Resenha: Outland

Acho que poucos gêneros marcaram tanto a história dos videogames como o jogo de plataformas em duas dimensões. Pense em um sprite colorido correndo da esquerda para a direita, recolhendo moedas ou outro item de valor, pulando sobre buracos e armadilhas de espinhos, ou em cima de inimigos para matá-los. Com um ou outro ajuste, você pode incluir aí quase todas as séries clássicas dos 8 e 16 bits: MarioSonicAlex KiddMetroidMega ManCastlevania,Ninja GaidenShinobi
Nos consoles mais recentes, no entanto, o gênero das plataformas é um que tem gradualmente desaparecido. É uma questão técnica, até: com a capacidade de processamento limitada daquela época, os seus desafios simples estavam entre os poucos que eram possíveis de se programar sem muita dificuldade; hoje, com todos os bits disponíveis, é possível criar jogos muito mais complexos, com gráficos tridimensionais muito mais detalhados, e desafios (relativamente) mais realistas. Mesmo muitas das séries clássicas foram reimaginadas neste novo contexto, algumas muito bem sucedidas (como Metroid e Ninja Gaiden), outras nem tanto assim (em especial as atrocidades que foram feitas com o Sonic na última década).
Aos que sentem saudades da simplicidade daquela época, restam poucas opções. Hoje as plataformas bidimensionais se restringem basicamente dois grupos: de um lado, temos os jogos que apostam descaradamente na nostalgia e no saudosismo, buscando recriar quase ipsis litteris a experiência dos jogos do passado, como alguns dos últimos lançamentos do Mario para Wii; de outro, aqueles que aproveitam a simplicidade do gênero para investir em mecânicas e jogabilidade únicas, e, principalmente, num cuidado artístico ímpar, com todo um apelo estético diferenciado. Outland pertence a esse segundo grupo.
O jogo conta a história de um homem que começa a ter visões em sonhos e procura a ajuda de um xamã para entendê-las. É quando descobre ser a reencarnação de um grande herói do passado, responsável por enfrentar e vencer as duas Irmãs do Caos – uma que controla a Luz do sol, e a outra as Trevas da lua. Ambas escaparam da sua prisão de trinta mil anos, e cabe a ele vencê-las e aprisioná-las novamente.
É difícil não se encantar logo de cara com a beleza gráfica do jogo. Se parece retrógrado fazer um jogo em duas dimensões quando se tem a possibilidade de usar logo três, essa vantagem ao menos os primeiros ainda possuem: o de usar cenários estáticos, e que por isso mesmo podem ser feitos à mão ou com todo o cuidado necessário para impressionar. O tema geral é o do jogo de sombras – objetos e construções aparecem como silhuetas em um fundo unicolor, enquanto as cores mais vivas em geral se resumem ao azul e ao vermelho, com toques eventuais de um amarelo neutro, que definem a afinidade elemental de cada objeto. Some a isso também um cuidado especial com a movimentação de todos os personagens e inimigos, com uma fluidez e naturalidade que me remeteram ao primeiro Prince of Persia, aquele lá de 1989.
O cerne da jogabilidade envolve a forma como você utiliza os dois elementos das Irmãs do Caos, que o seu personagem também logo passa a possuir. Você pode mudar a sua afinidade com um simples toque de botão, tornando-se azul quando está com o poder da Luz e vermelho com o poder das Trevas. Praticamente tudo com o que você interage também possui uma afinidade, alterando as ações que você pode tomar – por exemplo, você só pode causar dano em inimigos com o elemento oposto, usando Luz para atacar um inimigo de Trevas e vice-versa; alguns perigos e armadilhas também não o afetarão se você estiver usando o elemento certo; e mesmo certas plataformas e barreiras só terão consistência enquanto você utiliza uma determinada afinidade elemental.
Você pode ver o cuidado que houve em trabalhar este aspecto da jogabilidade quando começa a encontrar desafios que a utilizam de formas cada mais complexas, misturando cada vez mais os dois elementos. Muitos deles são desafios de habilidade mesmo – você deve ser capaz de trocar de elemento rapidamente entre um pulo e outro -, enquanto outros vão necessitar também algum raciocínio, enquanto você tenta desvendar a melhor forma passar por barreiras e armadilhas sem sofrer dano. Mesmo os chefes envolvem desafios assim, em que você deve estar constantemente trocando a sua afinidade para evitar os seus ataques e causar o dano necessário para vencê-los. O resultado é uma experiência de jogo bastante única, e especialmente gratificante quando você consegue vencer um desafio que parecia impossível nas primeiras tentativas.
Na soma final, Outland é um jogo realmente único, com todo um apelo estético particular e também uma jogabilidade difícil de pensar em comparações. Recomendo bastante, com o bônus de que ele pode ser baixado gratuitamente para quem tiver acesso aos benefícios do Playstation Plus.

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1 Resultado

  1. Parece legal, pena que não tenha para Wii.

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