Crônicas de Meliny — 004 – O Último Lorde Negro

— Isto está péssimo. Quem falava era Arathan. Um homem velho, beirando aos quarenta. Seus cabelos longos amarrados às costas eram escassos no topo do crânio, onde uma cicatriz de […]

— Isto está péssimo.

Quem falava era Arathan. Um homem velho, beirando aos quarenta. Seus cabelos longos amarrados às costas eram escassos no topo do crânio, onde uma cicatriz de espada alongava-se através da face até sumir sob a barba negra pontilhada de fios grisalhos. Vestia uma malha de couro sobre um casaco de lã e nos ombros trazia o manto escuro feito com um tecido grosso e encimado por pele de lobo negro que lhe protegia do frio. A marca de Lutia destacava-se; um círculo branco bordado em forma de crânio, igual ao que enfeitava o escudo redondo cheio de marcas de luta.

Naquele momento, aplicava desajeitadamente um emplastro fedorento feito com ervas e urina sobre o corte profundo no braço do companheiro com trajes semelhantes; um infeliz chamado Detlef. Estavam em torno de um fogo miserável alimentado com afinco numa clareira protegida do vento no bosque, mas mesmo assim o frio mordia a cada movimento que faziam. Não havia neve ainda, mas apenas por que o tempo estivera anormalmente seco. Mas ela não tardaria a cair, junto com a primeira chuva do inverno.

— Uma de minhas mulheres certamente faria melhor… E seria muito mais carinhosa – prosseguiu Arathan ao afastar-se do ferido para sentar-se próximo — Mas se eu a visse fazendo carinhos em você, teria que matá-la.

— Deveria me matar ao invés dela — arquejou o outro em resposta. Tinha por volta de dezesseis anos, quatro deles passados nos ermos e estava morrendo de infecção. Tremia convulsivamente, batendo o queixo fino mais pela dor do que pelo frio. Seus olhos eram de um azul lívido, e os cabelos louros secos como palha de celeiro, e igualmente imundos.

— Há muitas mulheres, mas só um feiticeiro — respondeu ele.

— O último feiticeiro de Lutia. E este é o seu fim. — disse tentando fazer o título parecer importante, e então, exausto, chorou. E as lágrimas marcavam seu rosto sujo de sangue quando o outro voltou-se para ele e o estapeou uma, duas vezes, segurando-o pela capa e apontando o dedo com as unhas negras por terem sido prensadas por outro escudo. Com voz de trovão:  

— Lutia não vai acabar enquanto eu estiver lutando!

— Lutia já acabou! Ela morreu quando Vyrr caiu com o enxame os soldados de Zarrus — respondeu Detlef irritado — O que nós somos hoje não chega a ser sequer uma sombra. Você é o último Lorde Negro, está sem homens, sem terras e sem posses. Aceite a verdade, Arathan. Lutia não vai se reerguer. E não será um feiticeiro, e nem mil deles, que irão lhe devolver tudo o que você perdeu.

Arathan trincou os dentes de raiva. Sua mão que já estava a meio caminho do punho da espada conteve-se, e ele respirou tentando acalmar-se. Precisava do maldito Detlef mais do que nunca, e não havia sentido algum em matar seu último vassalo. Ele havia sido ferido no combate em que os outros cinco Senhores da Sombra foram mortos pela Ordem. E agora só restavam os dois além do baú velho que tinham jurado proteger.

Era um caixote de madeira escura, com a mesma marca do crânio que estampava seu escudo. Este parecia sorrir da tragédia que havia se abatido sobre todos os sobreviventes do velho reino. Desde o desaparecimento de Achenedai, há oitenta anos, os Lordes Negros haviam lutado entre si pela coroa. Sem um líder forte, as disputas internas tornaram-se constantes e uma a uma das velhas cidadelas tombaram. Quando a deslealdade enfraqueceu até mesmo o poder dos seus exércitos, a Ordem aliada ao Castelo de Ferro interviu, caçando e matando a  todos. Todos menos aqueles dois. Agora arrastavam-se levando aquele peso morto consigo, retardando-lhes miseravelmente a marcha de fuga.

— Se nós estamos vivos, significa que Lutia ainda existe.Eles nos temem, por isso estamos sendo caçados.

— Eles apenas querem vingança — lamentou Detlef e seu braço latejava. Havia sido cortado por um Caçador de Magos, e a ferida cheirava a carne podre — As terras do sul estão definitivamente perdidas, consumidas pela maldição que acorda os mortos. Fomos traídos. Esta é a verdade, quer você aceite, quer não.

— Você pensa tão pequeno – rosnou Arathan — Nós ainda temos um último alento antes de nossa morte, e os bardos cantarão como dois homens derrotaram um exército e colocaram os Caçadores de joelhos.

— Eu estou morrendo! — respondeu o feiticeiro num ímpeto de raiva — E é apenas nisto que estou pensando. Todo o resto deixou de fazer sentido no momento em que senti a lâmina rasgar meus músculos.

Detlef silenciou de pronto ante o ódio evidente que transparecia a face de Arathan. Apertando com força o braço ferido, tentou desculpar-se. O guerreiro colocou-se de pé num átimo. Sem dizer palavra, caminhou até o baú e retirou de dentro da própria armadura de malha uma chave escura em forma de lua. Colocou-a com certa cerimônia no trinco, tremendo levemente. Voltou-se para o outro, e como que para evitar ser ouvido, sussurou:

— Você é um incrédulo maldito, mas é um feiticeiro e por isso deve receber algum crédito — disse. O trinco demorou um pouco para ceder, mas enfim estalou liberando a trava mágica. Um brilho azul gélido escapou pela fresta, escorrendo lentamente até o solo — Eu mesmo só vi este baú aberto uma vez, e a chave só chegou até mim agora, pois os outros guardiões estão mortos. Então faça pelo menos o mínimo para tirar essa cara de cu de seu rosto.

— O que pode ser tão importante ao ponto de de arriscar a vida de seis Lordes Negros e seus vassalos por tanto tempo? — gemeu Detlef com o esforço necessário para endireitar-se – Que riquezas esconde?

Arathan apenas sorriu perante a dor sentida por aquele garoto imbecil e sua ignorância quanto aos mistérios do mundo. Com um gesto, afastou a tampa da caixa, revelando uma pilha de ossos muito antigos, a maioria em estado deplorável. O guerreiro olhou para ambos os lados preocupado com qualquer intromissão antes de dizer em tom de confissão:

— Nós somos… ou ao menos éramos um clã. Um grupo secreto, conhecido por poucos como Os Senhores da Sombra. Os primeiros foram escolhidos há muito tempo pelo próprio Achenedai. E não, nunca houve nenhuma espécie de vínculo entre eles e os que assumiram o fardo após suas mortes. Era um privilégio conquistado por mérito e confiança, não ligado a qualquer tipo de conveniência ou filiação.

— Este velho esqueleto — engoliu em seco — Vocês vêm protegendo isto?

— O próprio rei Achenedai! Só restou seu crânio, algumas vértebras… mas será o suficiente! — continuou o velho com a voz embargada de orgulho e admiração — Por quase duzentos anos os Senhores da Sombra o protegeram, aguardando pelo retorno profetizado. E no dia em que a vida voltar a soprar pelos seus ossos, seremos recompensados e Lutia ressurgirá. Os Lordes Negros novamente cavalgarão através dos prados, espalhando dor, medo e ódio entre os fracos!

Louco — pensou Detlef, mas não ousou falar — Todos eles, um bando de fanáticos. Até o último dos desgraçados,  viveram e morreram protegendo uma maldita caixa de ossos!

A profecia quanto ao retorno de Achenedai do mundo dos mortos surgiu praticamente ao mesmo tempo em que o velho rei desapareceu. Detlef ouvira uma quantidade significativa de boatos em tavernas e prostíbulos, e boa parte era apenas imbecilidade. Exceto por uma. Aproximou seu braço bom da borda da caixa, pensando em tocá-lo. Foi afastado de imediato por um rugido de Arathan que lacrou a caixa num rompante. Estava trancando-a novamente quando o garoto, aproveitando-se de um momento de distração, o atingiu em cheio na têmpora com uma pedra, derrubando-o. Logo um fio de sangue surgiu escapando por entre os cabelos.

— Velho maluco — falou, e suava pelo esforço. Puxou o manto escuro que trazia às costas, atrapalhando-se com sua única mão boa e o depositou-o desleixadamente ao chão, tombando a caixa de lado com um pontapé. Parte dos ossos rolaram dela, e Detlef recolheu-os rapidamente, jogando-os sobre o tecido e embrulhando-os em uma trouxa. E enquanto agia, praguejava, sua mente já muito à frente. Avançou até Arathan, arrancando-lhe o manto e também a chave.

— Então também sou um Lorde agora. O Último. Renuncio aos meus votos em seu favor. Sei onde pagarão bem por isto, se chegar até lá vivo. E você, congele até a morte, maldito seja, por todas as surras nestes últimos anos — completou Detlef com uma cusparada, e então, com o rosto marcado pela dor, recolheu a trouxa de ossos e pôs-se trôpego a caminho das montanhas.

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About Marlon Teske

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.