadurado com desenho de um olho no elmo e na ombreira me chamaram realmente atenção.

Surgiu, então, a bizarrice: o adversário mais perigoso do cenário de Tormenta. Um lefeu. Uma criatura aberrante que parecia um inseto gigante com dois olhos brilhantes. As cenas de combate são “agitadas”, dá pra sentir o movimento fluir ali. Porém, talvez seja minha falta de costume com mangás, mas os ataques com a espada de Ledd e as pinças do demônio da Tormenta, com aqueles milhares de riscos, não me agradam tanto. Mas também não saberia dizer o que fazer pra melhorar, então talvez seja mesmo falta de costume meu. Porque as posições dos personagens, os ângulos das cenas, estão muito bem no propósito de dar dinamismo ao combate. Daria pra fazer um anime muito maneiro com isso.

O episódio termina com Ledd desferindo um golpe mortal obrigando a criatura fugir. Ele começa a perseguição e Drikka e Ripp vão atrás, parando num penhasco quando observam uma vila abandonada. Aaron e seus comparsas ficam de fora da história a partir daqui, mas eu aposto que vão aparecer posteriormente.

No começo do episódio 19, já pelo titulo “Vermelho” temos uma ideia do que estar por vir. A comicidade das páginas anteriores é trocada pelo clima de tensão muito bem representado na arte de Lobo Borges e Hector Amatsu (que o substitui na metade do episódio) com os rostos sérios, os tons sombrios do cenário. É descoberto aqui que Lohr tem uma ligação com a Tormenta. Após um ritual ensinado por Kalinka, feito por Ripp, vemos a figura misteriosa aparecer. Ledd o questiona sobre seu passado, mas não encontra respostas concretas. Aí, mais um combate e dessa vez com Drikka ajudando.

As acrobacias de Drikka são muito legais de se ver. Ela é minha personagem favorita! Deve ser influência da minha predileção por personagens com sangue de dragão… A combinação entre eles está bastante orgânica. Em um determinado momento, Ledd e Drikka usam uma manobra ensinada por Ciça, que em termos de regras de Tormenta RPG, me parece o flanqueio. Cada um toma um lado de Lohr recebendo bônus em suas jogadas de ataque. Engraçado pensar em termos de regras, pois J.M. Trevisan é conhecido por não dar muita bola a elas. Talvez seja novamente minha visão de jogador falando mais alto.

Quando parece que venceriam, Lohr parece entrar em fúria e ataca violentamente os personagens. Ripp, então, se intromete lançando uma magia poderosa para acabar com tudo, mesmo sob os protestos de Ledd.

No episódio 20 o protagonista ficou enfurecido com a aparente destruição de Lohr, pois não conseguira suas respostas. Ripp e Ledd discutem e o mago mostra seus sentimentos a flor da pela, acho que pela primeira vez no mangá. Ele agiu porque tinha medo de perder seus únicos amigos.

Lohr retorna transmutado em meio demônio da Tormenta e agarra a cabeça de Ledd. Então, começa o flashback.

Tenho pra mim que flashbacks são difíceis de agradar. Já vi alguns quebrarem o ritmo da narrativa, tornando-se enfadonhos ou mesmo serem pouco relevantes. Ainda bem que não é o caso aqui. Ledd mergulha em memórias perdidas de sua antiga vila, no meio de um ataque dos lefeu em Trebuck, com bastante ação, preservando o ritmo tenso da cena anterior.

Pensando aqui com meus botões, Ledd tem 17 anos segundo fontes do próprio mangá. Se a história se passa em 1410, ele teria nascido em 1393 ou 1392 no mais tardar. Trebuck foi assolada pela Tormenta em 1400. Então, o protagonista poderia ter 7 ou 8 anos na época e isso foi bem retratado na ilustração dele. Apesar de que a cena pode ter acontecido posteriormente, a vila pode ter sido atacada bem depois que não entraria em contradição com a história oficial do cenário.

Lohr era um guerreiro da vila que viu amigos morrerem na invasão dos lefeu. Tentando salvar Ledd que fora raptado por demônios da Tormenta, o bravo guerreiro acabou tombando em combate. Não há explicação para o que aconteceu em seguida com Ledd criança, levado por um demônio alado. Voltamos ao presente com o fim do flashback e Lohr desaparece sem deixar vestígios, como se cumprisse seu propósito de colocar o protagonista na rota certa da história.

Então, quando tudo parecia terminar em calmaria, Ripp sentiu um pingo cair na sua careca lustrosa. Era a Tormenta chegando novamente com sua chuva ácida e seus demônios.

Este foi um final muito instigante e emocionante, com revelações fortes sobre o protagonista. J.M. Trevisan consegue aliar os elementos do cenário de Arton com o desenvolvimento de personagens cativantes e únicos, onde até mesmo um NPC qualquer tem um traço característico que o distingue. Pode ser que alguns elementos narrativos sejam bem conhecidos de experientes leitores de mangá, mas a forma como é feita em Ledd está longe de ser algo genérico.

No mais, ficamos no aguardo da próxima edição e tomara que não demore muito!

¹ Império de Jade (https://jamboeditora.com.br/produto/imperio-de-jade-combo-fisico-digital/), Reinos de Moreania (https://jamboeditora.com.br/produto/reinos-de-moreania-combo-fisico-digital/) e A Flecha de Fogo (https://jamboeditora.com.br/produto/a-flecha-de-fogo-combo-fisico-digital/).

² A Guilda do Macaco Caolho é a streaming oficial de Tormenta RPG, onde os autores do cenário jogam o destino de Arton: https://www.twitch.tv/revistadragaobrasil/ Para assistir aos episódios anteriores: https://www.youtube.com/watch?v=mFlwl6GEQdg&list=PLvposoPkQY4LkmwWpjCIwoyAmeX-Hbixz

³ Bruxo é uma das especialidades, ou classe variante, de mago em Tormenta RPG. Você pode conhecê-la no Manual do Arcano: https://jamboeditora.com.br/produto/manual-do-arcano-digital/ (o físico está fora de estoque até o fechamento dessa matéria, 19/01/2019).

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About Aldenor

RPGista desde 2000, historiador por graduação, esquerdista por caráter, flamenguista de coração e jogador inveterado de Play By Fórum. Atualmente contribuindo para um mundo de Arton melhor.