Hackeando o Guia de Armas da Camarilla

Houve uma era dourada do RPG. Não foi, como muitos imaginam, a época com mais RPGs disponíveis, ou com mais jogadores, ou que o RPG era mais popular. Mas foi […]

Houve uma era dourada do RPG. Não foi, como muitos imaginam, a época com mais RPGs disponíveis, ou com mais jogadores, ou que o RPG era mais popular. Mas foi uma época em que ele decolou no Brasil. RPGs eram visíveis pela primeira vez em livrarias, não só pelas editoras especializadas, mas por editoras tradicionais como a Abril Jovem e Ediouro (que iriam abandonar o nicho, porque editoras tradicionais não lidam com as pequenas tiragens que os RPGs tem) e principalmente em bancas de revista, graças à Dragão Brasil, às suas várias concorrentes que duravam entre duas e doze edições, e outras iniciativas.

Uma dessas iniciativas foi o Guia De Armas da Camarilla do Brasil. Era uma associação de jogadores de RPG que tocava adiante o Brasil by Night, que era o universo compartilhado de jogos Live Action dos jogos da White Wolf, principalmente de jogos de Vampiro. Mas eles faziam coisas ligadas a outros RPGs e entre elas lançaram um livro com stats para usar várias armas de fogo para os principais sistemas publicados no Brasil. E, como todo trabalho multissistema (quem não lembra das fichas de Gurps da Dragão Brasil?), pelo menos nos stats de Gurps, pecava um pouco. Faltavam stats vitais para o sistema genérico da SJG, como a precisão da arma, o recuo, a cadência de tiro não era muito confiável e em várias armas o dano não correspondia a armas similares dos suplementos oficiais.

Revirando meus livros antigos me deparo então com essa relíquia, com alguns stats corrigidos a lápis para a terceira edição, e me vem à cabeça uma ideia: hackear o livro com stats oficiais para as armas, atualizados para a quarta edição e feitos de uma maneira mais bem acabada. Lancei uma planilha no OpenOffice, formatei os campos até ter todos os stats relevantes das armas em um tamanho que correspondesse ao espaço ocupado pelos stats originais e lancei mão do Gurps High Tech, Gurps High Tech: Pulp Guns, Gurps Seals in Vietnan, Gurps Ultra Tech, e muitas consultas à Wikipedia, Gaming Balistics, e à wiki.rpg.net para pegar stats, descobrir que armas são clones de outras armas, calcular diferenças entre uma mesma arma com tamanhos diferentes de cano, etc:

Hackeando o Guia de Armas da Camarilla

Algumas coisas não foram possíveis. Certas armas são um mistério mesmo em sites de colecionadores. Armpistols como a Bushmaster ou a Sidewinder são raras ou só existem como um protótipo. Outras armas simplesmente não existem, como a Magnum 357 que é uma munição, disponível para várias armas. Mais frequentemente o nome não é o correto como o Lewis Mortar, que é a metralhadora Lewis Gun, e não um morteiro, a Madson M50, que é a dinamarquesa Madsen M50, ou a SeeCap, que se pode ler na imagem SeeCamp. Outras armas não correspondem à ilustração, como o Valmet M71 que se trata do Valmet M82. Ainda outras são praticamente impossíveis de se encontrar stats porque mesmo colecionadores não disparam elas, como a Mamba, que só teve 80 exemplares exportados para os Estados Unidos e é feita de um aço maleável, resultando em uma arma de baixa qualidade que pode ocasionar problemas se disparada. E ainda armas do sistema Shadowrun e Cyberpunk 2020 ou de filmes jogadas no meio das armas do mundo real sem nenhuma pista a respeito da origem delas.

Para algumas dessas armas eu coloquei stats de armas similares. Existem muitas armas que são cópias das Glock, do AK 47, do Sten Mk II. Para as armas ficcionais eu recorri ao Gurps Ultra Tech. Para outras, como os diversos modelos de Python, eu usei alguns cálculos balísticos e intuição para saber como os stats são afetados pela mudança no cano da arma. No total consegui atualizar 180 fichas das 217 armas do livro. Se alguém se dispuser a fazer stats para as armas restantes, ou qualquer correção aos stats existentes, é bem vindo. Mesmo para as armas que não encontrei stats coloquei ao menos os nomes pelas quais são mais conhecidas.

guiaestilete
guiacolabasta
guiacolando
guiaresultado

Depois de baixar o PDF e imprimir as fichas das armas, vem a parte divertida. Recortar com estilete (lembre de usar uma base de corte ou outra proteção) as fichas individuais, e colar, de preferência com cola bastão, por cima dos stats antigos. Depois de completado o trabalho, o resultado é um misto de nostalgia da época em que o RPG dava os primeiros passos no Brasil e uma referência bem boa para usar nas suas aventuras de Gurps.

Baixe agora, seus inimigos já estão hackeando o guia deles!

Sobre Hackbarth

Tiago Hackbarth é um gaúcho de Porto Alegre, computólogo, rato de biblioteca, rpgista, pai, linux-user e nerd. Não necessáriamente nessa ordem.
Nas horas vagas escreve para o Roleplayer e monta miniaturas de papel. Quando surge uma oportunidade, mestra Gurps.