Série – O Enigma das Arcas – Ato VIII

A Morte lhe cai bem

O casario dos Anon em Paltar, apesar de já ter visto dias melhores, ainda demonstrava a pompa e o esplendor de tempos mais felizes. Uma época nem tão distante, em que o primogênito da família, Moris, ainda perambulava pelos vastos corredores, enchendo de alegria e sorrisos cada canto do castelo. Fosse com os gracejos costumeiros dispensados às empregadas mais jovens, fosse com o carinho que tratava os mais velhos, Moris sempre fora uma figura marcante, querido por todos, especialmente pelo velho e orgulhoso pai, Petrus.

Isso mudou há dez anos, quando repentinamente Moris partiu na calada da noite junto com um grupo de bandoleiros mercenários que se intitulavam aventureiros. Petrus ficou arrasado, adoecendo gravemente no mesmo ano. Os vários empregados lentamente foram substituídos ou dispensados até que apenas o mordomo, dois guardas e a governanta fossem mantidos, vagando como sombras no castelo de Anon. Isso até aquela manhã em que, milagrosamente, Moris retornou.

Estava novamente nos salões que lhe serviram de morada na distante infância, acompanhado de um guarda particular, uma charrete puxada por dois animais e belos trajes. Vencera na vida, para a felicidade dos criados e para o bem do velho pai acamado.

O que não sabiam, era bem verdade, que de fato não se tratava do mesmo Moris que os abandonara pelo gosto doce da aventura e pelas possibilidades trazidas pelas estradas infinitas daquele mundo. Tratava-se na verdade de Felrond, o elfo, disfarçado por magia.

— Confesso que acreditei que jamais iria vê-lo novamente, Moris — falou o velho mordomo que se arrastava lentamente na direção dele com ambos os braços erguidos. Felrond o abraçou afetivamente, sentindo um pouco de asco pelo odor de mofo e suor das roupas surradas. Podia ser apenas impressão, mas tinha quase certeza de que o mordomo havia urinado nas próprias calças.
— Esperava tão pouco de mim, velho amigo? — respondeu ele olhando de soslaio para Garlor, que deu de ombros. O clérigo de Hyninn estava mais interessado na prataria empoeirada da casa do que naquele pequeno golpe. De qualquer forma, enganar uma família esperançosa não era lá o pior dos crimes para um servo do deus da trapaça.
— Claro que não! Sempre o defendi da fúria de seu pai dizendo que o dia do regresso chegaria, mesmo quando todos perderam as esperanças. Tolices sobre sua morte trazidas pelos bardos agourentos atormentaram cada dia e cada noite desta casa. Mas veja só. Você de volta! Petrus ficará tão contente!
— Por falar nele, onde está? — perguntou Felrond procurando encerrar a conversa antes de ser colocado em alguma situação embaraçosa — Acreditei que viria me receber. Por acaso não está feliz com meu retorno?
— Ele caiu doente logo que você partiu — falou o mordomo com verdadeiro pesar — Não sai do quarto para nada, passando os dias de cama. Vou levá-lo até ele.
Felrond suspirou e agradeceu o convite do velho cujo nome não conhecia. Garlor ficou no térreo, distraindo ambos os guardas na porta com amenidades sobre prostitutas e acasos como se fossem companheiros de trabalho, enquanto do lado de fora dos portões Enemaeon aguardava na charrete, observando à distância.
— Quer dizer que vocês nunca entram no casarão? — era Garlor.
— Nunca — confessou um dos guardas dando de ombros — Recebemos instruções de Sanford de nunca abandonarmos estes portões, nem atendermos qualquer pedido que venha da parte interna da casa.
— Isso é meio idiota, não é? — falou o ladino, no momento pouco importando se seus conhecimentos sobre furtos fossem conhecidos por dois homens gordos e fora de forma como aqueles — Um ladrão jamais entraria pela porta da frente, a não ser que tivesse um plano em mente. Seria muito mais seguro dar a volta por trás, ou usar uma das árvores para alcançar as janelas do segundo piso.
— Foi o que dissemos à gorda e ao Sanford, mas eles não ligaram, afirmando que isso seria problema deles. A gente só fica no portão.
— Isso é realmente muito estranho — comentou Garlor sentindo a simplicidade do plano começando a acumular alguns agravantes — Por acaso alguma vez chegaram a falar com o proprietário da casa, o tal Petrus?
— O pai de Moris? Nunca! Quem nos traz o dinheiro sempre é o próprio Sanford.
— Que é o mordomo caquético — interrompeu Garlor.
— Sim, ele ou a governanta gorda, Palmira. Mulherzinha detestável. Faz o que bem quer nessa casa, inclusive nas costas do velho Sanford, pobre coitado.
— Entendo. — respondeu Garlor ainda mais desconfiado — Com licença, vou acompanhar Moris na visita ao pai, ou pelo menos ficar mais próximo dele para qualquer eventualidade.
— Que tipo de eventualidade poderia ocorrer nesta casa? — perguntou uma mulher obesa, com uma barriga proeminente ressaltada por um vestido escuro colado ao corpo. O cabelo oleoso unido em uma única trança e arrumado em forma de coque no topo da cabeça era grisalho e mal cuidado. A maquiagem espalhada pelo rosto gordo a transformava em uma espécie de sapo atarracado a primeira vista e algo muito mais feio conforme os olhos se acostumavam com sua fisionomia.
— Senhorita Palmira, suponho — falou Garlor com uma meia mesura, tentando ser gentil.
— Encantada, Presas de Prata — respondeu ela, sorrindo com os grossos lábios desiguais. Com um gesto único da cabeçorra, as ordens da gorda foram compreendidas e um dos guardas levou a espada de encontro ao pescoço do ladino. Garlor apenas suspirou aguardando pelo que viria. Fora reconhecido, bastava saber como.

(…)

Enemaeon estava parado do outro lado da viela que ladeava o Castelo Anon, aguardando os dois companheiros. O gato permaneceu ali por um longo tempo, lambendo o próprio pelo ou esticando-se ao sol quente da manhã. Não chegou a dormir realmente, pois volta e meia o mago lhe presenteava com um safanão, ou o chutava para baixo da charrete numa tentativa inútil de livrar-se dele. O fim de sua paciência felina chegou quando foi arremessado para dentro de uma carroça de legumes que passava, resolvendo então ficar um tempo longe do tão simpático protetor.

O gato saltou de cima da velha lona que cobria o carroção direto para o muro do Castelo Anon, e dele para a parte interior da propriedade. Caminhou furtivo por alguns instantes até avistar uma pequena ratazana fugindo veloz pelo quintal rumo a uma fenda nas pedras que sustentavam a parede leste da construção. Interessado, a seguiu.

O buraco era relativamente grande, até mesmo para ele. Uma vez dentro, descobriu-se no interior de uma sala completamente abandonada. Os muitos potes e latas, além dos móveis restantes, indicavam que possivelmente se tratasse da cozinha do casario, apesar de visivelmente não ser utilizada há muito tempo. A ratazana cruzou o lugar saltitando pelo chão de pedra quando de repente foi agarrada por alguma coisa atrás da velha porta de madeira.

Guinchando, o rato se sacudiu por alguns instantes até que o som de carne sendo arrancada se fez ouvir, e então apenas o silêncio. O gato ladeou o lugar mantendo-se oculto como podia nas sombras criadas pelo lusco-fusco da luz que atravessava as janelas de madeira apodrecida até poder vislumbrar o que havia dado fim ao seu almoço. Era uma mulher magra, feia e de pele ressequida. Estava de cócoras, trajando apenas velhos trapos e deixando a mostra coxas cobertas de feridas, comidas por pulgas.

Na boca, o sangue da ratazana escorria farto, enquanto os poucos dentes que lhe restavam nas gengivas escuras e inflamadas mastigavam a carne quente com prazer. Instintivamente, os pêlos do gato subiram junto com o arrepio que lhe percorreu as costas arqueadas, e um silvo de ira escapou-lhe do focinho armado, presas a mostra. Animada com o novo petisco, a mulher abandonou o que restara da primeira vítima e partiu veloz em direção ao felino.

Este, não desejando o mesmo destino, saltou veloz para o rosto da mulher, arranhando-a com vontade. Parte da pele flácida caiu com o golpe, ficando desconfortavelmente presa às garras afiadas. A mulher, no entanto, sorriu mesmo com a face descarnada. Pois não era mais capaz de sentir dor ou culpa. Era uma morta-viva, uma zumbi, e seu único desejo era alimentar-se do sangue quente, da vida. O gato disparou pela cozinha, ganhando a sala e as escadas tão veloz quanto podia. Ao chegar ao segundo pavimento, notou o som de passos em um dos quartos próximos e, subindo no corrimão que a separava da queda até o piso térreo, aguardou.

(…)

Felrond acompanhou o andar lento e desajeitado do velho mordomo até o último quarto do casario, em uma torre alta. Uma vez lá, alheio ao que ocorria no saguão de entrada, respirou aliviado ao notar que seria deixado sozinho com o suposto pai. Sanford abriu a boca sem dentes num sorriso e saiu arrastando os pés. O elfo tirou o pomposo chapéu e aproximou-se pé ante pé da suntuosa cama onde alguém dormia.

Os lençóis eram de um veludo grosso, vermelho e antigo, e a própria cama era adornada com o mesmo tecido em bandôs e rendas, além de travesseiros de penas tão grandes que praticamente encobriam o único ocupante. Alguns quadros de gosto duvidoso, um criado-mudo coberto de pó e um penico usado cheio de moscas eram toda a mobília, afora a cama que preenchia a maior parte do aposento. Os olhos de elfo logo se habituaram à ausência quase total de luz, fornecida apenas por uma vela única em um candelabro de cinco hastes, e então ele o viu.

Petrus Anon era um velho triste. Sem cabelos, a pele colada aos ossos magros, e os olhos profundos, vazios. Felrond fez menção de tocá-lo na cama, mas uma voz fria, lenta e arranhada brotou dos pulmões ressequidos, assustando o elfo que afastou as mãos, recolhendo-as de sopetão. Se os estalos vinham da cama ou dos ossos do corpo decrépito tentando colocar-se sentado, o próprio Felrond não conseguiu distinguir.

— É você, Moris? — perguntou, cedendo à gravidade, quedando sem forças e afundando no colchão macio.
— Sim. Sou eu pai — mentiu, dando sequência ao plano — Eu voltei.
— Eu sempre confiei em você, filho. Sabia que conseguiria. E onde está? — perguntou Anon, a mesma voz pausada, mas agora com um antigo fio de cobiça brotando na escuridão que eram seus olhos.
— Onde está o que? — tornou o elfo sentindo o suor frio escorrer-lhe pelas costas. Um acesso de tosse acometeu o anfitrião até que uma mão óssea, esquelética e gelada se fechou firmemente em torno do pulso de Felrond, com uma força maior do que ele supunha ser possível para um ancião moribundo como aquele.
— Onde. Está! — exigiu Petrus em um acesso de fúria. O pulso do elfo doía horrivelmente e para o próprio desespero, Felrond não tinha a menor ideia do que ele queria dizer.

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1 Resultado

  1. 19 de março de 2020

    […] Já leu o último capítulo? […]

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