Série – O Enigma das Arcas – Ato IV

Rumo à Cidade Flutuante

Um casco de navio pesqueiro emborcado e a deriva era tudo o que um observador desavisado veria diante da passagem do Serpente. E esta era exatamente a intenção de Garlor ao construí-lo. Coberto de lodo e craca, a madeira escura semi-apodrecida da quilha avançava parcialmente afundada nas águas profundas do rio Panteão. Dentro dele a realidade era outra: o clérigo manobrava a nau protegido e seco, observando sua rota através de um espelho d’água magicamente preparado.

— Foi um bom trabalho este que você fez aqui, Enemaeon.
— Fala do espelho? Uma contribuição pequena se comparado com o todo deste navio. Ele é digno de pertencer a um clérigo da trapaça.
— Investi seis longos anos — falou Garlor visivelmente orgulhoso — Dezoito toneladas de madeira e ferro movendo-se levemente através das profundezas graças aos elementais do ar que aprisionamos naquele artefato em Tyrondir.
— Ainda não acredito que os clérigos entregaram aquilo de boa vontade para você.
— E com a melhor das intenções! — disse Garlor entre uma gargalhada e outra — Um pouco de pirotecnia de sua parte e os devotos acharam que eu era um enviado dos deuses. Me dariam suas filhas por uma noite se eu pedisse.
— Se bem me lembro, você dormiu com elas mesmo sem pedir coisa alguma.
— Detalhes — respondeu o trapaceiro com uma piscadela — Sim, é um bom navio. Pena que só você e eu gostamos tanto dele. Os navios mercantes o odeiam.
— Surgindo do nada, afundando o alvo e recuperando calmamente os tesouros do navio submerso. Fica bastante claro para mim o motivo deste desafeto. E para as autoridades, tudo isso não passa de entulho.
— Ou uma fera marinha. Os boatos estão começando a ficar mais criativos. Existe até uma recompensa para quem abater o monstro. Dez mil tibares!
— Oitenta mil tibares, na verdade — corrigiu Enemaeon batendo-lhe nos ombros com o cajado que carregava consigo o tempo inteiro. Podia parecer tolo à princípio, mas sem ele Enemaeon simplesmente não conseguia fazer magia alguma. Era uma espécie de fetiche mágico, um ponto de concentração para que o foco não ficasse disperso. Truque este sugerido anos antes pelo único amigo que fez na Academia e que sempre apresentou bons resultados.
— Oitenta? — surpreendeu-se ele — Não chegava a tanto a última vez que ouvi.
— É claro que chegava, e você estava ciente deste valor. Tem tanto medo assim que eu lhe traia por causa de uma quantia tão ridícula? Há pelo menos três vezes isso nos porões. Sem contar os tesouros.
— Você já fez coisa pior no passado. E por muito menos. — foi a resposta de Garlor, e aquilo encerrou o assunto pelo menos por algum tempo.

(…)

O vulto branco e carmesim que era Liandra avançava através das planícies repletas de bosques e pequenas florestas de Tollon. Alguns lenhadores que a avistaram correndo em lágrimas através da mata espalharam os boatos sobre uma Noiva Maldita, salpicada de sangue que trazia a morte. Estranhamente, pelos lugares que Liandra passava, realmente a morte se tornava mais palpável, apesar de manifestar-se apenas indiretamente. Um lenhador era atingido por uma árvore que caía, um doente finalmente sucumbia, uma complicação no parto trazia ao mundo uma criança morta…

Ela mesma não compreendia os motivos daquelas mortes, mas sabia que era a responsável de alguma maneira. Também não sabia o que a levava a correr como se tudo o que devesse fazer fosse apenas isso. Avançar sem rumo, levando dor ao mundo. Matando através dos bosques. Matando quem amava. Sangrando por dentro, mas estranhamente feliz em seu exterior. Sentia-se plena como nunca antes havia.

Foi em meio a pensamentos destoantes como estes que ouvira a música. Distante, muito além das árvores. O som a envolvia e a penetrava, através da pele e de seu sexo. Devorada, envolvida, Liandra correu ainda mais. A pele alva ignorando os cortes e os espinhos, o vestido erguido até as coxas se esfacelava nos galhos e arbustos do caminho.

Conforme se aproximava, além da música, uma voz macia e melancólica passou a tocá-la. Não a reconheceu, mas apaixonou-se por ela. Da mesma forma intensa que amara seu marido morto há poucas semanas. Sentiu-se suja por isso, e decidiu que deveria matar quem quer que fosse até expurgar aquele mal de sua vida. Até estar, enfim, em paz.

Enfim o encontrou. Estava sobre a colina, coberto de negro e com longos cabelos embranquecidos agitados pela brisa da tarde escapando pela abertura do capuz. Em suas mãos, um alaúde igualmente negro era dedilhado com perfeição. A platéia silenciosa arfava a cada nova nota, a cada sílaba por ele cantada. Liandra viu dezenas de outras como ela, vestidas de branco, salpicadas de sangue. A ira incontrolável desapareceu de seu âmago ao ouvir as palavras que o bardo declamava.

“Sofro. E não há cura para meu mal, nem mesmo nas sombras.
O cheiro das flores me guia até seu túmulo,
E lá me deito em busca de algum conforto que nunca vem.”

Músicas de morte, poemas fúnebres recitados para um exército de escravas. O bardo sorriu com sua boca sem fundo e os olhos negros como a noite davam boas vindas ao seu séqüito profano. O som de sua própria gargalhada uniu-se ao coro de lamentações das noivas e ao som tranquilizador do alaúde.

(…)

— Uma coisa que não ficou exatamente clara para mim em Ralcazar foi a fama que lhe persegue agora — comentou Enemaeon trazendo novamente a conversa com Garlor à tona. Havia percorrido quase três quilômetros através da foz do rio, aproximando-se do segundo priorado pertencente à cidade de Ciela, a cidade flutuante de Paltar. O clérigo olhou Enemaeon de soslaio, e com um suspiro respondeu.
— Matei muita gente nos últimos anos, velho amigo. Muito mais que o necessário.
— Por minha culpa, suponho.
— Sim.
— Naquela noite, em Deheon, eu não pretendia…
— Não. Eu sei que não. Mesmo assim, é difícil perdoar. Sabíamos que haveria luta. Todos concordamos. Mas não consigo mais dar valor a vida. Desde que Sandra morreu… entende? Se ela teve que morrer, porque poupar qualquer um?

As memórias voltaram à mente de Enemaeon. Lembrou-se de detalhes sobre aquela noite na taverna que há muito estavam enterrados pelo peso da culpa. Ele havia recém abandonado a Academia Arcana, expulso por mau comportamento e por certos trabalhos não autorizados no laboratório. Envolveu-se com o grupo de bandoleiros do qual Garlor Presas de Prata e Sandra Halden faziam parte. Com eles, saquearam e mataram por um longo tempo, até serem emboscados pela milícia imperial.

Quase todos foram mortos ou aprisionados naquela noite, sendo que do grupo com quase trinta membros, apenas seis conseguiram escapar. Feridos e sem nada além das vestes do corpo, vagaram a esmo através das florestas, comendo capim e bebendo de poças criadas pela chuva até alcançarem uma taverna à beira de estrada. O plano parecia simples. Invadir, render os donos do lugar, roubar apenas o que precisavam e partir.

Inicialmente tudo havia dado certo, mas inesperadamente um dos homens presentes resolveu reagir, avançando contra Enemaeon. O mago não era capaz de fazer frente contra um oponente direto em batalha, e Sandra partiu ao seu auxílio, dando as costas a um bêbado. Uma garrafa quebrada, um velho assustado e um golpe de sorte. Esta foi a combinação que pôs fim à vida de Sandra Halden.

Naquela mesma noite, após saquearem a taverna, amarraram todos os que lá estavam e incendiaram o lugar. Ficaram ali, assistindo com lágrimas escorrendo fartas pelos rostos sofridos até que o último grito de agonia dos queimados fosse engolido pelo crepitar das chamas. Não que aquilo fosse trazer sua companheira de volta. Tampouco apaziguar a culpa que sentiam.

— Não espero mais pelo golpe pelas costas, Enemaeon — disse Garlor por fim — Os mato antes. Dormindo às vezes, para evitar qualquer imprevisto.

O mago sentia-se tão responsável por aquilo tudo que não teve forças para falar mais nada. Nem sobre a missão que colocaria em prática nos próximos dias, tampouco pelo objetivo egoísta que o motivava. Viu de relance, através do espelho d’água, que os telhados vagabundos e sujos de Paltar já eram visíveis, e preparou-se para encontrar-se com o terceiro membro do grupo de busca.

 

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3 Resultados

  1. Trejes disse:

    É impressão minha ou bardos sempre dão melhores vilões do que heróis? Acho que é o terceiro conto que leio que apresenta um bardo como "vilão sinistro" da história…

  2. Armageddon disse:

    Nem sempre, acho, mas quando aparecem chamam mais a atenção. Nesse caso ele apareceu de vilão nem lembro mais bem o motivo. Deve ser pra fazer um contraponto aos bardos "bonzinhos" que também existem às pencas =)

    • Trejes disse:

      Cheguei a essa conclusão por experiência própria. Na minha mesa, nenhum jogador jamais jogaria de bardo (acho que só eu mesmo). Então, como Mestre, costumo usá-los como vilões recorrentes e o resultado sempre é interessante. Na verdade, uso bardos tanto como aliados quanto como vilões. O maior aliado do grupo até hoje foi um bardo meio-elfo (mas que acabou morto durante uma conspiração contra o grupo…).
      Aliás, havia esquecido de parabenizar o Ato IV. Ficou muito bom… parabéns!

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