Crônicas de Meliny — 003 — A Espada

Isto é real? Era uma pergunta legítima, apesar de que poucos a faziam naqueles tempos. A imensa maioria das pessoas simplesmente não se importava com nada além daquilo que podiam […]

Isto é real?

Era uma pergunta legítima, apesar de que poucos a faziam naqueles tempos. A imensa maioria das pessoas simplesmente não se importava com nada além daquilo que podiam ver ou sentir. Bastava-lhes a comida forrando o estômago, uma bebida forte para turvar os pensamentos e afogar as dúvidas e alguém para aquecer-lhes a cama. De fato, muitos já morreram felizes apenas por nunca terem sido privados de nada além do estritamente necessário para sobreviver. Phillip nunca fora assim.

O lugar onde vivia era apenas uma pequena vila sem nome e sem senhor, como tantas outras que existiam em toda a parte naquele vale. Ninguém sabia de onde surgiram os primeiros que resolveram adotar o lugar para viver, tampouco quem cavou o profundo poço de águas escuras e frias que abasteciam todo o vilarejo. Sabia-se apenas que era um ponto de parada corriqueiro para aqueles que empreendiam a viagem entre o feudo de Narun e as montanhas ao norte, ou mesmo seguindo adiante até o mar gelado no extremo oeste. Era também ali que erguia-se a única estalagem para viajantes em um raio de vários quilômetros. Era chamada simplesmente de a Taverna do Poço.

Phillip pertencia a família Diattore, gente que vivia ali há décadas, sendo que praticamente todos os quase quarenta moradores do lugar possuíam algum grau de parentesco entre si, ainda que partilhassem apenas frações daquele sangue, pois tinham outros nomes que chegaram com a estrada. Os viajantes iam e vinham constantemente, exceto alguns poucos que apaixonavam-se por uma das garotas de cabelos castanhos e olhos verdes e ficavam, ou que viam ali uma oportunidade de viver bem através do comércio com as caravanas de mercadores e também por isso estabeleciam-se.

Ele próprio era um pouco de ambos. Chegara ao Poço como mascate, apaixonara-se por uma Diattore e conseguiu cair nas graças da família. Infelizmente, o infortúnio também o havia acompanhado desde então: a esposa havia falecido anos antes de doença, e o filho e a nora logo após em um ataque de varghs, os monstros que assolavam o vale durante os longos períodos de neve. Só lhe restara o neto, chamado Vicent. Neste momento o garoto era uma espécie de prisioneiro na própria casa.

Havia uma história contada e recontada através das gerações de que sempre deveria haver um Diattore próximo ao Poço, caso contrário, um mal antigo ressurgiria armado com uma lâmina amaldiçoada e destruiria a todos. Era uma crendice com base em alguma história ou lenda sem muito fundamento. Todos ali a conheciam e as recontavam para assustar as crianças e nenhum adulto em sã consciência havia dado qualquer importância ao teor profético da história. De qualquer forma, era fácil manter os Diattore próximos ao poço, pois era ali que estava tudo o que eles possuíam em vida. É provável que assim teria sido para sempre, caso Vicent não tivesse encontrado a maldita espada.

Fora na manhã passada. O poço havia congelado e Phillip o baixara até a linha da água para rebentar o gelo. Havia amarrado uma corda sob os braços do garoto para que este pudesse descer os mais de três metros de pedra lisa até o local onde deveria efetuar a tarefa. Já haviam feito aquilo centenas de vezes, sempre sob o matraquear insistente das mulheres da vila que precisavam encher baldes para cozinhar. Phillip virou-se para mandar que calassem a boca apenas por um segundo. Foi neste instante que Vicent escorregou e caiu sobre a camada de gelo noturno que quebrou-se sob o peso dele, engolindo-o em seguida.

O garoto tentou emergir no mesmo instante, mas o gelo girou levando a fissura para o outro lado da abertura, prendendo-se de viés contra a pedra e a corda que se partiu. Em parte pela surpresa, em parte pelo desespero, Vicent engoliu água e começou a afundar, o líquido gélido abraçando-o como um manto de agulhas. Estava ainda afundando quando viu uma velha caixa apodrecida entreaberta e um leve brilho rubro perdido que escapava dela em meio às trevas da morte.

Acordou algum tempo depois, sentindo fortes dores no peito e ouvindo os risos de alívio das mulheres em volta. Havia sido içado pelo avô e por alguns dos hóspedes da própria estalagem e desperto em seguida por um clérigo viajante que o colocou de cama imediatamente, temendo que adoecesse dos pulmões.

Trouxe a espada consigo.

— Ela parece bem real, para mim — comentou Vicent no outro dia, ainda sob os cobertores puídos enquanto bebia um vinho quente. Recuperava aos poucos do quase afogamento com a espada enrodilhada em um tecido sobre as pernas — Não me lembro de como, mas não podia deixá-la lá. Isso muda tudo, compreende? A lenda pode ser real.

— Ou também pode ser algum tipo de piada… — arriscou Phillip. Mas ele mesmo não acreditava muito nisso. — Disse que ela estava em um tipo de baú?

— Ou em uma caixa. A madeira se desfez com o tempo. Quem a terá deixado cair?

— A pergunta é outra, filho meu — respondeu Phillip coçando o rosto sob a barba rala — Porque alguém a deixaria ali após derrubá-la? Não sou exatamente conhecedor de armas, mas já fui um mercador. Sem dúvida isto vale uma pequena fortuna e não é o tipo de coisa que você simplesmente esquece no fundo de um poço sem um ótimo motivo.

— Tem medo da maldição da lenda? — sorriu Vicent — Do fardo dos Diattore?

— Você também o tem, posso ver em seus olhos. A espada parece ser tão velha quanto o próprio poço. Deve estar aqui há séculos. Desde os tempos do velho reino de Lutia.

Vicent espirrou, e depois ficou em silêncio, coçando o próprio nariz. Havia, de fato, uma chance daquilo estar há tanto tempo debaixo d’água, apesar de parecer ter recém saído da forja. Desembrulhou a peça com cuidado para olhá-la novamente. Era longa, larga como o palmo de uma mão e ainda assim tão leve que podia ser empunhada apenas com uma delas. O metal era outra incógnita: de um vermelho vivo e reluzente. Haviam ainda algumas runas entalhadas no aço, tão pequenas e delicadas que pareciam gotas de chuva.

— Gostaria de saber o que está escrito — falou, por fim.

— Nem todos os segredos devem vir a tona — comentou Phillip tocando-lhe um ombro e recolhendo novamente a espada — Descanse.

Era tudo o que Vicent precisava, mas não foi capaz de pregar os olhos por muitas horas. E, quando o sono enfim chegou, o fez repleto de pesadelos sobre coisas que ele nunca havia visto ou sequer compreendia, num mundo sem luz onde os mortos levantavam dos túmulos para o perseguirem. E por mais que ele tentasse escapar, as pernas pareciam presas ao chão e ele, invariavelmente, era alcançado e devorado até os ossos.

Ossos. Haviam caveiras gargalhando no escuro.

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About Marlon Teske

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.