Série – Enigma das Arcas – Ato VII

Movimentações

As ruas de Dahar, o último dos priorados de Ciela, eram ligeiramente melhor iluminadas e mais limpas do que as dos outros dois bairros independentes da cidade tripla. Sob o domínio de Ahlen, o lugar tornou-se um pouco mais do que uma mera cidade portuária de pequeno porte, atingindo proporções significativas e fulgurando em toda a região como o último resquício de dignidade de uma área miserável.

Dahar cresceu principalmente graças à força dos outrora vastos recursos da família Anon. Estes conhecidos burgueses comerciantes já haviam vivido dias melhores, mas ainda ostentavam títulos com o apego de quem não tem mais nada a perder e ainda menos a ganhar. O atual líder da família, Petrus, não passava de um velho alquebrado e senil. O único filho, chamado Moris, foi dado como morto há pelo menos dez anos, desde que sumiu de Ciela para nunca mais voltar.

E era naquele entardecer preguiçoso diante das colinas que separavam a zona portuária do bairro nobre de Dahar que Enemaeon se encontrava. Sentado em uma das cadeiras externas da Taverna Três Porcos, fumava pensativamente. Ao lado dele, Garlor girava uma faca entre os dedos, as pernas estendidas sobre uma segunda cadeira e os olhos semi-serrados, quase caindo no sono. O calor do fim do dia aumentava o cansaço dos viajantes, mesmo após uma travessia tão tranquila do rio.

— O que achou do plano? — perguntou o mago enfim, vendo que o clérigo dormitava. Garlor endireitou-se espreguiçando longamente antes de responder.
— Não sei o que pensar. Acho arriscado demais. Mas como não é a minha pele que estão arriscando, creio que dá na mesma.
— Felrond vai conseguir. Quando está sóbrio, é um bom mentiroso.
— Mentir é o mais simples em toda essa ideia. — chiou Garlor guardando a faca na bainha e pondo-se de pé — Mas e se o velho descobrir? Nem precisamos chegar tão longe disso. E se ele sequer desconfiar?

O mago não respondeu, permanecendo em silêncio com a fumaça girando próxima no ar parado. Garlor suspirou e decidiu não insistir com protestos, apenas aguardar. Instantes após, Felrond saiu da Três Porcos vestindo roupas ahlenienenses, portando-se afetadamente como um fidalgo da capital. A primeira vista parecia realmente possuir alguma coisa. Até mesmo os cabelos desgrenhados haviam sido penteados e amarrados em um único coque, delicadamente escondido debaixo de um chapéu de plumas.

— E então? — perguntou o elfo fazendo uma longa e debochada mesura. Garlor sentiu-se ainda mais inseguro ao ver aquilo, mas Enemaeon parecia confiante. Isto era um sinal de que quase tudo estava tão louco ou perdido quando parecia.
— E quanto às orelhas? — perguntou o ladino apontando para as longas cartilagens de Felrond, marcadas pelos buracos dos inúmeros brincos que usava.
— Para isso tenho algo aqui comigo — respondeu Enemaeon também se levantando, livrando-se das cinzas e guardando descuidadamente o cachimbo na algibeira. De lá, retirou um pergaminho velho ainda enrolado e preso com um fitilho azul — Mas o efeito não é grande coisa, por isso precisaremos ser rápidos. Sabem que mesmo em uma região de fronteira, Ahlen é Ahlen.
— Malditos traidores desconfiados — praguejou Felrond cuspindo no chão — Se souberem que não sou…
— Praguejar e falar mal do povo daqui é a primeira coisa que você não deve fazer. Precisamos distrair o velho por apenas alguns minutos até ele cuspir a localização do medalhão. Então, dali em diante, Garlor e Hynninn se viram.
— Não seria mais fácil torturá-lo ou algo do tipo? — era Felrond novamente, tirando pó dos panos e sobre-panos pomposos que vestia.
— Uma ação aberta seria fadada ao fracasso — explicou Enemaeon — São dezenas de criados, um grupo de escolta particular e um grifo.
— Ele tem um grifo de guarda? — surpreendeu-se Garlor — Ele mantém um grifo dentro do castelo?
— Tão velho quanto ele. Coisa de nobre. O bicho está meio-morto e fica trancado o tempo inteiro, não será problema. O caso é simples. Este pergaminho possui um truque ilusório. Graças a ele, o velho irá ver o que mais deseja diante dos olhos e será fácil convencê-lo de que Felrond é o filho perdido. Vestido assim, nem mesmo eu o estou reconhecendo como o elfo bêbado que é.
— Espere, onde conseguiu todas essas informações sobre a mansão? — preocupou-se Garlor. Enemaeon sorriu diante da pergunta do companheiro, sabendo bem do que se tratava.
— Fique tranquilo. Não foi de nenhum aproveitador ahleniense que venderia minha cabeça para o velho Anon. Desde que soube dos medalhões busquei ser bastante preciso quanto ao que enfrentaríamos. Esta seria, inclusive, a última jogada antes de partirmos até o ouro se nosso colega aqui não tivesse o cérebro embebido em álcool.

Felrond até desejou responder, mas não encontrou argumentos para tanto e ficou quieto, remoendo as criticas do mago.

(…)

Os passos pesados do imenso minotauro albino batiam de encontro à madeira escura do navio, o Tortura. Uma das naus mais temidas de todo o Mar Negro não apenas pelo poderio capaz de levar a pique as mais bem preparadas fragatas tapistanas, mas especialmente devido ao capitão conhecer os truques e subterfúgios dos marinheiros como ninguém mais. Moranler Silverdall, ex-corsário do grande reino de Tapista — e agora pirata para o terror dos antigos oficiais — era o braço forte diante daquelas velas.

Nas mãos grossas e marcadas pela lida com o mar, um fragmento de ouro refletia pequenos pingos de luz do lampião na face de touro rasgada aqui ou ali por golpes de espada. Os olhos rubros e a pelagem espessa incrivelmente branca eram imagens que traziam horrores antigos à memória dos inimigos e pesadelos até mesmo nos mais corajosos membros da tripulação. Mas, neste momento, não eram os comodoros da frota tapistana que vagavam pelos pensamentos dele, tampouco o destino de nenhum dos homens dormindo nas redes no porão do navio. A mente do capitão ocupava-se de um novo conhecido. Ou dois deles, aliás.

Lembrava-se nitidamente do dia em que comprara a cabeça de Felrond do mago em Kriegerr. Elfos em geral não eram boa mão de obra no mar, mas a lendária agilidade sobre as cordas faziam deles serviçais especiais no trato com os velames das naus. Podiam pendurar-se sobre os mastros como verdadeiros macacos, graças à agilidade inata. Era verdade que o humano havia inflado um pouco o valor do dito cujo na ocasião, mas isso era bastante comum entre mercadores de escravos.

Mas se havia algo que Moranler bem sabia é que não se podia confiar cegamente em ninguém. O preço primeiramente abusivo logo mostrara-se um engodo para evitar que o elfo fosse desvalorizado pelo comprador com uma oferta irrisória. Porém a negociação havia sido breve e um acordo conquistado rápido demais. Duzentos tibares de cobre, pouco mais de vinte peças de ouro e ele o pertencia. Fez questão de memorizar o rosto do vendedor e o nome também um tanto élfico para futuramente descobrir qual era a real relação entre os dois.

Não foram necessários mais do que alguns copos de rum para deixar Felrond bastante falador. Contou-lhe então o que sabia sobre a maldição que Enemaeon carregava no peito, sobre o equívoco durante a invocação de Merodach e a punição que lhe cabia. Por fim, pouco antes de cair e dormir entre os porcos por dois dias, confidenciou-lhe o verdadeiro motivo de encenar a farsa da venda. Silverdall, em um dos muitos butins, conquistara uma peça de ouro, parte de um conjunto que era a chave para um imenso tesouro perdido. E Enemaeon à queria.

O minotauro sorriu, assistindo aos primeiros raios do dia despontarem no horizonte e escondeu o verdadeiro medalhão por dentro da camisa suja e apertada contra os poderosos músculos cultivados nos remos durante os anos em que foi membro da marinha pretoriana. Urrou em direção às cabines fazendo do tombadilho calmo um formigueiro fervilhando de vida em poucos instantes.

— Rápido, bando inútil de mandriões! Icem as velas! Se não chegarmos à Dahar até o entardecer, prometo que vou arcar os mastros com o peso extra de seus corpos imundos! Palavra de Moranler Silverdall!

(…)

Após combinarem novamente as ações que se seguiriam, os três companheiros recolheram-se aos quartos da Taverna Três Porcos e dormiram profundamente até a madrugada do dia seguinte. Enemaeon alugou um quarto para si, enquanto Garlor e Felrond permaneceram no aposento ao lado. Por via das dúvidas, o mago colocou uma tranca mágica na porta de ambos para evitar mais surpresas desagradáveis antes do golpe. Felizmente para todos, a noite transcorreu sem problemas.

Após lavarem-se e comerem uma boa refeição matinal, Enemaeon cobriu a face de Felrond com o chapéu emplumado e numa charrete alugada, partiram em direção ao castelo dos Anon. Garlor ia a frente, conduzindo a dupla de cavalos um tanto cansados — mas não destoantes com o todo da região — através das ruelas de Dahar. Atrás, Felrond permanecia cabisbaixo. As mãos dele tremiam um pouco, resultado dos dois dias em que não lhe fora permitido beber nada além de água, mas estava lúcido. Enemaeon ia ao lado, fazendo-se de acompanhante.

Ao chegarem próximos aos portões o sol já ia alto, aquecendo a manhã abafada com o mormaço que soprava do rio. Enemaeon leu as palavras do pergaminho, tocando por fim a fronte de Felrond para selar o feitiço, baixando as abas do chapéu em seguida, procurando ocultar-lhe da melhor forma possível. O mago ouviu um longo suspiro do elfo ainda um pouco trêmulo e estendendo-lhe um pequeno frasco até então oculto entre as vestes, completou:

— Um trago apenas, Felrond. Ou melhor, Moris. Apenas para controlar um pouco essas mãos e a ansiedade. Tudo dará certo.

O outro bebeu e nada disse. Neste meio tempo, a carruagem atravessou o decadente pórtico dos Anon, subindo pela via calçada com pedras velhas e cobertas por um musgo ralo. Seguiu pela viela ladeada por plantas já ressequidas, meio mortas pela falta de cuidados até chegar diante dos portões do casarão, que se abriram lentamente. Uma dupla de guardas surgiu e colocou-se diante do caminho.

— Anunciem a boa nova! — berrou Garlor dando sequência ao plano, anunciando a dupla de trapaceiros atrás de si — Digam a Petrus Anon que o filho regressou ao seio da família. Anunciem a boa nova: Moris Anon voltou!

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