Série – O Enigma das Arcas – Ato I

A Estalagem

Em alguns momentos durante a noite, as sombras em torno de Enemaeon de Ridembarr se tornavam mais espessas, sufocando-o em lampejos fúnebres de seu próprio destino. Via-se enclausurado em um sarcófago de pedra carmesim, envolto por uma quantidade infindável de vermes que pulsavam a sua volta, arrastando-se até cobrir completamente seu corpo. Ele próprio não se movia, sequer respirava, mas estava vivo de alguma forma. Profundamente mergulhado em um torpor que parecia ser eterno, apodrecendo com as mãos crispadas ante o peito. A carne era então devorada até os ossos, e eles se quebravam e esfarelavam até se transformarem em pó. Só então, após decompor-se completamente é que a dor lhe atingia.

Sua própria alma passava a ser sugada pela pedra, escorrendo e deformando-se em um misto de agonia e solidão tão intensas que o traziam de volta à realidade, banhado em suor e sentado de ímpeto em sua cama. Esta sequência onírica lhe assaltava quase todas noites, e não fora diferente naquela.

Aos seus pés, o gato negro desperto pelo sobressalto se espreguiçou de forma lenta, e depois sentou-se, observando-o. Lembrava uma velha esfinge — foi o pensamento que o assaltou. Odiava aquele bicho e a forma como ele aparentemente lhe seguia, mas não gostava de pensar muito nisto. Desde que ele havia surgido há quatro dias, tentou livrar-se dele várias vezes — mas nunca de forma definitiva.

Enemaeon sabia que o gato era o menor de seus problemas, ainda que não o último. Havia quase dois meses desde que encontrara o demônio Merodach pela primeira e última vez, e a breve lembrança já fizera com que instintivamente levasse a mão ao peito. Seu coração não batia. Continuava vivo, com todas as implicações que esta condição apresentava. Necessitava comer, dormir e efetuar as demais atividades que o classificavam como um homem comum. Entretanto, não havia mais nada comum em sua vida.

O ritual que trouxe seu algoz dos planos inferiores fora realizado de forma metódica e sem falhas. Perfeito, em todos os aspectos, e Enemaeon sabia disso. Ser perfeccionista era apenas uma das muitas características da qual se orgulhava e apesar de não ser um exibicionista, sentia um prazer mórbido quando estava certo. E o ritual era o certo sem dúvidas. Os procedimentos foram impecáveis. O problema todo não estava no cerimonial em si. A fatalidade o acometeu porque atraiu o demônio errado. Um muito mais forte e poderoso do que pretendia inicialmente.

Fatalidades tornaram-se extremamente comuns desde então.
O demônio escarneceu das proteções erguidas previamente, agarrou o mago pelo pescoço e arrancou seu coração. No lugar, além de um ferimento grotesco e que nunca cicatrizava, deixou uma pequena lembrança da inesperada visita. Uma pedra infernal chamada Coração do Corruptor, que se alimentava da maldade. E agora, alguém que apenas vivia em benefício próprio deveria aprender a ser magnânimo com a até então inócua e insignificante presença de outros seres vivos naquele mundo. Apenas se realizasse um ato de extrema bondade seria absolvido, e a pedra finalmente deixaria de existir.

Provavelmente seu corpo então pereceria, mas a alma estaria salva, e por um lado aquilo já seria relativamente satisfatório. Poderia, ainda, tentar enganar o demônio e matá-lo quando a hora chegasse. Isso provavelmente também acabaria com a sua vida, mas seria um pouco mais humano deliciar-se com este tipo de certeza. Danaria eternamente no inferno, mas o responsável já não mais estaria vivo para escarnecer dele. Opções.

Ergueu-se já sem sono, ou ao menos com a menor vontade de repetir as sensações que os seus sonhos evocavam e passou a concentrar-se em alguns dos tomos que levava consigo. Organizou-os à luz da lua de forma aleatória sobre a mesa, e então acendeu o lampião. A luz fraca espalhou-se pelo cômodo simples da estalagem mostrando as paredes sujas salpicadas de cal. As sombras que se projetavam nas telhas de barro cozido passaram a dançar de acordo com as evoluções da chama.

Abriu o tomo maior que carregava e desenrolou um velho papiro conseguido através de algumas negociações no mercado negro de Vectora. As letras estavam quase apagadas, e toda uma parte se perdera em um estranho e inexplicável chamuscado que devorava  a extremidade superior do papel. Estava traduzindo o tomo já há alguns dias, mas ainda não conseguira passar da segunda linha. O idioma abissal possuía poucos adeptos em Arton já que a grande maioria dos mortos não fala.

Quando revirou outro dos seus livros em busca da letra correspondente à figura de um tipo que se assemelhava a um crocodilo com chifres, o gato saltou sobre a mesa de maneira ágil mas não delicada, derrubando a tinta sobre seu grimório. Teve ímpeto de esganar o animal ali mesmo, mas suspirando profundamente, apenas o enxotou do quarto, trancando a porta atrás de si. Rangeu os dentes de raiva e retornou ao trabalho. Os motivos de Merodach passavam a fazer sentido.

Um demônio nunca jogava para perder. Se a melhor maneira de pegar alguém era exigindo que ele fosse bom, porque não fazê-lo? Enemaeon era um mago das trevas arrogante e que não media esforços para conquistar poder. Ele não era exatamente maligno, mas não se encaixava de forma alguma no estereótipo de uma pessoa boa. As mãos vacilaram em direção ao peito, e uma leve pontada se espalhou através de seu corpo numa breve torrente de dor.

Se seguisse seus próprios instintos morreria e seria escravo de Merodach para sempre. Um morto vivo privado de sua alma, destinado a sofrer e chorar para sempre os erros do passado. Merecia aquele destino, talvez, mas não era um homem que se conformava facilmente. Buscou controlar sua respiração e retornou até o pergaminho sobre a mesa. Releu o que já conseguira até então e um sorriso lhe tomou o rosto.

“Merodach, pai do mal
Sejas para sempre temido.
Entre as sete arcas da morte
Guardadas no túmulo de…”

O pergaminho era legítimo. E o guiaria em direção às respostas das quais precisava. Enemaeon virou-se em direção a janela do quarto e viu que o gato estava lá, encarando-o com aquele par de olhos amarelos enquanto lambia a própria pata. Agir de acordo com o que acreditava poderia ser considerado um ato de vilania aos olhos comuns. Mas, naquele momento ele estava apenas querendo saber com o que estava lidando. Aprender.

— Teremos uma longa viagem pelo visto, bichano — disse satisfeito, encontrando em um dos seus livros o significado para o crocodilo de chifres — Guardadas no túmulo de… Al-Kapeera.

Os olhos ágeis de Enemaeon correram através das linhas do livro, lendo sobre Al-Kapeera ainda em voz alta. Talvez por algum tipo de coincidência macabra, neste mesmo momento a luz da lua fora eclipsada pelas nuvens negras que avançavam. O trovejar de uma tempestade distante ressoava conforme as palavras brotavam de sua boca. O gato, assustado, saltou do beiral da janela e se escondeu sob a cama, deixando apenas o reflexo da luz do lampião em seus olhos manter viva a lembrança de sua presença.

— Al-Kapeera fora um guerreiro sagrado, servo dos deuses. Por muitos anos foi o responsável pelo templo que viria a se tornar seu túmulo, como protetor eterno das sete arcas que guardam os segredos de Marah, a Deusa da Paz.

O livro foi fechado em um único rompante de excitação. Segredos de uma divindade ligada ao amor, protegendo o sono de um demônio vil e traiçoeiro como Merodach era algo inusitado. Afastando os demais tomos da mesa, Enemaeon se concentrou no pergaminho original. Reconheceu um detalhe imprescindível para sua demanda ali mesmo. Um novo trovejar arrancou um miado assustado do gato que se ocultou completamente nas sombras. Àquela hora, os únicos olhos que brilhavam na noite eram os do mago. Em um canto quase deteriorado do pergaminho, a garatuja do autor deixava claro que estava na pista certa…

Al-Kapeera, paladino dos deuses.
Deserto da Perdição.

Sobre a série:

Em meados de 2006, um grupo de amigos me convidou para participar de um PBEM (o famoso jogo de RPG por e-mail) ambientado no mundo de Tormenta. Como este foi o primeiro cenário não-caseiro em que eu joguei, achei que seria uma boa oportunidade para desenferrujar o que lembrava ou deixava de lembrar sobre o mundo de Arton.

Pensei num personagem, e como de costume, enquanto o mestre organizava as coisas aprovando as fichas e históricos, resolvi escrever um conto introdutório sobre ele para ir publicando aos poucos para o grupo. Nada muito complicado, três ou quatro capítulos, dez páginas no máximo. Doce ilusão. Eu já devia saber que quando começo a contar uma história, eu nunca sei quando parar.

O PBEM acabou não acontecendo, e eu continuei digitando o “conto pré-campanha”. Um, dois anos passaram, e eu não estava enjoado dele e prossegui assim até chegar a quantidade absurda de texto que hoje tenho, ainda distante do final que imaginei logo para as primeiras páginas. Comecei uma história que se alimenta sozinha, com personagens sacanas com os quais acabei criando um tipo de laço. Estranho, eu sei, não me olhem desta maneira.

Então, após três (quase quatro) anos, achei por bem terminar isso de uma vez, publicando aos poucos o agora romance aqui no .20. Assim, compartilho com vocês o que já descrevi das desventuras de um mago amaldiçoado que precisa descobrir qual é enfim o Enigma das Arcas. O livro tem lá seus erros tanto de cronologia quanto de gramática pois resolvi que iria prosseguir de qualquer maneira até o desfecho, para então revisar tudo desde o princípio. Mas agradeço imensamente  a qualquer um que por ventura venha a me apontar esse tipo de coisa. Se catar um erro aqui ou ali, não se acanhem em dizer “mas tu é burro hein? Seiscentos não escreve com dois “S“.

Quem sabe até o fim teremos algo organizado para jogar num PDF ou coisa parecida?

Marlon “Armageddon

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16 Resultados

  1. Tek disse:

    Finalmente!
    Prevejo muito diversão para os que ainda não conhecem a saga.

  2. Trejes disse:

    Muito bom! Gostei da primeira parte e aguardo pela continuação… Parabéns! Só uma dúvida: Enemaeon é um mago das trevas e esse termo me lembra muito o kit de 3D&T do antigo Manual do Aventureiro. Por acaso ele foi criado inspirado naquele kit?

  3. Armageddon disse:

    A ficha original dele era para 3D&T sim, Trejes. Todas as campanhas que deram certo para nós on-line usaram esse sistema, pela praticidade e facilidade de rolar combates. Porém, no caso, é só um termo aplicado a ele. Enemaeon é (ou pelo menos foi) um necromante =)

  4. Ivan Piro disse:

    Ei, Armageddon, você terminou o conto ou está postando estas partes pra ganhar tempo e se forçar a terminar? 😛 De resto, você sabe, o texto está ótimo! O Enemaeon é um bom personagem e esta é uma boa saga. Bem que merecia uma ilustração…
    Abraço!

  5. Nume Finório disse:

    Eu não tinha lido ainda, mas gostei da idéia da maldição do Enemaeon, tu inventou ela, H?

  6. Erick disse:

    BOLA PRA FRENTE H!

  7. cochise disse:

    Olá. Eu sou Cochise César e já tentei fazer isso uma vez e não deu certo, mas pode ser que agora dê.
    Quero convidar você a contribuir com um portal colaborativo de RPG. Um lugar onde apareçam só os posts mais importantes, independentemente de quem seja o autor ou em que site ele esteja.
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    Mas há mais blogs do que se pode acompanhar, (aproximadamente 150) portanto seria necessário uma grande equipe para fazer uma seleção doque realmente importa.
    Agregadores colaborativos partem do princípio da autocensura para resolver esse problema.
    O autor sabe que os comentários que fez sobre as férias não são relevantes para pessoas que não sejam seus amigos. E ele sabe que o review de um jogo ou o novo NPC que criou é.
    A ideia é que ele divulgue seus posts relevantes para a comunidade através desse site. Assim, o melhor conteúdo da blogosfera é indexado aqui.
    Não publicamos aqui matérias completas, apenas chamadas, então o leitor interessado tem que ir ao blog de origem da matéria para lê-la por inteiro.
    Nesse negócio ganha o leitor ganha por ter acesso a um conteúdo filtrado e o autor ganha por aumentar suas visitas e visibilidade

    • Armageddon disse:

      Fala Cochise. Eu mandava os resumos pra lá sempre, mas eles simplesmente não eram publicados… e agora está funcionando?

      • cochise disse:

        Eles foram publicados até eu parar de atualizar o site antigo. (aliás o inomine ainda não recebe comentários… tente colocar lá essa madrugada) Nos arquivos da lista tem os motivos…
        Estou lançando de novo a idéia porque me incetivaram a fazer isso. Na versão anterior acho que os planos eram ambiciosos demais. Agora tenho a impressão de que vai ser melhor. Além do mais temos uma blogosfera mais estruturada.
        Agora ele foi relançado em nova plataforma e está funcionando sim =]

  8. Duca!!! =D
    Fikei só imaginando o potencial de um personagem desse num grupo de jogo! Caaarambaa! q massa!
    Sou muito avesso a esses "poderes da trevas" em meus jogos (sou um tanto maniqueísta), mas a sacada de um cara sendo OBRIGADO a ser bom?! Muito massa!
    Claro q isso exigiria do jogador uma boa dose de maturidade pra não resolver de repente chutar o pau da barraca e pronto. Me lembrou um pouco o Dark Schineider, do anime Bastard – apesar do contexto ser bem diferente.
    O texto está ótimo! =D
    braços!
    fica com Deus!
    té +

  9. dephlas disse:

    Tu pediu…
    4º parágrafo:
    "e a breve lembrança já o fizeram instintivamente levar a mão ao peito".
    Creio haver um erro de concordância com o "fizeram". Acho que deveria ser "fizera", ou "fez".
    Além disso, umas besteiras com vírgulas ao longo do texto, mas não sei ao certo se é estilo de escrita ou erro gramatical, então deixo quieto.
    Gostei bastante da história. Fiquei curioso e tou acompanhando sua evolução.
    Abraço.

  10. Horrorista disse:

    Eu acompanhei esse texto quando inicialmente saiu e gostei muito, e eu na epóca comentei que a idéia de um PDF final seria ótimo, pois condensa todo o conteúdo além de propagar bem o texto net a fora.
    Armageddon você está de parabéns muito boa sua narrativa.
    Horrorista.

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