John Kane & O Beijo do Dementador – Parte 1 de 2

  O Sr. e a Sra. Morgan, residentes da Rua do Bosque, nº 22, em Kingston, puderam se orgulhar de muitas coisas em suas vidas. Temo porém que a normalidade […]

 

O Sr. e a Sra. Morgan, residentes da Rua do Bosque, nº 22, em Kingston, puderam se orgulhar de muitas coisas em suas vidas. Temo porém que a normalidade não estivesse incluída entre elas. Podiam ser considerados excêntricos mesmo para os padrões de comportamento dos bruxos. Levavam uma existência agitada administrando o “Mioclonia Noturna”, a maior casa de diversões adultas de Londres para não-trouxas localizada fora do Beco Diagonal.

Ambos eram de puro-sangue, vindos de famílias de alta estirpe. Foram na juventude filhos rebeldes e alunos inquietos, mas também bastante populares nos círculos sociais dos tempos de colégio. Lembro perfeitamente de Winfredd Morgan durante minha época em Hogwarts. Um rapaz alto e robusto, com rosto corado e voz de trovão. Matava balaços na cabeça e não poucas vezes me fez despencar da minha vassoura enquanto competíamos no quadribol.

Foi durante uma temporada inteira o orgulho do time sonserino. Até começar a namorar e desistir dos esportes.

Mas naquela manhã cinzenta, há exatos seis meses atrás, encontrei-o num estado completamente diverso do que o vi pela última vez. A visão embrulhou o estômago de muitos que estiveram presentes na cena. Estava pálido e magro, quase anêmico, com a boca arregalada permanentemente numa expressão petrificada. Suas pupilas não se contraíam e não reagiam à estímulos luminosos.

Nem ele, nem sua esposa, haviam morrido. Seus pulmões continuavam respirando e seus corações bombeando sangue. Contudo estavam longe de ter sobrevivido. O que restara deles ali fora apenas uma casca vazia, sem alma.

Aquele não havia sido um incidente isolado.

Meu nome é Kane.

John Kane. Não é particularmente mágico, mas ainda prefiro ele a maré de denominações estranhas que invadiram as certidões de nascimento nos cartórios após a derrota de Voldemort.

Em sua grande maioria nomes compostos dignos de telenovelas estrangeiras, geralmente misturando o nome de entes queridos e amigos que pereceram naquela derradeira e terrível batalha. Embora eu também tenha tido minhas perdas, felizmente, não tive filhos para amaldiçoar para o resto da vida com essa homenagem.

A quem estou tentando enganar? Eu gostaria de ter me casado e ter tido filhos.

E talvez agora eu finalmente pudesse.

Antes, no entanto, existia ainda um assunto pendente que eu precisava resolver.

Marquei um encontro com meu parceiro às sete da manhã, como de costume, em seu apartamento frio e bagunçado em West End, a região central da cidade.

Williams e eu somos aurores trabalhando para o Ministério da Magia. Entramos praticamente juntos para o departamento há alguns anos atrás. Tivemos sorte de passar no edital para a vaga. Pois de repente tornar-se funcionário público e se alistar numa força tarefa contra bruxos das trevas, agora que não havia mais hordas de bruxos das trevas para serem combatidos, se converteu novamente num plano de carreira cheio de benefícios, com boa remuneração e muito em voga.

Até hoje, para ser sincero, não sei como passei nos exames de admissão. Não houve um só maldito professor de Arte na Defesa contra as Trevas em todos os meus anos letivos que tenha permanecido no cargo o tempo suficiente para que pudesse aprender qualquer coisa de útil.

A verdade é que acho que nos deixaram entrar pela propaganda.

Praticamente todos aqueles que participaram da Batalha de Hogwarts, e concorreram ao cargo, ingressaram nele. Mesmo aqueles cuja participação em todo evento tenha sido se deitar sobre os corpos frios de seus colegas de escola, contendo as lágrimas e tentando fingir-se de morto, enquanto crucios e avada-kedavras zuniam passando sobre suas cabeças.

Podem me contar como um desses falsos cadáveres. Não me envergonho. Estou vivo e a maioria do “exército de Dumbledore” está comendo grama pela raiz. Vivi para ver um novo dia e eles não.

Toquei a campainha do apartamento e Will veio atender a porta com sua usual prontidão.

– Entre. Fiz chocolate quente. Diabos, homem! Que olheiras são essas?

Nos dois estávamos terrivelmente fora de forma, e mesmo em Will, que fora sempre um varapau, começava a despontar uma pança protuberante. O maldito chocolate. O nefasto chocolate, seu nojento açúcar e calorias.

Mas é o consumo regular dessa substância miraculosa que te impede de entrar em colapso quando você está lidando há meses com incidentes envolvendo dementadores.

– Bom dia pra você também, Will! Culpa daquele filho da mãe do Potter. Tive que ficar até tarde mais uma vez preparando relatórios para o nosso “chefinho”! – resolvi então adiantar a conversa – Acho que hoje vou recusar a dose matinal. Pode ficar com minha caneca. Trago notícias…

– Que bom parceiro, mas eu também tenho notícias. Nada boas. Acho que finalmente descobri as pistas que podem nos levar ao culpado pelos crimes.

– Culpado?

Fiquei gelado como o sangue de um basilisco. Aquelas, apesar do que podiam parecer, não eram em hipótese nenhuma boas novas. Principalmente se fossem sobre o que eu estava pensando que seriam.

Existe um ditado que diz “quanto mais mexem na merda, mais ela fica fedida”. Acho que essa frase resume exatamente as ações do nosso querido Ministério da Magia ao longo de toda sua história.

O uso de dementadores pelo estado para vigiar e torturar os prisioneiros de Azkaban, outrora um dos mais seguros e sinistros presídios para bruxos, sempre foi controversa.

Essas criaturas, invisíveis para os trouxas, são capazes de causar imenso sofrimento a todos aqueles ao seu redor. Eles se alimentam de cada pensamento feliz do sujeito, de qualquer vaga esperança que ele possa nutrir. Pessoas que permanecem muito tempo nas proximidades de um dementador tornam-se ruínas humanas.

A administração Kingsley, para conquistar a confiança de uma população ainda traumatizada com as recentes tragédias que se abateram sobre o mundo arcano, tomou como uma de suas primeiras medidas “o banimento oficial dos dementadores”

Sobre esse assunto, no entanto, havia uma pergunta muito pertinente que deve ter sido feita pelas pessoas de bom senso, mas que sequer chegou a arranhar as páginas de tablóides como o “O Profeta Diário”.

O que fizeram com os dementadores libertos?

Afinal, como é de conhecimento de qualquer bruxo minimamente esclarecido, essas criaturas não possuem almas. Não podem ser mortas, nem destruídas. A magia conhecida como patrono apenas invoca um guardião luminoso capaz de atraí-las para longe.

Claro que eu não ousaria sugerir que os novos contratados do ministério tenham sido tão pouco competentes ao ponto de terceirizar o serviço para remoção dessas criaturas. Nem que tenham sido ingênuos ao ponto de deixar isso nas mãos de bruxos pouco aptos para o serviço. Bruxos que pensaram que levar os dementadores para lugares ermos e remotos seria uma maneira satisfatória de lidar com o problema.

Não ousaria dizer, mas infelizmente irei dizê-lo: é a mais pura verdade, e foi o isso o que aconteceu.

Dezenas dessas criaturas escaparam de seu novo e ineficaz confinamento e vieram parar no Reino Unido em busca de alimento. Uma onda de agonia e sofrimento se abateu sobre o arquipélago.

A incidência de suicídios praticamente triplicou nos últimos meses.

A mídia trouxa não atinou muito para o fato. Numa época onde pessoas jovens e velhas, indistintamente, passam  longas tardes reclamando sobre a vida na internet, tudo foi percebido apenas como um sintoma do grande “mal dos tempos.” Pra piorar e notório que ambientes permeados de tristeza são propícios ao surgimento de novos dementadores. Eles brotam como fungos no estrume, após chuva sobre o pasto.

Você compreende? A equação é simples: a cada mês, mais e mais dementadores nascem. Nenhum morre.

Um ciclo vicioso.

Não é uma perspectiva muito animadora, eu sei. É o que alguns estudiosos chamaram de grande “Epidemia de depressão”.

Deus salve Kinglsey e o seu governo. Não há futuro!

Williams andava para um lado e outro do apartamento, enquanto fumava. A qualquer hora eu temia que uma fagulha poderia saltar de seu cigarro e atear fogo a montanha de papéis que eu e ele havíamos reunidos sobre os ataques dos monstros e estavam espalhados por todo lugar.

Ele havia despejado o chocolate que eu dispensara no ralo da pia da cozinha e passara a se servir ele mesmo de uma garrafa de uísque. Estava enjoado de tanto doce e dizia que aquela era a maneira certa de honrar seu avô trouxa, um irlandês amargo que morrera de cirrose.

Eu estava nervoso demais para prestar atenção em tudo o que ele falava mas continuei ouvindo

– Seguimos uma pista errada, o tempo todo. Não atinamos para a natureza dos ataques mais graves. As pessoas não compreendem a natureza desses monstros, John! Um dementador, não é bom, ou mau. Eles simplesmente não concebem o que é a moralidade.

– Eu sei disso – disse enquanto tamborilava os dedos sobre um dos braços da velha poltrona que eu estava sentado – são como animais famintos, obedecem a quem puder lhe dar mais comida.

– Chegou ao ponto que eu queria! Todas aquelas pessoas foram vítimas do “Beijo”. Os Morgan, os Lang, os Garloff e o Sr. Vigosi. Tiveram suas almas extraídas pelas criaturas. Esse, como você bem sabe, é um procedimento terrível que deixa para trás apenas um autômato sem personalidade e fortalece o dementador. Mas me parece estranho que as criaturas o tenham usado.

– Estranho? Do que está falando? Já houve ocorrências parecidas de ataques envolvendo dementadores no passado.

– Sim, mas o uso do beijo em ataques, ao contrário do que muitos acreditam, é estatisticamente raro. Os estudos recentes compravam que os dementadores costumam usar o beijo em apenas duas situações: quando permanecem um longo tempo sem se alimentar e…

– … quando alguém os instiga para que o façam, utilizando magia.

– Exato.

– Entendo. Com um alimento tão farto não haveria razões para eles usarem os beijos. Não com essa freqüência. Os ataques ocorreram muito tempo depois que a epidemia começou então…

– Então, isso quer dizer que alguém está usando os dementadores para acobertar assassinatos.

Eu ri.

Will sempre gostou de fazer deduções, de bancar o sabichão, o detetive. Acho que foi por isso que o Chapéu Seletor o havia enviado para Corvinal, lá em Hogwarts. Para o meio daqueles filósofos desocupados.

– Ora Williams! Dadas as circunstâncias, não teria sido mais fácil para esses supostos assassinos matar de uma maneira mais convencional? Forjarem cartas de suicídio, deixar os policiais trouxas pensarem que eram apenas mais algumas pessoas se juntando aos números?

– Assassino. No singular.

– Como? Sequer há conexão entre as vítimas! Como poderia ter sido obra de uma mesma pessoa? Qual a motivação?

– Aí que você se engana, John. Não percebeu? As vítimas. Eram todos puro-sangue. E ex-sonserinos.

Fiz uma pausa. Meditei. Devo ter coçado a cabeça algumas vezes.

– E daí? Nada disso é conclusivo. É fato noticiado que os comensais da morte usaram dementadores a seu serviço durante a segunda ascensão de Voldemort. Não seria nada estranho se todas essas famílias tenham tido algum envolvimento com as criaturas naquela época. Como podemos saber? Talvez os bichanos tenham resolvido se vingar de seus mestres ocultos. Morder a mão que os alimentou e não os alimentava mais.

– Impossível. Como eu disse o dementadores são completamente amorais. Eles com certeza não são capazes de algo como “vingança”.

Fui então interrompido por uma relance de minha memória.

– As vítimas? Todos sonserinos? Foi o que você disse Will? Não, não o último. O senhor Vigosi foi um grifinório . Um grifinório exemplar devo dizer.

– Mas apenas ele! Isso não lhe parece estranho?

Vi aonde ele queria chegar.

– Então por um minuto vamos supor que exista um assassino, como você quer. Alguém usando magia para controlar os dementadores. Alguém que odeie ex-sonserinos. Ceús, não era difícil odiá-los no colégio, certamente não é difícil odiá-los agora, após tudo o que aconteceu, certo?! Ele, o assassino, acredita ser um cara muito esperto. Percebe a situação dos dementadores e resolve tirar proveito. Ninguém irá perceber seus crimes. Todos irão culpar as criaturas. Só que ele chega a conclusão que seu padrão logo será percebido pelas autoridades: casais, sonserinos e puro-sangue. Resolve matar uma vítima aleatória, para encobrir as suspeitas. Um homem solteiro, nascido de trouxas, honrado e notório grifinório.

– Touché! Parece que você leu minha mente! – troçou Will de minha conclusão contundente. Ele se serviu de mais um copo e se jogou sobre o outro sofá. Ah! O velho “Will Whisky” da Corvinal. Irlandês safado. Nenhum criminoso podia esconder nada dele.

– Isso com certeza dá o que pensar não é John? Mas me diga, quais eram as suas notícias?

Levantei com preguiça de onde estava aninhado e fui me servir eu mesmo de um bom copo de bebida. Encostado à parede fria do apartamento, bebi um longo gole, olhei para Will e suspirei.

– Eu vou me casar.

 

 

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Quem estará usando os dementadores para matar ex-membros da Sonserina? Volte amanhã para a segunda parte do conto e descubra!

A imagem que ilustra esse post foi retirada DAQUI e toscamente editada por mim.


About Di Benedetto

Professor de história e atual habitante de escritório. Contista, tormentista e atormentado. Sofre de dependência química de café e podcasts – é agora também o "analista oficial" de @LeddHQ - www.leddhq.com.br - Siga-o por sua conta e risco! - @di_benedetto