Contos Pathfinder: Uma lição de Taxonomia



Olá a todos, acho que sou o mais novo “escritor” aqui do Roleplayer. Foi uma surpresa muito boa ser aceito pela galera daqui porque já há algum tempo acompanho o blog, e gosto muito!
Apesar disso, esse post não é uma apresentação. Eu pensei muito sobre que material que eu deveria trazer para o Blog e decidi apresentar algo novo. Pesquisei um pouco na internet e percebi que há alguns blogs já acompanham as notícias da empresa PAIZO, dona da sempre ascendente Pathfinder Society, mas sempre sobre o novos lançamentos ou as regras. Para fazer algo um pouco diferente, decidi trazer os contos gratuitos publicados pela  Paizo para nossa língua, Assim posso tanto conhecer como repassar, ainda que em vislumbre, um pouco do fantástico mundo de Golarion de uma forma divertida e prazeirosa.
E não se preocupem, o conto está disponível para todos no site da PAIZO.
Autor: Dave Gross
Tradução: Vitor Tonini Machado
Capítulo Um: O Bestiário
Nenhuma imoralidade testa mais minha paciência do que o alcoolismo.
Meu novo guarda-costas apresentou-se para o serviço com cara de quem fez cagada. Desde que ele veio da sede da Ordem da Praga, eu já tinha minhas dúvidas quanto ao seu caráter. Apesar disso eu desconsiderei todos os comentários sobre seu valor como um favor para minha prima Ersilia. Ela garantiria um bom lugar para mim em suas orações se eu desse ao antigo cavaleiro demoníaco uma chance de recuperar sua reputação. Como minha prima é famosa em toda Cheliax tanto por sua influência na Corte de Thrune quanto por seu charme pessoal, fui incapaz de recusar.
O prenúncio da discórdia ocorreu enquanto passávamos por Egorian. Enquanto nossos passageiros de sangue azul deliciavam-se com uma ceia de faisão assado na mesa do capitão, um som mais que vulgar veio do convés inferior. O porta-bandeira saiu da cabine para averiguar o que ocorria. Alguns segundos depois, a mesma voz empolada que há pouco nos presenteou com trechos das aventuras amorosas do “Trio dos Truques do Beco”, gritou maldições, ameaças e por fim apelos conforme os marujos aplaudiam com fervor. Meu apetite sumiu assim que reconheci a voz do meu mais novo empregado.
Quatro marujos tinham marcas da violência de meu homem em suas faces. O biltre já havia caído em um torpor profundo, mais pela quantia enorme de álcool que ingeriu do que pelos ferimentos. Uma investigação rápida revelou que ele tinha começado a tarde com um beijo de Desna na testa, pois teve uma maré de sorte em um jogo de dados na ala dos tripulantes. Como ganhou a cota de bebida de cada marinheiro de folga, vestiu o manto de Cayden Cailean e começou a zombar dos perdedores enquanto bebia tudo o que ganhou e cantarolava sua música preferida de bordel. Quando os tripulantes sóbrios imploraram para ele parar com a gritaria, ele respondeu com pancadaria.
O desgraçado mostrou-se uma figura grotesca conforme eu me aproximava. Era um miasma de álcool barato e fedor corporal, e protegi meu nariz com um lenço que minha prima me deu como sinal de cortesia. Seu perfume delicado não resistiu ao cheiro podre do bêbado. Quando ele viu minha reação, abriu um sorriso vacilante que logo sumiu quando ele reconheceu o lenço. No lugar do sorriso ele me deu um olhar de intensa inveja.
Naquela hora eu entendi completamente o interesse de minha prima no homem. Eu devolvi o olhar até ele ceder e baixar os olhos para o convés.
— Acredito que não preciso articular o meu desagrado, Remigo.— disse com desprezo.
— Não, sr.
Os pelos da minha barba começaram a eriçar.
— Eu pareço com um cavaleiro conhecido seu?
— Não, Sua Excelência.
Retirei-me do convés principal em busca de ar fresco. Remigo ficou mau-humorado até alcançarmos Khari na costa norte de Garund, onde desembarcamos para comprar passagens para Eleder sob bandeiras Sargavanesas. Mudamos de barco para que não atraíssemos olhares gananciosos dos autodenominados Capitães Livres que foram incentivados pela vitória que conseguiram na Baía do Desespero e continuaram a atacar navios Chelixianos solitários.
Em retrospecto, teria sido sábio de minha parte adiar minha viagem para procurar um guarda-costas substituto, mas estava ansioso para começar o que prometia ser minha última expedição como membro das fileiras e dos arquivos Pathfinder. Assim que completasse meu Bestiário de Garund, o Decenvirato certamente iria me oferecer uma recompensa por tudo que fiz desde que me juntei à Sociedade: minha comissão como capitão aventureiro.
***
Todas as maravilhas testemunhadas durante minha viagem ao longo da costa oeste de Garund, finalmente foram detalhadas. Nós desembarcamos em Eleder, que se assemelhava com uma cidade Chelixiana pela metade. Desde minha última visita, dois anos atrás, a proporção de moradores de pele clara aumentou para quase um quinto na multidão entulhada nas docas. Contei algumas dúzias de halfings e um punhado de anões carregadores ou bagageiros. Havia até mesmo um par de elfos esperando nosso barco, um deles alto, pálido e de olhos cor de ametista. Por um momento imaginei-o como o fantasma de um pai que nunca conheci.
— Sua Excelência Conde Jeggare?
A voz carecia da grossura da puberdade, mas o garoto Mwangi ultrapassava meus ombros em altura. Estimei que ele estava entre os dez e doze anos de vida. Seu sotaque denunciava um casamento peculiar entre o dialeto nativo Kalabuta e minha língua materna.
— Cai fora, garoto! —rosnou Remigo.
Ele ficara cada vez mais ranzinza devido à abstinência.
— Não, — interrompi — quem é você?
— Me chamo Amadi, Excelência — respondeu ele enquanto se curvava perfeitamente, movimento que revelou uma cicatriz abominável que ia de ombro a ombro.
Ele usava um colete chelixiano desabotoado e um calção curto preso com firmeza por um fio de sisal. Tinha também uma bolsa de lona natural pendurada nos ombros.
— Seu estimado colega ordenou que eu esperasse sua chegada para oferecer meus serviços como guia para Kalabuto — proferiu Amadi enquanto me entregava uma carta selada.
Eu a abri e vi uma nota curta de recomendações de Rosk Hargun, um colega explorador Pathfinder que conheci durante minhas visitas anteriores à Sargava. Nossa amizade sempre foi cordial, mas eu não esperava tal favor vindo do anão.
— O que você tem aí? — perguntei acenando com a cabeça para um pergaminho enrolado em sua bolsa.
Amadi me deu um sorriso radiante, que indicava que tinha gostado da pergunta. Ele desenrolou o pergaminho e mostrou um esboço que me retratava. Tinha uma semelhança extraordinária, e a princípio achei que era coisa de Hargun. Só assim Amadi poderia me reconhecer.
Logo atrás da minha imagem estava um esboço igualmente bem feito de Remigo.
— Você tem uma luneta na sua bolsa? — perguntei.
— Não, Excelência — respondeu Amadi enquanto sorria, obviamente compreendendo o motivo da minha pergunta.
— Quanto tempo levou para fazer isso?
— Desenhei assim que saíram do navio.
Haviamos pisado nas pedras das docas faziam poucos minutos. A combinação de velocidade e precisão de Amadi era um dom raro, dom este que eu podia proveitosamente aplicar em meu bestiário. Entendi porque Rosk Hargun recomendou o garoto.
— Quanto Hargun pagou para você? — perguntei. — Eu dou o dobro! — acrescentei sem esperar a resposta.
***
Nós ficamos em Eleder tempo suficiente para o capitão-aventureiro garantir ao barão Grallus que minha visita não tem nenhuma ligação com intrigas da Casa Thrune, a qual todos os lordes leais de Cheliax juraram obediência. Se o Barão recebeu qualquer informação sobre meu serviço durante a guerra, ela foi insuficiente para me impedir de continuar com meus empreendimentos pessoais.
Remigo reclamou durante toda a viagem rio acima. Ele odiava a temperatura, a úmidade e principalmente os mosquitos. No fim das contas, uma vez que o cheiro repugnante de mupute que saia da sua boca só atraia vermes, minha compaixão estava longe de se manifestar. Se ele achava que eu não sentiria o cheiro de lícor de abacaxi, ele era mais estúpido do que pensava.
Tive que tolerar as agruras pestilentas em expedições passadas, e parecia que os bichos tinham um apreço distinto pelo meu sangue meio-élfico. Por fim eu cedi e apliquei o unguento malcheiroso que os nativos usavam para afastar os insetos. Amadi também ofereceu o bálsamo para Remigo, mas ele recusou “contaminar sua pele com uma poção nativa” e sequer agradeceu o garoto.
Nós finalmente navegamos pelo Lago dos Exércitos Desaparecidos e viramos sentido norte para Kalabuto, um oásis de civiliação meio a um amontoado de ruínas antigas. Apesar da cidade ter o nome da tribo local mais popular, os Kalabuta não foram seus fundadores. Pelo contrário, dos montes emaranhados entre os campos de abacaxi e pomares de tâmara às fazendas de gado, era tudo resquício de uma tribo há muito esquecida cujos mistérios emanam de cada monumento desmoronado que desponta por entre as cabanas contemporâneas. Não havia como dizer onde começava e terminava mercados e casas, mas também não havia como não ver o grande pavilhão do Príncipe Kasiya. As tendas de seda e os guardiões com seus elmos dourados pareciam uma miragem no horizonte distante.
O príncipe não era mais velho que eu, embora aparentemente parecia uns bons quinze anos mais velho. A ilusão de senilidade servia como lembrete de que o príncipe era meu superior fora da Sociedade. Ele era o sexto filho do grande Khemet e irmão do atual governante, Khemet II.o sinistro “Rei Crocodilo”. Antes que pudesse me ajoelhar, Kasiya me cumprimentou com um forte aperto de mão fraternal.
— Seja bem vindo, irmão! — disse sorrindo, revelando uma legião de pequenos dentes brancos.
Se o irmão mais velho era o crocodilo, Kasiya era uma enguia.
— Sua alteza — cumprimentei, olhando de soslaio para ter certeza de que Amadi estava ajoelhado e para lembrar que Remigo devia fazer o mesmo.
No que pareceu ser poucos segundos os servos foram dispensados e nos reclinamos em almofadas bordadas. Nos serviram uma refeição faustosa com pratos locais preparados com as mais sutis especiarias de Osirion. Apenas depois que o sorvete foi servido e o último servo saiu que o príncipe perguntou sobre as particularidades da minha expedição.
Eu compartilhei com ele como faria com qualquer um. O que quer dizer que fui honesto mas vago quanto aos meus cursos pretendidos. Eu iria viajar para a Selva do Grito Estridente, mas ele não precisava saber exatamente para onde eu estava indo.
— Dizem que essa pode ser sua última excursão a campo. — comentou Kasiya — Tudo o que ouço de Absalom é um burburinho de expectativas desse bestiário de vocês.
Eu levantei meu copo em reconhecimento à sua inteligência precisa. Fiquei um pouco surpreendido ao saber que ele conhecia minhas expectativas de antemão. Nossa Sociedade é tão rica em fofocas e rivalidades quanto as cortes de Cheliax.
— Sem dúvida seu trabalho irá mostrar ao Decenvirato seu valor como capitão-aventureiro.
Seu olhar resoluto esperava uma reação minha, mas eu não podia sondar que segredos ele esperava extrair de mim. Sabia que ele escondia ambições de se aproximar da Sociedade Pathfinder mas infelizmente tal aproximação não era suficiente. E como todas as evidências mostravam que o Decenvirato selecionava os novos capitães-aventureiros pautados no mérito e não na posição do indivíduo, minhas chances eram maiores que a dele.
— Seria muita generosidade sua me mostrar esse trabalho fabuloso? — perguntou o príncipe.
— Está incompleto, alteza — me opus — mas assim que for publicado será uma honra te enviar uma cópia.
O príncipe começou a mexer os lábios, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa uma mulher gritou do canto mais distante do pavilhão. Ele retomou o controle enquanto ouvíamos um som tumultuoso das armaduras de seus guardas. Gritos de acusação, e logo uma voz familiar surgiu no meio dos protestos.
A partir dali os minutos se arrastavam para mim como uma maldita doença. Sabia o que veria antes mesmo de os guardas entrarem na tenda do príncipe com Remigo, forcando-o a ficar de joelhos no chão. Era quase possível ver o mupute que seu hálito exalava. E ao lado dele, Amadi se também ajoelhou.
— Nós encontramos estes miseráveis no harém de Sua Alteza! — relatou o comandante.
Kasiya olhou para o soldado de forma inquisitiva.
— Eles foram capturados sem tocar em nenhuma delas, Alteza — apressou-se a dizer o comandante.
— Em meu país, — declarou Kasiya — a punição para aqueles que tentam olhar para minhas concubinas é de seis onças sobre a pele.
E com isso Remigo se remexeu e Amadi se enrijeceu. O príncipe não precisou especificar o que seis onças significavam.
— Senhor… — disse Remigo abruptamente para mim — digo, Sua Excelência…
— Silêncio! Príncipe Kasiya é o senhor deste lugar— interrompi-o.
E o príncipe acenou com a cabeça em sinal de aprovação. Sua fúria diminui e ele se voltou para os prisioneiros.
— Garoto, eu conheço você — disse Kasiya.
— Me chamo Amadi, Vossa Alteza. — respondou com reverência o garoto — Tive a honra de acompanhar sua expedição para as Terras de Kaava na última estação.
— E agora você montou uma expedição para a minha cama? —questionou o príncipe.
— Não Vossa Alteza, eu queria apenas evitar que…
— Cale sua boca, seu macaco sujo! — rosnou Remigo.
Os guardas o chutaram o fazendo cair sobre o tapete.
Kasiya acenou para que os guardas parassem e levassem os prisioneiros para fora de sua tenda. Quando sairam ele suspirou.
— Conde Jeggare, — começou ele — em respeito a sua organização, posso reduzir a punição para uma chicotada. Nada menos que isso.
— Sua generosidade não tem limites — respondi, fazendo uma reverência.
— Eu sei que para você é difícil submeter um compatriota à chicotadas. Ficarei satisfeito se apenas um de seus servos for punido, você pode escolher qual.
— Remigo — respondi.
— O Chelaxiano? — perguntou Kasiya, levantando uma das sobrançelhas espantando com minha resposta rápida.
Eu sabia no que ele estava pensando. Eu tinha visto a cicatriz nas costas de Amadi, e tinha certeza de que ele seguiu Remigo na tenda proibida apenas para tentar evitar que ele o outro entrasse.
— Ou, talvez sua absolvição possa ser comprada com um pequeno presente — disse Kasiya com brilho ardiloso nos olhos. — Tenho muito apreço por livros.
Eu sabia o que ele queria, mas Remigo não valia uma única página do meu Bestiário.
— Que ele seja açoitado.
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Vem depois: mais das explorações a Mwangi do jovem Varian Jeggare e a conclusão de “Uma Lição de Taxonomia”.
Dave Gross é autor de muitos Contos da Pathfinder, além de outras histórias e livros. Suas outras aventuras sobre o conde Varian Jeggare (geralmente ao lado de seu guarda-costas meio-demônio, Radovan), estão nos livros, “Prince of Wolves” e “Master of Devils”, no material Pathfinder “Hell’s Pawns” e “Husks”(publicado respectivamente nos “Adventure Path” Council of Thieves e Jade Regent), e no conto “The Lost Pathfinder”. Além disso Dave é também coautor com Elaine Cunningham do livro “Winter Witch”.

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6 Resultados

  1. Caio Viel disse:

    Muito boa a iniciativa!
    Assim que eu conseguir um tempo lerei o conto =D.
    Estou jogando o adventure path Curse of the Crimson Throne e gostando muito de Golarion.

  2. @dracobahamut disse:

    Esse conto é muito bom, vale a pena ler. Mas eu recomendo dar uma olhada aqui nessa página para ver se a publicação está dentro da politica de uso da comunidade da Paizo:
    http://paizo.com/paizo/about/communityuse

    • Armageddon disse:

      Oi Draco.
      Estamos conversando com eles sim. Recebemos uma resposta negativa hoje, vamos tentar negociar a tradução novamente frisando que o site não tem fins lucrativos nem nenhuma forma de monetização. Se não rolar, infelizmente, vamos ter que apagar os contos.

  3. Edson disse:

    Ola Vitor, parabens viu pelo otimo conto, sou super fã de pathfinder, se possivel nos disponibilize mais desses excelentes contos.
    Mais uma vez parabensssssssssssssssssss.

  4. Vitor disse:

    É então, aparentemente traduções como esta são feitas apenas com a autorização da empresa. Talvez o conto seja retirado, mas primeiro vamos tentar um acordo com a Paizo. Na verdade eles tem muito a ganhar com os contos em português.

  5. Breno Cardoso disse:

    Uma pergunta de um leigo ! Os materias de Pathfinder serão traduzidos para o portugues ou serei forçado a adiantar meu curso de ingles ?
    Obrigado !

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