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	<title>RPGista &#187; Enemaeon</title>
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		<title>RPGista</title>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XXVIII</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 20:02:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
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		<description><![CDATA[Tweet A Invasão da Academia Arcana - Enemaeon vai ser&#8230; pai? As palavras do bêbado Felrond chegaram acompanhadas de uma gargalhada de escárnio que inundava o salão abarrotado de quinquilharias...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="bottomcontainerBox" style="">
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>A Invasão da Academia Arcana</strong></p>
<p>- Enemaeon vai ser&#8230; <em>pai</em>?</p>
<p>As palavras do bêbado Felrond chegaram acompanhadas de uma gargalhada de escárnio que inundava o salão abarrotado de quinquilharias de Emengarda, a vidente. Uma das poucas, se não única humana que atuava em plena favela goblinóide. Tratava-se de uma ruína de mulher cinquentenária, de cintura tão larga quanto dois homens, suja, com um olho vazado substituído por um globo de vidro azul. Caminhava cambaleante, surgindo por detrás de uma cortina de contas e sementes que ainda chiava se movendo de um lado para o outro. Foi tal bruxa que trouxe a notícia de um descendente vindouro, fruto de uma noite inconsequente de luxúria do mago há poucas semanas.</p>
<p>- É uma isca e tanto, admito &#8211; falou Emengarda caminhando em torno da succubus com a mão apoiada sob o queixo, e seu olho único passava dela para o mago que observava fixamente a demônio &#8211; Em geral, é enviada até Arton para seduzir paladinos ou clérigos celibatários. Grandes heróis já caíram em desgraça perdendo-se entre as coxas de uma succubus. Estranho tal presente ser enviado até um necromante meio-morto como você, Furta-Corpos.</p>
<p>- E pensar que até cinco minutos atrás tudo isso era um gato! &#8211; caçoou Felrond observando detalhadamente cada palmo, cada curva do corpo escultural &#8211; O que, aliás, me leva a pergunta fatídica&#8230; Enemaeon, meu amigo&#8230; Onde estava com a cabeça quando sodomizou um felino?</p>
<p>- Faça um favor a todos e continue calado, Felrond &#8211; ralhou Enemaeon. Não tinha dúvidas de que de fato havia dormido com ela. Ela estava diferente na ocasião, é claro. A pele antes alva agora apresentava um tom rubro, ainda sensual, ainda irresistível. Mas os cabelos longos e escuros tinham o mesmo cheiro de flores e de sexo &#8211; A prostituta de Ridembarr. Achei que houvesse sido uma brincadeira de Grigori, ou de algum serviçal dedicado que conhece minhas preferências. Porém, aparentemente mesmo presa na forma em que estava, não pode resistir ao seus ímpetos.</p>
<p>A demônio sorriu com lábios perfeitos. Em um gesto calculado, estudado por séculos por uma criatura que nascera e fora criada para seduzir, desceu sua mão delgada pelo corpo nu, as correntes em seu pulso tilintando levemente conforme aproximava os dedos da vagina. Com eles, abriu levemente o sexo úmido e sussurou para o mago:</p>
<p>- <em>Miau</em>&#8230;</p>
<p>- E a corte dá por encerrada a seção! &#8211; gritou Felrond com um soco surdo na própria perna &#8211; Por que por todos os infernos os deuses não fizeram <strong>Thwor Ironfist</strong> assim?</p>
<p>- Por que provavelmente um elfo não saberia apreciar algo tão perfeito e pleno quanto ela, seu bêbado imprestável &#8211; resmungou Mathias prostrado e inválido em seu canto &#8211; É uma succubus. A simples visão de uma destas faz o inferno valer a pena.</p>
<p>- Palavras estranhas pra alguém sem olhos, meio-homem &#8211; cuspiu Felrond.</p>
<p>- Ele não pode mais enxergar o nosso mundo, mas ainda é capaz de vê-la, assim como qualquer outra coisa relativa ao reino dos mortos &#8211; disse Enemaeon que aproximou-se do ponto onde a gata o observava de volta, imóvel, tocando o clitoris em movimentos delicados e arfando pequenos gemidos de prazer. O mago afastou uma madeixa dos cabelos dela revelando o seio farto &#8211; É uma mulher-demônio de Sszzass, saída direto de seu plano infernal onde Merodach aguarda por minha morte.</p>
<p>- Fui doce, com você, não fui? &#8211; sussurrou ela &#8211; Você também não foi nada mal. Eu estava tão carente, tão faminta. Presa no corpo de um animal, sendo maltratada por meu garanhão dia após dia, abandonada&#8230;sozinha. Foi tão bom sentir você em mim, foi único. Não vejo a hora de ter mais!</p>
<p>As mãos do mago desceram pelo corpo delgado dela e pousaram sobre o ventre rubro. Podia sentir a vida pulsar ali. Com uma reprimenda a si próprio, exclamou com pesar:</p>
<p>- Criança desgraçada! Nunca quis ser pai, fui um fardo para o meu por tantos anos que evitei que o mesmo ocorresse durante toda a minha vida. E agora, quando a semente vinga, tenho isto. Um infeliz filho de um bastardo e uma succubus. Emengarda&#8230; você conhece em parte o futuro. Tenho o direito de matá-los? Não é o melhor a fazer?</p>
<p>A bruxa soltou um arquejo, e com um sorriso debochado no rosto sentenciou:</p>
<p>- Nada do que fizer irá apagar seu erro, Furta-Corpos. Se a matar hoje, seu futuro andará ao lado. Ela não passa de maldade, mas apesar de tudo, a criança é parcialmente inocente. Ele é seu fardo.</p>
<p>- Outro&#8230; &#8211; ponderou o arcano apoiando-se em seu cajado. Afastou-se então da gata e avançou através da sala, passando por Emengarda e dirigindo-se ao ponto onde a mesma havia surgido. Como bem sabia, atrás das cortinas imundas só havia uma parede escura de terra e pedras, pouco abaixo do banheiro que gotejava lá fora. Uma olhadela em direção a anfitriã entumecida foi suficiente, e com um suspiro profundo, proferiu:</p>
<p>- Podemos fazer isso do modo difícil, se preferir.</p>
<p>- Não há necessidade &#8211; respondeu a mulher dando de ombros &#8211; Você não irá muito longe uma vez que colocar seus pés na Academia. Será morto rapidamente e todo este episódio esquecido.</p>
<p>- Isto é uma previsão ou pretende me amedrontar, velha? &#8211; comentou o mago tocando a fuligem escura com a ponta dos dedos &#8211; De uma forma ou de outra, guarde a verdade para si. Apostei a vida de um amigo contra todo o ouro que encontrar de que seria bem sucedido em minha viagem. E não desejo saber o resultado de antemão. Isso torna a aposta mais interessante.</p>
<p>- Mas não me deixa nem um pouco ansioso pelo que virá &#8211; resmungou Felrond levantando-se do lugar em que estava e por muito pouco não caindo ao chão. O efeito do álcool começava a espalhar-se por seu corpo turvando-lhe os pensamentos e tornando os movimentos difíceis. Enemaeon o observou de soslaio, agarrou uma garrafa na estante e a arremessou para o companheiro que a apanhou em pleno ar. Ainda não estava bêbado ao ponto de permitir que uma boa bebida se perdesse.</p>
<p>- Você fica, Felrond &#8211; sentenciou o mago &#8211; Preciso que alguém permaneça de olho na velha vidente. Duvido que algum goblinóide venha a entrar aqui com Vingança à porta. Entretanto, ela precisa ser vigiada. E além disso &#8211; comentou apontando com o cajado para a mulher-demônio &#8211; Isso também precisa de atenção. Será capaz de vigiar as duas ao mesmo tempo?</p>
<p>- Não pode enfrentar a Academia Arcana inteira sozinho &#8211; protestou o elfo.</p>
<p>- Não, sozinho não. Por isso Mathias irá comigo.</p>
<p>Tanto Felrond quanto o demonologista aleijado estavam prestes a protestar quando o mago virou-se na direção de Mathias e pisou-lhe violentamente sobre os dedos da mão. A ruína de homem gritou de dor mas Enemaeon não afrouxou um único milimetro. Com a ponta do cajado, o mago tocou a carcaça moribunda do hobgoblin decapitado. Esta passou a tremer com violentos espasmos irregulares até que por fim de um processo que durou alguns poucos instantes, levantou-se. O elfo observou a horrenda cena impassível, voltando seus olhos da garrafa e para o hobgoblim uma vez mais até dar de ombros. Monstros mortos e sem cabeça poderiam levantar, afinal de contas. Nada que magia ou bebida suficiente não explicassem.</p>
<p>Trôpega, a carcaça morta-viva cambaleou para frente e para trás, sem encontrar equilíbrio, tateando o chão com seus braços longos e peludos até encontrar a própria cabeça. Só após encaixa-la no lugar onde ela deveria estar é que pareceu conseguir melhorar sua coordenação, permanecendo relativamente imóvel. O sangue do corte ainda escorria, junto com os fluidos liberados com o relaxamento definitivo do corpo após a morte .</p>
<p>- Faça-me um favor, Felrond &#8211; falou Enemaeon levantando o pé enfim. Mathias, gemendo, levou os dedos encarquilhados à boca, tentando aliviar a dor latejante. Tinha perdido duas unhas. O mago prosseguiu com suas explicações &#8211; Preciso de um corte limpo no ventre do bicho, da esquerda para a direita. Haverá pouco sangue, garanto. Mas as tripas podem atrapalhar, se puder&#8230;</p>
<p>- Não na minha sala! &#8211; gritou Emengarda apontando para o lado de fora. Enemaeon ignorou-a, prosseguindo com as explicações. Ainda sentia-se fraco depois do ataque que sofreu e do gasto demasiado de magia arcana &#8211; Se puder remover os intestinos, eu agradeceria. Preciso de espaço.</p>
<p>O elfo bebeu um último trago antes de girar o corpo e num corte perfeito realizar a tarefa pedida. Não foi necessário muito esforço. Logo o conteúdo funesto da criatura derramou-se sujando os tapetes velhos de forma irremediável. Emengarda gritou de raiva, mas nada poderia fazer ainda além de amaldiçoar Furta-Corpos com um futuro terrível e breve. Muito breve. Mathias debateu-se furioso quando Felrond o ergueu e com certa dificuldade colocou sobre os ossos da bacia do hobgoblin. Tocando uma vez mais a pele esverdeada do monstro com seu cajado, Enemaeon fez com que os ossos das coselas se fechassem uns sobre os outros, prendendo o velho inimigo lá dentro.</p>
<p>- Mathias, considere o hobgoblin como um presente meu. Dentro de algumas semanas, se você sobreviver ao pequeno serviço que tenho para você hoje, toda a carne dele já terá apodrecido e caído. O esqueleto, porém, continuará funcional. Se você parar de debater-se e me amaldiçoar no idioma infernal por dois segundos, irá notar que ele responde aos seus comandos mais básicos com apenas um pensamento. Também irá notar que o seu poder mágico foi anulado. Ele está sendo drenado para manter o monstro funcional. Uma precaução menor: utilizei sua própria energia mística para realizar o encanto e lacrá-lo ali dentro. O pisão, confesso, foi gratuito. Considere um acerto de contas final. Emengarda&#8230; a senha do portal. Agora.</p>
<p>- Vectorius Fede &#8211; falou a entumecida mulher à contra-gosto. No fim da sala, a terra pouco a pouco começou a escorrer para dentro até que uma luz azul esverdada começou a dançar, girando em direção ao nada. Emengarda estava furiosa, mas não podia confrontar Furta-Corpos num combate entre magos, mesmo estando ele muito mais frágil do que há vários anos. Ele conhecia a necromancia, uma das mais perigosas e letais escolas de magia. Ela era uma maga de combate medíocre. Sua especialidade sempre foram as previsões astrológicas, o estudo das profecias e a futurologia. Não por menos era aluna favorita de&#8230;</p>
<p>- Madame Blavatzky! &#8211; falou a velha sem querer &#8211; O que você quer com Blavatzky, Furta-Corpos? Acha que ela é capaz de ver além do que eu própria fui capaz?</p>
<p>- Sem dúvida alguma, ela é a única que pode me ajudar agora, Emengarda &#8211; disse Enemaeon dirigindo-se ao portal. Instintivamente, o zumbi hobgolin o seguiu, apesar de Mathias tentar evitá-lo a todo custo. O mago notou a tentativa e divertiu-se &#8211; Como disse, você estará livre <em>depois</em> de me ajudar em minha demanda. Considere uma promessa. Não pretendo fugir às minhas responsabilidades. Nunca mais. E Felrond, repito: ninguém sai. Caso eu não regressar até o nascer do sol, mate a succubus e fuja.</p>
<p>O elfo acenou uma única vez, bebendo um longo gole em seguida. E sem dizer mais nada, o mago caminhou em direção ao portal, desaparecendo através dele sendo seguido de perto pelo seu servo desmorto.</p>
<p><em>Continua&#8230;</em> (pra sempre pelo visto! XD)<br />
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XXVII</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Sep 2011 15:33:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Eu já sabia&#8230;</strong></p>
<p>Vingança prostou-se ante a porta com a espada em punho esquadrinhando o entorno enquanto Felrond puxava Matias pela lama para dentro do barraco de Emengarda. O cavalo negro Tormenta e o grifo sem asas que serviam de montaria para o elfo foram puxados à contragosto até o fundo da viela. Um equino normal sentiria-se desconfortável tão próximo de um predador, já que grifos, normalmente, comem cavalos. Entretanto, o genioso animal parecia não apenas impor-se sobre o judiado e aleijado grifo como quando em vez presenteava-lhe com uma ameaça ou mordida.</p>
<p>Dentro do casebre &#8211; apesar do falso luxo &#8211; tudo aparentava desgaste e miséria. O cheiro agridoce de suor, urina e fumaça era tão forte que podia deixar um homem zonzo. Havia poeira acumulada sobre os móveis púidos e manchas escuras de sangue e vomito nos tapetes antigos. De qualquer maneira, Felrond já haviam pernoitado em lugares muito piores e deitado em camas em estado tão lamentável quanto.</p>
<p>- Onde coloco esse velho? &#8211; perguntou Felrond avaliando o peso diminuto do corpo magro e sem pernas do demonologista que capturaram logo cedo no portão sudeste.</p>
<p>- Sobre a carcaça do outro goblin. Eles podem aproveitar a companhia e o cheiro um do outro por hora &#8211; respondeu Enemaeon batendo a porta que protestou. Vingança ficou do lado de fora, em guarda. Não foram necessárias palavras para tanto. Já a algum tempo a mera vontade de Enemaeon era correspondida por Vingança. Uma compreensão possível devido ao laço arcano que os unia e ao acordo implícito de que caçariam o bardo traiçoeiro que lhe tirara a vida na primeira oportunidade.</p>
<p>O mago adentrou o recinto limpando as mãos em um lenço e passou a observar a opulência tosca do lugar. Vidros de diversos formatos, jarras de várias cores, tecidos espalhados aqui e ali num arremedo de decoração. Um cheiro doce demais de incenso queimava. Sobre a mesinha baixa, um crânio humano ou élfico lhe olhava de volta. Um monte de tranqueiras sem valor num buraco fétido, sujas e desorganizadas. Mas uma verdadeira mansão de confortos e luxo para os padrões goblins.</p>
<p>- Então a velha gorda prosperou mesmo.</p>
<p>Após livrar-se desajeitadamente do corpo de Matias, Felrond encaminhou-se até as garrafas ao fundo procurando algo para beber. Encontrou uma aguardente misturada com óleos e essências para dar sabor. Era bebida de putas, mas desconfiava estar exatamente num ambiente como este e deu de ombros já servindo-se de uma dose generosa num copo trincado. Vidro! Havia de fato certa opulência apesar do mal gosto. Combinações de cores vivas demais nas cortinas e nas almofadas desbotadas e púidas. Flores murchas em vasos quebrados. Pequenos luxos de uma vida fácil. Somava-se a esta combinação decadente um ranço de achbuld &#8211; uma droga alucinógena que exalava uma fumaça adocicada ao ser fumada. Quase sentia-se em casa.</p>
<p>Jogou-se sobre uma almofada no chão tentando tirar os últimos dias de Lenórienn da mente e voltou a concentrar-se no problema. Enemaeon andava de um lado para o outro batendo com o cajado hora numa almofada, hora numa parede. Parecia estar procurando alguma coisa, mas para Felrond haviam perguntas que deveriam ser feitas antes:</p>
<p>- Por que matar o pobre diabo lá fora se, minutos antes, você era todo cortesia e amabilidade para com os goblinóides? Não imaginou que poderia gerar uma revolta nos habitantes da favela que custaria nosso pescoço?</p>
<p>- Emengarda poderia ter salvo a vida dele se desejasse. Como ele ainda estava lá quando chegamos, significa que era dispensável. Provavelmente ela lhe devia dinheiro e lhe fizemos um favor.</p>
<p>Novos passos, o cajado bateu três vezes sobre um assoalho de madeira escura ressoando um eco distante. Enemaeon sorriu. O elfo, porém, estava sério:</p>
<p>- Juro que eu gostaria mesmo de dizer que a viagem até aqui esteja fazendo algum sentido para mim. Mas não está. Não entendi droga nenhuma do que aconteceu e não me envergonho de dizer. O que uma visita a um puteiro goblinóide pode fazer por nós que possibilite salvar o pescoço de Garlor daqui há dois dias e meio?</p>
<p>- Lembra-se que visitei Grigori em Ridembarr? &#8211; questionou o mago. Felrond não lembrava pois esteve bêbado por quase todo o tempo naquela ocasião. Deu de ombros, e Enemaeon prosseguiu:</p>
<p>- Grigori é um artista&#8230;diferente. Há muitos anos, a Academia Arcana encomendou um mapa de Valkaria a ele, feita em um papel especialmente preparado para mostrar os portais que ligam este mundo ao semi-plano onde a Academia está. Naquele dia pude confirmar que o portal da Favela Goblinóide ainda estava ativo. Por isso estamos aqui.</p>
<p>- Por que diabos alguém faria um portal para uma academia de magos aqui no meio destes goblins todos?</p>
<p>- Por que um dos mais proeminentes alunos da velha guarda da Academia viveu aqui por muito tempo, Felrond &#8211; tornou o mago falando como se fosse o óbvio. Largou o cajado e ajoelhou-se no chão, passando a alisar a madeira com a ponta dos dedos ainda procurando alguma coisa. Aos olhos do elfo, o necromante parecia um louco em plena atividade. Ele ainda falava enquanto buscava seja lá o que for:</p>
<p>- Apesar de sua aparente falta de interesse quanto ao assunto, este aluno em questão é importantíssimo para meus&#8230; ou melhor, nossos planos. Por isso é impressindível que consigamos invadir a&#8230;</p>
<p>- Nem mais uma palavra! &#8211; urrou Felrond num acesso de ira, arremessando o copo aos pés de Enemaeon. O vidro estilhaçou-se espalhando o resto da bebida pela sala abarrotada. Arrependido de desperdiçar o álcool daquela forma, passou a beber direto da garrafa. Depois de três, quatro longos goles, prosseguiu: &#8211; Não ouse dizer que irá invadir a Academia Arcana de Valkaria enquanto eu estiver sóbrio! Mas que merda!</p>
<p>- Um mero detalhe. Estudei lá por anos. Ficarão felizes de rever um velho aluno.</p>
<p>- Você foi expulso por que um de seus zumbis comeu o cérebro de uma garota&#8230; Mas que merda, Enemaeon!</p>
<p>Felrond levantou-se e passou a caminhar de um lado par ao outro, entornando o conteúdo da garrafa em bocados generosos. O mago apenas o observava indo e voltando, para frente e para trás por alguns instantes, até ser novamente encarado com o dedo em riste:</p>
<p>- Esta foi a última gota, Enemaeon! Se não me disser agora mesmo de que maneira esta invasão absurda ao semiplano onde Talude está sentado pronto pra fritar o primeiro invasor que aparecer ali irá ajudar a salvar a vida de Garlor, irei embora e tratarei de salvá-lo eu mesmo!</p>
<p>- Nossa viagem até aqui não tem relação alguma com a aposta com Moranler. Por isso, igualmente, não há nenhuma relação entre invadir a Academia Arcana e salvar Garlor de suas patas. Estou lidando com um problema de cada vez, e o problema original é encontrar os outros dois medalhões desaparecidos para decifrar-mos&#8230;</p>
<p>Uma forte pontada de dor no peito do mago o fez dobrar-se. Se já não estivesse de joelhos provavelmente teria caído. Bufando, levou a mão direita para frente evitando cair de rosto no chão. A dor não cedia, ao contrário, aumentava cada vez mais. A voz de Felrond diminuiu em intensidade e tudo o que restava agora era a dor absurda eu seu corpo. Quando acreditou que estava prestes a sucumbir, tão rapidamente quanto veio, o acesso de dor chegou ao fim.</p>
<p>- Enemaeon! &#8211; pedia Felrond visivelmente arrependido de ter sido tão rude, deixando uma preocupação crescente transparecer em sua voz. Era claro que sem o mago como guia ele próprio não seria capaz de regressar até Thaliu onde Garlor deveria estar com a corda no pescoço. Além disso, o humano velho e esfarrapado era a coisa mais próxima que tinha de um amigo, apesar de tudo &#8211; Está me ouvindo?</p>
<p>- Sim&#8230; estou ouvindo você &#8211; respondeu ele com clara dificuldade. Estava tão tonto que não conseguiu evitar vomitar. Após esvaziar tudo o que tinha no estômago, ergueu os olhos o suficiente para encarar o elfo, mas tudo o que via estava bem atrás dele, comodamente instalada sobre uma almofada vermelha, afiando as unhas em movimentos limpos e elegantes. A gata preta que o acompanhava por toda parte. A sombra que o perseguia através do mundo. Parecia divertida com a situação.</p>
<p>Uma risada arranhada ecoou pelo salão. Desta vez era o cego Matias que acordado arrastava-se para longe do goblin decapitado. Babava e arranhava os cotovelos e o rosto esforçando-se para sentar-se em um canto. E isto também Enemaeon ouviu, mas não tinha forças para fazer qualquer coisa em relação ao odioso inimigo naquele instante. Endireitar seu próprio corpo já estava lhe custando todas as forças.</p>
<p>- Você estava gritando &#8211; era o elfo o ajudando a sentar. Enemaeon estava tão fraco que parecia feito de pano e não de carne &#8211; Vou chamar Villvert e então&#8230;</p>
<p>- Villvert continuará de guarda, Felrond&#8230; &#8211; murmurou ele movendo lentamente a mão esquerda apalpando a madeira. Sentia-se tonto, fraco e os braços estavam dormentes. Sem dúvidas foi a pior crise que já enfrentara. O lado direito do rosto parecia inerte, seus olhos continuavam fora de foco e as pernas amolecidas pendiam frouxas ao seu lado &#8211; Nós&#8230;</p>
<p>- Foda-se &#8211; cortou Felrond, forte hálito de álcool &#8211; Depois você me explica.</p>
<p>- Precisa mesmo de explicações? &#8211; a voz de Matias agora preenchia o ambiente como um todo &#8211; Ele não lhe disse nada sobre o pacto que fez com o demônio? Merodach nunca perde. Ele é astuto como mil cobras. E não se importa em exigir bondade se souber que isso será impossível de ser cumprido.</p>
<p>Felrond olhava para Enemaeon que continuava delirando, as mãos pendendo inúteis, apenas a ponta dos dedos ainda acariciando a madeira do chão. Matias, ao contrário, parecia ganhar forças conforme o outro definhava. Não importou-se com as ameaças vazias do elfo, apenas prosseguiu falando, cada palavra soando como uma punhalada:</p>
<p>- Merodach exigiu que ele fizesse o bem! Ele sabia que a semente podre não poderia render frutos bons. Sabia que aquele que já foi chamado de Furta-Corpos apenas continuaria sendo pior e pior, pouco ligando para nada além de conseguir aquilo que deseja. O coração dele foi arrancado e agora jaz sob os pés do demônio. E a cada ato maligno, ele sente. Sente a vida esvaindo-se, seu corpo enregelando e morrendo e sente Merodach tornando-se mais forte. Isto é dor verdadeira. Dor que não pode ser suportada por um corpo mortal.</p>
<p>- Está dizendo que ele está mentindo? &#8211; gritou Felrond elevando-se diante do maltrapilho com um sorriso doentio nos lábios de onde escorria o rum doce junto com um fiapo de saliva &#8211; Acha que está me contando algo que eu não saiba? É claro que ele está mentindo, enganando e jogando com a minha vida e com a vida de todos que estão ao seu lado! É só o que ele tem feito, é só o que ele faz!</p>
<p>O rosto de Matias mostrava um sorriso dúvidoso. Talvez os infernos sombrios estivessem lhe recompensando por todo o sofrimento ao qual fora submetido, enfim. Felrond não lhe dava tempo para dizer nada. Prosseguia de ímpeto, furioso, bêbado, louco:</p>
<p>- Este bastardo me arrastou de uma vida fácil em Tapista por metade do Reinado mentindo, enganando e matando cada homem, velho, criança ou mulher que por ventura fosse uma peça em seus planos. Ele tem jogado dados com a vida desde o desgraçado dia em que nos conhecemos, quando me comprou num mercado de vidas no reino dos minotauros.</p>
<p>- Exatamente! &#8211; urrou o demonologista com o dedo em riste, apontando para o lugar onde a voz de Felrond brotava aos gritos &#8211; Ele é uma semente ruim, um servo do mal! Merodach o escolheu como arauto de sua chegada, e cedo ou tarde o mundo inteiro irá pagar por isto!</p>
<p>- Infelizmente pra você, eu não ligo&#8230; &#8211; a voz do elfo soava dura como gelo &#8211; Não ligo pras mentiras do bastardo, pra esse tal de Merodach ou pra este mundo. Por que, apesar de você não poder enxergar, seu monte de lama, eu sou um elfo. E pra mim Arton já está com um pé no abismo há pelo menos dez anos. Eu era a droga de um escravo servil numa porcaria de cidade de vacas. Agora eu bebo e fodo em honra ao meu próprio umbigo. E devo esta vida desgraçada ao sujeito que pagou por mim; ainda que com dinheiro alheio &#8211; e depois enfiou a droga do contrato que valia minha vida no cu de algum tapistano.</p>
<p>Uma mão cansada pousou nos ombros de Felrond. Era Enemaeon novamente de pé, ainda que vacilante. Trazia a gata negra ao colo que olhava desconfiada para hora para o mago, hora para o homem arruinado no chão. Enemaeon afagou seu pelo negro por alguns momentos, reunindo forças, e então aproximou-a da face desfigurada de Matias. Ele sorriu, por alguns instantes, e depois começou a murmurar palavras num idioma absurdo aos ouvidos humanos.</p>
<p>- Era toda a prova da qual eu precisava &#8211; falou o mago por fim caminhando até o lugar onde havia sofrido sua crise, colocando-o com algum cuidado o gato ao centro. Apoiou a palma de sua mão no chão e arfou num último esforço. Um risco de energia mágica azulada girou em seu entorno, avançando sobre pontos invisíveis tal qual rastilho de pólvora, desenhando pouco a pouco um imenso e intrincado desenho no solo. Avançava em todas as direções dirigiu-se aos pontos que Enemaeon havia tocado, marcando o lugar em sua dança arcana. Os movimentos sem lógica passaram a fazer sentido. Uma imensa e intrincada runa arcana girava em volta, crescendo e inundando tudo em azul mágico. Neste ponto o encanto alimentava-se sozinho. Quando atingiu seu ápice, o brilho era tão poderoso que ofuscou os olhos de Felrond e Enemaeon e até mesmo Matias em sua cegueira gritou. Após um período que pareceu arrastar-se, a luz arrefeceu deixando apenas um rastro em chamas no entorno do desenho e ao centro, um corpo feminino perfeito em todos os sentidos observava, nua e irada.</p>
<p>Cabelos negros, tão escuros quanto a noite, longos, caindo pelas costas até a cintura. Esvoaçavam mesmo sem vento, como se tivessem vida própria. Olhos amarelados, em fenda, transbordavam ira. Trazia nos pulsos um grilhão negro, com uma longa corrente que arrastava-se até seus pés e depois então subia de volta ao pescoço delgado. Uma tatuagem às costas misturava a imagem de um felino com serpentes. Lábios vermelhos sangue proferiam com voz de veludo:</p>
<p>- Você não tinha o direito&#8230;</p>
<p>- Este não é um jogo justo, tampouco limpo o suficiente para um conceito tão nobre quanto o direito a liberdade &#8211; sussurou Enemaeon buscando apoio em Felrond &#8211; Preciso de apenas um motivo para não matar você agora mesmo, menina.</p>
<p>- Ela está grávida &#8211; soou uma voz de velha surgindo por detrás das cortinas coloridas e chamuscadas por um fogo escuro que queimava lentamente, sem alastrar-se &#8211; E o filho é seu, Furta-Corpos.</p>
<p><em>Continua&#8230;</em></p>
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		<series:name><![CDATA[Enigma das Arcas]]></series:name>
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		<title>Série – O Enigma das Arcas – Ato XXVI</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Aug 2011 04:52:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[Enemaeon]]></category>
		<category><![CDATA[Enigma das Arcas]]></category>
		<category><![CDATA[Marlon Teske]]></category>

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		<description><![CDATA[Tweet A Favela dos Goblins Mesmo o homem mais miserável, doente e destituído de posses de Arton seria rico se comparado a um goblin de Valkaria. Estes não tinham direitos...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="bottomcontainerBox" style="">
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><span style="font-size: x-large"><strong>A Favela dos Goblins</strong></span></p>
<p>Mesmo o homem mais miserável, doente e destituído de posses de Arton seria rico se comparado a um goblin de Valkaria. Estes não tinham direitos perante nenhuma raça, tampouco dignidade. Vivem de cabeças baixas, olhar humilde, costas curvadas em sinal de respeito. São escravos por natureza, sempre prontos a realizar o mais indigno dos trabalhos por comida ou algum pertence sem valor. Milhares deles varrem Valkaria dia e noite em busca de lixo, entulho ou qualquer tipo de sobra. São goblins que esvaziam as latrinas dos casarios, que tiram carrapatos do gado e esfregam chiqueiros nos abatedouros.</p>
<p>Poucos vêem alguma utilidade real neles além de mera mão de obra barata e descartável. Alguns poucos discursam contra sua permanência dentro dos muros de Valkaria. A maioria das pessoas simplesmente os ignora. Afinal, são como ratazanas ou pombos. Fogem sempre que um homem se aproxima demais, temerosos. Regressam ao monte de entulho quando estes passam. Morrem às centenas, nascem aos milhares. Ninguém liga. São marginalizados por natureza, criaturas indignas de pena ou atenção. Mas sua existência é conveniente, então eles prosseguem, crescendo em número e devorando cada metro quadrado da área designada à sua morada durante a noite: a favela goblin.</p>
<p>A favela é feita de restos de madeira, palha e entulho. Fede a urina, bosta e carne podre. É sempre úmida, gotejante, coberta de limo e envolta em fumaça. As vielas são estreitas, os moradores suados e desprovidos de qualquer senso de higiene. O fato de não haver água suficiente sequer para beber apenas piora a situação. Tudo o que é descartado pela cidade é recolhido e levado até ali para construir mais dos barracos utilizados como moradia. Invariavelmente, homens procurados, loucos ou os que perderam tudo o que tinham também se mudam para lá, mas estes são raros. Em geral, a favela é dos goblins.</p>
<p>Desta forma, raramente algum membro de outra raça em plena faculdade de seus atos adentra os limites da favela durante o dia. Nestas ocasiões, todos sorriem, escapam ou apenas observam à uma distância segura para evitar problemas. Entrar num lugar como este a noite seria algo totalmente diferente. Uma clara provocação aos moradores que são proibidos de circular além dos muros após o por do sol. Se apanhados do lado de fora, goblins são mortos e têm as cabeças penduradas num poste na entrada da favela. Igualmente, homens dentro da favela após o anoitecer em geral recebem como cortesia um tiro nas costas ou uma faca sorrateira na garganta.</p>
<p>O sol do meio-dia queimava as costas de Enemaeon quando este adentrou puxando seu cavalo pelas rédeas num campo de terra batida no alto da colina. Meia dezena de goblins estavam sentados próximos, compartilhando um rolo de ervas alucinógenas enrodilhadas num maço grosseiro que fumavam. Outros tantos se divertiam bebendo e jogando dardos enquanto os mais jovens disputavam um jogo com uma bola improvisada com panos velhos enrodilhados e amarrados com as tripas de um porco. Estes, porém, silenciaram ao notar a chegada de Felrond sobre o grifo e de Vingança no alto do cavalo preto que bufava.</p>
<p>Um estranho silêncio permeou o entorno. O mago passou as rédeas para Felrond e dirigiu-se aos cinco fumantes. Um deles era um hobgoblin, um goblin gigante. Tinha quase dois metros e faltava-lhe um braço. O peito nu ainda era forte, apesar da barriga proeminente e manchada pela sujeira acumulada pelo tempo. Os olhos amarelados acompanhavam cada passo dos entrantes e era possível sentir a tensão crescente entre eles. Alguns levaram lentamente às mãos as costas, procurando adagas que estavam ocultas. Enemaeon fez uma breve reverência, antes de pronunciar algumas palavras usando o dialeto goblinóide:</p>
<p>- Groduk abastro triufut &#8211; grunhiu com certo esforço. Os demais presentes riram achando graça da tentativa. O próprio também riu. Sabia poucas palavras do idioma simplório dos goblins. De qualquer maneira, comunicar-se com eles não era exatamente motivo de orgulho. Sabia muito bem que todos ali falavam o Valkar, a língua humana, mas em geral os goblinóides se descontraíam quando alguém falava com eles na própria língua. Provava que ele já havia estado ali outras vezes. A conversa prosseguiu até que, apontando para Felrond, falou:</p>
<p>- Prak‘quessir, groduk trako.</p>
<p>Agora o grupo explodiu em gargalhadas e as mãos voltaram a ficar visíveis. Vingança era o único que se mantinha sério, e até mesmo Felrond sorriu de leve, apesar de saber que era motivo de troça por parte daqueles pequenos desgraçados. Tudo fazia parte do jogo, enfim. Mais importante do que a dignidade perante um bando que raramente vivia muito era cumprir os intentos do grupo naquela tarde antes dos portões serem fechados. O hobgoblin maneta era o mais falador e conversou com Enemaeon por algum tempo. Levantou-se, deu uma longa tragada no palheiro antes de passá-lo adiante e soprando fumaça pelo nariz porcino, avançou até o cavalo, abrindo-lhe a boca e examinando seus dentes. O animal pareceu não gostar e ameaçou morder o goblin. Ele recuou a mão depressa, resmungou alguma coisa, e Enemaeon riu.</p>
<p>- O que diabos estão falando? &#8211; perguntou Felrond abaixando-se para ficar na mesma altura do mago que do solo acariciava a crina do cavalo branco.</p>
<p>- Ele comentou que não pode perder a outra mão por que precisa da que restou para se masturbar &#8211; revelou o mago indiferente &#8211; O nome dele é Crouch e perdeu esse braço numa luta contra um elfo há muito tempo.</p>
<p>- Sei que vou me arrepender de perguntar, mas qual foi a piada que fizeram às minhas custas antes?</p>
<p>Enemaeon olhou de soslaio para Felrond e com um dar de ombros explicou: &#8211; São apenas vulgaridades. Ele contou alguma coisa em tom de ameaça sobre ainda usar os cabelos daquele elfo pra limpar-se depois de defecar e sugeriu usar os seus para o mesmo. Respondi que também usávamos cabelo de elfo para isto, mas que você estava cobrando muito caro pelo seu e por isso agora precisávamos vender o cavalo, já que estamos todos com dor de barriga.</p>
<p>- Sem ofensas, elfo &#8211; falou Crouch por sua vez usando o valkar com um sotaque tão forte que dificilmente se comprendia as suas frases e palavras &#8211; É raro ver alguém do povo esnobe entre goblins.</p>
<p>- Não ligo para o tipo de cara que vocês tem, mas sim pelo que são debaixo desta crosta de sujeira, goblin &#8211; respondeu Felrond com um meio sorriso &#8211; E debaixo da sujeira somos todos iguais. Fodemos, cagamos e bebemos à saúde do império.</p>
<p>- Que Thormy apodreça naquele castelo debaixo da vulva de pedra &#8211; gargalhou Crouch fingindo um brinde. Voltou-se novamente para Enemaeon e para os negócios &#8211; É um belo animal este seu. Pagaria até trezentos tibares por ele.</p>
<p>- Ambos sabemos que ele vale o triplo &#8211; respondeu o mago por sua vez. Crouch estava prestes a contra-argumentar quando foi interrompido por Enemaeon que prosseguiu: &#8211; Entretanto; ao invés de perdermos longas horas discutindo sobre o preço de uma égua que poderia ser vendida com muito mais segurança e lucro para alguém fora desta favela, eu lhe darei este pangaré de bom grado em troca das informações que necessito, além de um pequeno favor.</p>
<p>- De que tipo de informação estamos tratando? &#8211; perguntou o goblinoide agora mais cauteloso &#8211; Algumas delas valem muito mais do que o preço de um bom animal. Valem o meu próprio crânio pendurado num poste.</p>
<p>Havia uma insinuação de dúvida no ar, tanto de Crouch quanto dos demais goblinóides próximos. Dúvida esta que deveria ser sanada rapidamente:</p>
<p>- Não sou da milícia, tampouco tenho algum interesse em Valkaria neste momento, Crouch &#8211; explicou Enemaeon &#8211; Não se trata de nenhuma armadilha. Valkaria é um terreno hostil para mim e quanto antes partir dela, melhor. Mas, para tanto, preciso de sua ajuda.</p>
<p>- Diga então o que quer &#8211; falou o goblin que não estava disposto a rodeios neste caso &#8211; Dependendo do teor de sua busca, decidirei se é mais seguro trocar o cavalo pelo que sei ao invés de atacá-lo, matar seus companheiros e ficar com os três animais ao invés de apenas um.</p>
<p>- Preciso que guie meu grupo até a casa de Emengarda&#8230; – pausa necessária, agora vinha a parte mais difícil – e gostaria que tentasse arrumar uma audiência com o Herói.</p>
<p>- Isso esta fora de cogitação – bufou Crouch cuspindo de lado – Não quero nada com o Herói. Levar problemas para ele seria o mesmo que mijar na cara de um paladino virgem de sessenta anos. Um sacrilégio.</p>
<p>- Não quero arrumar problemas nem para ele tampouco para você. Guie-nos ate a casa de Emengarda e encontre o Herói. Diga que&#8230; – Enemaeon olhou entorno e aproximou-se ainda mais do hobgoblin, falando em tom de confidência – Que Furta-Corpos está na Favela. Se ele decidir que não vale a pena conversar conosco, então não irei insistir nisso, e lhe pago uma bebida por tentar.</p>
<p>- Eu poderia simplesmente&#8230;</p>
<p>- Você não poderia, tampouco irá me trair de qualquer maneira – o mago estendeu a mão buscando selar o acordo com um cumprimento definitivo &#8211; Lhe dou este voto de confiança. E fico lhe devendo um favor.</p>
<p>Mais alguns segundos de hesitação e então Crouch cedeu. Agarrou o cordame do cavalo branco e apertou com força a mão de Enemaeon. Com um gesto, outros dois goblins se aproximaram e retiraram Matias da cela, acondicionando-o no lugar de Felrond que desceu do grifo. O goblin começou a puxá-lo através da pracinha ate o local onde o grupo de desocupados ainda fumava. Amarrou a égua firmemente num galho baixo e com uma advertência final no idioma goblinoide, chamou o trio para que o seguisse colina acima.</p>
<p>- Que merda é essa de Furta-Corpos? – perguntou Felrond, arrependendo-se logo em seguida – Esquece, não quero saber. Definitivamente é preciso estar bêbado pra conviver com você.</p>
<p>A casa de Emengarda ficava nos fundos de um beco imundo e repleto de lixo, num lugar impossível de ser localizado a não ser que você fosse um goblin de Valkaria e já tivesse sido guiado até ali por algum outro cliente pelo menos uma vez. A porta única era baixa, e dela pendia um pequeno lampião coberto de tinta vermelha que jogava luzes rubras na sujeira do entorno. Havia dois goblins dormindo próximos, abraçados e com o rosto na lama e um bugbear gordo de dentes enegrecidos de braços cruzados diante da entrada. Um cano esverdeado pelo limo gotejava lentamente ao seu lado, caindo num buraco improvisado coberto de pedras.</p>
<p>- Suma daqui, Crouch – resmungou o bugbear – Dona Emengarda não quer saber de você. Menos ainda de alguma coisa envolvendo humanos e a escória do povo esnobe.</p>
<p>- Não vou entrar, por isso fique tranqüilo Druko. O combinado foi trazer este grupo até vocês, eles que lidem com a hospitalidade daquela porca velha e cheia de bichos.</p>
<p>- Obrigado desde já, Crouch – agradeceu o mago com o rosto inescrutável – Por favor, não esqueça de minha outra condição.</p>
<p>O hobgoblin resmungou alguma coisa, apresentou o dedo do meio da mão única à Druko e afastou-se pelo caminho que ladeava o velho barraco desaparecendo numa outra curva baixa, esquivando-se de cordas repletas de trapos, galinhas e um cão que dormia estendido no chão. Enemaeon apoiou-se no cajado e fez menção a afastar o grandalhão de seu caminho, coisa que o grandalhão evitou facilmente.</p>
<p>- Só goblins – rosnou Druko.</p>
<p>Enemaeon suspirou, firmando o cajado no chão e empinando seu corpo tentando parecer algo mais perigoso do que o homem arruinado que era:</p>
<p>- Há alguma forma de convencê-lo de que nossa entrada na residência de Emengarda é crucial e o faremos de qualquer maneira, quer você tente nos impedir quer não?</p>
<p>- Suma daqui, humano ridículo, e talvez possa manter a cabeça sobre os ombros.</p>
<p>- Este é um privilégio do qual você acabou de abrir mão, Druko – lamentou Enemaeon afastando-se um passo do goblin gigante. Um segundo depois, a espada negra de Vingança cortou o ar, o pescoço de Druko e parte da precária portinhola do casebre. Enquanto o goblin gordo desabava para frente, Felrond gritou impropérios com um par de olhos esbugalhados, apontando hora para o que acabara de acontecer, hora para Enemaeon que após forçar o que restou da porta puxava com dificuldade o corpo do monstro para dentro e Vingança que limpava a lâmina na roupa de um dos bêbados ali caídos. Era certo de que aquilo deveria ter algum sentido, alguma explicação. Mas todas elas lhe escapavam.</p>
<p>- Definitivamente. Preciso de uma bebida.</p>
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		<series:name><![CDATA[Enigma das Arcas]]></series:name>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XXV</title>
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		<pubDate>Fri, 27 May 2011 15:27:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[Enemaeon]]></category>
		<category><![CDATA[Enigma das Arcas]]></category>
		<category><![CDATA[Marlon Teske]]></category>

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		<description><![CDATA[Tweet O Portão Sudeste A cidade de Valkaria cresceu desordenadamente ao redor da estátua de uma suposta deusa homônima, feita em pedra. Tal fato não seria sequer digno de nota...]]></description>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>O Portão Sudeste</strong></p>
<p>A cidade de Valkaria cresceu desordenadamente ao redor da estátua de uma suposta deusa homônima, feita em pedra. Tal fato não seria sequer digno de nota se não fosse por um detalhe de importância considerável: o seu tamanho. Uma verdadeira montanha curvilínea representando uma mulher nua de joelhos com mais de meio quilômetro de mármore acinzentado, perfeitamente lisa e polida de forma impossível. Os anões, que eram conhecedores do trabalho na rocha, viviam dizendo que mesmo que todos os guerreiros de Doherinn passassem dia e noite lixando a pedra com trapos por mil anos não conseguiriam um resultado melhor.</p>
<p>Felrond não sabia o que era um doherinn, mas sempre considerou aquilo como algo digno de nota, e agora explicava entusiasmado para Vingança tudo o que sabia sobre a mulher nua de pedra. O cavaleiro morto era de Yuden, o reino vizinho, e não ligava para o símbolo máximo da igreja de Valkaria, considerando-a meramente uma imagem cultuada por mulheres e pelos guerreiros afeminados de Deheon. Mas Felrond adorava Valkaria. Dizia que era a protetora dos errantes, que recebia todos os que não tinham pátria sob sua sombra.</p>
<p>Ninguém sabe quem foi o povo que a construiu, pois já estava ali quando os migrantes do sul chegaram e deles não havia nem rastro. Na época, foi considerada um sinal divino e os humanos a aceitaram como símbolo. Desde então muitos a chamam de deusa humana, atribuindo a ela a criação da humanidade. É o que os clérigos afirmam, também. Mas o discurso varia. Ao ser encontrada por um povo expulso de suas terras, tornou-se também protetora dos viajantes e dos aventureiros. Quando a cidade começou a crescer e engordar, aceitaram também que Valkaria era a deusa da ambição, da fartura e do desenvolvimento. Haviam ainda os que devido a nudez da imagem a ligavam aos ritos de fertilidade e ao sexo. E a ladainha seguia.</p>
<p>Convenientemente, Valkaria era deusa de qualquer coisa que os clérigos quisessem. E por isso seu culto crescia em Deheon. Mas apenas lá. Além do reino era uma deusa muda e sem qualquer poder. Seus clérigos são considerados charlatães que empregam magia e outros itens diversos comprados com ouro para pregar. E uma deusa que não responde suas preces é uma deusa fraca.</p>
<p>- Mas a cidade prospera, mesmo assim &#8211; observou Enemaeon apontando para a última muralha construída há menos de dez anos &#8211; A cada década e meia os muros são derrubados e as pedras levadas para frente para abraçar as novas ruas, casas e vilas. E os peregrinos e migrantes continuam chegando.</p>
<p>- Quase um milhão de humanos! &#8211; sorriu Felrond desviando-se facilmente da massa humana que trafegava à sua volta mas que abria caminho para a passagem do seu grifo. Mesmo sem asas era uma criatura impressionante &#8211; E na época do festival da deusa quase o mesmo número vem para cá provindos das cidades vizinhas junto com Vectora e a semana inteira come-se bem, bebe-se muito e a farra vara as noites.</p>
<p>- E depois recolhe-se o que sobrou e toca-se a vida &#8211; falou o mago &#8211; Muitos dos que vieram para o festival ficam, e quase nenhum presta. Os que tentaram a sorte, os que perderam tudo, os doentes, os mendigos, estes Valkaria adota. Se não fosse o enxame de clérigos que seguem os peregrinos em procissão, tudo isto já teria apodrecido com as pragas. Mesmo assim, como não há plantações suficientes tampouco um rio que corte a região, a fome e a sede são uma constante.</p>
<p>- Como conseguem a água? &#8211; inquiriu o guerreiro estudando inconscientemente as vulnerabilidades do lugar.</p>
<p>- Alguns poços, alguma magia. Mas a maior parte vem de aquedutos que a trazem de longe até aqui. Percebe o problema de se viver neste lugar, Vilvert? E percebe a ironia de se dar ao trabalho de erguer muralhas em volta desta cidade-monstro?</p>
<p>- Um cerco os deixaria de joelhos em poucos dias. Bastaria romper o abastecimento de água e todo o lugar viria abaixo. De qualquer forma, um ataque à Valkaria não começaria de fora. Ela é como um gigante de entulho, um monstro devorador de lixo. Deve ser morta de dentro pra fora.</p>
<p>- E infiltrar-se é fácil &#8211; sorriu Enemaeon concordando &#8211; Há guardas e vigias. Mas há gente demais e ordem de menos. Valkaria estaria supostamente protegida por causa dos aventureiros que vem e vão todos os dias. Mas aventureiros são pessoas sem raízes que partem e fogem quando a coisa fica complicada demais. Creio que este milhão de pessoas que vivem aqui não seriam capazes de sustentar uma mísera parede de escudos, quanto mais enfrentar um exército. Escreva o que eu digo: um dia, um exército irá marchar sobre Valkaria. E ela será tomada, quer o povo aceite, quer não.</p>
<p>- E os ratos irão escapar pelo portão sudeste &#8211; sorriu Felrond apontando para o lugar em questão que aproximava-se.</p>
<p>- E por falar em ratos&#8230; &#8211; murmurou Enemaeon mais para si do que para qualquer outro.</p>
<p>O portão sudeste era o portão menos protegido da cidade, para dizer o mínimo. Ficava em uma das extremidades mais obscuras, fazendo fronteira com a Favela Goblinóide e um matagal ralo de árvores finas, retorcidas e inúteis que nem os goblins prestavam-se a cortar. Ali, sob um arco de madeira enegrecida é que os golpistas, ladrões e aventureiros enveredavam através das muralhas tanto para entrar em Valkaria quanto para fugir dela. Era também onde os mais pobres dentre os miseráveis apinhavam-se atrás de trabalho ou esmola.</p>
<p>Enemaeon apeou de seu cavalo chapinhando na lama escura e no mato pisoteado até um local próximo onde, sob uma tenda miserável um homem velho e sem pernas, aparentemente cego com trapos sobre o rosto, estendia a mão nodosa buscando caridade. O idoso moveu as orelhas encarquilhadas deitando o rosto de lado para tentar ouvir entre a balbúrdia no entorno. Felrond e Vingança aproximaram-se igualmente, mas não desceram de suas montarias. Estavam curiosos quanto aos motivos do mago, e por isso calaram-se.</p>
<p>- Uma esmola, pelos deuses, para um velho cego e faminto &#8211; arquejou ele, e sua voz era arranhada e sem ânimo. A falta de dentes permitia que a lingua escapasse através dos lábios volta e meia, tornando suas palavras um tipo de chiado molhado. Enemaeon não respondeu, aguardando. Segundos depois, esquivando-se agilmente da multidão, a gata preta que o seguiu através de metade do planeta ressurgiu. Foi até ele e passou a enroscar-se em suas pernas enquanto ia e vinha coçando o próprio pelo. Enemaeon sorriu e a recolheu.</p>
<p>- Quem está ai&#8230; &#8211; pediu o velho novamente &#8211; Por favor, eu não posso ver mas posso ouvir. Sei que há alguém aqui.</p>
<p>- É um velho amigo, Matias. Preciso que você veja mais uma vez &#8211; falou Enemaeon por fim, e ao som daquela voz, o velho pareceu ter sido atingido por um soco. O mago deu mais um passo e puxou o lenço que recobria os olhos do mendigo revelando uma cicatriz horrenda e duas órbitas vazias. O mão velha tentou ir em direção ao rosto, mas Enemaeon o agarrou pelo pulso, afastando a mão suja de sua fronte &#8211; Olhe, e me diga o que vê.</p>
<p>- Isso é meio demais, não? &#8211; questionou Felrond. Recebeu um olhar gelado de volta do necromante, que apertando o pulso do velho com ainda mais força o fez arquejar de dor.</p>
<p>- Isto é apenas um cumprimento de velhos camaradas, não é verdade, Matias? &#8211; perguntou ele. Em resposta, o velho começou a balbuciar em um idioma diferente, e Enemaeon largou imediatamente seu pulso e enfiou os dedos pela boca desdentada até a goela, fazendo-o vomitar. Alguns dos que passavam fizeram menção de aproximar-se para defender o mendigo, mas Vingança puxou sua espada, e os intrometidos resolveram que a briga não valia a pena.</p>
<p>- Se tentar algo assim novamente, arranco-lhe um braço desta vez &#8211; rosnou limpando os dedos sujos de saliva e vômito no tecido da tenda. Felrond à esta altura também havia descido do lombo do grifo e colocou-se ao lado de ambos, perguntando:</p>
<p>- “Desta vez”? Foi você que fez isso com ele?</p>
<p>- Cortei suas pernas, sim &#8211; respondeu Enemaeon sem tirar os olhos do velho arquejante que tentava parar de vomitar e tossir &#8211; Mas os olhos são coisa dele. Ele próprio os arrancou depois de olhar longe demais. Pobre idiota. Arton está além de seu alcance, mas ainda pode ver o inferno que queimou sua mente; e é isto que eu quero que ele faça.</p>
<p>As órbitas vazias tremeram, e eram apenas buracos. Felrond fez uma cara de dúvida tão óbvia que, após suspirar, Enemaeon explicou:</p>
<p>- Matias foi um demonologista, um mago que lidava com demônios. Indiretamente, foi ele que me guiou até Merodach, e é o culpado por agora eu não ter um coração.</p>
<p>- E você é o culpado por minha ruína, Lau’kadosha! keptus danizia ptla&#8230;</p>
<p>A frase ficou incompleta. Valendo-se do cajado, Enemaeon atingiu Matias no rosto, e o velho aleijado caiu inconsciente no chão lamacento do Portão Sudeste, um fio de sangue escorrendo do corte no super-cílio.</p>
<p>- Felrond, me ajude a colocar essa carcaça sobre o cavalo. Ele virá conosco.</p>
<p>- Mas que merda! &#8211; reclamou Felrond agarrando o pequeno traste pelos tocos das pernas &#8211; Você matou um cego velho aleijado! E um que você mesmo aleijou!</p>
<p>- Este monte de estrume mal têm vinte e cinco anos &#8211; rosnou Enemaeon levantando-o pelas axilas e o jogando descuidadamente sobre a cela &#8211; Ele trocou a juventude por poder. E a juventude lhe faltou na hora de correr de minha vingança. Nada me tira da cabeça que ele jogou Merodach contra mim.</p>
<p>- Você tem alguma prova disto? &#8211; perguntou Vingança do alto de seu cavalo negro, embainhando a lâmina escura &#8211; Não que importasse, é claro.</p>
<p>- Nenhuma que faça algum sentido &#8211; confessou o necromante &#8211; Mas sou punido com dor e agonia sempre que cometo um ato questionável. E não senti um pingo de remorso, dor ou culpa enquanto esfolava a carne dos ossos desse saco de merda profano. Para mim é prova suficiente.</p>
<p>- Vamos levá-lo até onde? &#8211; questinou Felrond voltando para o grifo que arranhou as patas na grama antes de voltar a caminhar pela imundície do portão.</p>
<p>- Tudo ao seu tempo &#8211; respondeu Enemaeon abaixando a cabeça instintivamente ao passar sob o Arco do portão. Vingança tocou o punho de sua espada, benzendo-se por estar no covil do reino de seus inimigos. O mago suspirou o ar fétido de fumaça, gente suada e bichos mortos, puxou as rédeas para a esquerda, abandonando a via principal e dirigindo-se a uma paliçada interna onde dezenas de cabeças de goblins jaziam espostas, as bocas escancarradas e os olhos devorados pelos corvos &#8211; Primeiro vamos vender meu cavalo.</p>
<p>- Na favela? &#8211; Felrond ergueu uma sombrancelha. Não odiava os goblins. Apesar de ser elfo e por Lenórienn ter caído sob as lanças daquelas criaturas, não conseguia associar os servis goblins de Valkaria com os selvagens goblinoides do sul. Comparados àqueles repletos de enfeites de osso e cicatrizes de guerra, considerava os bonachões escravos de Valkaria inofensivos e até divertidos. Mas isto era apenas uma fachada da verdade. Estavam agora no domínio deles. Eram os estranhos.</p>
<p>- É onde a escória se reúne, e é da escória que nós precisamos agora, mais do que nunca.</p>
<p>E entraram no labirinto de velhos barracos remendados com paus e lixo. Olhos amarelos lhes observavam curiosos conforme passavam. Estavam na Favela dos Goblins.</p>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XXIV</title>
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		<pubDate>Wed, 18 May 2011 15:26:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[Enemaeon]]></category>
		<category><![CDATA[Enigma das Arcas]]></category>
		<category><![CDATA[Marlon Teske]]></category>

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		<description><![CDATA[Tweet Vou-me embora para Valkaria, lá sou amigo do Imperador-Rei! A noite ia alta quanto enfim o estranho grupo abandonou o vilarejo de Ridembarr, em sua última cavalgada noturna em...]]></description>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Vou-me embora para Valkaria, lá sou amigo do Imperador-Rei!</strong></p>
<p>A noite ia alta quanto enfim o estranho grupo abandonou o vilarejo de Ridembarr, em sua última cavalgada noturna em direção à capital do mundo, Valkaria. Hoje, tanto tempo após os fatos aqui narrados terem ocorrido, ainda se murmuram histórias sobre infortúnio e desgraça que sucederam a partida do filho de Alfonse. Crianças nasceram aleijadas naquele ano, um touro foi encontrado morto próximo a uma cerca, e a colheita foi a mais fraca em décadas. Clérigos ganharam quantidades significativas de ouro purificando o lugar naquele inverno.</p>
<p>Um crédulo &#8211; e Enemaeon encaixaria perfeitamente nesta descrição &#8211; diria que nenhum daqueles eventos tinham real relação entre si e que não passavam de mera bobagem supersticiosa incentivada por algum clérigo ambicioso. Mas isto era apenas meia verdade. Pois naquele ano uma criatura tocada pela Tormenta havia nascido em Ridembarr. Um cavaleiro da morte entumecido de matéria vermelha, desejando carnificina e vingança.</p>
<p>Este trotava calado, mergulhado em seus próprios pensamentos. O cavalo de pelagem escura bufava e relinchava incomodado por seu ocupante de músculos conspurcados que pulsavam sob a armadura negra. Villvert de Gálien fora um dos grandes soldados de Yuden, um capitão de tropas temido por sua selvageria em batalha. Agora apenas um vingador sem vida e sem nome, e isto o tornava ainda mais digno de respeito e temor.</p>
<p>O aço que vestia estava tomado por milhares de linhas rubras que pulsavam em um brilho incomodo que lembrava ferro em brasa. Pontas, lâminas e bolhas de pus brotavam por toda a parte. A pele de seu rosto estava enegrecida pela putrefação, num tom morto de cinza, repuxada sobre os dentes. A língua e os olhos haviam sido substituídos por um brilho constante e gelado, ora azul proveniente da energia profana que o mantinha vivo, ora vermelho de Tormenta.</p>
<p>Como que alheios ao horror evocado por tudo isto, avançavam ao seu lado o elfo Felrond sobre um grifo mutilado de Ahlen e Enemaeon, num cavalo de seu pai, conversando com certa empolgação juvenil alimentada pela idéia de regressar à Valkaria. Ambos já haviam estado na cidade-capital em inúmeras oportunidades, mas aquele trecho de estrada invariavelmente relembrava ao mago as veze sem conta em que podia deixar a morosidade interiorana para trás e regressar ao caos organizado de uma cidade grande.</p>
<p>Ambos também estavam transformados, cada qual à sua maneira. Talvez a mudança mais impressionante fora causada em Felrond. Renovado, vestido e perfumado após um banho, jamais poderia ser comparado com a massa de sujeira repleta de piolhos que havia sido há algumas horas. Com os cabelos penteados e amarrados para trás com uma fita (à moda dos nobres da capital) e um casaco branco com motivos dourados em forma de folha e duas abotoaduras de prata, parecia muito mais com um elfo do que jamais houvesse sido diante dos olhos de Enemaeon.</p>
<p>Já em Enemaeon as alterações foram mais sutis. É bem verdade que o mago havia aproveitado a estadia para melhorar a própria aparência. A barba grisalha fora penteada e limpa, assim como os cabelos alinhados com óleo para que brilhassem. Vestia uma túnica azul nova e trazia o novo cajado à tiracolo. Internamente, a história era outra. O conflito que vinha enfrentando em sua mente foi superado após o diálogo com seu pai. Havia encontrado, talvez, uma luz para sanar seus problemas futuros envolvendo Merodach e o confronto com o demônio. Entretanto, isto ainda poderia esperar.</p>
<p>No momento tudo o que importava era a velocidade com que pudessem regressar à Garlor. Pouco mais de três dias restavam para a data marcada com o pirata minotauro, e a única cartada possível deveria ser jogada com precisão. Não havia tempo para falhas. Especialmente naquele caso.</p>
<p>Conforme os quase cinquênta quilômetros que separavam Ridembarr da capital Valkaria eram transcorridos, a visão da agromegálica estátua da deusa da humanidade aumentava exponencialmente, preenchendo o horizonte com sua presença. Trava-se de uma estátua do tamanho de uma montanha, representando uma mulher nua de joelhos, apontando para os céus. Haviam centenas de histórias sobre o presente de Valkaria para seus filhos, nenhuma comprovada.</p>
<p>- Me disseram certa vez que há uma taverna de telhado de vidro logo abaixo das pernas da deusa &#8211; comentou Felrond puxando assunto &#8211; E que mulheres humanas inférteis que desejarem ter filhos devem montar em seus parceiros à sua sombra.</p>
<p>- Isto é apenas uma história de taverna, Felrond &#8211; sorriu o mago que havia substituído seu humor arredio por um arremedo de simpatia naquele dia &#8211; Não há nada construído entre as pernas da deusa, nem estalagem nem coisa alguma. A construção mais próxima é o palácio imperial, onde Thormy e Ravanna vivem.</p>
<p>- Ravanna é a sua rainha amazona, não é? &#8211; caçoou o elfo com um meio sorriso &#8211; Não é para menos que se trata de uma guerreira. Como ela consegue competir pela atenção do Imperador-Rei com uma vagina de vinte metros logo adiante dos portões do palácio?</p>
<p>Até o desmorto yudeano pilheriou de Enemaeon devido àquilo. Mas o mago não se sentiu ofendido devido às piadas contra a família real de Deheon. Gostava do seu reino, é verdade, mas nunca foi exatamente ligado às intrigas palacianas. Mesmo os rumores sobre a recente fuga da filha do imperador para evitar um casamento arranjado com o regente do reino vizinho chegaram até ele muito tardiamente.</p>
<p>- Há muitos outros problemas em se ter uma estátua de deusa gigante em sua cidade além de possíveis distrações provocadas por uma genitália de pedra, Felrond &#8211; explicou o mago com um dar de ombros &#8211; Ela faz sombra em demasia sobre boa parte das construções próximas.</p>
<p>- E isto é tão ruim assim? &#8211; comentou o elfo distraidamente acariciando o pelo da juba do grifo &#8211; Nossa cidade ficava constantemente na sombra de grandes árvores.</p>
<p>- Você viveu em Lenórienn, então não deveria comparar o que lá existia com o que é Valkaria &#8211; foi a resposta &#8211; As casas de Valkaria sempre estão sujas de bolor e mofo. Os telhados de palha recebem pouco sol e emboloram precisando ser trocados muito cedo. Mesmo as telhas ficam forradas de musgo e líquem e ocorrem infiltrações. Quando chove a água recolhida pela estátua continua escorrendo da pedra por quase uma hora, enchendo as ruas apezinhadas de lama e sujeira. Além disso, há os peregrinos. Abundantes como moscas.</p>
<p>- Pagadores de promessas &#8211; rugiu Villvert com sua voz rasgada de morto &#8211; Em Yuden, a religião de Deheon é considerado um culto de mulheres. Estas, as vezes, peregrinam até aqui pedindo um útero fértil, um parto fácil ou proteção aos maridos na Guerra. Tolices. Para nós, Valkaria é a prostituta de Keenn. Não há motivos para crer em uma imagem que não ouve suas preces.</p>
<p>- Eu já vi um milagre verdadeiro uma vez de um clérigo de Valkaria &#8211; cortou Felrond empertigando-se &#8211; Numa briga de taverna, um sujeito teve o olho vazado e voltou a enxergar depois que o clérigo o tocou. É verdade que ficou estrábico. Mas ele podia ver.</p>
<p>- Ele poderia ser alguém como Garlor, teoricamente &#8211; respondeu Enemaeon que jamais fora muito ligado à teologia &#8211; Um clérigo de outro deus, passando-se por seguidor de Valkaria. A igreja da deusa de pedra às vezes paga para outros realizarem milagres em seu nome, já que a maioria não é capaz disto. Especialmente em viajens longas. Garlor me disse certa vez que o clero de Hynninn atualmente ganha mais dinheiro de Valkaria do que proveniente de seus furtos. Mas a igreja é rica.</p>
<p>- E o ouro vem dos peregrinos, malditos sejam &#8211; completou Enemaeon &#8211; Eles vem de todo o Reinado trazendo sua prata e suas doenças. De fato a face suplicante de Valkaria inspira este tipo de comportamento. A capital nasceu através da fé dos homens, e prosperou desta maneira. E há quem garanta que as curas são legitimas, verdadeiras provas da fé.</p>
<p>- Até que ponto curar pode ser considerado um milagre? &#8211; questionou Villvert &#8211; Para Keenn curar é sinônimo de fraqueza. A cura mágica priva seus guerreiros de uma morte honrosa em batalha que lhes garantiria um lugar de honra em seu castelo de espadas. Em troca, os transforma em aleijados incapazes de suportar um escudo.</p>
<p>Felrond olhou de soslaio para o mago, aguardando por uma resposta. Ele próprio também havia dado às costas para a religião desde que sua cidade havia sido tomada por um exército de goblins. Os bardos cantam que a deusa que seu povo cultuava, Glorienn, desceu do firmamento para lutar em seu nome, mas havia sido derrotada em combate singular por um bugbear. Uma deusa derrotada não é digna de adoração, por isto o seu culto caiu junto com Lenórienn.</p>
<p>- Na verdade&#8230; &#8211; respondeu Enemaeon com certa cautela, pois estava entrando em um terreno delicado. Ele havia defendido durante os anos na Academia Arcana de que os homens não deveriam depender apenas dos deuses para curarem seus males, e sua tese baseava-se naquela mesma idéia &#8211; &#8230; nós apenas não conseguimos provar que não o sejam. Pode ser apenas magia protegida por um véu de supertição, algum tipo de conhecimento que os clérigos juram proteger. Por exemplo, num passado distante, acreditava-se que apenas seguidores de Tenebra, a deusa noturna, tinham o poder e o direito de trazer os mortos de volta à um arremedo de vida. Porém, com o tempo, estudiosos&#8230;</p>
<p>- Bruxos necromantes de sangue podre e alma corrompida &#8211; cortou Vingança. Enemaeon fingiu não ouvir, prosseguindo:</p>
<p>- &#8230; Estudiosos conseguiram reproduzir os mesmos efeitos sem a necessidade de todos os rituais antigos. E você é uma prova não-viva disto: o cadáver de Villvert de Galien cavalga novamente. E não precisei apagar uma vela, esconder seu corpo da luz enquanto dançava à sua volta ou vazar seus olhos com ossos de corvo ou enterrar seu coração apodrecido numa caverna. Usei apenas alquimia para preservar sua carne, e magia para animar seus músculos.</p>
<p>- E como preservou minha memória? &#8211; questinou Villvert interessado pela primeira vez nos rumos que a conversa tomava &#8211; Nunca matei um zumbi que lutou pela própria vida. Eram apenas bonecos que ansiavam por carne e por sangue.</p>
<p>- Cada coisa em seu tempo &#8211; concluiu Enemaeon encerrando a discussão e desviando-se propositalmente da pergunta. A última curva de mata rala havia sido cruzada, e agora, ladeando uma planície baixa e suja, a estrada pouco a pouco embrenhava-se em um mar de casebres improvisados de madeira fina que antecediam a primeira muralha da cidade imperial. O dia estava em sua metade, e milhares de fios de fumaça das fogueiras de cozinhar subiam através de aberturas improvisadas nos tetos baixos, enchendo o ar de fuligem &#8211; Agora precisamos tomar um desvio.</p>
<p>- Achei que iríamos marchar sob o Arco da Vitória &#8211; caçoou Felrond já sabendo que seria impossível para aquele grupo passar despercebido à guarda se cruzassem o imponente portão de entrada de Valkaria. Apesar do crescente de viajantes comerciando tecidos e peles, peregrinos, crianças, cachorros, carroças, mendigos, pedintes e aleijados que iam e vinham pelo chão lamacento coberto de esterco e palha, eles se destacavam. Aparentavam nobreza num mar de miséria, e a não ser pela ausência de uma escolta ou de um estandarte, eram mesmo.</p>
<p>O cavalo de Villvert pateava nervoso, honrando o nome que Felrond havia lhe dado. Tormenta bufava e mostrava os dentes, tentando morder um caixeiro especialmente insistente que trazia consigo uma caixa mágica que transformava ferro em ouro. Meia dúzia de meninos marcados de peste e cheios de piolhos corriam em torno do grifo que batia o bico e arranhava a lama com as garras.</p>
<p>- Não há motivos para seguirmos nessa direção &#8211; comandou o mago puxando as rédeas do cavalo branco &#8211; Vamos pelo portão Sudeste.</p>
<p>- Então segurem bem suas bolsas &#8211; pilheriou Felrond trotando rápido para afastar-se da turba crescente.</p>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XXIII</title>
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		<pubDate>Wed, 11 May 2011 16:17:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
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		<category><![CDATA[Enigma das Arcas]]></category>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Lá e de Volta outra Vez</strong></p>
<p>No regresso ao lar, Enemaeon notara que algo havia mudado na atmosfera da cidade. Havia menos cor em Ridembarr agora, como se o dia houvesse esfriado, tornado-se lúgubre, e ele já desconfiava qual era o real motivo. O espaço que o separava da mera especulação à certeza era o mesmo que o distanciava de sua casa. De fato, a carruagem da família estava diante do casario. Sinal de que seu pai Alfonse havia regressado de alguma de suas viagens de negócios.</p>
<p>Quando era ainda garoto, o acompanhara dúzias de vezes em suas visitas até as cidades vizinhas onde possuia fazendas ou estalagens, se não ambos. O pai era apenas quatorze anos mais velho do que ele, e talvez por isso nunca demonstrara qualquer amor ou preocupação paternal exagerada em relação ao primogênito fruto de uma aventura com uma das criadas. Via Enemaeon como um irmão mais novo e não como filho &#8211; um comportamento de certa forma diferente do que cultivava para com o restante da família.</p>
<p>Os avós pereceram prematuramente num ataque de ladrões de beira de estrada obrigando Alfonse a assumir os negócios quase tão jovem quanto fora pai. O fardo da fortuna dos Ridembarr sobre suas costas acabara lhe tomando todo o tempo e lhe transformando num homem que vive apenas em função do dinheiro. Quem o via, enxergava alguém austero, sagaz e vencedor, é verdade. Mas também via um homem cuja toda felicidade havia sido roubada e era impossível não se sentir também um pouco triste por ele.</p>
<p>Talvez por ter tanto e nunca usufruido realmente do que tinha é que tolerava tão bem as desventuras e gastos loucos do filho. Enemaeon vivia uma vida que ele não pudera levar viajando pelo mundo atrás de lendas antigas, histórias de mortos e túmulos. Tentara à principio prendê-lo ao conforto do lar e as obrigações para com o ouro da família, mas foi inútil. Enemaeon não nascera para viver aquele tipo de vida.</p>
<p>- Alfonse &#8211; chamou ele ao passar o portão alto e sentir o cheiro de casa. Suas irmãs estavam lá fingindo-se comportadas perante o pai, assim como também estava Cordélia. Enemaeon não conseguiu evitar uma olhadela para o corpo escultural da madrasta antes de baixar os olhos para o piso. O pai que estava de costas para a entrada não se virou. Enemaeon já sabia que seria assim.</p>
<p>- Prestes a partir novamente? &#8211; perguntou apenas.</p>
<p>- Tenho pressa, é verdade &#8211; falou, um passo a mais. Agora ambos se olhavam, e o que viam era apenas a sombra um do outro. Enemaeon havia envelhecido cedo, e os últimos meses foram ainda piores. Seus cabelos eram mais grisalhos, seus olhos mais marcados, sua pele mais flácida. A barba por fazer dos últimos dias não combinavam com as roupas limpas que vestira naquela manhã. Os papéis pareciam trocados. O pai aparentava ser mais jovem que o filho. Silêncio provocador. Longa pausa.</p>
<p>Adentraram o casario. A sala luxuosa estava arrumada, e um perfume discreto havia sido espalhado em volta pelas criadas para tirar o cheiro de suor e bebida que Felrond deixava nos móveis. Sentaram-se sem nada mais a dizer, cada qual assumindo os mesmos lugares em que estavam habituados a sentar. Uma cumplicidade que apenas uma família é capaz de produzir. Mais silêncio. E então explicações.</p>
<p>- Pai, Cordélia, irmãs &#8211; voz pesada &#8211; Eu fiz certas coisas das quais me arrependo, mas já ultrapassei a linha de retorno e infelizmente não há mais esperança para mim. Errei muito, e hoje me considero pouco mais do que um inútil para este mundo. Em tantos anos não consegui conquistar nada, tampouco realizar coisa alguma. Ao contrário, destruí e levei a ruína todos que se colocaram ao meu lado.</p>
<p>- Não diga isso, irmão &#8211; interveio Geovana, a mão firme do pai interrompendo-a com um gesto. A menina se calou e voltou seus olhos lacrimejantes para o mago que continuava austero, afundando na poltrona aveludada. Felrond nesta hora ressurgia arrumando as calças após aliviar-se na latrina, mas seus passos silenciosos de elfo não quebraram o clima de tensão na sala.</p>
<p>- Então é nisso que acredita &#8211; ponderou Alfonse em murmurios solitários. Deixou escapar um suspiro. Levou a mão até uma caixa onde vários charutos de tabaco haflling aguardavam por um bom apreciador de fumo. Ascendeu sem pressa sorvendo a fumaça cheirosa. Ninguém dizia coisa alguma.</p>
<p>- Crianças, creio que é melhor que todos nós&#8230; &#8211; começou Cordélia puxando as filhas para os quartos acima, mas novamente Alfonse interveio, apontando de volta para o sofá onde Felrond havia dormido embriagado e sujo. Sob o comando do patriarca, jeito de quem está acostumado à comandar, todos obedeceram. Até Felrond, que nada tinha com a situação, procurou um canto e sentou-se para ouvir.</p>
<p>- O fato de se considerar um inútil é uma surpresa para mim, confesso &#8211; falou Ridembarr &#8211; Nunca havia notado este tipo de comportamento em você. Ao contrário, desde muito jovem ostentava um ar de superioridade, como se o mundo lhe devesse respeito por você se dignar a caminhar sobre ele.</p>
<p>- Foi essa a razão de minha ruína, Alfonse &#8211; respondeu o mago cabisbaixo &#8211; Acreditar que ser capaz de tudo. Acreditar ser superior a qualquer coisa.</p>
<p>- Ao contrário, filho &#8211; respondeu o pai com um meio sorriso &#8211; O motivo de sua ruína, e o motivo que o trouxe até aqui sem rumo e sem dinheiro foi seu derrotismo. Você é um homem inteligente. Desde pequeno sempre teve tudo o que quis de uma maneira ou de outra, e sempre de maneira surpreendente. Mas infelizmente tantos sucessos parecem ter lhe feito esquecer a principal lição que a vida nos dá quando nos confrontamos com o fracasso. Nós não devemos aceitá-lo.</p>
<p>O mago continuava calado. Felrond mexeu-se nervoso nas cadeiras. Precisava de um trago.</p>
<p>- Se não for possível vencer, lute. Se não há caminhos, encontre um meio. Isso faz parte da litania de Keen, não é? Nem a morte é o fim em Arton, filho. Não posso acreditar que na primeira derrota, no primeiro grande percalço você se restringe a baixar a cabeça e despedir-se da família. Qual será o problema aqui? Não há realmente nenhuma solução para o que lhe ocorreu ou você ainda não pensou suficientemente à respeito?</p>
<p>- Realmente não está parecendo o Enemaeon de sempre &#8211; intrometeu-se Cordélia com voz macia. Vindo dela, soava como um elogio &#8211; Crescemos juntos, brincamos nos bosques em torno de Ridembarr enquanto seu pai trabalhava feito louco. Lembra-se dos jogos que criávamos?</p>
<p>O mago lembrava. Havia um em que era especialmente bom. O jogo dos desafios. Uma das crianças inventava alguma regra absurda e escolhia alguém que deveria cumpri-la, por mais arriscada ou humilhante que esta fosse. Na estranha forma de pensar infantil, não realizar a tarefa no jogo era ainda mais vergonhoso do que pagar a prenda. Até onde podia se lembrar, jamais havia renunciado a qualquer imposição. Roubar, quebrar os vitrais do pequeno templo de Valkaria, escalar as paredes escuras até as profundezas geladas do velho poço&#8230;</p>
<p>Recordava-se dos rostos de seus amigos de infância, de seus nomes. Lembrava-se de quando em certa noite noite zombou de um dos amigos que queria ser agricultor como o pai. Hoje provavelmente ele estava feliz em sua simplicidade, com uma bela esposa e vários filhos enquanto ele, que sempre se julgara acima de tudo aquilo, não tinha nada.</p>
<p>- Você não está ajudando muito, Cordélia &#8211; cortou Felrond notando a dor dos pensamentos de outros tempos ferindo a alma do amigo. Mas, em meio às trevas, em meio às lágrimas que já não mais desciam do seu rosto magro, ele agora sorria. Havia encontrado enfim um meio, ainda que precário.</p>
<p>O plano que havia traçado desde que o pacto forçado com Merodach fora assinado com sangue, concebido semanas antes de reencontrar-se com Garlor passava e repassava em sua mente, girando. Sua memória bailava através das possibilidades, encontrando soluções. Até aquela hora, julgava impossível sobreviver a provação final. Morreria livre ou seria morto ao eliminar o demônio. Mas, sem querer, seu pai havia lhe mostrado um caminho. Sim, deveria haver um jeito. Uma última ponta solta. Talvez ele pudesse se dar ao luxo de sobreviver à sua busca.</p>
<p>- Alfonse &#8211; disse, enfim erguendo a face &#8211; Pai. As vezes me sinto culpado por ter estragado sua vida.</p>
<p>- Eu também filho &#8211; sorriu o patriarca &#8211; Mas não é hora de nos afundarmos em compaixão. e arrependimentos. É hora de seguir em frente.</p>
<p>Com um leve gesto, Alfonse chamou uma das criadas que se aproximou silenciosa. Falou com ela brevemente, baixo demais para qualquer um ouvir. No mesmo instante ela partiu porta afora, voltando em seguida com um caixote fino de madeira escura, com uma fita já desbotada fixa em um dos cantos. Entregou-o a Alfonse, que agradeceu e colocou-se de pé, estendendo o embrulho na direção do filho.</p>
<p>- Este na verdade deveria ser seu presente de formatura na Academia Arcana &#8211; sorriu um riso sincero &#8211; Eu tive a oportunidade de conseguir uma destas quando estive em Vectora. O vendedor disse que foi feito com a raiz de uma árvore que só nasce no reino da deusa Wynna. O contato era de confiança, não tive motivos para duvidar.</p>
<p>Ao abrir, Enemaeon encontrou um cajado, o mais perfeito em que jamais colocou os olhos. Ao erguê-lo, sentiu a magia em seu corpo intensificar-se, e um leve faiscar azulado brotou da madeira e espalhou-se pela sala. Meia dúzia de runas brilharam vivas, como se estivessem em chamas. Era o seu nome que brilhava.</p>
<p>- Desculpe por ter sido expulso de lá. Sei que era importante para você.- envergonhou-se &#8211; Isto deve ter custado uma fortuna.</p>
<p>- Bobagem &#8211; falou o pai entre uma tragada e outra de fumo &#8211; Os festejos teriam me custado três vezes o valor disso. No fim sua expulsão até me poupou algum dinheiro. Acha que ela é boa o suficiente para você?</p>
<p>- É razoável &#8211; respondeu o mago readquirindo sua postura arrogante &#8211; Mas irá servir enquanto não conseguir uma melhor.</p>
<p>Um abraço tímido foi trocado entre todos os presentes que assistiram Felrond e Enemaeon dirigirem-se ao porão. A portinhola foi aberta pelo elfo com cautela, enquanto o mago descia as escadas rumo a escuridão. Podia ver, ou melhor, podia sentir a presença de Villvert ali embaixo. Ouvia o tilintar da armadura que ele vestia, misturado ao som das quelíceras insetóides que recobriam seu corpo, voltando pouco a pouco para o conforto apertado da carne putrefata. Seus olhos brilhavam vermelhos de Tormenta.</p>
<p>- Como está se sentindo hoje, Vingança? &#8211; perguntou Enemaeon com um sorriso.</p>
<p>- Preciso de algo para matar &#8211; respondeu o morto-vivo colocando-se de pé.</p>
<p>- Dentro em breve, meu caro amigo. Talvez mais breve do que você espera.</p>
<p>Por detrás do elmo, a Tormenta sorriu.</p>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XXII</title>
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		<pubDate>Wed, 04 May 2011 16:12:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Grigori</strong></p>
<p>Ganhando a pequena rua, Enemaeon deixou a casa para trás e atravessou a ruela na direção dos campos que cercavam Ridembarr. Ladeou a fonte improvisada e cumprimentou sem muita vontade um casal que passeava pela pracinha. Haviam poucas barracas colocadas aqui e ali, oferecendo a colheita da manhã aos interessados em reforçar o almoço. Leite, queijos e carnes penduradas por fios nas traves baixas, protegidas do sol por um tecido grosso. Moscas revoavam pousando nos salames defumados, nos pães assados ao forno e um porco recém abatido, cujas melhores partes estavam sendo disputadas por duas aias.</p>
<p>Aproximou-se de um outro daqueles comércios e escolheu uma garrafa de vinho cujo parreiral &#8211; de acordo com o vendedor &#8211; ficava no reino de Bielefeld. O aroma era forte, indicando uma bebida encorpada, e indiferente quanto a origem, o mago o escolheu &#8211; recomendando ao mesmo que cobrasse após o meio do dia na casa dos Ridembarr. Passou ainda pelo templo simplório em honra aos deuses e pela estalagem do atual prefeito (cujo nome sempre lhe escapava) antes de deixar o calçamento gasto pelos anos e ganhar a grama alta da campina. Seu destino era uma casa simples numa baixada, logo após uma descuidada e já ressecada plantação de milho. As espigas parcialmente devoradas pelos animais caíam ao solo e as poucas sementes restantes brotavam novamente.</p>
<p>- E então, graças a mim, o Reinado estará para sempre salvo da fome devido as famosas espigas que se replantam sozinhas! &#8211; caçoou um homem alto, magro e descuidado que surgiu na janela sem cortinas. Cabelos parcialmente grisalhos, sujo de tinta e olheiras. Enemaeon não conseguiu evitar sorrir.</p>
<p>- Eis o mais ilustre filho de Ridembarr, Grigori, o artista! &#8211; anunciou o mago com uma reverência fingida e empolada voltando a face zombeteira para o companheiro que &#8211; cotovelos apoiados, bufou e riu com vontade.</p>
<p>- Perca toda a esperança vós que entrais &#8211; respondeu ele deixando seu local de trabalho e abrindo a porta que rangeu com vontade no batente. O necromante sem cerimônia adentrou pela sala simples abarrotada de quadros, encontrando o velho amigo trazendo duas taças consigo. Sentaram-se confortavelmente em cadeiras de madeira, os pés apoiados sobre uma mesa baixa abarrotada de jarros com tinta e conversaram sobre amenidades até esgotar a primeira garrafa. Uma segunda se seguiu quando enfim chegaram no assunto que os trouxe ali.</p>
<p>- Vai subir o Rio dos Deuses até Trebuck então? &#8211; era Grigori.</p>
<p>- Vou &#8211; respondeu o necromante sorvendo um longo gole de vinho, antes de voltar seu olhar para o rosto do amigo que sorria. Este, sem dizer mais nada, levantou-se e buscou uma tela antiga suja de pó e parcialmente desbotada e esquecida pelo tempo. Colocou-a diante de ambos e &#8211; braço apoiado sobre a tela, apontou para a vermelhidão sem sentido que se apresentava.</p>
<p>- Tormenta &#8211; disse apenas, como que esperando pelas palavras do amigo. Em resposta, ele se levantou e apoiou suas mãos nos ombros do artista que o fitava indiferente.</p>
<p>- Sei bem pelo que você tem passado, Grigori &#8211; falou ele apenas num murmuro &#8211; Mas preciso saber mais se terei que enfrentar este tipo de coisa.</p>
<p>- Não há mais o que saber. Eu tenho sonhos sobre o lugar, e eles são sempre vermelhos. De sangue e opressão. Sei que ele parece feio e incompleto &#8211; apontou para o quadro simplório e sorriu &#8211; Mas é assim que ela se mostra para mim. Vermelha e Incompleta, como se algo lhe faltasse apenas por sua própria e monótona força que tudo devora. Se puder evitar Trebuck, evite.</p>
<p>- O monstrinho que você me indicou da última vez &#8211; puxou assunto Enemaeon voltando-se ao seu lugar após servir-se de mais bebida &#8211; Eu o encontrei, como você havia dito que encontraria.</p>
<p>- O intruso? &#8211; perguntou Grigori interessado &#8211; Bem no meio do crânio, não é? Eu sabia. Isso prova que metade do que me perturba, pelo menos, é real. E como o tirou dali? O hospedeiro geralmente é forte como sete homens.</p>
<p>- Por isso contratei oito deles, por precaução &#8211; sorriu o mago &#8211; Mas três morreram nos primeiros golpes, dois mercenários tentaram fugir após isto e acabaram mortos pelas costas. Os que restaram lutaram pelas próprias vidas e então venceram. Me trouxeram o corpo. Procurei pela criatura e o resto é resto.</p>
<p>- E onde ela está agora?</p>
<p>Silêncio. Olhares. Por fim a confissão:</p>
<p>- Eu a implantei no corpo de um soldado ontem.</p>
<p>- Está louco! &#8211; bravejou Grigori &#8211; É um filho da Tormenta, um demônio! Ele irá matar você na primeira oportunidade e irá se espalhar por este mundo. Você devia ter pisado nele ou algo assim, e não alimentá-lo!</p>
<p>- Talvez, mas quem sabe ele não seja a resposta para nossa passagem por Trebuck? Se ele me ser útil pelo menos uma vez, terá valido a pena. E fique tranquilo, eu tomei certas providências para que ele não possa dominar completamente seu portador.</p>
<p>- É um daqueles seus mortos? &#8211; novamente interessado.</p>
<p>- Vou levá-lo para conhecer assim que me mostrar a cópia do mapa que desenhou para a Academia Arcana, anos atrás.</p>
<p>- Se ele está com um dos diabinhos sob o elmo, é a última coisa que quero ver nesta vida &#8211; respondeu ele levantando-se e dirigindo-se para o lugar onde guardava a cópia do mapa. A Academia Arcana era a maior (e talvez única) escola de magia arcana de todo o mundo de Arton. Nela se formavam os mais prestigiosos magos desta era, e foi onde Enemaeon aprendeu sobre magia até ser expulso. Administrada por um dos maiores arquimagos que já se teve notícia, o Grande Talude, ficava em um plano mágico que existia paralelamente à cidade de Valkaria. Era impossível, portanto, chegar até ela por meios normais. Porém, ninguém nunca havia colocado imposições sobre meios anormais.</p>
<p>- Sabe que se descobrem que tenho um destes virão atrás do meu pescoço &#8211; justificou Grigori já sem o sorriso cordial em sua face.</p>
<p>- O velho Talude não é o caçador de hereges ranzinza que você imagina.</p>
<p>- Não é o que dizem em Vectora &#8211; respondeu o pintor dando de ombros. Aproximou-se de uma outra tela, onde se via uma paisagem idêntica a encontrada do lado de fora de sua residência, com a estátua de Valkaria aparecendo parcamente e virou-a sobre a mesa que Enemaeon liberou do peso dos potes de tinta. Nela um mapa da cidade de Valkaria estava detalhadamente delineado, e assim que o mago a tocou, alguns pontos de luz passaram a brilhar em locais distintos.</p>
<p>- É só um mapa dos portais, fique tranquilo &#8211; apaziguou o mago &#8211; Preciso de algum deles em breve. Infelizmente o que eu utilizava foi cancelado na ocasião de minha expulsão, e nenhum dos rebentos agrícolas de nossa bela vila no meio do nada interessou-se o suficiente por magia para que criassem outro.</p>
<p>- Será que não está desatualizado? &#8211; era Grigori &#8211; Faz anos que o desenhei.</p>
<p>- Recomendei a você que usasse uma parte do papel que lhe entregaram na tela, lembra-se? Isto garante que ele se mantenha sempre idêntico ao mapa original que lhe foi encomendado.</p>
<p>- Você vai precisar de uma senha pra entrar na Academia, não importa que portal usar, você sabe &#8211; falou Grigori já antevendo a resposta que teria do mago. Este por sua vez, não o decepcionou e de pronto disse-lhe o que pretendia. Não havia meias-palavras entre os amigos.</p>
<p>- Se encontrar um portal, encontrarei alunos. E tirar a senha deles não é o mais difícil. Esta proteção tola é uma forma de entreter os garotos apenas, deixa tudo com um ar mais místico e empolado.</p>
<p>- Para mim um castelo que existe e não existe neste mundo ao mesmo tempo soa bem fantástico.</p>
<p>- Acredite, não é nada tão incrível assim &#8211; respondeu Enemaeon correndo os dedos ágeis pelo papel, procurando o melhor lugar para executar seu plano &#8211; Ainda mais se for mesmo uma parte do plano divino da deusa da magia como Talude apregoa. E pronto. Aqui estará ótimo.</p>
<p>- Na Favela Goblinóide? &#8211; perguntou Grigori não acreditando no que ouvia &#8211; Não tinha algum lugar mais triste, sujo e depressivo para entrar na academia?</p>
<p>- Sua casa, talvez? O lar do &#8220;Amaldiçoado&#8221; e suas espigas que se plantam sozinhas.</p>
<p>- Ou a latrina do imperador! &#8211; gargalhou Grigori, enfim &#8211; Mas que diabos. Não sei por que ainda tento colocar algum juízo entre estas suas orelhas. Que vá para o inferno!</p>
<p>- Não hoje, mas quem sabe em breve &#8211; respondeu o mago despedindo-se com um abraço e alguns tapas nas costas &#8211; E quando estiver lá, mandarei lembranças suas aos deuses malignos. Conto com sua presença no pomposo almoço de Cordélia e os Ridembarr?</p>
<p>- Não desta vez &#8211; sorriu Grigori despedindo-se e vendo os esboços das três meninas irmãs do mago sobre o tripé de pintura &#8211; Tenho um retrato para terminar.</p>
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		<series:name><![CDATA[Enigma das Arcas]]></series:name>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XXI</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Apr 2011 03:01:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[Enemaeon]]></category>
		<category><![CDATA[Enigma das Arcas]]></category>
		<category><![CDATA[Marlon Teske]]></category>

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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>O Filho Pródigo</strong></p>
<p>As horas se arrastaram no porão úmido até que exausto o necromante deitou os instrumentos que carregava ao seu lado e apoiou-se espreguiçando-se na cadeira de pala alta. Na mesa de operações, Vingança &#8211; o homem que outrora se chamara Villvert de Galien &#8211; jazia com o ventre aberto da virilha até a primeira costela, seu interior necrosado removido e acondicionado em jarros para posterior descarte. Estava lúcido no entanto, pois seu pensamento já não necessitava de nenhum tipo de conduíte orgânico para funcionar. Era magia que pulsava em seus ossos.</p>
<p>- Até aqui tudo bem &#8211; comentou Enemaeon mergulhando lâminas num líquido desinfetante e preparando agulha e linha para iniciar a sutura do corte &#8211; Vou fechar tudo por hora e concluir assim que conseguir os ítens que me faltam. Preciso, ainda, efetuar certos negócios pendentes na cidade. Até lá, por favor, fique aqui mesmo, sim?</p>
<p>- Não pretendia mesmo ir a lugar nenhum &#8211; respondeu o guerreiro sarcástico apontando para o próprio ventre vazio &#8211; Apesar de acreditar que não preciso dormir, me sinto cançado. Creio que vou aproveitar para recuperar o sono perdido.</p>
<p>- Faz bem em manter certos hábitos que o classificam como um ser vivente &#8211; respondeu Enemaeon limpando-se em uma toalha pouco antes de largá-la sobre o encosto da mesma cadeira que ocupara por quase toda a tarde &#8211; Mas o cansaço é apenas um fator menor.</p>
<p>- O que era aquela coisa que você plantou no meu crânio &#8211; perguntou ele fechando os olhos &#8211; Parecia um tipo de&#8230; inseto-demônio. Não sei explicar&#8230; parecia, errado, de várias formas.</p>
<p>O necromante manteve-se em silêncio, assistindo o cadáver morto-vivo sucumbir pouco a pouco à inconsciência. Subiu o lance de escadas que o separava do jardim lá fora, e por segurança, trancou a porta de aço com uma segunda e terceiras travas. Só então regressou ao casarão, desta vez adentrando pelos fundos, através da cozinha larga e repleta de comida. Duas ou três senhoras que preparavam o jantar cumprimentaram-no de maneira azeda e logo o expulsaram da cozinha. Enemaeon não se enfureceu, pois bem sabia estava fedendo e sujo de restos do corpo de Villvert. Atravessou o salão (onde Felrond roncava meio bêbado, uma garrafa ao lado) e subiu ao seu quarto.</p>
<p>Estava destrancado, os lençóis limpos e os livros em ordem. Antevendo sua subida &#8211; pois velhos hábitos nunca mudam &#8211; Geovana havia ordenado aos criados que uma tina de água fosse preparada para o banho, colocada atrás de uma divisória diante da janela. Deveria ter demorado mais do que o costumeiro, pois esta já estava agora parcialmente morna e não tão quente quanto apreciava. Mas, após tantos dias na estrada, mesmo aquela pequena regalia parecia demais para ele.</p>
<p>Despiu-se das roupas emporcalhadas (que provavelmente seriam queimadas pelos empregados no outro dia) e entrou calmamente em seu banho, suspirando profundamente os odores que dela subiam. Havia perfume de ervas na água. Um cuidado a mais. Molhou os cabelos ainda curtos com uma jarra e esfregou a barba que já dava sinais de rebeldia em seu rosto lentamente. Os olhos desceram ao peito onde a cicatriz provocada por Merodach jazia, tão recente quanto no dia em que arrancaram seu coração.</p>
<p>- É um corte bem feio &#8211; falou uma voz feminina, doce e sensual. O corpo delgado surgiu por detrás das cortinas. Avançando na sua direção em passos calculados, os olhos transbordando malícia sob a luz do luar que subia no horizonte. Seus cabelos fartos e negros caíam diante dos olhos, em parte, cobrindo a nudez de seus seios. Pego de surpresa, Enemaeon endireitou-se dentro da tina, procurando cobrir sua própria nudez.</p>
<p>- Senhorita, há não ser que tenha intenções lacivas, mal intencionadas e inapropriadas para comigo, peço que se retire de meu quarto da mesma misteriosa forma que surgiu.</p>
<p>- Infelizmente, minhas intenções são lacivas &#8211; começou ela também tomando lugar ao banho, deitando seu corpo esguio sobre o do mago &#8211; Mal intencionadas &#8211; continuou, as mãos em carícias espalhando-se entre os dois &#8211; E muito, muito inapropriadas&#8230;</p>
<p>Um longo beijo se seguiu, e ambos se perderam nas curvas de seus corpos e no ritmo ancioso do sexo. Molhados, desejando-se, seguiram do banho para a cama, e lá trocaram carícias durante a madrugada. Enemaeon não desceu para jantar, mas Felrond também não o procurou, acreditando que o mesmo estivesse ainda enfurnado no laboratório. A família do mago, ao encontrar as portas trancadas, não insistiu em chamá-lo, e a noite transcorreu assim até que a manhã o despertasse sozinho entre os lençóis bagunçados. A única companhia agora estava aos seus pés: a gata negra esticava-se preguiçosa. Recebeu um chute como desejo de um bom dia.</p>
<p>Sentado a beira da cama, levou ambas as mãos ao rosto procurando imaginar o quanto daquilo que lembrava não passava de sonho. O cheiro azedo de sua pele &#8211; recendendo a sexo e suor, misturado a um perfume de mulher fizeram-no sorrir. Não sabia de quem havia sido a idéia, mas foi bom esquecer um pouco dos seus problemas e afundar-se no calor reconfortante de uma amante. Lavou-se um pouco, escolheu uma nova muda de roupas &#8211; um robe longo azul sobre um manto negro &#8211; e desceu.</p>
<p>Encontrou a madrasta na mesa vestida como se a primeira refeição na casa dos Ridembarr fossem um acontecimento imperial, e não apenas um desjejum. Ela o olhou de soslaio, e erguendo com especial delicadeza a xícara de porcelana élfica, cumprimentou-o de forma entrecortada, com palavras que não lembravam nem de longe qualquer tipo de boas vindas &#8211; a não ser para o padrão dos anões, talvez.</p>
<p>- Seu amigo alcóolatra está esparramado no meu sofá desde a tarde de ontem, Enemaeon &#8211; pontuou certo sarcasmo nas palavras amigo e alcóolatra.</p>
<p>- Também fico feliz em vê-la bem, Cordélia &#8211; respondeu o mago de muito bom humor após a noite agitada, onde nem mesmo os costumeiros pesadelos haviam lhe assaltado &#8211; Importasse se eu lhe fizer companhia?</p>
<p>- Me importo, é claro, mas sei bem que você irá se unir a mim de qualquer jeito.</p>
<p>Cordélia tinha alguns anos a menos do que o próprio necromante, difícilmente passando dos vinte e oito. Tinha cabelos castanhos longos e impecáveis, olhos verdes como as florestas e dentes tão brancos e perfeitos quanto pérolas. Era, sem dúvida, a mulher mais bela de Ridembarr (mais linda até mesmo que várias das aristocratas da capital), e o próprio Enemaeon em seus tempos de garoto a havia cortejado sem sucesso. Foi estranho para ele saber do segundo casamento de seu pai justamente com Cordélia. Também foi estranho descobrir o quanto ela era fascinada pela riqueza e pelo ouro &#8211; que gastava entusiasticamente.</p>
<p>Cordélia engravidou três vezes em pouco mais de quatro anos, enchendo a casa de meninas para a satisfação de todos, a não ser da própria que desejava um filho homem para substituir Enemaeon &#8211; a quem sempre taxou de incapaz &#8211; nos negócios da família. Nesta época, o mago já estava às voltas com seus estudos na Academia Arcana, e nem de longe imaginava até onde sua vida poderia afundar. A madrasta no entanto parecia pressentir o destino terrível que lhe aguardava. Na quarta gravidez, um problema no parto custou-lhe o útero e quase a vida, roubando-lhe o sonho de um varão. Mesmo todo o ouro dos Ridembarr não foi capaz de recuperar-lhe o dom de parir.</p>
<p>- E quando pretende partir? &#8211; perguntou ela interessada.</p>
<p>- Ainda hoje, se possível &#8211; respondeu o mago servindo-se de queijo e coalho que passou sobre uma fatia grossa de pão &#8211; Preciso chegar até Valkaria antes do anoitecer. Alfonse regressa hoje, não é?</p>
<p>- Precisa de mais dinheiro, provavelmente &#8211; cutuou a madrasta com um sorriso de nobre mas com tom jocoso de puta na voz &#8211; Não acha que está na hora de deixar de brincar de magia e trabalhar um pouco para a prosperidade de nossa família?</p>
<p>- Acredite, Cordélia &#8211; era o mago sério, a mão sobre o peito em uma leve reverência, a mente divagando sobre a própria morte &#8211; Se tudo der certo desta vez, nunca mais ouvirão falar de mim.</p>
<p>- Foi o que disse há três anos quando saiu daqui pela última vez &#8211; brincou Geovana descendo para o café pelas escadas e jogando-se à mesa, reassumindo o papel de boa moça assim que os olhos furiosos de Cordélia caíram-lhe por cima. Vanessa e Angélica também se aproximaram, muito mais contidas pela presença da mãe e logo a família estava praticamente completa, a não ser pela notável presença de Alfonse, o patriarca da família.</p>
<p>- De onde você veio, irmão? &#8211; perguntou Angélica por fim &#8211; Esteve fora por tanto tempo, deve ter um monte de histórias pra contar.</p>
<p>- E o Paladino? &#8211; era a vez de Vanessa animar-se, empolgada. Tinha uma paixão juvenil de menina pelas histórias do Paladino de Arton, um homem cujo poder; diziam os boatos, era maior do que qualquer coisa que já vivera neste mundo, sendo intocável até mesmo ante a força dos deuses &#8211; Encontrou o Paladino?</p>
<p>- Acorda, garota &#8211; cortou Geovana apontando para a irmã com um garfo, a boca cheia de comida para o desespero da mãe &#8211; Nosso irmão é um vilão, mago das trevas, lida com mortos. Se ele encontrar o Paladino, ele vai é fugir!</p>
<p>- Se o Paladino de Jallar continua sendo o mesmo que era &#8211; divagou Enemaeon lembrando-se de seus anos na Academia, onde ouviu histórias contadas por Vladislav quanto ao desastrado amigo, cujos excessos de valentia acabavam lhe custando verdadeiras fortunas para resgatá-lo do mundo dos espíritos. Realmente, não combinavam com a fama que agora possuía. De qualquer forma, numa refeição matinal em família, podia se dar ao luxo de ignorar os perigos de um mundo real &#8211; Eu não terei muitos motivos para fugir. Pelo contrário, ele é que deveria fugir de mim.</p>
<p>Risos (menos os de Vanessa, que não encontrava graça em fazer troça de um herói famoso como o Paladino) despertaram Felrond de sua ressaca matinal. O elfo surgiu à porta ainda sujo de viagem, um risco de saliva no rosto pálido. Os cabelos mais desgrenhados do que nunca, jogados sobre as orelhas pontudas. Roupas marcadas de sarjeta e bebida, calças fedendo a couro de grifo. Cordélia fulminou o beberrão com os olhos, e os criados compreenderam o recado silencioso. Em instantes, o ébrio companheiro de viagem era levado para os fundos para um banho.</p>
<p>- É por andar com este tipo de gente que você será a ruína desta família.</p>
<p>- Tenho três razões para você estar errada nesta mesma mesa, Cordélia &#8211; respondeu secamente Enemaeon voltando-se para as irmãs que para ele sorriam. Ignorando o falatório da madrasta, respondeu a pergunta de Geovana &#8211; Eu estive em Tollon nos últimos tempos, e em Petrynia. Fiz o caminho entre os reinos por Vectora.</p>
<p>- Faz tempo que não vamos à Vectora &#8211; lamentou Cordélia lembrando-se da infinidade de lojas e pessoas interessantes que vagavam pelo mercado nas nuvens. A cidade inteira flutuava pelos céus de Arton pela vontade de seu criador, o mago-prefeito Vectorius (do qual, com certeza, Enemaeon fugiria na primeira oportunidade).</p>
<p>- É uma cidade chata e sem sentido &#8211; lamentou Angélica &#8211; Não tem monstros nem boas aventuras.</p>
<p>- Engana-se, minha pequena &#8211; sorriu o mago em resposta &#8211; É em Vectora, tanto quanto em Valkaria, que as aventuras começam. E foi onde minha atual jornada teve início.</p>
<p>Enemaeon contou superficialmente sobre a descoberta do pergaminho que o guiaria até o Templo de Merodach no Deserto da Perdição (evitando falar sobre ele diretamente, inclusive o fato de não ter mais coração), sobre sua passagem malfadada em Ciela e como foram parar, ele, o elfo Felrond e o amigo Garlor (que ninguém ali conhecia pessoalmente) pendurados em uma forca após combater os vampiros do Casarão dos Anon. Falou da viagem de navio, sobre o capitão minotauro e sobre como o fizeram de tolo usando um morto-vivo. Por fim, comentou sobre a aposta e a urgência de regressar até uma cidadezinha do outro lado do reino. Há esta altura, nenhuma das três meninas sequer respirava, atentas.</p>
<p>Cordélia em seu lugar apenas suspirou &#8211; Você levou quase um mês apenas para chegar aqui desde Gorendill. Como pretende voltar até o Rio dos Deuses nos quatro dias que lhe restam?</p>
<p>- Tudo ao seu tempo &#8211; sorriu Enemaeon confiante, limpando a barba num guardanapo de seda com as iniciais A.R. bordadas em fios de ouro &#8211; Antes, preciso ter com Grigori. Ele guardou algumas coisas que necessito para um pequeno projeto.</p>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XX</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2011 16:43:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tweet Ridembarr Mais uma semana e meia separava a Cão Negro de Ridembarr, e durante este período, os três viajantes seguiram evitando as principais estradas e vilas, o que exauriu...]]></description>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Ridembarr</strong></p>
<p>Mais uma semana e meia separava a Cão Negro de Ridembarr, e durante este período, os três viajantes seguiram evitando as principais estradas e vilas, o que exauriu ainda mais seu tempo. Já há quinze dias estavam longe de Garlor, da ira de Moranler e do Tortura, mas evitavam sequer tocar no assunto. A aquisição &#8211; como Enemaeon tratava Villvert, agora Vingança &#8211; havia se mostrado providencial. Um bando de gnolls foi feito em pedaços no terceiro dia (custando um braço ao guerreiro, reimplantado novamente pelo necromante), e quatro assaltantes goblinóides liderados por um bugbear tiveram o mesmo fim.</p>
<p>Destes últimos &#8211; humanóides carnívoros de compleição semelhante a humana, a não ser pela pelagem esverdeada e os olhos vermelhos &#8211; o grupo herdou um cavalo negro de batalha provavelmente furtado dias antes, adotado por Vingança como montaria em substituição ao seu animal perdido no incidente que custara-lhe a vida. O guerreiro não fazia questão de dar-lhe um nome, mas devido ao seu temperamento Felrond apelidou-o de Tormenta.</p>
<p>- O grifo também não tem nome… &#8211; lembrou-lhe Enemaeon certo dia.</p>
<p>- Nem o gato &#8211; respondeu ele por sua vez, encerrando a conversa. Seguiram trocando farpas volta e meia, como lhes era habitual até avistarem distante o vilarejo de Ridembarr, surgindo no alto de uma colina cercada por campos de cultivo. Um lugar simplório, de costume agrário. A cidade onde o mago Enemaeon nasceu, carregando seu nome consigo.</p>
<p>- Seu pai vive ai, não é? &#8211; perguntou o elfo espreguiçando-se &#8211; Como ele é?</p>
<p>- Ele é rico &#8211; resumiu o mago descendo da montaria e sentindo o solo sob seus pés. Respirou profundamente o ar das cercanias de sua infância e não conseguiu evitar um embrulho no estômago. Sempre odiara o clima de interior, de campo e de tranquilidade daquela cidade. Ridembarr tinha pouco mais de quinhentos habitantes há pelo menos dois séculos, o que demonstrava ser o cúmulo da inércia para a cosmopolita mente de Enemaeon. As casas de família caiadas de branco &#8211; amareladas pelo tempo &#8211; ruas gramadas, a pracinha, árvores frondosas. O retrato do horror.</p>
<p>- Um lugar onde nada nunca acontece, esta é Ridembarr &#8211; brincou o necromante abaixando-se e recolhendo a gata que ronronava aos seus pés, afagando os pelos negros distraido &#8211; Fica apenas há um dia de Valkaria, e normalmente os viajantes só param aqui para dormir.</p>
<p>- Invejo essa calma &#8211; falou Felrond por sua vez sem muita importância ao que dizia &#8211; Lenórien, onde nasci, era um lugar assim. E acabou destruída pela Aliança Negra, a união dos goblinóides no sul que vocês iriam financiar com sua pólvora.</p>
<p>- Iriamos vender pólvora para os elfos também &#8211; sorriu Enemaeon &#8211; Apimentar um pouco a batalha de vocês. Nem uma Infinita Guerra não pode durar para sempre.</p>
<p>- É apenas uma questão de tempo para a pólvora substituir a espada nas batalhas. Cada vez mais homens se rendem a ela e aos seus estampidos de morte &#8211; comentou Vingança para ninguém em especial. Tormenta por sua vez batia os cascos furioso, desejando prosseguir.</p>
<p>- Pois ela conseguiu mais um adepto &#8211; brincou Felrond girando desajeitado as pistolas em suas mãos que conquistara no navio &#8211; Pena que é tão dificil de achar munição.</p>
<p>- Em Valkaria teremos mais &#8211; respondeu Enemaeon &#8211; Por hora, precisamos encontrar com meu pai para negociarmos nossa estadia e efetuarmos algumas melhoras no corpo de nosso companheiro desmorto.</p>
<p>- Alguma chance de sermos mal recebidos? &#8211; perguntou Felrond.</p>
<p>- Sem dúvida &#8211; suspirou o mago &#8211; Afinal, há muito eu não passo de uma despesa aos negócios da família. Uma despesa cara, indesejada e sem a mínima expectativa de retorno.</p>
<p>De fato, conforme o trio de aventureiros adentrava às ruelas largas e calçadas com pedras antigas do vilarejo de Ridembarr em plena luz do dia, com o sol queimando-lhes às costas e o suor escorrendo por seu rosto, podiam sentir, além do calor, os olhos de toda a população mirando-os. O filho aventureiro regressara. Não eram incomuns ali, pois aventurar-se por ouro e fama era uma profissão comum em Arton, mas Enemaeon era especialmente famoso por isso em se tratando deste lugar em especial. Pois sabia-se &#8211; e muito pouco não se sabe em uma cidade tão pequena quanto Ridembarr &#8211; que havia sido expulso da academia por brincar com os mortos. Era impossível prever como reagiriam se soubessem que, daqueles três, apenas Felrond ainda era parte do que consideravam alguém vivo.</p>
<p>A casa dos Ridembarr ficava ao fim da ruela principal sobre uma colina baixa e com uma vista privilegiada tanto da pracinha quanto da pequena igreja em honra aos deuses do Panteão e da Estátua de Valkaria, a deusa da humanidade, retratada por um colosso de rocha com mais de cinco centenas de metros e visível mesmo dali. Apesar da opulência quando se comparada às demais casas do lugar, era no máximo simplória se colocada lado a lado com os prédios da capital. Tinha, assim como toda Ridembarr, séculos, sendo reformada, repintada e reconstruída de tempos em tempos. O jardim especialmente bem cuidado contava com uma profusão de roseiras que cresciam sobre as grades do muro baixo. No centro, uma figueira centenária estendia seus galhos grossos, uma casa de árvore em ruínas apoiada toscamente sobre ela.</p>
<p>- Foi você que a construiu? &#8211; perguntou Felrond maravilhado com o clima bucólico do local. Enemaeon não respondeu de pronto, olhando por alguns instantes em silêncio para a ruína infantil diante de si, e depois &#8211; leve pontada de dor &#8211; confessou nunca ter sequer subido seus degraus &#8211; Nunca vi graça alguma na idéia de fingir estar confortável lá no alto, por mais que o pai tenha insistido. Na verdade, muita coisa nunca despertou em mim qualquer curiosidade.</p>
<p>- Que vidinha sem graça essa a sua, não é? &#8211; caçoou o elfo apeando do grifo e juntando-se ao necromante. Este, diante dos portões, olhava curioso para o interior da residência procurando qualquer sinal de movimento. Não havia.</p>
<p>- Porque só não entramos?</p>
<p>- Perdi a chave junto com tudo o que eu tinha em Ciela, quando escapamos da forca graças a gentileza de Moranler em explodir a milícia com seus canhões. Não é de bom tom forçar a entrada na casa de nossos pais, mas creio que não há alternativa.</p>
<p>Recolhendo um toco de madeira do chão, Enemaeon se aproximou do cadeado novo e tocou-o levemente. Uma fagulha mágica brotou do galho e no mesmo instante, com um sonoro clique, a tranca se abriu e o portão rangeu sob seu eixo abrindo passagem. O mago pensou em descartar a peça de madeira, mas preferiu mantê-la consigo como garantia. Sem um item para canalizar mana, não era capaz de realizar qualquer magia. Deveria incluir um bom cajado nas aquisições a serem feitas dentro em breve.</p>
<p>Ladeou o caminho das carruagens pelo quintal gramado e chegou enfim ao portão principal, onde com três golpes rápidos na aldrava anunciou sua presença. A porta não tardou a abrir, e um sorriso brotou na face da menina que surgiu à porta. Esta, num salto quedou sobre o corpo do mago, que como esperado ante a fragilidade de seu corpo, por sua vez também caiu para trás, rolando ambos sobre a grama fofa.</p>
<p>- Angélica! Por favor, não estou disposto a repetir cada vez que regresso o quanto me incomoda este tipo de recepção bárbara e sem sentido. E diabos, a grama coça!</p>
<p>- Quem deveria reclamar sou eu, seu velho chato &#8211; sorriu a menina, não mais de oito anos &#8211; Você está fedendo à bebida, podridão e estrada. Não deve tomar banho há vários dias.</p>
<p>Antes que o próprio pudesse dizer qualquer coisa, a garota já gritava casarão adentro. Mais dois pares de pés ágeis se uniram a ela, caíndo sobre o mago que tentava levantar-se (e levando-o mais uma vez ao chão). Felrond gargalhou contente diante da cena, enquanto Vingança apenas aguardava junto aos animais, alguns passos atrás.</p>
<p>Angélica, Vanessa e Geovana eram as meio irmãs de Enemaeon, fruto do segundo casamento do pai e o adoravam por ser tudo o que elas sonhavam em ser um dia &#8211; apesar de estarem mergulhadas na precária aristocracia e na burguesia interiorana da cidadezinha em que viviam. Mesmo demonstrando um mau-humor fingido, elas bem sabiam que ele apreciava sua companhia e a admiração que não negavam sentir por ele e suas histórias. Enfim conseguiu levantar-se e adentrou o lugar, atravessando a porta de madeira escura e ouvindo o estalar do piso a cada passo. Felrond o seguiu, mas por ser elfo, parecia não pesar coisa alguma e a madeira não reclamava.</p>
<p>- Onde está Alfonse e a mãe de vocês? &#8211; perguntou Enemaeon por fim às três, cortando a algarravia de perguntas sobre a viagem e reclamações quanto ao cheiro das vestes do irmão.</p>
<p>- Papai viajou até Valkaria ontem pela manhã &#8211; respondeu Geovana, a mais velha com dez anos, quase uma mulher perante os olhos de Enemaeon que não há via a pelo menos três deles &#8211; Mamãe está na cidade, ocupando-se em gastar dinheiro. Deve voltar dentro em breve com novos vestidos e conversas fúteis angariadas na feira. Aquilo é um grifo?</p>
<p>- É sim &#8211; respondeu Felrond intrometendo-se enquanto largava seu corpo ágil no sofá macio e já surrado &#8211; Arrancaram-lhe as asas, mas ainda assim é bem forte. Viajamos nele nos últimos tempos. E por falar em nossos problemas recentes, quanto ao nosso amigo de odor característico, como ficamos? &#8211; perguntou o elfo apontando para o lado de fora onde os animais e a aquisição do grupo aguardavam.</p>
<p>O mago por sua vez pediu para a irmã do meio &#8211; Vanessa &#8211; para que cavalo e grifo fossem conduzidos por um dos criados até a estrebaria &#8211; devidamente separados um do outro durante a noite. Já quanto a Vingança, este ele mesmo escoltou até uma pequena entrada lateral que dava acesso a um porão úmido e empoeirado. Ali, sob uma parca luz de lampião, explicou brevemente quais eram seus planos para Villvert.</p>
<p>- Como já lhe disse, providenciarei para que seu corpo não continue apodrecendo como tem feito nos últimos dias, e mais, que se torne mais resistente para que incidentes como o que lhe custou o braço não se repitam. Basicamente, trataremos sua carne com formol, um componente químico que…</p>
<p>- Poupe-me dos detalhes. Apenas diga quando retomaremos à caçada ao bardo das trevas.</p>
<p>- Dentro em breve. Eu tenho um palpite quanto ao lugar para onde ele está indo, e acho que nós iremos para lá também, por isso lhe peço um pouco de calma. Acredite, quando eu terminar, você terá todo o tempo do mundo para assombrar Arton com suas guerras e lutas. Trabalharei esta noite, e amanhã até o findar da tarde, quando creio, estaremos prontos para seguir em frente. De qualquer forma, não há mais muito tempo.</p>
<p>- Para salvar o tal Garlor da sua aposta de acordo com o que Felrond comentou… &#8211; cortou Vingança com um sorriso pálido de morto. Enemaeon o fitou de volta, imaginando se manter o guerreiro vivo não seria um erro ao qual lamentaria por muito tempo. Sem responder, concentrou-se no que já havia reunido em seu laboratório, descobrindo velhas mesas e frascos com substâncias há muito tempo esquecidas no frio mofado do subterrâneo da mansão dos Ridembarr. Por fim, de um baú lacrado por magia, retirou um pequeno frasco onde, rebelde, um pequenino inseto se debatia furioso.</p>
<p>- Quatro anos &#8211; sorriu Enemaeon com o vidro diante dos olhos assistindo o balé furioso da criatura que golpeava à esmo em todas as direções, garras em riste. Todo fúria e quitina preso no casulo de vidro &#8211; Em todo este tempo você não descansou nem por um instante.</p>
<p>- Que diabo é isso? &#8211; perguntou Vingança aproximando-se interessado.</p>
<p>- Isto, meu caro desmorto, é exatamente o que você supunha &#8211; respondeu Enemaeon fitando-o &#8211; Isto é o diabo.</p>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XIX</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 00:36:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[Enemaeon]]></category>
		<category><![CDATA[Enigma das Arcas]]></category>
		<category><![CDATA[Marlon Teske]]></category>

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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Caçadores de Homens</strong></p>
<p>O que encontraram quando enfim chegaram próximos da taverna do Cão Negro lembrava a ambos um festim do inferno. Lobos meio mortos de fome devoravam com volúpia e urgência, disputando cada pedaço, cada naco de carne do que havia restado do corpo de uma dezena de mulheres vestidas de branco. No centro da algaravia de ganidos, rosnados e latidos, um corpo masculino pálido como a morte, girava lentamente ao sabor do vento fraco.</p>
<p>Felrond armando-se de uma das garruchas que trazia disparou um tiro seco que explodiu a cabeça da fera mais próxima. As demais rosnaram acovardadas e sumiram em correria logo após o segundo tiro e a segunda morte entre os seus. Ventava muito anunciando uma tempestade para breve, e o quanto antes limpassem o lugar, antes poderiam descansar da viagem. Até o grifo – desacostumado em caminhar por ter sido privado das asas – estava entregue das horas de trote. Quando o último dos lobos foi escorraçado, o elfo aproximou-se do corpo nu do guerreiro, estacando há dois ou três passos dele por ordem de Enemaeon.</p>
<p>- Algum problema com ele? – inquiriu, todo cautela.</p>
<p>- Sinto que ele é perigoso. Só isso. Verifique lá dentro, vou tentar descobrir como foi que ele acabou como um porco abatido, amarrado nesta placa pelos tornozelos.</p>
<p>- Isso não parece estranho pra você? – lamentou Felrond pouco antes de desaparecer porta adentro da taverna – Eu sou um batedor que não sabe ler pistas; acompanhado de um mago que não pode fazer magia.</p>
<p>- Não me espanta sermos um fracasso como grupo então – sorriu o necromante ante seus próprios pensamentos, já analisando as peças soltas da armadura rubra do guerreiro. Não foi difícil encontrar um medalhão de ferro enegrecido, amassado e marcado por sangue. Machado, Espada e Martelo. O símbolo de Keenn. Aos seus pés, o gato negro ronronou nervoso, os pelos eriçados ante a descoberta.</p>
<p>- Clérigo da Guerra, então – ponderou Enemaeon armando-se com a pesada espada do guerreiro que jazia ainda encravada nos ossos descarnados de uma das noivas que jaziam no solo conspurcado de sangue e violência. Desajeitado, tentou cortar a corda com um movimento de serra, a lâmina marcada repleta de dentes vencendo, milímetro a milímetro a resistência da fibra.</p>
<p>- Golpeie – gemeu Villvert com a boca inchada, dentes sangrando, cheiro de podridão brotando das feridas cheias de moscas – É uma espada&#8230; não um canivete.</p>
<p>- Não sei brandir o aço, meu caro resto do que foi um dia – respondeu Enemaeon continuando sua litania de vai e vem com a lâmina – Um golpe meu teria mais chances de decepar-lhe um pé do que cortar a corda.</p>
<p>O clérigo bufou qualquer coisa incompreensível e calou-se. Pouco a pouco a amarra cedia e ele descia um pouco mais. Nesta altura, Felrond regressara e ambos juntos por fim completaram a tarefa de descer o corpanzil do cativo. Não desamarraram-lhe, entretanto. Ainda com mãos e pés atados, carregaram com dificuldade a montanha de músculos até um quarto nos fundos da estalagem e lá o deitaram.</p>
<p>- Ele vai viver? – perguntou Felrond limpando-se da sujeira de sangue seco e suor. Lá fora, os primeiros pingos grossos da chuva começaram a despencar, lavando o mundo.</p>
<p>- Talvez. É forte como um cavalo, mas está bastante ferido. Vou procurar água para lavar-lhe os cortes e dar-lhe de beber. E cobertores. Temo que o veneno da ferida se espalhe. Neste caso, só vamos adiar o inevitável. Enquanto isso, recolha os corpos das mulheres lá fora.</p>
<p>- Não imaginei que tínhamos tanto tempo assim para desperdiçar tratando de um desconhecido – pontuou o elfo de braços cruzados – O que tem ele de especial para você se preocupar se ele vai viver ou morrer?</p>
<p>- Pode parecer estranho, Felrond, mas me faltam palavras para explicar. É uma espécie de sexto sentido, talvez. Eu sei que o que aconteceu aqui está, de alguma maneira, relacionado com o mal que me acometeu. E quero saber com detalhes os motivos desta matança.</p>
<p>- E nosso prazo para voltar até o outro lado do reino? – inquiriu preocupado. Mas não houve resposta alguma.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Três dias se passaram na Cão Negro e Villvert não dava sinais de melhora. Havia vomitado com vontade pelas primeiras horas, o corpo lutando para livrar-se do nauseabundo conteúdo da ampola injetada em sua nuca. Ardeu em febre nos próximos dois dias, delirando. O mago dispensava boa parte de seu tempo entre o trato com enfermo e os corpos das noivas, que estudou com renovado interesse. Felrond passava as tardes bebendo, e bebida não faltava na Cão Negro, por isso não notou o tempo passar.</p>
<p>A chuva também não dava sinais de parar tão cedo, e a água já descia feroz das encostas próximas, o chiado insistente na copa das árvores já não era mais percebido pelos ouvidos. Estava muito frio quando o clérigo guerreiro enfim acordou num sobressalto. Enemaeon entrava neste momento em seu quarto, enxugando as mãos numa toalha. Não disse nada a ele. Queria que ele começasse com as perguntas, para facilitar seu questionário após sanar as dúvidas habituais de quem desperta após a inconsciência.</p>
<p>- Se tivesse golpeado a corda teria me soltado antes – disse apenas.</p>
<p>- E teria uma concussão no crânio a mais para me preocupar devido à queda de cabeça – respondeu o mago secamente – Costurar seus ferimentos já me manteve ocupado o suficiente.</p>
<p>Os dedos grossos do guerreiro correram o próprio o corpo, sentindo a linha e os pontos na carne, contando-os superficialmente apenas como referência, pois Villvert nunca aprendera a contar mais do que até dez, e a quantidade de cortes superava e muito tal quantia. Estavam aparentemente bem fechados e limpos. E não doíam nada, apesar da gravidade deles.</p>
<p>- Fez um bom trabalho – murmurou, mas sem agradecer &#8211; É médico?</p>
<p>- Necromante – cortou o outro aguardando pela compreensão que não vinha– Suas roupas estão aos pés da cama, assim como a armadura. Vista-se primeiro. Conversaremos mais sobre o ocorrido depois.</p>
<p>Villvert colocou-se de pé rapidamente, o rosto austero agora manchado por uma nova cicatriz e pela barba há muitos dias por fazer. Era alto como uma coluna, cada movimento era militarmente calculado. Uma máquina de matar humana, derrotado por um golpe covarde pelas costas. Levou a mão até a nuca.</p>
<p>- Uma seta com veneno – começou Enemaeon &#8211; Seu oponente não era um guerreiro tampouco era corajoso, provavelmente alguém pequeno e fraco, mas ainda um homem se considerarmos sua companhia formada apenas por mulheres. O veneno que lhe aplicaram é extraído de uma planta, a Conah, de Tollon. Altamente letal se não for tratado imediatamente.</p>
<p>- Então foi Keenn que guiou vocês até mim – observou o guerreiro. Era difícil às vezes, tanto para o mago quanto para a vítima se fazerem entender nestas primeiras horas. Por isso Enemaeon evitava sempre que possível proceder daquela forma. Mas o momento exigia, não podia permitir que tanto conhecimento se perdesse. E, após concluído, pode-se dizer que estava orgulhoso do seu trabalho.</p>
<p>– Onde está minha espada? – inquiriu o guerreiro, já em armadura completa.</p>
<p>- Está comigo no momento, por um pequeno detalhe que precisamos acertar antes de partirmos. Na verdade, apenas tratei de seu corpo devido a uma carta que encontrei entre seus pertences.</p>
<p>- Quem permitiu que qualquer um revirasse minhas coisas, mago? – inquiriu Villvert aproximando-se um passo, ao mesmo tempo em que Enemaeon recuou um. Havia ira e perigo na voz do guerreiro.</p>
<p>- Não se trata de uma intromissão propriamente dita, queira compreender – justificou-se ele, um passo mais próximo da saída – Pode parecer meio repentino, mas você teoricamente não tem mais direito a nada neste mundo, meu amigo.</p>
<p>Ameaça. Villvert agiu antes que pudesse pensar, seu corpo era todo instinto e batalha. Um soco voou de suas mãos na direção do frágil velhote que se interpunha em seu caminho, explodindo de encontro a parede frágil da taverna. O reboco improvisado desfacelou-se em pó e o som de armas sendo engatilhadas repercutiu em seus ouvidos.</p>
<p>- Calminha ai monstrão – era Felrond com as pistolas em punho – Enemaeon que me perdoe, mas outra dessas e eu jogo os três dias de trabalho dele pela janela, junto com miolos, chumbo e lascas de osso.</p>
<p>- “Merodach pretende voltar. Os sete baús são a chave. Detenha o mago da morte banido” diz a carta que você trazia consigo – tornou a falar Enemaeon colocando-se entre a mira de Felrond e o guerreiro – Eu conheci Merodach e sei do que ele é capaz. De onde essa carta surgiu? Quem a escreveu? E o mago negro do texto, foi o mesmo que lhe atacou aqui?</p>
<p>- Para o inferno, ambos – urrou Villvert numa nova investida, atropelando Felrond e ganhando o salão principal da taverna. Lá, duas das noivas estavam novamente em pé, arrastando-se sobre o que restara de seus corpos, impedindo-o de ganhar a liberdade da floresta. Seus olhos cheios de ira voltaram-se para Enemaeon, mas só encontraram pena.</p>
<p>- Seu bruxo infernal – amaldiçoou o clérigo – Que Keenn me de forças, irei acabar com sua vida.</p>
<p>- Não seria de bom tom matar o homem que lhe deu outra chance, Villvert – respondeu Enemaeon sério – Eu fui bastante claro ao lhe dizer. O Conah é letal se não for tratado a tempo. Você ficou horas com o veneno correndo nas veias. Nem mesmo um cavalo resistiria tanto tempo.</p>
<p>- O que quer dizer com isso? – bufou ele em resposta. Uma centelha de dúvida em sua voz.</p>
<p>- Quer dizer que você morreu – foi Felrond que respondeu num único fôlego – E agora tu estás na mesma situação das duas senhoritas na porta. Simples assim.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>Por uma hora inteira Villvert isolou-se, sentado sobre a escada que levava ao segundo piso da taverna, olhando com curiosidade para a própria carne através dos cortes costurados com cuidado. Ela enegrecia pouco a pouco. Sentia frio, fome e urgência. Mas estava vivo, de certa forma. Ainda raciocinava de forma bastante clara, e lembrava-se com grande precisão do rosto sem face de sua presa. Gesphen. Colocou-se enfim de pé e se aproximou dos dois que haviam lhe tirado das cordas. Estavam na outra extremidade em silêncio e aguardando. O gato negro próximo dormia.</p>
<p>- Quanto tempo este corpo irá durar? – perguntou o guerreiro ao necromante. Felrond engoliu um grande gole de vinho e também voltou-se para o amigo que com o rosto apoiado sobre as mãos olhava para o zumbi, interessado.</p>
<p>- Dois, três meses se partir agora – respondeu ele com um dar de ombros – Ou muito mais, se me acompanhar. Posso mantê-lo por séculos se assim desejar, mas para tanto preciso das ferramentas adequadas. Fiz um trabalho amador agora pois estava em uma taverna contando apenas com o que encontrei lá dentro. Se me seguir até meu lar em Ridembarr posso torná-lo completo. E então irá viver por quanto tempo conseguir manter-se intacto.</p>
<p>- Não preciso de tanto tempo assim. Apenas quero me vingar do desgraçado que me matou. Por Keenn e por tudo o que acredito, vou arrancar o tampo daquele crânio vazio e beber o cerne de seu cérebro.</p>
<p>- Já está até falando como zumbi – escarneceu Felrond – Essa fixação por miolos é o que mata vocês.</p>
<p>- Estávamos falando disso antes, a propósito. Gostaria de compartilhar conosco o que sabe? As meninas estão ligadas a ele por uma espécie de ligação superior as minhas forças e nada me disseram a não ser o que eu já sabia.</p>
<p>- O verme se chama Gesphen, e se intitula como Bardo Negro. Apesar de tudo, ele não parecia ser gente. Era estranhamente errado. Como um saco de pele humana cheio de sombras.</p>
<p>O clérigo guerreiro contou em detalhes tudo o que sabia sobre Gesphen, desde a chacina no vilarejo em Yuden até sua caçada através de Deheon que culminou com a luta na taverna e sua morte. Explicou sobre a viagem até a Caverna do Saber, sobre a canção de Merodach e sobre a carna que não podia ler. Por fim detalhou o quanto podia lembrar do próprio Gesphen, seus atos e palavras. E sobre as noivas, suas servas, escravas do mal que o havia criado.</p>
<p>- Talvez trate-se de um espectro, uma sombra do mal – ponderou Enemaeon olhando para o solo mergulhado em pensamentos e possibilidades. Ergueu-se então de súbito e apoiando uma das mãos sobre a armadura rubra de Villvert disse em tom cordial.</p>
<p>- Sei que não tinha o direito de manter suas memórias nesta sua nova condição, Villvert, mas era importante para todos nós sabermos mais sobre sua busca. Busquei, de todas as formas que me eram possíveis, mantê-lo vivo. E só optei pelo último recurso que me cabia quando soube que não teríamos mais chance. Leen venceu a luta&#8230;</p>
<p>- Mas não ganhou a guerra – completou o guerreiro batendo com a manopla em seu peito – E agora não me chame mais de Villvert. Ele morreu em batalha, em honra a Keenn e aos deuses. Meu nome agora é Vingança, pois ela foi tudo que me restou.</p>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XVIII</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Apr 2011 16:16:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>O Capitão Num</strong></p>
<p>Não se ouvia um único ruído no convés do Tortura, além dos parcos estalos da madeira acomodando-se à água gelada do rio, e das cordas puxadas pelas várias velas da nau. Não havia uma única tocha ou lampião iluminando as trevas. Nos porões, não mais piratas mas apenas homens rezavam aos deuses da sorte para que tudo ocorresse da melhor maneira possível. Oravam por suas próprias vidas, que valiam pouco, mas era o que tinham.</p>
<p>Apenas dois homens podiam ser vistos no convés, apesar de outros tantos estarem ocultos nas sombras, as cabeças baixas, pistolas e sabres preparados. Observavam a movimentação no porto como quem atravessa o covil de um dragão temendo acordá-lo. Garlor era um deles. Mas o clérigo de Hynnin não mais rezava. Já havia colocado seu destino nas mãos dos deuses, e tinha uma ponta de esperança de que Enemaeon sabia o que estava fazendo. O outro era mais do que um homem. Moranler, um imenso minotauro albino. Os olhos de rubi se mantinham fixos num único barco.</p>
<p>O Capitão Nun era conhecido há muitos anos como &#8220;O Câncer&#8221;. Um dos piratas mais sanguinários que já viveram em Arton, dominava como poucos os segredos da navegação naquelas águas corrediças do Rio dos Deuses. Décadas atrás, havia matado e roubado muito mais do que o necessário, a ponto de ser considerado uma ameaça pelo próprio Reinado. Mas a idade e o tempo eram implacáveis, e na velhice, conseguiu comprar seu perdão das mãos de Phillidio, o Imperador-Rei pai de Thormy. Desde então, estabeleceu-se como responsável pela segurança do porto de Gorendill para viver uma falsa aposentadoria.</p>
<p>Mas a verdade era outra. Agora com a anistia imperial, ele continuava matando e roubando, desta vez de outros piratas. Seu navio, o Tumor, era uma galé de madeira escura, com três mastros para a descida e impulsionada pelos remos dos escravos rio acima, acorrentados pelos pés e ritmados pelo tambor e pelos chicotes. Apesar de oficialmente não existirem nos registros dos governantes de Gorendill, e por isso invisíveis aos olhos do Reinado, boatos sobre um destino pior do que a morte aos remos no Tumor eram contados em vários dos portos menores nas cidadelas ribeirinhas.</p>
<p>Para a alegria de alguns, também haviam rumores cada vez mais freqüentes sobre a grave doença de Nun. Diziam que o velho pirata estava enfim morrendo. Não que isso fosse de alguma serventia naquela noite para os homens naquele navio, mas era reconfortante imaginar que o velho carcomido pelos anos enfim iria acabar numa cova rasa devorado pelos vermes. Eram estes os pensamentos que iam e vinham na mente de Moranler quando ele observava o cais. E a sensação mais próxima que Moranler podia chamar de medo subiu-lhe pela espinha, arrepiando os pelos das costas até a nuca. Não havia dúvidas. Reconheceu de pronto a figura que lhes olhava de volta.</p>
<p>Sob a luz parca da lamparina única no cais, de pé misturado ao relento. A pele queimada pelos anos ao sol num tom quase rubro, cabelos e barbas completamente brancos, trajando seu sobretudo de capitão. Silverdall sabia. Tratava-se do homem que mesmo velho possuía ainda o mesmo brilho assassino nos olhos. As costas arqueadas (dizem que pelo peso dos crimes que cometeu) soergueram-se um pouco. Ergueu sua mão, e ao baixá-la, os primeiros tiros de canhão ressoaram na noite.</p>
<p>- Impacto! &#8211; urrou Moranler pouco antes de metade do convés explodir em fragmentos de madeira e aço. Dois dos seus morreram na mesma hora, atingidos pelos estilhaços. Outros três estavam feridos e inutilizados. Era tarde demais para negociações. Moranler passou a ditar suas ordens, e elas eram cumpridas de imediato. A bandeira pirata subiu mastro acima, e os tiros começaram a ecoar na noite.</p>
<p>Pela direita e pela esquerda, duas galés aproximavam-se ameaçadoras, saindo das brumas. Estavam lotadas de mandriões sujos, espadas em mãos e punhais entre os dentes apodrecidos pelo tabaco. Alguns deles avançavam ainda armados com pistolas. Cada um dos navios carregava um canhão repleto de pólvora, o cano além da bala levava correntes e pregos. Matariam todos, sem dúvida. Mais dois tiros ecoaram através do cais, mas atingiram a água apenas. O atirador seria chicoteado por Nun mais tarde.</p>
<p>De posse do timão, Moranler lutava contra as águas contrárias do Rio dos Deuses. Colocou alguns de seus homens para remar, e o seu imediato apressou-se em lembrá-los que remavam pelas próprias vidas. Outros tiros ecoaram, agora das embarcações que os cercavam. Um dos projéteis surgiu através da madeira, criando um rombo de meio metro no casco e arrancando braços e pernas de alguns dos piratas. Pregos encravaram-se profundamente na madeira e na carne, e os homens gritavam de dor e medo.</p>
<p>Era vez do Tortura revidar. Os quatro canhões da nau &#8211; um dos orgulhos de Moranler &#8211; explodiram num só estampido, causando pesadas baixas nas galés adjacentes. A perda de parte dos escravos atrazou os captores, permitindo que o navio ganhasse distância. Quando uma ponta de esperança preencheu o coração dos homens a bordo, as primeiras cordas foram arremessadas, enganchando-se na madeira. Dois piratas apressaram-se em cortar o cânhamo com golpes de machado. Foram baleados em resposta.</p>
<p>- Envie os arqueiros para bombordo &#8211; ordenava o imediato enquanto Moranler manobrava, os olhos fixos no último navio que os perseguia, o Tumor de Nun. Novos disparos de canhão, desta vez mais precisos. Um dos mastros foi atingido e caiu sobre o convés, as cordas rasgando o ar e levando alguns homens consigo. Havia fogo surgindo em alguns pontos, e os pequenos focos eram combatidos com baldes d&#8217;água.</p>
<p>Apenas dez dos quarenta tripulantes possuiam armas de fogo próprias, mas outras tantas eram distribuidas para os marujos pelo imediato. A abordagem agora não tardaria. As galés menores e leves eram muito mais velozes do que a pesada nau maritma de Moranler, e logo emparelharam novamente lado a lado. Os ganchos foram arremessados e os barcos eram puxados com fúria. Como última ordem, o minotauro ordenou que um novo disparo fosse efetuado. O solavanco derrubou barris e homens, mas foi efetivo. A embarcação da direita partiu-se em duas e começou a afundar.</p>
<p>Sem outra alternativa, os piratas passaram à abordagem, nadando e buscando ganhar o tombadilho escalando pelas cordas. Eram mortos aos pares, com tiros e golpes de espada. Mas também matavam, e cada morte no convés era sentida pesadamente pelos tripulantes em número muito inferior. E era nessa situação que Garlor, que tornara-se conhecido como &#8220;Presas de Prata&#8221; gostava de lutar.</p>
<p>Inconcientemente, talvez, ele desejava a morte. Pelo desprezo por seu caminho de vida, por seus crimes ou pela perda da mulher que amou, há muito que nada importava para Garlor. E quando vários inimigos se punham entre ele e o fim, sacava os punhais que lhe conquistaram a alcunha e lutava. Rasgava gargantas, perfurava os ventres desprotegidos. Um pirata, golpeado no rosto, teve a mandíbula rasgada, da boca o sangue corria e o rosto eternamente desfigurado.</p>
<p>Outro preparou-se para um disparo, mas não teve tempo. Girando sobre os calcanhares, Garlor levou a lâmina a correr rente a pele do oponente, subindo pela coxa e atravessando-lhe até a altura do peito. Os intestinos logo jorraram pela fenda no abdômem. O homem caiu no mesmo instante em que ele chutou suas armas que giraram através do convés até as mãos de um dos aliados.</p>
<p>Àquela altura, Moranler também já lutava. Poucos tinham coragem o suficiente para se aproximarem dele, em toda sua altura alva, olhos rubros e chifres de touro. Um colosso de carne que apenas com as mãos nuas fraturava ossos. Quando decidiu que era a hora, avançou na direção dos invasores em silêncio. Foi atacado por um golpe de espada. Tirou a arma das mãos do homem como se este tivesse apenas doze anos, e não trinta. Quebrou-lhe o pescoço com um golpe único na nuca. A espada foi arremessada e enterrou-se profundamente nas costas de um outro. Tombavam. E continuavam vindo.</p>
<p>O ânimo inicial dos captores deu lugar ao temor da morte. Os tripulantes do Tortura foram reduzidos em número, selecionados pela batalha. Eram pouco menos de uma dúzia agora, mas eram os melhores. E estavam sedentos por matança gritando e ameaçando. A segunda galé praticamente vazia estava apinhada de corpos, apenas os atiradores resistiam, recarregando a pólvora em suas pistolas. A primeira nau havia naufragado completamente. E a terceira e última aproximava-se ameaçadora. A mais letal de todas. O Tumor.</p>
<p>Em meio à breve calmaria nos ataques, a voz de Nun ganhou a noite. Após tantos disparos, não havia uma única casa em Gorendill que não estivesse com as luzes acessas, e pontos dispersos de luz se moviam através das ruas, indicando grande movimentação de homens no porto. Mesmo distantes uma centena de metros, podiam ouví-lo. E temê-lo.</p>
<p>- Tens duas opções, pirata! &#8211; gritou Nun, a voz chiada e velha, um dos pés apoiados sobre o canhão de proa &#8211; Aceitar os ferros da prisão e salvar sua pele ou afundar com o que sobrou desta porcaria de barco. Escolha!</p>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XVII</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Mar 2011 14:42:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Enemaeon]]></category>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><div><strong>Verdades</strong></div>
<div></div>
<div>Felrond Hang, elfo de Lenórien, pendurado pelo pescoço sob a sombra frondosa de um salgueiro, balançando morto suavemente ao sabor do vento. Próximo dele, Enemaeon fumava, esperando por algum espasmo involuntário dos músculos delgados do filho de Alihanna, um último brinde da morte, quase uma brincadeira de péssimo gosto para com o cadáver. Foi este e apenas este pensamento que impediu que Enemaeon sucumbisse a ira e o esganasse realmente, e não apenas em seus sonhos.</div>
<div>
<p>&nbsp;</p>
<p>- Por qual razão você ousou acreditar que essa seria uma troca justa? &#8211; queixou-se o mago, chutando a carcaça do zumbi pirata, que desajeitado caiu para trás. A cabeça parcialmente descarnada, desprendendo-se do corpo e rolando de lado parecia sorrir. Em resposta, o elfo gargalhou tomando o último e derradeiro gole de sua garrafa e lançando-a sobre os ombros. O objeto caiu nas águas tranquilas do Rio dos Deuses, seguindo o curso manso da correnteza.</p>
<p>- Essa vida realmente não faz bem pra você, meu velho &#8211; disse ele enfiando a mão nos bolsos e retirando o medalhão dourado dele, arremessando-o em seguida para Enemaeon que o pegou em pleno ar &#8211; Pode conferir, depois da lição em Paltar eu jamais iria ser enganado novamente. Essa droga está em meus pesadelos todas as noites, ele e uma tina d’água.</p>
<p>O necromante analisou a peça longamente, e então voltou seus olhos curiosos para Felrond que acariciava as penas da cabeçorra do grifo.Notando que era observado, explicou-se sem prolongar-se demais na narrativa. &#8211; Garlor me entregou pouco antes de partirmos do Tortura.</p>
<p>- E o que você contou a Moranler? Digo, em troca do grifo.</p>
<p>- Contei a verdade. Que o medalhão estava no estômago do nosso amigo morto-vivo, e que por isso você fazia tanta questão de levá-lo consigo quando chegasse a hora de descer do navio. Obviamente, o capitão não acreditou apenas em minhas palavras. Há alguns dias, pela manhã, Moranler e eu esvaziamos o bucho do infeliz e achamos a peça dentro dos seus restos. Foi uma experiência terrívelmente lúdica. Moranler satisfeito me entregou meu prêmio e recolheu o medalhão.</p>
<p>- E hoje Garlor tornou a furtá-lo, entregando-a para você &#8211; surpreendeu-se Enemaeon pela engenhosidade do plano até ali &#8211; Provavelmente ele nunca iria desconfiar que daríamos a guarda da peça justamente para quem nos traiu até ser tarde demais. No entanto, vocês não contavam com a exigência de manter Garlor cativo. Provavelmente Moranler previu a jogada, ou deu pela falta da peça antes do esperado e manteve o trunfo.</p>
<p>- Exatamente. Quando procurei Garlor falando do meu interesse pelo meu amigo emplumado, nosso amigo traçou este plano. Algo como fazer parte das obrigações dele como clérigo. Também disse que estava entediado e procurar pelo medalhão seria um passatempo. Não esperavamos problemas com o navio em Gorendill, o que nos dava ainda alguns dias para sumir durante a noite. Talvez hoje mesmo.</p>
<p>- Deveriam ter me colocado a par das suas tramóias &#8211; queixou-se Enemaeon iniciando sua caminhada rumo a cidade que marcava o coração do continente. Felrond deu de ombros, montando sobre o animal e trotando ao lado do mago. Vendo que o gato negro também o seguia, disse num desabafo:</p>
<p>- Você sabe que está reclamando sem motivo. Fala como se você nos dissesse muito sobre suas idéias malucas. Apostar a vida de Garlor? Onde estava com a cabeça?</p>
<p>- Eu não sabia que…</p>
<p>- Que não tinha mais o medalhão, não é? &#8211; provocou o elfo apoiando-se maroto sobre as costas largas do grifo que fuçava e farejava o chão diante do caminho de ambos &#8211; Achava que estava por cima, com todas as cartas ganhadoras. Não sabia o quão perto esteva de por tudo a perder. Achava que na pior das hipóteses, iria salvar o próprio rabo às custas da pele de Garlor.</p>
<p>As palavras de Felrond atingiram o mago num ponto crítico. Talvez inconscientemente Enemaeon houvesse mesmo planejado tal coisa. Apostado a vida de seu último e único amigo neste mundo em troca da salvação da própria alma. Teria ido ele tão longe sem sequer se dado conta? Era uma resposta que ele ainda não tinha, e recusava-se a aceitar.</p>
<p>- Bobagem, Felrond! &#8211; respondeu, apenas um fio de voz &#8211; Não havia outra escolha. Ele nos mataria os três naquela hora se eu não tivesse aceito suas condições. Se conseguirmos… não, quando conseguirmos &#8211; pontuou &#8211; Garlor será um homem rico para sempre. E então eu terei pago pelo menos em parte a dor que lhe fiz sofrer anos atrás.</p>
<p>- Agora quem está falando merda é você. Sandra era uma mulher que se eu não tivesse visto nua, poderia jurar que teria bolas no meio das pernas &#8211; comentou o elfo lembrando-se do delicioso corpo forjado pelas lutas da antiga companheira de jornada.</p>
<p>- Não fale assim dos mortos &#8211; ralhou o mago observando o andar lento do grifo.</p>
<p>- Nada do que você não possa concordar. Ou vai dizer que nunca… &#8211; ironizou o elfo. A pele flácida e sem vida de Enemaeon corou por um instante, o que foi facilmente notado pela aguçada visão do amigo que explodiu em risadas &#8211; Não fique assim, mago. Na época até eu acabei provando do mel de Sandra Halden. Não podemos culpar uma mulher por gostar de sexo.</p>
<p>- Garlor gostava mesmo dela, e por minha causa ela morreu. Será que não compreende isso?</p>
<p>- Está sendo trágico. Sandra vivia de matar pessoas, era uma mercenária e escolheu fazer parte da guilda por vontade própria. Se ela morreu em serviço, não foi por culpa de mais ninguém a não ser dela mesma. E você que gosta de se mostrar tão esperto pra cima de nós já deveria ter aceito isso. Mas a morte de Garlor agora é outro jogo. Como pretende ir e voltar de Valkaria em tão pouco tempo?</p>
<p>- Não há problemas quanto a isso. Só precisamos nos preocupar com a viagem até lá. Se tudo der certo, chegaremos em vinte dias. Voltar será um mero detalhe.</p>
<p>- Então chega de conversa e monte no nosso amigo emplumado. Pelo visto me preparei muito mais para salvar a vida do clérigo do que você.</p>
<p>(…)</p>
<p>A viagem de Felrond e Enemaeon transcorreu sem maiores incidentes por três dias. No findar do quarto alvorecer, Villvert de Gallien alcançou a trilha de morte de Gesphen, o Bardo Negro, e passou a seguí-la, para o sul, afastando-se da sua rota original. No sexto dia de cavalgada, o clérigo da guerra foi apanhado pelas noivas amaldiçoadas de Gesphen, sendo derrotado, despido e amarrado para morrer no que restou da taverna Cão Negro. Estava agora há quarenta quilômetros de Ridembarr, e a outros cinqüenta de Valkaria.</p>
<p>Nesta mesma noite, enquanto Felrond e Enemaeon avistavam ao longe às luzes opacas da Cão Negro brilhando diante da sombra crescente de mais uma noite, o navio de Moranler Silverdall avançava silencioso subindo o Rio dos Deuses, buscando contornar Gorendill e escapar dos canhões de Nun. Nimb quis que nenhum deles completa-se seus intentos conforme gostariam, e que todos se lembrassem para sempre daquela noite.</p>
<p>Faltava exatamente um ano para a chegada dos sobreviventes da longa jornada ao Templo de Al’Kapeera.</p>
</div>
<p><em>Continua&#8230;</em></p>
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		<series:name><![CDATA[Enigma das Arcas]]></series:name>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XVI</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Mar 2011 13:18:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[Enemaeon]]></category>
		<category><![CDATA[Enigma das Arcas]]></category>
		<category><![CDATA[Marlon Teske]]></category>

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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Partida</strong></p>
<p>Um mapa velho e manchado, apesar de impecavelmente seco foi retirado do escaninho mais alto e aberto no centro da escrivaninha rústica de Moranler. Em volta, Garlor, Enemaeon e Felrond estudavam o contorno do Rio dos Deuses, o maior de todo o mundo conhecido. Um tibar de ouro foi colocado sobre a volta maior do rio, perto da fronteira entre Ahlen e Deheon. Uma segunda, de prata, repousou em um ponto distante três semanas naquele percurso, além das montanhas de Teldiskan, uma formação menor pertencente as Montanhas Uivantes. Por fim, o dedo grosso com unhas sujas e quebradas golpeou o centro daquela região toscamente demarcada.</p>
<p>- Gorendill &#8211; bufou sua voz de touro, potente e profunda &#8211; Nós teremos que passar direto neste ponto. O rio é protegido por um antigo pirata, o velho canceroso do Nun. Não temos ouro que pague o preço por nossas cabeças, por isso podemos descartar a possibilidade de comprarmos um passe.</p>
<p>- Acha mesmo que já estarão sabendo da acusação de assassinato em Ciela? &#8211; inquiriu Felrond antes de entornar um profundo e sonoro gole na garrafa de rum que trazia à tiracolo. Foi Enemaeon, contudo, que lhe trouxe a resposta:</p>
<p>- Talvez não saibam de nós, tampouco se importem. Mas Moranler atacou uma cidade portuária de Ahlen com canhões. Sem sombra de dúvida estão nos esperando neste ponto. Nun é um osso duro, e ele tem pelo menos mais três navios mercenários patrulhando estas águas.</p>
<p>- Vamos tentar atravessar o cerco durante a noite &#8211; explicou Moranler novamente correndo o mapa com as mãos enquanto observava os três ouvintes que atentos apenas concordavam com um aceno ou um movimento mínimo de seus corpos tensos &#8211; Talvez com sorte, quando nos notarem &#8211; e sim, seremos notados &#8211; já estaremos além do alcance dos navios e atravessamos o cerco. Caso contrário&#8230;</p>
<p>- E quanto a nós? &#8211; perguntou Garlor de braços cruzados &#8211; Não somos de todo inúteis. Podemos ajudar na batalha caso ocorra uma abordagem.</p>
<p>- Nós não vamos ficar no navio &#8211; pontuou Enemaeon apontando o coração do mapa, belamente ornado com um desenho da deusa de pedra, as mãos suplicantes buscando ajuda dos céus &#8211; Precisamos ir até Valkaria, devorando alguns quilômetros de terra talvez conseguiremos ir até lá e regressar ao rio dentro de um mês e meio. Mas precisamos de cavalos, e algum dinheiro. Garlor pode dar um jeito nisso.</p>
<p>- Garlor não irá com vocês, mago &#8211; era Silverdall endireitando a coluna. Com este movimento quase que dobrou de tamanho. Enemaeon, mesmo em sua postura ereta de mago mal chegava a altura dos ombros do capitão do Tortura &#8211; Ele fica.</p>
<p>- Bobagem, Moranler &#8211; retorquiu o necromante golpeando a mesa, sem intimidar-se &#8211; Eu lhe expliquei que é preciso chegar até Valkaria para reavermos o medalhão. Sem Garlor a missão ficará seriamente comprometida.</p>
<p>- Se os três peixes escaparem, como fico eu então? Nada neste mundo me obriga a acreditar em sua palavra, mago &#8211; grunhiu sentando-se na cadeira de encosto alto que gemeu ante o peso do touro de pelos brancos &#8211; Garlor fica, como um incentivo para seu regresso. Se dentro de um mês não estiver no cais da vila de Thaliu, ao norte de Teldiskan, mato o clérigo e lhe envio o couro dentro de uma caixa.</p>
<p>- Um mês? &#8211; gaguejou Enemaeon, um pequeno passo de indecisão em sua voz &#8211; Você sabe que é impossível. Nada garante que eu consiga alcançar Valkaria dentro deste prazo. Quanto mais ir e voltar!</p>
<p>- Nada garante que todos nós não iremos amanhecer o dia com uma gravata de corda em Gorendill, tampouco &#8211; respondeu Silverdall &#8211; Esta é minha condição. Se não aceita, mato os três agora mesmo. Ou acha que esqueci a peça com o medalhão? Me fez de pascácio diante de toda a tripulação.</p>
<p>Os pensamentos de todos davam voltas. Era uma jornada impossível. Mesmo que não dormissem, nem comessem, cavalgando até a exaustão física e a morte dos cavalos seria impossível chegar em Valkaria e retornar em apenas um mês. Entretanto, para a surpresa de todos, a voz de Enemaeon regressou no mesmo tom cansado e monocórdio de costume:</p>
<p>- Que seja então, Silverdall. No entanto, uma aposta arriscada como esta sem dúvida deverá ter um fator compensatório a altura. Não pretendo e nem vou aceitar apenas uma prova de que (neste caso) sou digno de sua confiança como pagamento.</p>
<p>- Sem rodeios, cobra de Tenebra. Diga o que pretende.</p>
<p>- Se eu cumprir o prazo de um mês de viagem, ida até Valkaria e retorno até o tal vilarejo&#8230; Thaliu; que você escolheu como ponto de parada e reparos das possíveis avarias que o Tortura sofrerá, então metade de tudo o que encontrarmos e saquearmos dali em diante pertencerá a Garlor, enquanto o restante será dividido igualmente entre nós três.</p>
<p>- Está louco &#8211; gargalhou o minotauro.</p>
<p>- Nunca estive mais lúcido &#8211; foi a resposta de Enemaeon estendendo a mão magra e um tanto temerosa na direção do aperto poderoso do capitão &#8211; Sei que não tem medo de uma boa aposta, Silverdall. Não é um dos filhos de Tauron? Onde está sua coragem, visto que estamos apostando um dinheiro que ainda nem temos, e que talvez nunca teremos contra uma vida?</p>
<p>- Deixe Tauron fora disso, humano &#8211; bravejou em resposta estendendo a palma de ferro, aceitando a aposta. Garlor e Felrond assistiam a tudo sem deixar de sentir um velho e conhecido frio na boca do estômago. Para variar, Enemaeon apostara a vida de outro que não a dele. Mas, visto que já havia perdido a própria, não possuía deveras muita opção.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>O mundo girava em torno de Villvert, e assim permaneceu por longos e extenuantes minutos até ele próprio compreender que era ele quem dava voltar. Amarrado pelos pés do lado de fora da Taverna do Cão Negro, balançava ao sabor do vento no pilar que outrora sustentou a placa com os dizeres &#8220;Bem vindos os que tiverem para gastar&#8221;. Estava nu, despido da armadura vermelha da Ordem de Keenn e de seu orgulho. A nuca queimava em brasa, e um filete de sangue rolava, nascendo dos muitos cortes no corpo.</p>
<p>Gesphen estava sentado próximo, afagando os cabelos de Liandra, uma mulher que apesar do semblante jovial estava com uma aparência horrível de morte em vida. Suja de sangue, vestida para uma cerimônia de casamento, a cabeça repousando no colo do bardo vestido de negro. O alaúde repousava de lado, esquecido por hora. Villvert tentou falar, mas sentia-se mortalmente cansado demais até para gemer. Foi Gesphen que quebrou o silêncio com uma cantiga que fez com que a mente do servo da guerra explodisse em dor.</p>
<p>- “<em>Merodach, pai do mal</em><br />
<em> Sejas para sempre temido</em><br />
<em> Entre as sete arcas da morte</em><br />
<em> Guardadas no túmulo de Al-Kapeer</em>a”</p>
<p>A música. Então enfim haviam se encontrado, e a derrota estava do lado dele. Mesmo naquela situação, seu rosto envermelhecido pelo tempo demasiado longo em que fora mantido dependurado como carne secando ao sol permitiu o desabrochar de um sorriso; ironia e ódio. Gesphen afastou o rosto de Liandra carinhosamente e levantou-se. Em três passos havia alcançado Villvert.</p>
<p>- Esteve me caçando, clérigo da guerra. Posso saber o motivo? Não houve resposta. O bardo continuou.</p>
<p>- A vila de Fehvar, não é? &#8211; sorriu o bardo (que era apenas pele sobre treva, Villvert notara) deliciando-se com a ira que apenas aumentava no coração do homem capturado &#8211; Sim, foi no dia em que vim a esse mundo. Lembro-me bem do lugar. Apenas agricultores e artesãos pulguentos. Gente sem importância para este mundo. Nasceram e morreriam na ignorância da vida campestre. Plantando, comendo, tendo filhos, criando cães.</p>
<p>Novamente apenas o silêncio. O bardo chutou os pertences de Villvert, abaixou-se e recolheu o pergaminho que ele havia recebido do clérigo de Thyatis no templo de Thanah-Toh semanas antes. Ergueu-o diante dos olhos, leu e sorriu.</p>
<p>- Você é um guerreiro impressionante. Matou e aleijou minhas noivas, deixando apenas Liandra ao meu lado. Ela sempre foi a mais esperta, a doce Liandra. Pena que também dentro em pouco irá murchar. Nosso encontro foi prematuro, mesmo que inevitável. Se sobreviver a esta noite, talvez o destino nos coloque novamente frente a frente.</p>
<p>- Irei rasgar sua garganta e oferecer seu sangue a Keenn, filho do inferno &#8211; falou Villvert, não mais que um sussurro. Gesphen atingiu-o na face com um tapa único que fez seu corpo voltar a girar, agora mais rápido.</p>
<p>- Que os lobos devorem sua carne, clérigo &#8211; despediu-se o bardo. Tomou o alaúde e partiu tocando uma marcha lenta que logo misturou-se ao canto noturno dos pássaros e o farfalhar das folhas. Liandra permaneceu ali ainda alguns instantes, observando Villvert. Aproximou-se dele, beijou-lhe a face e chorando partiu.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>No bote leve, remada por dois bucaneiros, Enemaeon e Felrond assistiam o navio de Moranler ancorado no coração do rio-mar ficando cada vez mais distante, menor. Do outro lado, a cabeça parcamente apoiada sobre os ombros enegrecidos, o zumbi conjurado também os seguia. No próprio navio Garlor já não podia reconhecê-los, aguardando pelo desfecho da aposta do companheiro. Um mês, uma viagem impossível. No rio, seguindo ao lado, uma outra embarcação um pouco maior, coberta por um toldo firmemente amarrado, oito homens dando força aos remos.</p>
<p>- Tudo bem, desisto de pensar nisso &#8211; suspirou Felrond voltando seus olhos azuis de elfo na direção de Enemaeon que mantinha o rosto afundado nas próprias mãos, vestido de trapos &#8211; Como pretende salvar Garlor agora?</p>
<p>- Isto é tudo o que povoa meus pensamentos desde o instante em que Moranler nos deu o ultimato, meu alcoolizado amigo. Mas tenha certeza de que vou dar um jeito &#8211; respondeu o necromante não acreditando plenamente em suas próprias palavras &#8211; Deve haver um jeito.</p>
<p>- Só há um &#8211; tornou Felrond apontando seus dedos delgados para Enemaeon, três deles segurando a garrafa que bebia &#8211; Magia. Mas, infelizmente, você é tão mago quanto eu sou imperador do Reinado.</p>
<p>- Faz pouco caso da minha magia, elfo &#8211; sorriu Enemaeon apontando para o arremedo de morto-vivo que os olhou de volta, os olhos vazados lacrimejando o caldo do cérebro. Diante daquilo, tanto o elfo quanto o mago permitiram-se gargalhar com gosto, deixando ainda mais assustados os dois marinheiros que esforçavam-se para não vomitar seu almoço ante o cheiro insuportável do cadáver.</p>
<p>- Para que o trouxe? &#8211; tornou Felrond secando as próprias lágrimas &#8211; Digo, literalmente, é um fardo morto.</p>
<p>- Ele nos vai ser útil ainda mais uma vez antes de o descartarmos. Se não fosse por nosso amigo morto, talvez não estivéssemos aqui vivos no dia de hoje.</p>
<p>- Espera que ele mostre suas coxas para que possamos conseguir uma carona? &#8211; brincou Felrond mais uma vez, agora já próximo da praia de areia escura formada pelo rio. A segunda barcaça havia chegado um pouco antes, e os oito homens esforçavam-se para descarregar o pesado fardo que sacudia e guinchava.</p>
<p>- Ele fará algo assim. Mas, por todos os demônios do inferno, o que Moranler colocou nesta espécie de caixote com o qual nos presenteou?</p>
<p>- Isto não é coisa de Moranler não, velho. Fui eu que o pedi &#8211; sorriu Felrond que já havia deixado o bote, e com água pelos tornozelos, puxava a embarcação até a margem. Os carregadores, após deixarem o fardo na areia, apressaram-se em regressar a canoa e sem mais palavras remaram velozmente de volta ao navio. Enemaeon saiu do bote com alguma dificuldade, seguido de perto pelo zumbi do pirata cativo e aproximou-se da gaiola cujo conteúdo Felrond apressava-se em libertar. Não havia tirado todos os nós quando, num último impulso, a lona foi rasgada e o animal saltou de dentro dela, trotando livre em torno de ambos.</p>
<p>Eriçando as penas do lombo e arranhando a grama sob seus pés, o grifo guinchava e rosnava feliz, recebendo atenção e carinho por parte do elfo. Enemaeon, no entanto, preferiu manter-se afastado o máximo possível da fera.</p>
<p>- Explique-se, Felrond.</p>
<p>- Lembra-se dele? Estava na mansão daquele velho apodrecido em Ciela. Arrancaram suas asas, mas ainda assim é um grifo. Moranler o capturou como espólio ao saquear Dahar, talvez pretendesse vender o pobre bicho para algum mago louco; sem ofensas. Consegui convencê-lo a me dar em troca de&#8230;</p>
<p>- Em troca do que? &#8211; perguntou Enemaeon trincando os dentes, as mãos involuntariamente dirigindo-se ao pescoço do ébrio que pressentindo que falara demais, afastou-se um passo &#8211; Não me diga que você&#8230;</p>
<p>- Bem, não há mais motivo para esconder. Sim, em troca do Grifo, eu contei a Moranler onde Garlor escondeu o fragmento do medalhão.</p>
<p><em>Continua&#8230;</em></p>
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		<series:name><![CDATA[Enigma das Arcas]]></series:name>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XV</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Feb 2011 03:01:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Rivais</strong></p>
<p>O mesmo sonho o atormentava todas as noites. Enterrado vivo em uma clausura rubra, as paredes de pedra aproximando-se, pulsando em uma energia insana, fechando-se sobre o corpo magro e debilitado. Não havia força para impedir o fim eminente. A rocha se aproximava até engoli-lo, e então ele gritava em silêncio. Suas cordas vocais partiam dentro de sua garganta, seus pulmões rebentavam pelo esforço, mas não havia um único som; tampouco havia alguém para ouvir seus gritos de socorro.</p>
<p>Encharcado de suor, Enemaeon saltou do catre sobressaltado. Os olhos injetados, a mão em garra clamando desesperadamente por ajuda, o torso nu. Ofegando, procurou lembrar-se de que tudo não passou de outro pesadelo. Levou as mãos ao rosto, esfregando a barba longa com avidez, procurando fazer o sangue circular novamente por sua pele flácida. Um jovem num corpo de velho. Assim se sentia desde que seu coração havia sido arrancado por Merodach. Girou o corpo e colocou os pés sobre a madeira velha do assoalho. Estava fria, mas sentiu alguma coisa quente roçar seus tornozelos e lembrou-se então de onde estava.</p>
<p>Com uma das mãos, ergueu o bichano do chão e o levantou diante de seus olhos. Era tão negro quanto a própria noite, a não ser pela íris amarelada, pupilas em fenda. Submisso, companheiro. O felino havia acompanhado o necromante por meia Arton. Inúmeras vezes já tentara se livrar dele, mas quase nunca prestara realmente atenção naquela pequena forma de vida que ronronava. E agora, sozinhos ele e o animal em uma pequenina saleta do Tortura, enfim, descobrira algo até então ignorado.</p>
<p>- Uma gata? – exclamou – Você é fêmea!</p>
<p>Passos do lado de fora e uma batida vigorosa na porta se sucederam. O visitante não esperou contudo que o mago se preparasse. Abriu a folha de madeira e entrou. Era Garlor, trazendo os trapos que eram tudo o que Enemaeon possuía no momento. Haviam sido lavados precariamente e estendidos ao sol. Cheiravam a lodo de rio. O ladino arremessou as vestes ao companheiro, que as pegou de reflexo.</p>
<p>- Enfim acordou – sorriu o clérigo de Hynnin &#8211; Esteve dormindo por quase uma semana. Parte da tripulação até apostou que estivesse mesmo morto. Não se pode culpá-los. Já que seu coração não bate é meio difícil ter certeza.</p>
<p>- Como soube que eu havia despertado?</p>
<p>- Pelos gritos – respondeu Presas de Prata sem cerimônia – Avançamos bastante rio acima, mas Moranler está preocupado com alguma coisa adiante. Ele quer sua opinião.</p>
<p>- Estamos tão próximos assim de Deheon? Não, você disse quase uma semana, creio que ainda estamos contornando as Uivantes.</p>
<p>- Temos mais uma semana de hospitalidade táurica até lá, no mínimo – ironizou Garlor aproximando-se do amigo mago para falar-lhe confidencialmente &#8211; Tem idéia do que pode estar incomodando Silverdall?</p>
<p>Enemaeon tinha. Levantou-se, ajeitou as calças largas que usava sob a túnica e vestiu seus trajes de mago. Caminhou ainda um tanto trôpego até a tina d’água e molhou o rosto no líquido gelado. Enfim desperto, apoiou ambas as mãos sobre o móvel e observou seu rosto no reflexo. Os cabelos desgrenhados, num tom feio de cinza e a barba longa, já tocava de leve seu peito.</p>
<p>- Preciso cortar os cabelos – reclamou num suspiro – E fazer a barba. Infelizmente perdi minhas coisas em Ciela. Não têm uma navalha ou algo que o valha para emprestar? Compro-lhe outra quando chegarmos a Ridembarr.</p>
<p>- Achei que esse negócio de barba comprida fosse coisa de mago – brincou Garlor estendendo-lhe um punhal e sentando-se sobre o catre. O gato insistindo por atenção desistiu de Enemaeon e aninhou-se sobre as pernas do ladino que prontamente respondeu o gesto acariciando-lhe o pêlo.</p>
<p>- Geralmente não temos tempo para cuidar da própria aparência – explicou o necromante já desfazendo-se das primeiras mechas da melena grisalha – A magia é um ramo extenuante e solitário. Especialmente em minha área.</p>
<p>- E mesmo nela você é bem medíocre. Vi o seu zumbi lá no paiol de pólvora. Já encontrei melhores brotando sozinhos das covas. Tinham inclusive menos cheiro de podre.</p>
<p>O mago levantou os olhos e riu consigo mesmo da piada do amigo &#8211; Até já havia me esquecido do pobre infeliz. Deve estar fedendo como o traseiro de Ragnar. A tripulação não se livrou dele?</p>
<p>- Ninguém tem coragem de chegar perto. O seu espetáculo com os remos deixou todo mundo assustado. Além de não ter coração e criar zumbis, lida com magia das trevas. Há quem jure que você é um tipo de lich, como aquele professor da Academia&#8230; Taranus?</p>
<p>- Thanatus. Instrutor de necromancia avançada na Academia Arcana. Foi um dos responsáveis pela minha expulsão.</p>
<p>- Você estudou lá bastante tempo, não foi? Uns seis anos, pelo menos. Como é que aprendeu tão pouco sobre magia?</p>
<p>- Dez, na verdade – corrigiu Enemaeon sorrindo enquanto limpava a navalha na barra do manto &#8211; E só porque eu não solto bolas de fogo pela ponta dos dedos cada vez que espirro não significa que eu seja um mago tão ruim assim.</p>
<p>- Mesmo assim em algumas horas uma bola de fogo faz muita falta. Me perdoe a sinceridade&#8230; – brincou o amigo soltando o gato ao chão.</p>
<p>- Realmente não saberia dizer se atualmente seria capaz de lançar uma destas. Mas eu já fui um mago bem mais pirotécnico, se é que esse termo possa ser empregado neste caso. No entanto acabei desagradando meus superiores e como recompensa meu poder mágico foi extirpado.</p>
<p>- Quer dizer que eles tiraram a magia de você? Não sabia que isso era possível.</p>
<p>- Digamos que o processo é quase como o ato de fazer a barba. Mas arrancando-a pela raiz. Felizmente para mim, no entanto, eu havia tomado algumas precauções meses antes do infeliz acidente, e mesmo que já não possua mais energia para realizar certos efeitos arcanos, eu ainda os conheço e sei como invocá-los. Retive o conhecimento pelo qual empenhei dez anos de minha vida. Não acha justo?</p>
<p>- Confuso, na verdade. Você nunca me explicou muito bem os motivos de sua expulsão da Academia. Sei apenas que foi antes de unir-se a Guilda e da morte&#8230;</p>
<p>Nenhum dos dois precisava completar aquela frase. A morte de Sandra seria um peso demasiado grande que ambos carregariam para todo o sempre. Por maior que fosse a amizade que sentiam um pelo outro, sempre estariam separados por um muro. Por um divisor de águas que remetia até a noite fatídica em que a mulher que iluminou as suas vidas pereceu de uma forma estúpida numa briga de taverna.</p>
<p>- Minha expulsão foi na verdade um circo armado por Thanatus – começou a falar Enemaeon buscando mudar o foco da conversa e dos pensamentos de ambos – Ele tinha opiniões divergentes das minhas quanto aos métodos que utilizávamos quando o assunto era necromancia. Na verdade, ele tinha opiniões divergentes em relação a qualquer coisa que eu dissesse.</p>
<p>“Eu completei meus estudos como mago oito anos após minha entrada na Academia. Me lembro bem inclusive da data, foi no mesmo dia em que foram comemorados os sete anos da princesa Rhana. O ano era 1390, e estávamos tendo um ano bom, um dos melhores dos quais me recordo. Pelo menos até aquele dia.</p>
<p>Não posso precisar com certeza se chovia ou se fazia sol naquela estação, pois eu passava meus dias e minhas noites nos laboratórios e bibliotecas da Academia, pesquisando a minha verdadeira vocação. Eu desejava ser um necromante, não com o intuito de vencer a morte, mas sim com a vontade sincera de compreender a vida. Sempre acreditei e ainda acredito que a resposta para muitos dos males cuja cura depende única e exclusivamente da magia possam ser encontradas se aprendermos sobre a forma como padecemos.</p>
<p>No meu ano de graduação havia apenas mais um mago que também trilhava o caminho das trevas. Seu nome era Vladislav Tpish. Dávamos-nos relativamente bem, apesar de focarmos nossos estudos em métodos diferentes, não deixávamos de ser estudiosos de um mesmo campo da magia. Mas, enquanto Vladislav era metódico, portador de uma paciência quase infinita e uma certa habilidade mórbida para aceitar tudo o que os tutores nos empurravam como verdade universal, digamos que eu preferia seguir um método mais liberal. Eu gostava de ir além do que era proposto. Gostava de arriscar.</p>
<p>Thanatus odiava este senso de aventura. Especialmente quando tratávamos de necromancia. (Mortos levantem, mortos caminhem, mortos voltem para os jarros de formol, fim da aula. Foi assim por todo o longo oitavo ano). Variavam os cadáveres, o teor continuava o mesmo. Em uma turma com apenas dois pretensos necromantes, era de se esperar que todos ficassem muito satisfeitos ao saírem do necrotério da Academia. Contudo, eu e Vladislav não só queríamos mais como precisávamos de mais”</p>
<p>- E o que vocês fizeram então? – perguntou Garlor interessando-se pela narrativa.</p>
<p>- O que mais restava fazer? Nós roubamos um corpo! A cada fim de aula, uma parte dos cadáveres eram levados conosco em nossas valises. Um crânio aqui, um rim ali. Quando lembro de nós dois após as aulas correndo com partes de gente dentro das bolsas através dos corredores&#8230; Em menos de dois meses tínhamos uma mulher morta completa em nosso alojamento. Mesmo Vladislav ficou eufórico com o progresso que apresentamos a partir de então.</p>
<p>“Noites inteiras estudando cada junção, cada ligamento, cada osso. Livros de anatomia empilhavam-se a nossa volta enquanto conjurávamos todo o tipo de magia. Nessie nos ensinou em um mês coisas que levaríamos anos em sala de aula para aprendermos.”</p>
<p>- Nessie?</p>
<p>- Foi como a chamamos. A coisa seguiu assim por quase todo o semestre, até que certa noite algo que não poderia ter jamais acontecido, aconteceu. Nessie escapou de nossos aposentos, invadiu o quarto vizinho e matou um aluno. Thanatus obviamente quis nossos crânios numa bandeja, mas eu assumi a culpa pelo ocorrido. Por Tenebra, a culpa foi minha mesmo.</p>
<p>Talvez Enemaeon estivesse esperando alguma palavra de consolo por parte de Garlor, mas tal frase não veio. O silêncio perdurou por alguns instantes enquanto o mago se secava, e agora refeito, resolve abandonar o quarto apertado e ganhar o tombadilho. Buscou por seu cajado em volta e lembrou-se então que também o havia perdido. Resignando-se, saiu.</p>
<p>Efetivamente, a tripulação se afastava conforme ele passava. Alguns dos bucaneiros benziam-se discretamente, enquanto outros apenas rosnavam com dentes podres e gengivas enegrecidas pelo tabaco. Vermelhos de rum e sol. Apenas Moranler era alvo, destoando daquilo tudo. A pelagem branca reluzia a luz da tarde enquanto músculos táuricos rangiam no comando da roda do leme.</p>
<p>- Com medo do velho Num, Silverdall? – inquiriu Enemaeon, zombeteiro – O flagelo dos mares tem seus fantasmas como qualquer um de nós, pelo visto.</p>
<p>- Engula suas palavras, mago. Pode conjurar suas bruxarias, mas se restar algo de mim, torço seu pescoço e torturo seu amigo até ele confessar onde enfiou a porcaria do medalhão.</p>
<p>- Bom dia para você também, Moranler – cumprimentou Garlor com uma reverência debochada. O minotauro o ignorou propositalmente e apontou para a próxima curva do rio. Sem esperar por mais perguntas, passou a explicar:</p>
<p>- Um mar de água doce. O maior rio do mundo. Eu já navegava nele quando você, Garlor, ainda era um fedelho mais desgraçado do que é hoje. Mas há um velho carcomido pelos anos que o conhece ainda melhor do que eu ou do que qualquer outro. E com certeza ele está esperando por vocês com todos os canhões entupidos de pólvora e todas as adagas sedentas por sangue.</p>
<p>- Não acha que está exagerando, <em>mon ami</em> – interveio Felrond, o elfo levemente embriagado, tropeçando através do tombadilho hora apoiando-se numa corda, hora pendurando-se nos ombros de algum dos marinheiros – Faz apenas quatro dias que abandonamos nossas gravatas de corda em Ciela. Não poderiam ter avisado a guarda rio acima de nossa presença neste navio.</p>
<p>- Más notícias viajam em grifos, espécie de asno – murmurou Moranler encerrando o assunto.</p>
<p>(&#8230;)</p>
<p>“Esta deveria ser uma história feliz sobre um homem que luta para salvar seu coração das mãos do mal. Uma batalha pela própria vida, que encerra-se em um final bonito, com lágrimas de uma donzela protegida, suspiros de um amor conquistado, sorrisos de uma amizade fortalecida. Deveria ser. Deveria mesmo.”</p>
<p>As palavras brotavam macias da boca de Gesphen, que sobre o palco improvisado na Taverna do Cão Negro. Quando falava, apenas sua voz repercutia através do salão escuro, iluminado por um lampião a óleo que espalhava sua fumaça negra pelo ar. Quando silenciava, seu alaúde tomava vez e voz, e então notas cortantes, dedilhadas com paixão surgiam. E então as noivas choravam, suspirando de paixão e ressentimento.</p>
<p>Em volta, caídos sob as mesas, nos barris de vinho ou acima do balcão de madeira escura, corpos descarnados padeciam, esquartejados, sangrando lentamente. Sobre cada um deles, uma das noivas comia, deglutindo com asco a carne humana. Elas não desejavam aquilo, mas a fome as impelia. Apenas Liandra já não chorava. Gesphen orgulhava-se dela. De todas, era a mais decidida. Havia compreendido sua nova condição. Havia entendido que não tinha escolha.</p>
<p>Perdeu-se um instante olhando para ela, e ela o olhou de volta. O vestido de noiva já havia se tornado um farrapo amarelado, com pequenos pingentes e flores ressecadas grudadas no sangue seco. Os seus cabelos outrora lisos e bem cuidados agora se enroscavam sujos, grudando na pele que perdia a cor dia a dia, tornando-se pálida. Cinza. Da boca o sangue corria em um filete carmesin, repousando suavemente em seu seio.</p>
<p>Gesphen parou imediatamente de tocar, deixando de lado seu alaúde e aproximando-se de Liandra, que mastigava lentamente um par de dedos. Uma das noivas arrastou-se aos seus pés, gemendo. Recebeu como resposta um chute na face que abriu-lhe um corte do supercílio até o queixo. Dele, um sangue esverdeado escorreu sem vida, como se o próprio corpo o vomitasse.</p>
<p>O bardo enfureceu-se, limpando sua bota no colo de outra das noivas, uma mulher gorda de olhar pedinte. Esta mostrou-se grata pelo pequeno toque, pelo momento de atenção dispensado e sorriu. Gesphen não notou seu sorriso pois agora estava concentrado apenas em Liandra. Via apenas a linha vermelha em sua face, assemelhando-se a um fiapo de lã, sentindo o seu perfume que se perdia dia após dia. Agachou-se ao seu lado e com as costas das mãos protegidas por uma luva de cetim, afagou-lhe o rosto.</p>
<p>Foi então que o som dos cascos de um corcel chegaram até seus ouvidos. Levantou-se de pronto, e com movimentos ágeis, buscou seu alaúde. Voltou-se para a porta no exato momento em que um cavaleiro invadia o lugar, ainda montado em seu cavalo que batia as patas no chão de madeira, furioso. O suor escorria pelo corpo do animal, mas o odor do guerreiro era ainda pior.</p>
<p>- Que orgia de morte você montou aqui, garoto – bravejou Villvert com sua voz rouca de guerreiro – Venho recolhendo corpos meio devorados há vários dias e enfim achei o responsável por essa trilha sangrenta. Cheguei a esperar por um bando de hobgoblins, mas não um moleque cheirando a leite.</p>
<p>- Encantado pela atenção dispensada, meu astuto adversário. Mas, como bem notou, sou avesso a combates. Por isso, é hora de cair o pano e despedir-se da platéia. Meninas, ele é todo seu.</p>
<p>Villvert esperava um ataque, por isso não hesitou em responder a ele. Não era dotado de algum sentimento parecido com pena, cavalheirismo ou compaixão. Sua lógica era simples, aprendida nos anos de combates em nome de Keenn. Se atacavam, eram guerreiros. Se lutavam, desejavam o confronto. Se levantavam armas contra ele, responderia engajando-se em um bom combate. Fosse quem fosse.</p>
<p>A primeira que se aproximou de sua linha de ataque foi recebida com um chute que arremessou seu corpo frágil de menina para trás. A próxima foi pisoteada pelo cavalo que assustado pelo avanço repentino das mulheres empinou-se num relincho de ódio. Quando enfim sacou a arma e decapitou a terceira, outra saltou sobre ele, derrubando-o da cela. Ainda em queda, aparou um ataque de garota que cravou seus dentes na proteção metálica do braço. Quatro deles caíram na mesma hora.</p>
<p>Com um chute, livrou-se da primeira leva de ataque e colocou-se de pé, espada em punho. Haviam ainda pelo menos dez oponentes que agiam como se estivessem possuídas pelo pior dos demônios. Girando a arma no ar, cortou uma delas na altura das costelas, sentindo o aço lamber-lhe os ossos. Outro ataque lhe atingiu nas costas, desta vez atravessando a armadura e ferindo-lhe. Um punhal cravado na carne. Golpeou cegamente com o punho da lâmina, afundando um nariz arrebitado no crânio infantil.</p>
<p>Mais duas mulheres tombaram – uma sem o topo do crânio, a outra privada do apoio das pernas que voaram através do salão – quando enfim por um instante os ataques pararam. Villvert sentiu uma pontada na nunca, levando automaticamente sua mão livre até ela. Ali encontrou um pequeno dardo encravado na carne. Voltando-se na direção da porta, vislumbrou o vulto de Liandra de pé ao lado do bardo que sorria.<br />
E então não viu mais nada.</p>
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		<series:name><![CDATA[Enigma das Arcas]]></series:name>
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		<title>Série &#8211; O Enigma das Arcas &#8211; Ato XIV</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Feb 2011 03:01:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Armageddon</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>
		<category><![CDATA[Enemaeon]]></category>
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		<description><![CDATA[Tweet Cartas na Mesa Reunidos na sala do capitão, Felrond, Enemaeon e Moranler estudavam-se mutuamente. A volta do mago provara de uma vez por todas que, de certa maneira, ele...]]></description>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>Cartas na Mesa</strong></p>
<p>Reunidos na sala do capitão, Felrond, Enemaeon e Moranler estudavam-se mutuamente. A volta do mago provara de uma vez por todas que, de certa maneira, ele estava tentando fazer o que era certo. Ou que era movido por uma ambição maior do que a própria liberdade. E do que a própria vida. E isso interessou ainda mais ao pirata que agora tinha certeza de estar envolvido em algo grande.</p>
<p>Contudo, inteligentemente o minotauro mantinha-se em silêncio. A fumaça do fumo era expelida por seus poderosos pulmões, criando uma névoa que aliada aos chifres e os adornos em ouro lembravam o ressurgimento de um antigo demônio branco. Acima de uma estante próxima, além de alguns poucos livros de navegação e demais pertences estava o gato de Enemaeon, lambendo-se preguiçoso.</p>
<p>Haviam sem dúvida muitos assuntos a serem tratados pelos três, pois de uma forma ou de outra seus destinos haviam sido entrelaçados de maneira irremediável ao longo dos últimos dias. Entretanto dar o primeiro passo naquela conversa que se mostraria longa e tensa poderia declarar antecipadamente o quanto um precisava do outro, exatamente o que ambos os oradores queriam evitar.</p>
<p>Enemaeon sabia que aquele silêncio era um golpe psicológico de Moranler, mas também sabia o quão desgastado estava depois dos acontecimentos em Paltar e das sucessivas magias conjuradas. Num primeiro momento pensou ser melhor continuar aguardando a investida do capitão do Tortura, mas a pergunta que estava martelando em sua cabeça foi mais forte.</p>
<p>- Porque nos salvou da Forca, Moranler?</p>
<p>Bufando e arfando, o capitão do Tortura abriu uma das gavetas atrás de si e retirou um velho papiro que abriu sobre a mesa bagunçada. Era um mapa antigo de Arton, e havia uma marca maior sobre o Deserto da Perdição. Usou uma garrafa e uma bússola como apoio, para evitar que a folha se fechasse novamente, e voltou seus olhos taurinos – vermelhos, porém – em direção ao mago.</p>
<p>- Você sabia do Templo, então – murmurou o arcano cofiando a própria barba – Isso explica muita coisa.</p>
<p>- Para você talvez as coisas tenham ficado mais claras, mas ainda não sei exatamente do que se trata. Consegui o mapa e o medalhão em um porto próximo daqui, e não tive razões para desconfiar de que eram falsos. Contudo, faltava saber sua real serventia. Um templo abandonado pode guardar riquezas, mas também pode guardar qualquer outra coisa.</p>
<p>- Então, quando Felrond infiltrou-se aqui você pressentiu que a coisa era maior do que inicialmente esperava. E jogou a isca com aquele medalhão falso.</p>
<p>- Não sei o que levou você a confiar em um elfo. Ainda mais um beberrão como este que está aqui diante de meus olhos. Enganá-lo com um pouco de bebida e arrancar dele o que sabia foi extremamente fácil. Cheguei a pensar que era exatamente o que você pretendia com essa sua jogada.</p>
<p>- Superestimou minha capacidade, Moranler – respondeu o necromante dando de ombros. Novamente o minotauro ficou em dúvida se ele realmente estava ou não jogando com seus pensamentos. Até que ponto falava a verdade?</p>
<p>- Também gostaria de saber por que não usou de magia curativa em minha carne como fez aos outros – disse mostrando as marcas de cordas marcando seu pescoço.</p>
<p>- Caso não tenha notado, seu coração não está batendo, mago. O clérigo do navio não arriscou utilizar uma magia de cura. Não sabia qual seria o resultado neste seu corpo. Até onde nos consta, você virou uma espécie bem peculiar de morto-vivo.</p>
<p>Enemaeon sorriu. Ele próprio não sabia bem o que se tornara e qual seria o resultado de uma magia curativa em seu corpo como um todo. E, em se tratando da própria vida, não estava nem disposto nem curioso o suficiente para servir de cobaia em um experimento como esse. Moranler notou o sorriso no rosto magro e doente e bufou um pouco mais antes de retomar sua pequena narrativa.</p>
<p>- Pensei muito e decidi que valia a pena uma viagem através do Rio dos Deuses até o tal templo. Mas para isso precisava de um guia que soubesse no que estava me metendo. Descobri então ao chegar em Paltar que os três haviam não apenas passado por lá como se dirigiam até o casario dos Anon. Ficou fácil descobrir seus objetivos, e também o tipo de encrenca em que se meteram.</p>
<p>A ênfase na quantidade do grupo deixava claro que Garlor, onde quer que esteja neste momento, estava sendo procurado por toda a tripulação do navio. Moranler não iria permitir nenhuma ponta solta agora que tinha a situação quase que totalmente sob controle. Entretanto seria muito difícil capturar o ladino, especialmente se ele estivesse fazendo o que Enemaeon acreditava que estava.</p>
<p>- Pelo que sei, são três os fragmentos do medalhão que indicam a localização precisa do Templo no Deserto da Perdição. – começou a explicar por fim, apostando na perícia de Garlor – Um deles está com você, pois Felrond fracassou terrivelmente em roubá-lo há algumas semanas. O segundo estava comigo, mas acabou perdido durante a tentativa de linchamento em Ciela. E o último, que deveria estar com Anon&#8230;</p>
<p>- Foi vendido há algum tempo para um camponês. – disse Felrond – O próprio me contou.</p>
<p>- Conversou com aquele ssaaszita leproso e imundo e confiou nele? – perguntou Moranler apoiando a cabeçorra bovina em uma mão nodosa repleta de anéis, a voz embargada pelo descrédito.</p>
<p>- O velho estava sob o efeito de um encanto – explicou o necromante – Não teria motivos para mentir naquela ocasião. De qualquer maneira, dois dos três fragmentos estão no momento perdidos. Se faltou-lhe o bom senso de saquear a cidade até encontrá-lo, não vejo como iremos prosseguir daqui.</p>
<p>- Um belo impasse. Os fragmentos são realmente necessários para localizarmos o tal templo e o ouro?</p>
<p>- Até onde pude averiguar&#8230; – falou o mago deixando a resposta óbvia no ar. O imenso minotauro se remexeu nervoso na cadeira e buscou um novo charuto para si, não oferecendo fumo a mais nenhum dos presentes. Recostando seu corpanzil no encosto firme, uniu ambas as mãos diante de seu rosto e afundou em um incômodo silêncio. Felrond instintivamente levou os polegares até os detonadores das armas que trazia consigo, puxando-os levemente para trás pronto para engatilhar ambos os trabucos. Ainda empoleirado, o felino negro de Enemaeon estudava a cena. Seu próprio pelo poderia esperar.</p>
<p>- Explodir a marinha insignificante de Ciela e invadir Ralcar não foi difícil. Salvar você de um bando de milicianos mal pagos após a fuga dos linchadores de fim de semana menos ainda. Entretanto, coloquei meu nome uns três pontos acima na lista de menos amados de Arton. Por isso, você ainda me deve, no mínimo, o pouco valor que dá a sua própria vida, Enemaeon.</p>
<p>- Ao contrário, Silverdal, você é que me deve. Deveria estar grato aos deuses por ter me tirado da forca. Foi o seu grande momento. Um golpe de sorte – respondeu o mago para o espanto de Felrond. O gato chegou a escorregar do alto da estante onde estava, como que compartilhando o choque com o elfo. Saltando de forma pouco graciosa até o chão, aterrissou sobre as patas. O próprio minotauro não compreendeu até onde o mago queria chegar. Era óbvio que ele os mataria agora que perderam a sua parca utilidade.</p>
<p>- Sorte, então? O que faz de mim alguém tão afortunado por arrancar um peso morto e inútil dos portões do inferno?</p>
<p>- A resposta é simples. De fato, com dois dos três pedaços do medalhão perdidos tornar-se-ia praticamente impossível para você desvendar o segredo do Templo. Mesmo que acredites que não és um qualquer e sim um afortunado que nasceu de viés para a lua, e teimar em seguir sozinho nesta jornada até o Deserto da Perdição, você jamais seria capaz de localizar o túmulo de All’Kapeera. Acabaria perdido nas areias, meio-morto de sede, esturricado pelo calor até os abutres lhe aliviarem do peso de alguns quilos de sua carne.</p>
<p>Felrond acreditou que os olhos do minotauro iriam saltar de suas órbitas, ou que ele próprio saltaria na direção do pescoço de Enemaeon a qualquer momento e o esfolaria vivo por caçoar dele daquela forma. De fato, lenta mas decididamente o imenso capitão albino colocava-se de pé, contornando a mesa e se aproximando do mago que continuava sua verborragia ofensiva com uma calma e frieza mórbidas, típicas dos necromantes. Cada palavra era deliciosamente proferida.</p>
<p>- O extravio dos fragmentos foi um duro golpe. Confesso que as dificuldades serão aumentadas devido a falta das peças, mas engana-se se pretendo desistir assim tão fácil de reuni-las. Até por que já tenho uma boa idéia de como suplantar este infeliz incidente. O jogo ainda não foi perdido.</p>
<p>- Interessante esse revés justamente agora – disse Moranler prontamente – Até a poucos instantes você foi claro em dizer que sem os três fragmentos não seria possível encontrar o Templo.</p>
<p>- Não ponha palavras em minha boca. Eu disse que você não seria capaz, nem mesmo tendo toda a sorte de Nimb a seu favor – respondeu Enemaeon colocando-se de pé – Entretanto, isso não se aplica a mim. De qualquer maneira, esse som característico que ouço é um sinal de que sofremos sim um revés recentemente. Até poucos instantes era você e não nós que estavamos de posse do último fragmento.</p>
<p>Instintivamente o minotauro levou a mão até o peito onde, preso a um cordel de ouro o medalhão ainda tilintava por dentro de sua camisa. Não satisfeito em apenas senti-lo, retirou-o por fim e o colocou na palma da mão. O que viu fez com que seus olhos se arregalassem, tamanha a surpresa que lhe atingiu como um soco no ventre.</p>
<p>Aquela era a peça que ele entregara à Felrond para enganá-lo.</p>
<p>- Como foi que&#8230; Quando? – urrou o minotauro dando vasão a fúria. Enemaeon apenas sorriu, abrindo um pequeno vão na porta da cabine por onde um veloz símio adentrou correndo. Num salto, subiu-lhe pelas costas, enrodilhando-se em torno de seu pescoço. Divertindo-se, bateu palmas e mostrou os dentes.</p>
<p>- É interessante como os deuses deste mundo permitem que alguns poucos devotos, os mais fervorosos entre os seus seguidores realizem pequenos milagres. É uma espécie de compensação em troca de toda a fé que neles depositam. Dentre tantos dons extraordinários, os clérigos de Hynnin, a divindade maior da trapaça, possuem um das mais curiosos. Podem, algumas vezes, se transformar em um pequeno macaco. Como este.</p>
<p>- Aquele maldito pedaço de esterco era um clérigo trapaceiro? E então&#8230;</p>
<p>- Por que não enviei Garlor no lugar de Felrond da primeira vez? – inquiriu Enemaeon divertindo-se com a confusão que causara na mente do capitão do Tortura – Tenho meus motivos, acredite. E acho melhor não ofendê-lo ou assustá-lo enquanto estiver nesta forma. Ele se torna bem sensível ao tom de voz das pessoas quando incorpora o macaco.</p>
<p>- Quando não o encontramos junto com o elfo acreditamos que havia abandonado o navio. Infelizmente agir precipitadamente foi um dos meus erros enquanto você previa todas as possibilidades. Pois exijo saber imediatamente o que ele fez com o meu medalhão.</p>
<p>- Nosso, agora. Pois ao contrário de você, Silverdall, não pretendo tirá-lo da jogada na primeira oportunidade ou diante do primeiro revés. A peça já está em segurança em algum lugar deste navio. Dado a profissão de meu companheiro, já lhe aviso de antemão que será inútil enviar o bando de marmiteiros que você chama de tripulação revistarem o barco. Não o encontrarão nem que arranquem todas as tábuas e o reconstruam do avesso.</p>
<p>- Impressionante como ele consegue ser tão ofensivo falando a verdade, não é? – brincou Felrond servindo-se da garrafa de bebida que jazia pousada sobre o mapa na mesa. Bebeu com gosto alguns goles do rum de qualidade, e Enemaeon não o censurou por isso. Depois de tudo o que o elfo passou nestas última horas, era uma recompensa mínima por sua boa interpretação.</p>
<p>O minotauro estudou a cena com a ira estampada no rosto. Odiava ter sido enganado de forma tão simplória, e ainda não compreendia quando e como o macaco havia furtado o objeto. Provavelmente no meio da noite, antes dos demais despertarem, ou enquanto eram tratados pelo clérigo de seu navio. De qualquer forma, nada mais importava agora. Eles estavam com as cartas. O jogo havia virado.</p>
<p>- E então como ficamos, “sócio” – resmungou sem opção – Apenas uma parte de três não nos ajuda em nada em nossa demanda.</p>
<p>- De fato. Mas tenho um bom palpite do paradeiro do fragmento que ficou em Ciela. Se não me engano, não será necessário sequer regressar e buscá-lo. Ele virá até nós. E a peça que pertenceu ao velho Anon&#8230; Só há uma pessoa que poderá localizá-lo em toda Arton. E ela está em nosso caminho daqui em diante. Temos, enfim, uma aliança?</p>
<p>- Se não há outra forma. – respondeu Moranler apertando firmemente a mão de Enemaeon, ferindo ainda mais o osso partido pelo imediato horas atrás &#8211; Mas juro para você, mago, caso essa humilhação não compense meu tempo e esforço irei caçar você até o inferno se for preciso. E então você irá desejar ter morrido de verdade antes de ter me feito de tolo.</p>
<p>- Irei me lembrar disso, Silverdal. Mas creio que ficarás feliz com o que encontraremos por lá. De qualquer maneira, não há ninguém além de seu ego que sabe do ocorrido nesta sala, a não ser que os seus berros tenham chegado até os ouvidos da tripulação. Por isso não precisa se preocupar com nossa pequena troca de medalhões. Será um segredo que carregaremos conosco de hoje até o fim de nossos dias.</p>
<p>- E assim deverá ser. Não creia que minha paciência tenha um preço tão alto. Até agora o ouro prometido está compensando. Mas posso mudar de idéia. É melhor não abusar de minha compreensão.</p>
<p>- Isso não me passou pela mente nem por um instante.</p>
<p>- E, uma vez que fui destituído do meu cargo de guardião do medalhão de ouro, me resta apenas guiar este navio. Para onde estamos indo, enfim?</p>
<p>- Para onde mais seria? – perguntou Enemaeon fitando triunfante o novo aliado &#8211; Para o lugar onde todas as aventuras tem um início, um meio ou um fim. Vamos para a capital do mundo.</p>
<p>- Valkaria – respondeu o minotauro saindo porta afora. Felrond continuou bebendo tranqüilo do rum enquanto estudava o rosto do mago. Este, exausto e com uma dor lacerante na mão enfim deixou a fraqueza que vinha ocultando invadir seu corpo e caiu sobre a cadeira, adormecendo logo em seguida, com o gato preto aninhado em seu colo.</p>
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