Série – O Enigma das Arcas – Ato XXVII

Eu já sabia…

Druko até tentou reagir, mas continuava zonzo pelo golpe recebido e não foi rápido o suficiente. O Guerreiro lhe agarrou pelo pescoço e apertou até os olhos do bugbear perderem o brilho e ele cair de lado rumo a inconsciência. Só então o Guerreiro o soltou, se prostrando diante da porta arruinada e esquadrinhando o entorno.

— Primeiro um hobgoblin, agora um bugbear — se queixou Enemaeon passando pelo monstro caído — A milícia não tem feito um bom trabalho ultimamente. A favela anda muito mal frequentada. 

Enquanto isso, Felrond terminou de levar Matias para dentro do barraco de Emengarda. Depois, o cavalo e o grifo sem asas foram descarregados completamente e levados a contragosto até o fundo da viela. Um equino normalmente se sentiria desconfortável tão próximo de um predador, já que na natureza, grifos comem cavalos. Entretanto, o terrível animal parecia não apenas se impor sobre o bicho aleijado como quando em vez lhe presenteava com uma ameaça de coice ou mordida.

Dentro do casebre — apesar do falso luxo — tudo aparentava desgaste e miséria. O cheiro agridoce de suor, urina e fumaça era tão forte que podia deixar um homem zonzo. Havia poeira acumulada sobre os móveis puídos e manchas escuras de sangue e vômito nos tapetes antigos. De qualquer maneira, Felrond já haviam pernoitado em lugares muito piores e deitado em camas em estado tão lamentável quanto aquelas. 

— Onde coloco esse velho? — perguntou o elfo avaliando o peso diminuto do corpo magro e sem pernas do demonologista.

— Junto com o bugbear. Eles podem aproveitar a companhia e o cheiro um do outro por hora — respondeu Enemaeon batendo a porta meio quebrada atrás de si. O Guerreiro ficou do lado de fora, em guarda. Não foram necessárias palavras para tanto. A mera vontade de Enemaeon era correspondida por ele. Uma compreensão possível devido ao laço arcano que os unia e ao acordo implícito de que caçariam o bardo traiçoeiro o quanto antes.

O mago adentrou o recinto limpando as mãos em um lenço e passou a observar a opulência tosca do lugar. Vidros de diversos formatos, jarras de várias cores, tecidos espalhados aqui e ali num arremedo de decoração. Um incenso queimava, um cheiro doce demais. Sobre a mesinha baixa, um crânio humano ou élfico olhava de volta. Um monte de tranqueiras sem valor num buraco fétido, sujas e desorganizadas. Mas uma verdadeira mansão de confortos e luxo para os padrões goblins. 

— Pelo visto nada mudou aqui.

Após se livrar desajeitadamente de Matias, Felrond encaminhou-se até as garrafas ao fundo procurando algo para beber. Encontrou uma aguardente misturada com óleos e essências para dar sabor. Era bebida da pior qualidade, mas deu de ombros já se servindo de uma dose generosa num copo trincado. Vidro! Havia de fato certa opulência apesar do mau gosto. Combinações de cores vivas demais nas cortinas e nas almofadas desbotadas. Flores murchas em vasos quebrados. Pequenos luxos. Somava-se a esta combinação decadente um ranço de achbuld — uma droga alucinógena que exalava uma fumaça adocicada. Quase se sentia em casa.

Se jogou sobre um tapete do chão e voltou a se concentrar no problema. Enemaeon andava de um lado para o outro, batendo com o cajado ora numa almofada, ora numa parede. Parecia procurar alguma coisa, mas para Felrond outras perguntas deveriam ser feitas antes:

— Por que matar esse pobre diabo se, minutos antes, você era todo cortesia e amabilidade para com os goblins? Não imaginou que poderia gerar uma revolta nos habitantes da favela que custaria nosso pescoço?     

— Ele não está morto! Bom, pelo menos espero que não… — comentou Enemaeon sem dar muita importância ao fato. Novos passos, o cajado bateu três vezes em uma parede de madeira escura, ressoando um eco distante dessa vez. Enemaeon sorriu. O elfo, porém, estava sério:

— Juro que eu gostaria mesmo de dizer que a viagem até aqui está sendo agradável e fazendo algum sentido. Mas não está. O que uma visita a um puteiro goblinoide pode fazer por nós que possibilite salvar o pescoço de Garlor amanhã.

— Essa não é uma casa de tolerância, se foi o que passou por essa sua cabeça oca — respondeu Enemaeon ainda indo e voltando pela sala, procurando por seja lá o que fosse — É mais uma espécie de escola misturada com consultório. Emengarda mantém o lugar de pé com as previsões dela.

— Ela vê o futuro? — interessou-se.  

— Não, ela faz os clientes verem. Eles se drogam, e no meio da viagem conseguem vislumbres. É algo bastante questionável, eu sei. Por isso também é bom que fique aqui, longe da vista das autoridades.

— Isso não me diz nada sobre o motivo de virmos até esse lugar. Atravessar metade do reino por um chá de cogumelos não me parece produtivo. 

— Se lembra que visitei Grigori em Ridembarr? — questionou o mago. Felrond não lembrava, estava bêbado por quase todo o tempo naquela ocasião. Deu de ombros. Enemaeon prosseguiu:

— Grigori é um artista. Há muitos anos, a Academia Arcana lhe encomendou um mapa de Valkaria, feito em um papel especialmente preparado para mostrar os portais que ligam este mundo ao semiplano onde a Academia está. Digamos que consegui uma cópia antes de entregar a encomenda. Assim, pude confirmar que o portal da Favela Goblinoide ainda estava ativo e funcionando. Por isso estamos aqui.

— Por que diabos alguém faria um portal para uma academia de magos aqui no meio destes goblins todos?

— Por que um dos mais proeminentes membros da velha guarda da Academia também viveu aqui há muito tempo atrás, antes dos goblins chegarem até… — tornou o mago falando como se fosse óbvio. Largou o cajado e se ajoelhou no chão, passando a alisar a madeira com a ponta dos dedos, como se estivesse desenhando alguma coisa no tapete. Aos olhos do elfo, o necromante parecia um louco em plena atividade. Ele ainda falava enquanto rabiscava seja lá o que fosse:

— Apesar de sua aparente falta de interesse quanto ao assunto, esta pessoa em questão é importantíssima para meus; ou melhor, nossos planos. Tenho que falar com ela de qualquer jeito. Por isso, é imprescindível que consigamos invadir a…

— Nem mais uma palavra! — cortou Felrond num acesso de ira, arremessando o copo aos pés de Enemaeon. O vidro se estilhaçou espalhando o resto da bebida pela sala abarrotada. Arrependido de desperdiçar álcool daquela forma, bebeu direto da garrafa por um tempo. Depois de quatro longos goles, prosseguiu: — Nem pense em dizer que irá tentar invadir a Academia Arcana enquanto eu estiver sóbrio!

— É apenas forma de dizer. Estudei lá por anos. Ficarão felizes de rever um velho aluno.

— Você foi expulso!

Felrond se levantou e passou a caminhar de um lado para o outro, entornando o conteúdo da garrafa em bocados generosos. O mago apenas o observava indo e voltando, para frente e para trás por alguns instantes, até ser novamente encarado com o dedo em riste:

— Esta foi a última gota! Se não me disser agora mesmo de que maneira esta invasão absurda irá ajudar a salvar a vida de Garlor, irei embora e tratarei de salvá-lo eu mesmo!

— Nossa viagem até aqui não tem relação alguma com a aposta com Moranler, eu nem contava com esse problema antes de decidir vir. Por isso, igualmente, não há nenhuma relação entre invadir a Academia Arcana e salvar Garlor da forca. Estou lidando com um problema de cada vez, Felrond. E o problema original é encontrar os outros dois medalhões desaparecidos para decifrarmos…

Uma forte pontada de dor no peito do mago o fez se dobrar. Bufando, levou a mão direita para frente evitando cair de rosto no chão. Mas a dor não cedia, ao contrário, aumentava cada vez mais. A voz de Felrond diminuiu em intensidade, soando distante. Tudo o que restava agora era aquela dor absurda espalhando-se pelo corpo. Quando acreditou que estava prestes a sucumbir, tão rapidamente quanto veio, o acesso chegou ao fim.

— Enemaeon! — chamava Felrond, um tanto arrependido de ter sido tão rude, deixando uma preocupação crescente transparecer na própria voz. Era claro que sem o mago como guia ele próprio não seria capaz de regressar até onde Garlor deveria estar com a corda no pescoço. Por Glórienn, ele nem lembrava mais onde haviam marcado de se reencontrar. Além disso, o humano velho e esfarrapado era a coisa mais próxima que tinha de um amigo, apesar de tudo — Está me ouvindo?

— Sim. Estou ouvindo você — respondeu ele com clara dificuldade. Estava tão tonto que não conseguiu evitar vomitar. Após esvaziar tudo o que tinha no estômago, ergueu os olhos o suficiente para encarar o elfo, mas tudo o que via estava bem atrás dele, comodamente instalada sobre uma almofada vermelha, afiando as unhas em movimentos limpos e elegantes. A gata preta que o acompanhava por toda parte. A sombra que o perseguia através do mundo. Parecia se divertir com a situação.

Uma risada arranhada ecoou. Desta vez era o cego Matias que despertou. Ele se arrastava para longe do goblin tombado. Babava e arranhava os cotovelos e o rosto esforçando-se para sentar-se em um canto. E isto também Enemaeon ouviu, mas não tinha forças para fazer qualquer coisa em relação ao inimigo naquele instante. Endireitar o próprio corpo já estava lhe custando todas as forças.

— Você estava gritando — era o elfo lhe ajudando a sentar. O mago estava tão fraco que parecia feito de pano e não de carne — Vou chamar o grandalhão lá fora e então…

— O Guerreiro continuará de guarda. — murmurou ele movendo lentamente a mão esquerda, apalpando a madeira. Sentia-se tonto, fraco e os braços estavam dormentes. Sem dúvidas foi a pior crise que já enfrentara. O lado direito do rosto parecia inerte, os olhos continuavam fora de foco, as pernas frouxas não sustentavam seu peso — Nós…

— Foda-se — cortou Felrond — Fique calado agora, depois você me explica.

— Precisa mesmo de explicações? — a voz molhada de Matias era ofensiva — Ele não lhe disse nada sobre o pacto que fez com o demônio? Merodach nunca perde. Ele é astuto como mil cobras. E não se importa em exigir bondade se souber que isso será impossível de ser cumprido.

Felrond olhava para Enemaeon que continuava delirando, as mãos pendendo inúteis. Apenas as pontas dos dedos ainda acariciavam a madeira do chão. Matias, ao contrário, parecia ganhar forças conforme o outro definhava. Não se importou com as ameaças vazias do elfo, apenas prosseguiu falando, cada palavra soando como uma punhalada:

— Merodach exigiu que ele fizesse o bem! Ele sabia que a semente podre não poderia render frutos bons. Sabia que aquele que já foi chamado de Furta-Corpos apenas continuaria sendo pior e pior, pouco ligando para nada além de conseguir aquilo que deseja. O coração dele foi arrancado e agora jaz sob os pés do demônio. E a cada ato maligno, ele sente. Sente a vida se esvaindo, o corpo enregelando e morrendo. E sente Merodach se tornando mais forte. Isto é dor verdadeira. Dor que não pode ser suportada.

— Está dizendo que ele está mentindo pra nós? — gritou Felrond elevando-se diante do maltrapilho com um sorriso doentio. Dos lábios escorria o rum doce junto com um fiapo de saliva — E acha que está me contando algo que eu não sei? É claro que ele está mentindo, enganando e jogando com a minha vida e com a vida de todos que estão ao lado dele o tempo inteiro! É só o que ele tem feito. É só o que ele faz!

O rosto de Matias mostrava um sorriso duvidoso, os vermes lentamente dançavam dentro dos buracos onde deveriam estar os olhos. Talvez os infernos sombrios estivessem lhe recompensando por todo o sofrimento ao qual fora submetido, enfim. Felrond não lhe dava tempo para dizer nada. Prosseguia de ímpeto, furioso, bêbado, louco:

— Este puto me arrastou de uma vida servil em Tapista por metade do Reinado destruindo cada homem, velho, criança ou mulher que por ventura tivesse o azar de se tornar uma peça em seus planos. Ele tem jogado dados com a vida desde o desgraçado dia em que nos conhecemos!

— Exatamente! — berrou o demonologista com o dedo em riste, apontando para o lugar onde a voz de Felrond chegava — Ele é uma semente ruim, um servo do mal! Merodach o escolheu como arauto e cedo ou tarde o mundo inteiro pagará por isto!

— Infelizmente para você ou pro mundo, eu não ligo. — a voz de Felrond soava dura como gelo — Não ligo para as mentiras dele, para esse tal de Merodach ou para você. Por que, apesar de não poder me enxergar, seu monte de lama, eu sou um elfo. E pra mim Arton já está com um pé no abismo há pelo menos dez anos. Eu era a droga de um escravo numa porcaria de cidade de vacas até bem pouco tempo atrás. Agora eu bebo em honra ao meu próprio umbigo. E devo esta vida desgraçada ao sujeito que pagou por mim (ainda que com dinheiro alheio) e depois enfiou a droga do contrato que valia minha vida no rabo de algum tapistano!

Uma mão cansada pousou nos ombros de Felrond. Era Enemaeon novamente de pé, ainda que vacilante. Trazia a gata negra no colo, que olhava desconfiada para o mago e para o homem arruinado no chão. Enemaeon afagou o pelo macio do bichano por alguns momentos, reunindo forças e então aproximou-a da face desfigurada de Matias. O demonologista sorriu, os vermes agitando-se como nunca dentro das órbitas vazias e depois começou a murmurar palavras num idioma absurdo aos ouvidos humanos.

— Era toda a prova da qual eu precisava — falou o mago por fim caminhando até o lugar onde havia sofrido a crise, colocando com algum cuidado o gato no centro. Apoiou a palma da mão no chão e, agarrado ao cajado, arfou num último esforço. Um risco de energia mágica azulada girou no entorno, avançando sobre pontos invisíveis tal qual rastilho de pólvora, desenhando um intrincado símbolo no assoalho. Avançava em todas as direções, passando pelos pontos que Enemaeon havia tocado, marcando com um brilho arcano cada lugar daquela dança ritual. Os movimentos sem lógica passaram a fazer sentido.

Uma runa mágica girava em volta, crescendo e inundando tudo com energia azul. Neste ponto o encanto se alimentava sozinho. Quando atingiu o ápice, o brilho era tão poderoso que ofuscou os olhos daqueles que estavam ali. Até mesmo Matias, em sua cegueira, gritou. Após um período que pareceu arrastar-se, a luz arrefeceu deixando apenas um rastro em chamas no entorno do desenho – e de pé no centro um corpo feminino perfeito em todos os sentidos observava, nua e irada.

Cabelos negros, tão escuros quanto a noite, longos, caindo pelas costas até a cintura. Esvoaçavam mesmo sem vento, como se tivessem vida própria. Olhos amarelados, em fenda, transbordavam ira. Trazia nos pulsos um grilhão negro, com uma longa corrente que se arrastava até os pés e depois então subia de volta ao pescoço delgado. Uma tatuagem nas costas misturava a imagem de um felino com serpentes. Lábios vermelhos-sangue proferiam com voz de veludo:

— Você não tinha o direito…

— Este não é um jogo justo, tampouco limpo o suficiente para um conceito tão nobre — sussurrou Enemaeon buscando apoio em Felrond — Preciso de apenas um motivo para não matar você agora mesmo, menina.

— Ela está grávida — soou uma voz de velha surgindo por detrás das cortinas coloridas e chamuscadas por um fogo escuro que queimava lentamente sem se alastrar — E o filho é seu, Furta-Corpos. Será que isto é motivo suficiente para você?

Agradecimentos infinitos ao Alvaro Freitas pela ajuda com esse capítulo.

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6 Resultados

  1. Armageddon disse:

    Novamente o ato saiu bem atrasado… mas o tempo está bem escasso pra escrever e eu “me alcancei” durante a maratona de um ato por semana. Sei que tinha prometido um novo capítulo a cada quinzena, mas acho melhor repensar esse prazo e trazer um ato sempre que der, sem criar falsas esperanças.
    Então, da mesma maneira que pode sair um novo ato já na próxima quarta, o 28º capítulo pode sair só em outubro. Olhando agora, mesmo este aqui já saiu um pouco mais longo do que imaginei. Como sempre, qualquer problema, erro ou dúvida podem mandar que a idéia é corrigir o negócio mesmo antes de avançar pra versão em PDF.
    Já que estou papeando no comentário (pode, Arnaldo?) eu queria muito sair de Valkaria no ato 30, mas resolvi adiantar a resolução desse gancho que já vinha pendente desde o início do conto. Pra não perder o lance, criei outra confusão no finalzinho da trama. A idéia brotou hoje cedo também, então estou tão surpreso quanto vocês e o próprio Enemaeon com a notícia. XD
    O resultado disso são, no mínimo, outros cinco atos dentro da capital do mundo. E a eterna saga dá mais um passo além do esperado mais uma vez.

  2. Rodrigo Quaresma disse:

    Teske criando novas maneiras de se usar achbuld XD Agora fumamos xD

  3. Calvin disse:

    O conto é bimestral?

    • Armageddon disse:

      Do jeito que a coisa está, praticamente, Calvin hehe
      No início saia um novo ato por semana. Mas estou tremendamente atolado de trabalho neste fim de ano. Gostaria imensamente de publicar pelo menos a cada 15 dias, mas não vou prometer nada não até pra não frustrar quem está esperando pelas continuações.
      De minha parte posso prometer que elas virão, mas quando…

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