Crônicas de Meliny — 005 – Liberdade

Deitado na relva, encoberto pelo mato ralo que crescia sobre o solo desgastado, o garoto com o corpo repleto de cicatrizes antigas tentava descansar por alguns segundos antes de retomar […]

Deitado na relva, encoberto pelo mato ralo que crescia sobre o solo desgastado, o garoto com o corpo repleto de cicatrizes antigas tentava descansar por alguns segundos antes de retomar sua corrida. Ofegava pela longa e penosa jornada mas não queria, e sequer podia, parar além do estritamente necessário. Era a primeira vez que corria tanto, ao menos até onde podia se lembrar. Se sua memória não lhe pregava peças, era a primeira vez que de fato podia correr.

Dar velocidade às pernas musculosas, sentir os pés descalços batendo com força no chão, cair, se levantar e prosseguir. Tudo era novidade. E havia a luz, o calor de um dia, a beleza do céu. Era azul! Havia apostado certa vez com um menino mais novo de que o céu mudava de cor, do escuro e negro profundo a um azul pálido e reconfortante. Riram dele na ocasião. E agora sabia que estava certo. Havia visto as nuvens, as montanhas distantes sumindo em meio a imensidão celestial.

Sentou, coçando desajeitado as costas por causa da grama e sem querer arrancou a casca de uma ferida recente. A dor era pífia perto do que sentiu ao ser açoitado. Não conseguiu parar de rir. Continuou gargalhando até faltar o ar que fazia subir o peito orgulhoso pelo feito recente. Estava livre, estava ao sol e se sentia tão alegre como jamais julgou ser possível.

Se colocou de pé num pulo e voltou a correr na direção da próxima floresta que crescia no oeste. Decidiu contorná-la em vez de se meter mata adentro e desta forma confundir os homens que talvez estivessem a seu encalço. Seu corpo voltou a ganhar velocidade, os músculos rijos tremiam a cada passada e o gosto característico de ferro lhe enchia a boca. Apesar da sujeira e do de pó de pedra, sua pele brilhava. Era tão negro quanto a sombra noturna. Seu rosto era quadrado e forte, e tinha o cabelo raspado como era comum a todos os prisioneiros das minas de Pedra Alta. Ao contrário destes, porém, tinha um papel diferente a cumprir. Nunca deixou de sonhar com aquele momento.

Trazia nos pulsos os grilhões rompidos de sua vida de escravo. Vida esta que deixara para trás há dois dias. Dois dias de marcha. Próximo demais de seus antigos donos. Homens sem cor que vira apenas uma ou duas vezes na vida, mas que saberiam de sua fuga e o seguiriam para guiá-lo até a tortura e a morte. Suspeitava que o caçariam até o fim dos dias, apesar de que sempre havia a possibilidade de não se importarem com sua falta. Havia milhares cavando, todos doentes, sujos de poeira e meio mortos de fome. Mas não podia alimentar tal esperança. Ele era diferente. Provavelmente seria caçado pois representava perigo.

Sua gente cavava a vida inteira. Embrenhavam-se através do coração da montanha, cada vez mais fundo, cada vez mais longe. Tanto que viviam dentro da mina. Nasciam, cresciam e morriam lá, sem jamais ver a luz de um dia, sem jamais conhecer a cor do céu. Os mais velhos, mineiros arruinados aos trinta anos cuja função era recolher sobras e separar seixos falavam de histórias de gerações passadas em que um homem era livre para correr, tinha filhos e podia banhar-se. Mas, em dado momento, as pessoas desbotaram e seu coração endureceu. Não mais valorizavam a vida, apenas acumulavam metal. E para ter mais e mais ouro, precisavam de braços fortes e dispostos. Precisavam de escravos. Precisavam deles.

Ninguém em Pedra Alta era livre. Os carrascos, os feitores, todos eram escravos. Tiravam o ouro da rocha sem pausa ou trégua até a exaustão completa. Crianças, mulheres e velhos numa jornada eterna de trabalho forçado. Forjavam barras e os empilhavam na borda do fosso sobre uma plataforma de madeira. A cada quinze dias a içavam, sempre à noite. Era um trabalho pesado e constantemente apanhavam ao realizá-lo, incitados pelos chicotes a puxar os cabos que deslizavam por roldanas. E apesar da surra, havia certa disputa para fazê-lo. Pois apenas naqueles instantes podiam vislumbrar duas ou três estrelas através da abertura. Era o único sinal de que havia um mundo além das minas, e que deveria haver esperança.

Todos os que ele conhecia eram fracos, ressecados pela sede e roídos de doença. Cabeças sujas de poeira. Olhos amarelados e profundos pela falta de sono. A maioria morria aos vinte, poucos envelheciam além disto. Ele, ao contrário, nasceu sob a estrela da sorte. Era grande, desde o início. A jovem mãe brincava que depois dele todos os outros partos foram fáceis. O pai, que era feitor, nunca procurou saber dele. Mas graças a isso, foi entregue às velhas para que fosse escondido.

Uma criança escondida recebia mais comida, descanso e cuidados do que qualquer outro naquele povo. E tinham apenas um único objetivo: se tornar forte para lutar. Passavam cada momento em que não estivessem trabalhando levantando pedras, simulando lutas e preparando-se para correr até os pulmões explodirem se preciso. A maioria morria sem nunca sequer chegar perto de pegar em armas. Mas era naqueles poucos que residia a esperança do povo, então o costume persistia.

Haviam crianças escondidas desde que foram feitos cativos, em algum dia tão distante que ninguém mais podia lembrar. E desde então o grupo tramava. Sempre murmurando. Sempre com medo. Adiando o dia de tentar, pois sabiam que, se falhassem, não haveria mais volta. Eram fracos e desnutridos e mesmo em maior número não podiam se rebelar sem meios para enfrentar espadas, escudos e o medo do desconhecido. Ninguém sabia como era a superfície. Ninguém conhecia a luz. Deveriam esperar por um sinal. Que o momento certo enfim chegaria. Mas os anos passavam, e aquele estranho dia nunca vinha.

Até que o dia enfim chegou. A revolta aconteceu em plena madrugada, enquanto o carregamento era içado, uma carga tão grande que arrebentou metade das cordas, derrubando toneladas de ouro. Os feitores fizeram os chicotes estalarem devido ao acidente, um dos escravos reagiu. Foi morto na mesma hora, uma espada atravessada ao ventre. Mas não se calou. Gritou. Um grito de esperança. Um grito de ódio, preso há muito na garganta.

Ele sequer lembrava de quem era a voz. As lutas começaram ao mesmo tempo. Pedras foram usadas para destruir correntes e amassar crânios. Feitores jaziam por toda a volta, havia gritaria e confusão. As cordas subiram depressa. Tinham sido aliviados do peso do ouro, e agora subiam carregadas de gente. No topo da colina, uma parede de escudos aguardava enquanto um machado cantava sobre as últimas cordas do guindaste.

Teve apenas uma chance. Outro segundo de hesitação lhe teria custado a vida. Outros quedaram-se de volta ao fosso. Morreram de queda, quebrando o pescoço ou a coluna no escuro. Parte dos fugitivos, alguns que foram escondidos por toda a vida,  pereceram na ponta da espada do da flecha. Provavelmente outras dezenas de homens seriam punidos nas profundezas nos dias vindouros. Se um único escravo não tivesse logrado êxito, a revolta seria totalmente apagada da memória em poucos anos, seja com ferro, seja com fogo. Medidas seriam tomadas para que ela não se repetisse, e tudo seria em vão.

Mas ele conseguiu.

Estava livre, e isso era incrível. Tinha braços grossos como toras e uma mente esperta e atenta. Aprendia rápido, agia por instinto. E corria como nunca. Sabia perfeitamente que era a esperança única de seu povo, a chance de livrar sua gente do martírio. Só precisava sobreviver por mais algum tempo. Só precisava fugir até se tornar forte e conseguir ajuda. E então voltaria, e os seus iguais veriam a luz.

Ele ainda não tinha um nome.

Mas faria um.

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About Marlon Teske

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.