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Conto – O Fim da Jornada


 

“Não, não vá! Fique.

Há tantas coisas que eu queria dizer ainda. Por favor, não vá agora! Não me deixe aqui sozinho.

Daqui consigo enxergar a estrela, ela queima no céu. A terra prometida, Illana! Chegamos tão perto. E ainda assim estamos tão longe dela. Você ia gostar de ver isso!

Não, não me deixe. Não quero ficar só. Não quero morrer sem companhia nesse lugar esquecido pelas deusas.

Lembra do velho sacerdote da aldeia? O que ele dizia para nós, quando crianças?

Um dique que se rompe liberta a fúria das águas. Ela ruge em seu avanço devastador, e nada pode deter seu caminho. A água parece inerte, mas está ali. Querendo sair. Querendo tomar o mundo. Ela quer arrastar tudo em seu caminho, e nada pode detê-la.

Nada!

Ele dizia que nós devíamos romper nosso dique, sair pela vida. Tomá-la de assalto.

E foi esse o seu plano o tempo todo não foi, Illana? O seu sonho. Mas não o meu. Eu nunca fiz planos, nunca tive sonhos. Minhas águas nunca deixaram a represa.

E um potencial eternamente represado, não vale absolutamente nada. Nada.

Sabe? Eu só embarquei nessa peregrinação por sua causa. Por você, Illana! Não ligava para os outros, não ligava para coisa alguma. Desdenhava dos demais, fingia que era superior. Acho que era a maneira que eu tinha de me defender.

Eu era bem nascido. Mimado.

Não era forte como Yavinn e Taninn, os gêmeos. Diferente deles nunca soube o que fazer com uma espada, um escudo ou uma lança. Eram brinquedos perigosos do quais queria distância.

Não possuía a paciência ou a sabedoria que sua irmã Lavínia tinha para os velhos ensinamentos religiosos. A bondade necessária para cuidar dos enfermos, como ela fazia, com suas artes da cura.

Tão pouco era astuto ou determinado, como o Bran. Não tinha sua vivência, sua experiência com as coisas práticas. Seu ímpeto, sua malícia.

Ele sim foi um líder!

Foi por isso que você o escolheu, não foi Illana?! Por isso jamais passei de um amigo para você. Você me conhecia. Olhou dentro de minha alma, e enxergou como eu era fraco. Podre.

Como eu nunca iria alcançar nada. Uma falsa promessa

Mas todos eles se foram agora, por favor, não se vá também!

Sim, é verdade, eu me dedicava aos poemas e as minhas canções tolas… e nem mesmo a elas. Fazia só o que era necessário fazer e dizer pra seduzir mais alguma garota crédula de aldeia. Mesmo minha arte mágica, meus feitiços, eram meros truques perto das coisas milagrosas que você podia realizar. A magia foi algo que aprendi apenas para ter o que conversar com você. Um ponto em comum.

Com você era diferente. Você era especial pra mim. Sempre foi.

Ahhhh, era tudo tão fácil no começo! Tantas possibilidades! Nós éramos heróis, ou pelo menos acreditávamos do fundo do coração que poderíamos ser. O dia que deixamos o vilarejo tínhamos certeza que alcançaríamos o que ninguém nunca tinha alcançado antes.

A terra prometida. A morada dos deuses. Resplandecendo no pendor do mundo.

Uma terra áurea e brilhante, flutuando no firmamento. O lugar onde tudo o que nós desejássemos se tornaria verdade. E nós seriamos os primeiros a voltar de lá. Mas nem sequer a alcançamos. Mesmo agora só posso vê-la. Um fantasma bruxuleante no norte.

O que aconteceu conosco? Por que nada deu certo? Por que deixaram que nos perdêssemos ao longo do caminho?

Não queríamos ficar no vilarejo, isso era certo. Ele era pequeno, sufocante. Não queríamos acabar como nossos pais. Trabalhar durante anos para criar filhos imprestáveis como nós.  Esvair nossa juventude lutando contra a terra e o sol.

Não éramos a água de um dique que se rompeu, não queríamos tomar o mundo, como disse o sacerdote. Só agora percebo que estávamos fugindo o tempo todo. As nossas águas não tomaram a criação, elas vazaram aos poucos, e tudo que fizeram foi submergir um pequeno e diminuto vale.

Acreditamos que a vida de peregrinos seria fácil. E por um certo tempo, ela foi mesmo.

Não é, Illana?

Por todos os lugares éramos recebidos com sorrisos no rosto e interesse genuíno dos crédulos. Banquetes com pão, vinho, queijo e as mais finas iguarias eram feitos em nossa homenagem. Como se fossemos um amuleto de boa sorte ambulante.

Tão simples! Bastavam algumas palavras bonitas de Bran sobre nosso objetivo audacioso, algumas histórias exageradas que eu contava sobre os nossos feitos, ainda inexistentes, um pouco da sua magia, e ninguém, ninguém, duvidava que nós fôssemos os escolhidos do destino, os enviados das deusas, ou os salvadores de uma profecia antiga esquecida pelo tempo.

A Lavínia sempre nos enchia com seus sermões moralistas depois, lembra? Mas até mesmo ela não podia deixar de achar graça com aquela brincadeira. No fundo tudo aquilo não passava disso para nós. Uma brincadeira!

E então a coisa foi ficando penosa. Perdendo a graça.

Quando nos afastamos demais dos lugares habitados, logo percebemos que não iríamos muito longe sem saber conseguir nossa própria água e alimento. Havia as emboscadas de salteadores nas estradas e os uivos dos lobos nos bosques.

O sol. A poeira. A chuva. O calor. O frio. A sede. A fome.

Foi naquela época que Tannin morreu, mordido por uma cobra. Morte estúpida! Yavinn sempre culpou Bran por aquilo. E eu também o culpei, mas não disse nada a ele. Não queria magoá-lo. Por mais que eu o invejasse, nunca o odiei, Illana. Ele era como um irmão para mim.

Foi a partir dali que tudo começou a piorar.

Quando começaram a nos recusar abrigo, e nos tratar como simplórios não aceitamos aquilo bem. Era nosso direito. Estávamos numa missão maior que aquilo tudo.

É o que dizíamos.

O dia que queimamos aquela aldeia, sempre juramos que foram eles, os aldeões, que começaram a briga.

Não foram. Nós mentimos, Illana. Mentimos para nós mesmos.

Mas já era tarde demais. Havíamos nos tornado criminosos, e honramos aquela imagem, saqueando as demais vilas em nosso caminho. Outras ironicamente nós protegemos de seus inimigos. Mas sempre por um preço.

Não era pela riqueza. Não!

Era por que aquilo era fácil. Fácil e divertido!

Logo outros jovens como nós juntaram-se a nossa pequena companhia. Ah, os malditos, novatos! Sim, eram como nós no fundo. Queriam abandonar suas vidas, queriam conseguir em alguns dias as emoções e glórias que outros haviam demorado anos para alcançar.

E nós os alimentamos. Eu os alimentei. Com falsas promessas.

Quando nos demos conta havíamos nos transformado em um pequeno exército. Tornamos-nos o que jamais havíamos pensando em ser. Mercenários. Parasitas que viviam da morte alheia nas terras da fronteira, onde a lei dos reinos não podia alcançar.

Como eles nos chamavam, mesmo? Ah, sim eu me lembro – “A Matilha”.

Você achou aquele nome engraçado. Ele realmente nos caiu bem não é mesmo, Illana? Qual era diferença entre nós e cães famintos e preguiçosos, afinal?

Caçávamos em bando. Abatíamos as presas mais fracas.

Por fim, havíamos abandonado a imagem de bons peregrinos. Onde estava o que nos haviam prometido? Aonde, estava a estrela? Ela está ali, Illana. Queimando no céu! Mas nós desistimos dela. Não fizemos por merecer! Não perseveramos!

Jamais iremos ver a terra áurea. Jamais iremos ver qualquer coisa novamente.

Todo o saque e espólios que conseguíamos foram gastos nas noites do leste em bebida e diversão. Deixamos de avançar em direção ao norte. Viramos figuras conhecidas. Amados por uns, odiados por muitos.

Foi durante uma daquelas noites intermináveis que sua irmã veio a mim. Eu mal podia reconhecer a menina doce que ela fora outrora. Mas eu e ela acabamos nos casando.

Isso é, ela realizou o casamento. “Sou uma sacerdotisa, esqueceu? As deusas me concederam esse direito”. Ainda lembro como nós rimos quando ela disse aquilo. Tentei fazê-la feliz, Illana eu juro.  Por que o rosto dela me lembrava o seu.

Eu tentei.

Até o dia que cometemos nosso grande e derradeiro erro.

Vir para essa montanha.

Ouvimos falar do monstro, da coisa. Do seu tesouro.

“O bastante para passar o resto de nossas vidas em um palácio. Vivendo em conforto. Sem nunca mais precisar erguer uma espada, ou derramar sangue outra vez.”

Mas não éramos peregrinos, não peregrinos verdadeiros. Sabíamos matar gente, mas nossa fé não foi suficiente para abalar o demônio. O Tera.

Ele era uma das criaturas de pesadelo das canções das velhas tribos Anaani, aquelas que inúmeras vezes eu cantei para você, para tentar te assustar, lembra? As minhas canções, aquelas das quais você nunca sentiu medo, uma única vez, sequer. As velhas canções nas quais eu nunca acreditei.

Mas esse pesadelo era real.

Ainda posso sentir o cheiro de carne queimada, misturada ao odor de enxofre.  Todo nosso bando, nosso exército… dizimado em alguns minutos, convertido numa enorme pira funerária. Alguns entre nós enlouqueceram apenas de olhar para a criatura. Como Lavínia. Outros como Bran lutaram bravamente mas encontraram o fim no fogo que jorrava daquele inferno.

Não posso descrever aquele horror. Por que as deusas criaram tal aberração? Tento recordar o que presenciei há pouco, mas não consigo! Jamais havíamos lutado contra esse tipo de coisa antes.

Nada, podia afetá-lo. Nada! Nem a espada de Yavinn, nem a sua magia.

A culpa foi minha. Se eu tivesse prestado atenção às lendas. Se eu tivesse estudado os pergaminhos. Se eu tivesse treinado as verdadeiras artes de um peregrino poderia detê-lo. Se eu tivesse me esforçado mais, eu poderia tê-lo destruído. Vencido!

Mas desperdicei os dons que as deusas me deram, e elas me puniram por isso.

Tudo que eu pude fazer foi assistir petrificado, enquanto ele matava a todos. Enquanto ele te matava, Illana! Eu gritei! Eu roguei meus feitiços! Mas foi tudo em vão. Não pude proteger você. A garra me atingiu, e mal pude sentir quando despedaçou minhas entranhas e me atirou contra a árvore.

Não, eu não pude. Não pude proteger você. A culpa é minha!

E quando só eu e a coisa permanecemos, eu tive cosciência de meu pecado. Olhei para o abismo, e ele olhou de volta para mim.

E sorriu. A coisa sorriu.

Ela então levantou vôo, e desapareceu entre o éter das profundezas negras dos céus. E eu fiquei, aqui sozinho com você, e as cinzas de nossa matilha.

Por favor, não se vá!

Diga que irei ouvir sua voz estridente e insuportável de novo, seu riso desajeitado. Respire novamente. Você está fria, Illana! Todo o mundo está ficando frio e negro.

O brilho da estrela está se apagando. Posso finalmente sentir a dor vindo. Qual foi o sentido disso tudo? Por que viemos para cá?

Para quê existir, para quê amar, se terminamos assim?

Aposto que nossos pais ainda vivem. Todos os dias quando os sinos do templo soam, eles se levantam e vão para os campos. E quando a noite cai, eles voltam para suas casas e acendem velas que deixam nas janelas.  Ainda estão lá, na nossa velha e querida aldeia. Esperando a gente voltar. Você não quer voltar comigo, Illana?

Tentar tudo outra vez?

Não, tem razão, meu amor. Melhor não. Vamos deixar tudo assim.

 

Viver é muito cansativo.”

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