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	<title>RPGista &#187; Cura</title>
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		<title>Ressurreição, regeneração e curas em geral: uma abordagem materialista</title>
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		<pubDate>Tue, 23 Dec 2008 18:19:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="bottomcontainerBox" style="">
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p>E graças à <a href="http://www./2008/12/21/artigo-prometido-morto-ou-vivo-%e2%80%94-parte-1/">transcrição do Leonel do artigo sobre ressurreição</a> (não deixe de ler a <a href="http://www./2008/12/21/artigo-prometido-%e2%80%9cmorto-ou-vivo%e2%80%9d-%e2%80%94-parte-2/">segunda parte</a>), soubemos que o buraco do tema é mais embaixo, se perdoam a linguagem. Não pude deixar de ver, contudo, que vários dos comentários referentes a regras em diferentes edições tinham algo em comum: a tal da <em>alma</em>. Ler sobre alma sempre me remete a fragmentos teológicos, ótimos para explicar patavinas sobre coisa nenhuma. &#8220;E se a alma não quer voltar?&#8221;, &#8220;Mas e se ela quer, mas está com vergonha? &#8220;, &#8220;E se a alma estiver jogando gamão no Plano do Peixe Grelhado, ela interrompe a partida ou a retoma quando voltar?&#8221;, e alma aqui e alma acolá. E, em todo esse debate de consistência vaporosa, acabam esquecendo de um ponto central na ressureição: o <em>corpo</em>.</p>
<p><span id="more-670"></span>O personagem morre. Quer dizer que então sua alma deixa o corpo? Essa seria, ao meu ver, a menor das preocupações. Para começar, os tecidos deixam de receber oxigênio &#8212; e isso inclui o cérebro. É discutível se alguém pode ou não viver sem alma &#8212; não temos, afinal, tanta gente &#8220;desalmada&#8221; por aí que vive muito bem, obrigado? Por outro lado, não há dúvidas da impossibilidade de fazê-lo sem um cérebro.  Células cerebrais são sensíveis a baixos níveis de oxigênio &#8212; se privadas do elemento, elas começam a morrer em cinco minutos. Não é por acaso que em todos os seriados médicos na televisão se enfatiza a rapidez de reviver rapidamente alguém que sofre de parada cardíaca &#8212; se demorar demais, é dano cerebral na certa. E danos cerebrais, conforme a severidade, podem fazer a diferença entre uma vida funcional ou não.</p>
<p>Você já ouviu falar do <em>rigor mortis</em>, o enrijecimento do cadáver. O processo começa a se manifestar 3 horas após a morte, avançando, em estágios, até 36 horas após o óbito &#8212; depois disso, o processo de decomposição começa a agir. Se você quiser saber mais sobre o processo químico envolvido, dê uma lida <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Rigor_mortis">nesse artigo da Wikipedia</a>. Voltar à vida, pelo visto, não é tão simples &#8212; afinal, qual a vantagem de voltar à vida em um corpo de cérebro e músculos severamente danificados? Se eu fosse uma alma, teria sérias objeções em voltar a um corpo em tal estado&#8230;</p>
<p>A ressurreição, ao meu ver, não deve ser eliminada, afinal, às vezes é bom ter algo para remediar as cagadas do jogador. Mas que seja um recurso dramático, e não de banalização. A solução que eu recomendaria é abreviar o máximo possível o tempo entre a morte e a ressurreição. Postule que as magias de cura funcionam apenas sobre tecido <em>vivo</em> &#8212; nesse caso, os danos que o corpo sofre ao morrer (cérebro e músculos) ganhariam uma gravidade permanente e deverão, portanto, ser evitados a todo custo  Ou age-se rapidamente para remediar o infortúnio ou não mais. Evade-se, dessa forma, os problemas de a pessoa ser considerada ou não legalmente morta depois que é trazida à vida &#8212; afinal, depois de passada a curta janela em que há a possibilidade de reanimação, o sujeito estará <em>irremediavelmente</em> morto &#8212; sem mais voltar quando a festa está no final pra rodar a baiana. A ressurreição, assim, torna-se uma espécie de &#8220;reanimação de emergência <em>on steroids</em>&#8221; &#8212; um pouco mais plausível, incerta, emocionante e sem os problemas comuns da ressurreição que ocorre dias depois do óbito.</p>
<p>Aqui vale um parênteses sobre a magia. Se estivermos falando de d20, a coisa é construída de forma a não se precisar preocupar com essas &#8220;coisas chatas&#8221; &#8212; se você tem o dedão do pé (ou às vezes nem isso!) do falecido e &#8220;a alma quer voltar&#8221;, está tudo resolvido; o corpo volta sempre novinho, não importa o que aconteceu com o original. Isso pode minimizar problemas, mas também banaliza o processo &#8212; a ameaça da morte empalidece, a urgência de tentar recuperar a vida, situação em que cada segundo é vital, se esvai. &#8220;Ah, apenas corte-lhe uma mão (não sobrou espaço na carroça por causa desse monte de escamas de dragão) que nós arrumamos alguém para revivê-lo na próxima cidade!&#8221;</p>
<p>Isso, em geral, se aplica a todas as magias de cura/regeneração e afins. Assim como com a morte, quando a possibilidade de mutilações e desfiguramentos  é negada por uma mísera magia,  perde-se o uso desses elementos dramáticos na história. Se a sedutora barda elfa sabe que o talho no seu rosto, prometido pelo vilão em uma sessão de tortura em tom de ameaça, não será permanente, a tensão e o terror provenientes evaporam. Não há lembretes permanentes de rumos de ação pouco acertados &#8212; &#8220;lavou, tá novo&#8221;. Aí se precisa recorrer a maldições mirabolantes (ou aquela espada com redutor que você simplesmente não pode largar) para haver algum sentimento de conseqüência &#8212; e tudo isso quando se tem toda sorte de cicatrizes e mutilações à disposição, cuja explicação é menos dispensiosa e o elemento traumático de mais fácil assimilação.</p>
<p>Mesmo a cura mágica não precisa ser limpinha. Em vez de uma &#8220;conjuração&#8221; de &#8220;cura&#8221; (como se &#8220;cura&#8221; fosse um objeto conjurável de algum outro lugar, e não um processo), magias de cura simplesmente &#8220;anabolizam&#8221; os processos naturais do corpo. Uma magia de curar ferimentos pode fechá-los numa boa &#8212; ou nem tanto. Assim como um osso quebrado pode calcificar fora do lugar certo &#8212; o que requer que ele seja quebrado novamente &#8211;, o mesmo pode ocorrer com as magias de &#8220;remendo&#8221;. Se não se posicionar com precisão as partes de um corte profundo no braço, quem garante que todos os nervos e tendões se reunirão de forma 100% funcional? O &#8220;remendo super-rápido&#8221; na pele pode gerar acúmulos grotescos de <em>scar tissue</em> &#8212; &#8220;Se você me tivesse deixado costurar com calma para depois realizar a cura, o aspeto teria ficado bem mais aprazível&#8221;. Uma analogia mais simples: magia de cura é como <em>cola</em> &#8212; você tem de ter todas as partes, e deve posicioná-las direito &#8212; e mesmo assim seu vaso vai ficar marcado.</p>
<p>De novo a ressurreição: se o sujeito é efetivamente revivido, tente evitar a &#8220;videogamice&#8221; de <em>revive with full HP</em>. Deixe que volte à vida, mas próximo da morte &#8212; que passe um bom tempo acamado, costurado e em dor. Se a abordagem de &#8220;magias de cura como processo natural assistido e acelerado&#8221; for usada, o nosso amigo terá possivelmente uma cicatriz enorme e horrenda no peito como lembrete daquela garra de dragão que rasgou pele, rompeu músculos, quebrou ossos, arrebentou artérias e quase partiu o coração em dois (bem mais dramático do que &#8220;perdeu 30 PVs&#8221;) &#8212; tudo &#8220;colado&#8221; às pressas (sem falar naquela dor no peito que às vezes aparece em situações de muito esforço &#8212; será que, na correria, ele foi remendado direito?). Magias de cura podem ser boas mas, mesmo lançadas por clérigos, não fazem milagre.</p>
<p>Corpos são máquinas maravilhosas, e maravilhosamente complexas &#8212; honremos isso com proporcional dificuldade para repará-las!  Se tal argumento é incapaz de sensibilizá-lo, veja por outro lado: suas experiências de (quase) morte serão histórias <em>realmente</em> emocionantes para se contar na taverna &#8212; e você poderá mostras as cicatrizes se algum espertinho duvidar!</p>
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