RPGista Entrevista – Guilherme Dei Svaldi

Para preparar o terreno do lançamento de Tormenta 20, o Blog RPGista irá começar uma série de entrevistas com os autores desse que promete ser um marco da história do cenário e do próprio RPG no Brasil. E para começar, ninguém melhor do que o editor-chefe da Jambô, Guilherme Dei Svaldi!

Pra quem está chegando agora: quem é Guilherme Dei Svaldi?

“Nerd desde criancinha”, comecei lendo os livros de ficção científica de meu pai. Depois, incomodando meu irmão mais velho para jogar RPG no grupo dele (meu irmão foi da mítica “geração xerox”, entre os primeiros RPGistas do Brasil). Depois que finalmente consegui começar a jogar, foi um caminho sem volta… O RPG se tornou parte da minha vida. Além de um hobby divertido, foi responsável por fazer e manter minhas maiores amizades. E, também, minha carreira!

Como foi o início da sua carreira como editor?

Em 2002, estava com 18 anos e há um ano cursando a faculdade de administração. Resolvi que queria fazer algo da vida e, junto com meu irmão (o mesmo que havia me mostrado o RPG mais de dez anos antes), resolvemos começar a Jambô Editora. No início, a “editora” era muito pequena. Apenas eu, ele e um único colaborador (Leonel Caldela, hoje autor de renome e sócio na empresa). Nosso equipamento era um único computador que havia comprado com o dinheiro ganho em torneios de cards (antes de trabalhar com RPG, fui jogador profissional de Magic, campeão de torneios internacionais e membro da seleção brasileira do jogo). Nossos primeiros lançamentos foram traduções de pequenos suplementos e aventuras de RPG. Francamente, éramos bem ruins… apesar de já termos noções de negócios, éramos novatos no mercado editorial, e no início aprendemos muito por “tentativa e erro”. Mas o que nos faltava em conhecimento teórico nesse primeiro momento (mais tarde viemos a nos aperfeiçoar) compensamos com dedicação e carinho. Realmente gostávamos de RPG (e ainda gostamos!), e colocamos esse amor em cada publicação. Hoje, vejo que o público percebeu isso. Tanto que crescemos e, 17 anos depois, publicamos mais livros de RPG do que qualquer outra editora brasileira na história.

Você também já publicou alguns livros, inclusive um Livro-Jogo. Como ocorreu essa transição?

Eu sempre me vi mais como editor do que como autor. Minha própria formação como administrador me ajuda a ficar no lado de produção executiva, e não criação propriamente dita. O que criou a vontade de escrever em mim foi o amor pela leitura (afinal, antes mesmo do RPG, meu primeiro contato com o mundo nerd foi através da literatura) e todas as vezes em que mestrei! Escrever um livro é muito diferente de mestrar RPG, claro. Exige estudo e técnicas específicas. Mas o RPG ajuda muito a incentivar a criatividade, e me ajudou bastante a ter vontade de escrever meus primeiros títulos.

Podemos esperar mais lançamentos seus em breve?

Bem, estou escrevendo agora mesmo — no caso, Tormenta 20! Completamente ocupado com esse livro básico, além de meu trabalho como editor-chefe na Jambô, minha coluna na Dragão Brasil e a campanha da Guilda do Macaco, não sobra tempo para projetos solos. Talvez após o aniversário do cenário eu consiga fazer alguma coisa. O que exatamente não sei, mas tenho certeza de que será em Tormenta!

A expectativa do resultado junto ao público é muito diferente quando você é o autor da obra?

Sinceramente, não. Tenho bastante orgulho dos títulos em que trabalhei como editor, e presto muita atenção no que o público tem a dizer de cada trabalho, seja como editor, seja como autor.

A Jambô hoje é uma das maiores editoras de RPG do país, mas ela começou como uma loja em Porto Alegre. O que levou a essa mudança?

Antes de fundarmos a editora, tínhamos uma empresa familiar na qual já vendíamos jogos e livros — não só RPG, mas card games, mangás e outros produtos nerds. Após começarmos a editora, acabei passando a trabalhar cada vez mais nela. Em 2014, mudamos a marca da loja para Nerdz, deixando a marca Jambô apenas para a editora, para evitar confusões — eram empresas separadas. Hoje, a loja se expandiu e virou uma rede, da qual tenho muito orgulho. Mas, embora ainda seja um dos sócios da Nerdz e ainda me envolva com decisões estratégicas, meu trabalho diário é mesmo na Jambô.

A maioria de nós conhece a Jambô como a editora de Tormenta, mas vocês trabalham com várias outras linhas. A ideia é continuar expandindo?

Sim! Em 2017 mesmo, adquirimos os direitos da linha de literatura de Dungeons & Dragons, extremamente importante para a cultura nerd e de fantasia mundial. Vamos fechar este ano com 7 livros da linha publicados, um número ótimo para tão pouco tempo. E temos diversos outros produtos, como os livros-jogos Fighting Fantasy (também conhecidos aqui no Brasil como “Aventuras Fantásticas”), responsáveis por iniciar muitas pessoas no RPG — eu incluso! Antes de me deixar jogar RPG com ele, meu irmão me deu um exemplar de A Cidadela do Caos para que eu parasse de incomodá-lo (eu tinha por volta de 10 anos na época!). Inclusive, ter publicado esse livro-jogo foi um momento bem emocionante para mim… Também temos a Dragão Brasil, que dispensa apresentações, quadrinhos de diversos autores nacionais e internacionais, jogos de renome e premiados, como Mutantes & Malfeitores, Dragon Age, Reinos de Ferro, o RPG oficial de Guerra dos Tronos… é muita coisa — mas teremos ainda mais!

O sonho de muitos jogadores é se tornar autor um dia. A Jambô está aberta a novos autores?

Sim, inclusive lançamos muitos autores no mercado. Hoje, temos dois caminhos para novos autores. Para o pessoal de literatura, temos o selo Odisseias, de autopublicação e voltado para dar suporte e retorno financeiro a novos escritores ou escritores já publicados mas que queiram aumentar seu alcance. Para o pessoal do RPG, temos uma “escada”: primeiro, podem enviar material para ser publicado no blog da Jambô. Depois, podem começar a escrever artigos para a revista Dragão Brasil. Por fim, podem ser convidados a escrever um suplemento.

Tormenta 20: porque um novo livro básico de Tormenta?

Por que era a hora. Embora eu goste muito de Tormenta RPG, o jogo atual, ele usa como base o Sistema d20, que já é consideravelmente antigo (o Sistema d20 surgiu em 2000, um ano depois de Tormenta). Embora Tormenta 20 vá manter a mesma base, terá diversas novidades, para garantir que perdure por mais 20 anos!

Além da questão de evolução e adequação às novidades que surgiram no hobby ao longo desse tempo todo, também precisávamos de uma nova porta de entrada para interessados no universo Tormenta. O cenário cresceu muito, com dezenas de títulos, e para quem não conhece Tormenta, pode ser confuso começar. Tormenta 20 vem suprir essa lacuna, deixando mais simples para iniciantes.

Diferente de outros lançamentos de monta, como o Império de Jade, Tormenta 20 vai sair por financiamento coletivo. O que motivou a escolha?

O próprio fato de Tormenta 20 não ser um lançamento comum. É o ápice de 20 anos de melhorias e o aniversário do maior RPG da história do Brasil, tanto em termos de vendas (nunca parou de ser publicado, teve mais reedições que qualquer outro RPG em nosso país) quanto em preferência de público (como as premiações Goblin de Ouro comprovam). Tormenta 20 é uma celebração, e queríamos os fãs conosco. Afinal, se o cenário chegou até aqui, é por mérito deles!

Haverá playtest público do Tormenta 20? Como os jogadores podem participar?

Sim, haverá! Para participar, há dois caminhos: ser apoiador nível conselheiro da revista Dragão Brasil ou ser apoiador da campanha do Tormenta 20 no Catarse (entretanto, para votar nas enquetes que faremos ao longo da campanha, será necessário ser apoiador do Tormenta 20).

Podemos esperar muitas surpresas durante o financiamento?

Claro! Mas… são surpresas. O que posso dizer é que este é o aniversário de 20 anos de Tormenta; é uma data incrível, e a campanha do Tormenta 20, embora seja o principal da comemoração, não será o único presente aos fãs.

Já vimos jogos de computador, miniaturas, medalhas, livros-jogos e há rumores sobre um board game de Tormenta. Há planos para expandir ainda mais a marca para outras mídias?

Com certeza. Há um bom tempo Tormenta já não é “apenas” um cenário de RPG, mas um verdadeiro universo de fantasia. Temos planos para outras mídias, sim. Esperem e vejam…

Algum recado final para os fãs?

Antes, tínhamos a brincadeira de 1º de abril que Império de Jade iria sair. Agora, o pessoal está fazendo a brincadeira que teremos uma animação de Holy Avenger. Bem, Império de Jade já foi publicado. As brincadeiras em relação à Tormenta podem até demorar — mas sempre se tornam realidade.

Muito obrigado pela atenção, Guilherme!
Em breve, voltamos com mais uma
RPGista Entrevista! =D

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