Como será o cenário RPGístico de 2014?

Faltam dois meses e meio para 2014. Com um novo ano assim tão perto não posso deixar de pensar sobre como ele será para o RPG. Melhor? Pior? Diferente?
A primeira coisa que faz com que 2014 seja fundamentalmente diferente dos últimos 20 anos dentro do mercado RPGístico é que muito provavelmente não haverá uma editora publicando D&D no Brasil. A Abril começou a fazer isso em 1994, mais tarde passando os direitos (e os estoques infinitos de AD&D) para a Devir, que veio a publicar a terceira e quarta edições de D&D. Até que há pouco tempo atrás ficamos sabendo que a Devir vai publicar Pathfinder.
Embora a editora não tenha anunciado que tenha desistido de D&D, cujo último lançamento no Brasil aconteceu em janeiro de 2012, parece pouco provável que eles vão manter duas linhas fundamentalmente concorrentes como Pathfinder e D&D. Especialmente se a licença do D&D Next for parecida com a da 4e, que proibia publicação, pela mesma editora, de material relacionado com a antiga edição de D&D (como é o caso do OGL Pathfinder). Então parece seguro imaginar que, pelo menos para a Devir, D&D está fora da jogada.
Também parece pouco provável que outras editoras grandes no cenário atual se interessem por D&D. Jambô e RedBox trabalham com OGL e retroclones de D&D, Retropunk e Secular não publicam jogos com o perfil de D&D. Talvez a novata Kobold’s Den possa tentar, mas dado o valor absurdo de investimento necessário, parece pouco provável. Apenas a licença de publicação de D&D hoje em dia custa, de acordo com o antigo editor de D&D da Devir, Douglas Ricardo Guimarães, em torno de 120 mil dólares. Então a menos que alguém no Brasil esteja cagando dinheiro e queira fazer uma aposta realmente alta em um mercado de nicho como o RPG no Brasil, é pouco provável que apareça um salvador para o primeiro RPG do mundo.
Claro, estamos falando de um mercado sem D&D, mas cheio de D&D. Só que produzido por editoras que não tem os direitos sobre D&D. Tormenta RPG, Pathfinder e Old Dragon são todos D&D com um nome diferente. Os dois primeiros são versões aprimoradas da 3.0/3.5, o último é uma mescla de mecânicas da 1ª e 2ª edições de D&D atualizadas. Na prática teremos em 2014 mais D&D do que nunca. Só que nenhum D&D produzido pela Wizards of the Coast.
Mas e além de um cenário sem D&D, o que mais será 2014?
2014 será um ano de diversidade consolidada. 10 ou 20 anos atrás você podia contar os diferentes jogos em publicação no Brasil nos dedos das mãos. Hoje… vamos tentar? Tormenta RPG, Este Corpo Mortal, Old Dragon, Cosa Nostra, Blood & Honor, Dust Devils, Terra Devastada, Abismo Infinito, Savage Worlds, Dragon Age RPG, ? vish! acabou os dedos das mãos então vamos começar a usar os dos pés! ? Guerra dos Tronos RPG, 3D&T Alpha, Mutantes & Malfeitores, GURPS 4ª edição, O Um Anel, Novo Mundo das Trevas, Shotgun Diaries, Space Dragon, Rastro de Cthulhu, ? aí, caramba, acabaram os dedinhos do pé também! ? 3:16 Carnificina nas Estrelas, Violentina, Dungeon World, Busca Final, Espírito do Século, Fiasco, Pulse, UED: United Earth Defense e O Reino de Bundhamidão. 30 jogos diferentes, sem contar os múltiplos livros de cenário de alguns destes jogos, estão em publicação neste momento.
E mais está por vir em 2014. FATE Core, FATE Expless, Call of Cthulhu, Trevas, Monsterhearts, Cosa Nostra, Pathfinder, Yggdrasill, Cachorros Samurais e Classroom Deathmatch são apenas alguns dos muitos títulos que darão as caras no final de 2013 e começo de 2014, sendo possível que o atual número de jogos em publicação chegue a dobrar até o final do ano que vem. Imagine só um mercado tão diversificado que há espaço para mais de cinquenta jogos diferentes não apenas serem publicados como prosperarem. Isto será 2014.
Isto é possível porque 1. há uma era de ouro em andamento para o RPG com boas vendas para todos que decidam se arriscar no mercado com responsabilidade e dedicação, 2. aqueles sem recursos para iniciar sua própria empresa podem hoje em dia contar com sites de financiamento coletivo para darem o pontapé inicial e publicarem seus primeiros jogos e 3. há uma onda de criatividade rolando entre os autores de RPG brasileiros que se identificam com o movimento indie e focam seus esforços no desenvolvimento de novos jogos.
E falando em autores, este é outro ponto importante para se destacar, existe uma verdadeira onda de novos e talentosos autores que estão chegando para ficar no Brasil seja para jogos mais tradicionais como Tormenta RPG seja, em sua grande maioria, nos indies. Isto é possível especialmente por causa de três eventos anuais que tem se tornado febre na comunidade: o Concurso Faça Você Mesmo, da Secular Games, o RPGenesis e o Game Chef Brasil. Estes concursos não apenas trazem novos jogos para a atenção de um público maior como revelam novos autores nacionais todos os anos, além de estimularem a produção nacional de novos jogos de forma espetacular, com vários jogos criados para estes concursos sendo publicados em papel mais tarde.
Como será o cenário RPGístico em 2014? Minha previsão: sem D&D, mas com muita coisa D&D-like, e extremamente diversificado em temas, sistemas e autores.
 
Crédito da imagem de capa: Dudu Torres.

Nume Finório

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38 Resultados

  1. leandropug disse:

    Cara, excelente previsão. Andava falando exatamente sobre essa visão com um colega e chegamos na mesma conclusão.
    Ver Savage World e FATE vindo par ao Brasil só me faz brilhar os olhos.
    Parabéns pelo bom uso de clarividência.

  2. João Brás disse:

    AD&D começou a ser publicado no Brasil pela Abril só em 1995, não em 1994. Que novos autores Tem Tormenta? Fora o Lucas Borne, continua tudo com Leonel, Brauner e Svaldi.

    • Nume Finório disse:

      Opa, tem certeza sobre AD&D? Sempre achei que fosse 94. :/
      Sobre os novos autores de Tormenta, bem, fora o Borne tem, hã, eu, oi, que fiz o Bestiário de Arton, e o companheiro de blog Marlon Teske, que está fazendo a versão 3D&T Alpha de Tormenta. Além desse pessoal já impresso ou a caminho de ser impresso, tem o pessoal que está trampando no site da editora com material para Tormenta: Álvaro Freitas, o próprio Marlon Teske, David Di Beneditto, entre outros que você pode conferir aqui http://jamboeditora.com.br/1761/team-jambo/

  3. George disse:

    Pelo que sei a licença não proíbe laçar licença OGL, ela proíbe que se lance materiais apenas de edições anteriores.
    No caso a devir, atualmente, não pode lançar mais nada da quarta ou terceira edição porém ela poder lançar material de outra editoras.
    Com a chegada do D&D nexte a devir está impedida de lançar qualquer coisa da quarta edição por isso que não houve mais nenhum lançamento.
    Duvido muito que a devir lance o Pathfinder ainda em 2014.
    Acredito que ela irá lançar primeiro o next e se sobrar dinheiro ela deve lançar em 2015 o Pathfinder.
    A devir não é uma editora de se desfazer de uma licença que pode gerar lucro, principalmente a licença do D&D.
    O que ela pode fazer é o que fez com o Castelo Falkenstein que ela renovou a licença e não tem nenhum pretensão de lançar nenhum livro, isso com o objetivo de impedir outras editoras de conseguir essa licença.
    Muito provavelmente ela deva fazer isso com o Pathfinder.
    Talvez seja até um caso igual ao do Call of Cthulhu e do Darksun quarta edição que começaram a tradução e nunca lançaram.

    • Nume Finório disse:

      Já saiu a licença do D&D Next?
      No mais, você parece estar mais esperançoso com o futuro de D&D na Devir do que todo mundo que já conversei sobre o assunto somado. 🙂

      • George disse:

        Não é que eu esteja esperançoso, atualmente u sou a pessoa mais descrente em relação a Devir e por isso penso que dificilmente ela largaria mão da principal licença de rpg do mundo. O que eu quis dizer é que eu penso que talvez seja mais provável eles lançarem o D&D next que o Pathfinder.
        E com toda a propagando que a wizard vem lançando en cima dessa edição, acho muito provável a devir lançar o livro uns 6 a 8 meses após o lançamento oficial.
        Todo o meu pensamento sobre o que a devir pode fazer é baseado no que eu vi nos últimos 15 anos de lançamentos dela.
        Eu preferiria que ela parasse com os rpgs e liberasse as licenças para editoras mais comprometidas.

        • Nume Finório disse:

          Só um detalhe: nos últimos dois anos e pouco, a principal licença de RPG do mundo é Pathfinder, que está dando uma surra tão grande em D&D nas vendas nos EUA que uma nova edição de D&D foi encomendada em tempo recorde para combater o novo concorrente.
          Foi-se os tempos de domínio absoluto de D&D, querido. 🙂

          • George disse:

            Você está considerando a principal licença do ponto de vista de quem está vendendo mais, estou considerando a principal licença pela marca mais clássica que é o D&D.
            Não questiono o fim da hegemonia do D&D, é um fato que após o Pathfinder e a explosão do movimento Old School, o qual eu sou fã de carteirinha, o D&D vem perdendo espaço eu questiono é a Editora devir que tem um histórico de abandono de rpgs como o Gurps e a linha Essencial logo após a primeira caixa, além dos livros dos clãs e dos romances.

          • Nume Finório disse:

            Como comentei ali embaixo, a questão com a Devir cancelar ou parar de lançar coisas sempre tem a ver com impedimento legal ou baixas vendas. GURPS parou de ser publicado porque não vendia. Mesma coisa com os livros dos clãs e romances, e o próprio D&D Essentials e D&D em si.
            Aliás, o fato de D&D não vender mais como vendia tanto aqui como lá fora é a mais provável razão da Devir ter adquirido os direitos de Pathfinder. Se lá fora D&D não vende, mas Pathfinder sim, por que isso não pode funcionar aqui também?
            Fora isso, as críticas do Next em todos os canais especializados que tenho visto não são nem um pouco positivas, sendo inclusive alvo de piadas. Com a 4e não vendendo nada, e a 5e parecendo que vai seguir o mesmo destino, não lhe parece estranho a Devir largar mão justamente do cavalo que está ganhando, o Pathfinder?

          • George disse:

            Provavelmente o Castelo Falkenstein também teria baixas vendas só que a devir anunciou no World RPG Fest do ano passado que tinha renovado a licença.
            Olha que não é um D&D.
            Acredito que o osso do D&D a devir não larga mesmo com as baixas pespectivas em relação ao Next.

          • Nume Finório disse:

            A diferença é que Falkensteins não tem uma licença cara e a Devir ainda tem estoque a dar com pau dele para tentar vender.
            Já D&D, 120 mil dólares de licença, isso na época da 3.0/3.5, dá um quarto de milhão de reais. Hoje em dia pode muito bem ter aumentado pra meio milhão ou mais. Só para manter um peso morto. Será que vale a pena pra Devir?

          • George disse:

            Pelo que sei a alguns meses o estoque do Castelo Falkenstein acabou.

          • Nume Finório disse:

            Ah, é verdade, mas mais ou menos, eles venderam para lojistas a descontos gigantes para liberar estoque. Na prática tu ainda encontra aos montes pelo Brasil o livro novinho em folha.

    • Dan Ramos disse:

      George, a Wizards ainda vai lançar o Next na GENCON em 14-17 Agosto 2014 (segundo a previsão do site oficial do evento). Eu duvido que a Devir lance aqui logo depois (nenhuma editora o faria na verdade) ou ainda no mesmo ano. Por outro lado, a tradução do Pathfinder já está em andamento. Você acha mesmo que o Next vai vir antes, com o PF sendo um sucesso certo de vendas nos EUA e uma aposta muito melhor no mercado brasileiro?

      • George disse:

        Com o histórico da devir é provável que ela abandone a tradução.

        • Dan Ramos disse:

          Com o histórico? Me diz uma tradução de edição do D&D (Pathfinder é um D&D 3.75 de sucesso, lembremos) que eles abandonaram.

          • George disse:

            Histórico eu falo não do D&D, falo do rpg em geral.
            Call of Cthulhu foi um que eles abandonaram a tradução, a quarta edição do Darksun foi outra.
            Estou falando apenas das traduções que eles abandonaram sem publicar.

          • Dan Ramos disse:

            Mas isso é irrelevante diante das circunstâncias (estamos falando do RPG mais vendido no mundo atualmente).

        • Nume Finório disse:

          A Devir só abandonou traduções sob duas condições antes: impedimento legal (que foi o caso do livro do Monte Cook, Unearthed Arcana) e quando acreditaram que as vendas não cobririam o custo de impressão (como foi o caso do Call of Cthulhu).
          Nenhuma dessas condições tem a remota chance de acontecer com Pathfinder. Eles tem a licença, e se trata do RPG mais vendido do mundo (por 9 trimestres seguidos é o mais vendido nos EUA, o que deixou a Wizards de cabelo em pé).

          • George disse:

            E o Darksun?
            O que levou a devir a cancelar a tradução?

          • Nume Finório disse:

            Dragonlance não vendeu o esperado. Eles decidiram então que fora o padrão Forgotten Realms, nenhum dos outros cenários de D&D devia vender bem no Brasil. Afinal de contas, se um cenário consagrado e com romances publicados no Brasil não vendeu, porque Dark Sun venderia?

          • George disse:

            Veja que o Dragonlance é dá época do 3.x e o projeto de tradução do Darksun é é da quarta edição e eles cancelaram a tradução.
            A única comparação que eles poderiam fazer era com os produtos da quarta e eles só poderiam comparar com o Forgotten healms para decidir se cancelavam ou não.
            Se for levar em consideração de custos de licença do PF, pelo que vi em algum lugar, é mais cara que o D&D ou seja, por custo de licença o D&D continuaria sendo mais vantajoso.
            Ainda assim eu vejo que devir vai lançar o next antes do PF.

          • Nume Finório disse:

            Ainda assim, DL foi a desculpa que ouvi, acho que do D3, sobre só o FR ser lançado no Brasil para a 4e.
            Sobre o valor das licenças, a questão é: pra que diabos a Devir ia comprar a licença do Pathfinder, que segundo você é mais cara que a de D&D, pagar tradutor (que já traduziu metade do livro), montar equipe de produção, pra daí largar o RPG mais vendido do mundo (Pathfinder) pelo que está perdendo força a olhos vistos e cuja nova edição é criticada como nunca mesmo antes de ser publicada (e olha que a 4e era elogiada pra caramba na época de produção e foi um fracasso, imagina só essa edição que ninguém tá gostando do playtest). Não faz sentido.

          • Jaime Daniel disse:

            Por curiosidade, de onde provem a informação que a Devir cancelou a tradução de Dark Sun?

  4. Eduardo Lima disse:

    Muitas novidades mesmo!. Mais a perda do D&D vou sentir!. Estou esperano algum milagre de ter o Shadowrun, que saudades.

  5. Leo Lima disse:

    Fico muito feliz em ver o Old Dragon e Tormenta RPG cada vez mais fortes!

  6. Tiago Castro disse:

    Ótimo texto.
    Só faltou falar de um lançamento importantíssimo de 2014. Star Wars: FRONTEIRA DO IMPÉRIO.
    A Galápagos Jogos (maior editora de boargames do Brasil hoje) irá iniciar sua trajetória no RPG trazendo esse jogão da Fantasy Flight Games. A princípio virá o Kit Introdutório e depois o Master Set.
    http://www.galapagosjogos.com.br/star-wars-fronteira-do-imperio.html
    Abs

  7. Matheus Sales disse:

    E aew, Nume. Arrasou no artigo!
    Senti falta (mas não sei se ainda está em atividade) do Might Blade.
    E isso tudo sem falar dos livros-jogos que a Jambô tá trazendo de volta e da possibilidade de comprar pdfs, que tornou tudo muito mais fácil pra compra e até publicação de RPGs. Eu mesmo terminei essa semana o King Arthur Pendragon RPG 5.1 e já tinha comprado o Shotgun Diaries. E rolou aí um comentário que o RPG Quest ia ser relançado pela RedBox , não foi? Abraços!

    • Nume Finório disse:

      Obrigado, querido!
      Realmente, ficou faltando o Might Blade. Soma então 31 jogos em publicação! =D
      Eu não contei os livros-jogos, no entanto, por entender que eles formam um tipo diferente de público, assim como os boardgames, mas que pode ser trazido facilmente para o RPG.
      Sim, rolou o comentário sobre RPG Quest, mas não é nada certo ainda pelo que fiquei sabendo.

  8. Jaime Daniel disse:

    Muito boa a matéria, Nume. Parabéns!

  9. disse:

    Ótimo texto Nume Finório. Parabéns, muito lucida sua visão.
    Só algumas considerações.
    Quanto ao nicho da fantasia medieval, teremos o seguinte cenário ano de jogos lançados ano que vem ou com possibilidade/rumor.
    Redbox – Old Dragon
    Jambô – Tormenta RPG, Dragon Age RPG, Game of Thrones RPG e, boatos, a nova edição de Reinos de Ferro.
    Devir – Um Anel e Pathfinder.
    Secular Games – Dungeon World.
    Retropunk – mega rumor (mas que me empolga muito)o Barbarians of Lemuria.
    Era isso, teremos fantasia medieval a torto e a direito, sem falar que Savage World e o FATE podem ser usados com esta temática facilmente. Logo a falta de D&D será apenas pela marca em si, não pelo jogo.
    Era isso, novamente congratulações pelo texto.
    Abraço

  10. Daniel Anand disse:

    Claro, isso é tudo sobre RPG em português, e não RPG no Brasil. O D&D sai ano que vem, e vai ser comprado e jogado por um monte de gente aqui independente das editoras nacionais. Eu mesmo nunca comprei um livro de D&D em português na vida.

  11. Edu Trevisan disse:

    Excelente post!

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