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	<title>RPGista &#187; China Miéville</title>
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		<title>Resenha: Rei Rato</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Sep 2011 13:43:43 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="bottomcontainerBox" style="">
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<p>O livro conta a história de Saul Garamond, um jovem londrino que um dia é acordado pela polícia para descobrir que o seu pai está morto depois de cair da janela do apartamento. É claro que não foi um simples acidente, e esse é o estopim que o colocará em contato com todo o mundo estranho e fantástico que existe sob as ruas de Londres, bem como lhe revelar detalhes obscuros sobre o seu nascimento e ascendência.</p>
<p>Em alguns aspectos, o cenário e a história lembram bastante <em>Lugar-Nenhum</em>, do Neil Gaiman – ambos lidam, afinal, com universos escondidos sob as ruas londrinas, e a queda de alguém “de cima” até eles. Se Gaiman cria um mundo colorido e cheio de magia, no entanto, Miéville é muito mais duro na sua caracterização, enchendo a sua anti-Londres de sujeira e podridão, e até mesmo fazendo os seus protagonistas se alimentarem dela. Por outro lado, achei o cenário do primeiro muito mais vivo e pulsante, repleto de personagens únicos e ambientes envolventes, o que me levou mesmo mesmo a refletir algumas coisas sobre o nosso próprio mundo; o universo mágico de Miéville, ao contrário, parece mais simples e objetivo, quase um cenário teatral mesmo, apenas um pano de fundo para o seu roteiro se desenvolver. Muito mais viva são as suas descrições da Londres original, e da cultura urbana do <em>drum and bass</em> que permeia a narrativa.</p>
<p>Já no roteiro propriamente dito, Miéville é de fato muito mais eficiente do que o Gaiman. Trata-se de uma história de jornada do herói, auto-descoberta e amadurecimento bastante simples, a bem da verdade, mas muito bem executada. Ela reconta e atualiza um conto de fadas clássico – <em>O Flautista de Hamelin</em> -, trazendo-o para a Londres moderna, recheando-o com <em>drum and bass</em> e transformando-o, em alguns momentos, quase em uma história de super-heróis, ou mesmo em um mangá <em>shonen</em>, desses em que personagens super-poderosos se debatem por sobre os prédios da cidade. Longe de ser uma história juvenil, no entanto, ela é também pesada e forte, sem se furtar de descrever mortes e amputações de forma bastante gráfica, e com um quê de romance policial em alguns momentos.</p>
<p>Considerando o meu conhecimento de obras posteriores do autor, é interessante notar também a sua evolução enquanto escritor. Pode-se ver bem que se trata do seu primeiro romance, pela forma como ele organiza as descrições e o roteiro, e também como tateia um tanto receoso em algumas delas. A sua ideologia política assumida também se faz presente, embora raramente de forma panfletária – apenas a cena final quase me fez rir em voz alta, pelo seu exagero intrínseco.</p>
<p>A tradução de Alexandre Mandarino também merece todos os méritos. Pela apresentação já dá pra perceber que se trata de uma obra difícil – muitas passagens e diálogos são escritos no dialeto <em>cockney</em>, que é falado pela classe trabalhadora em alguns locais de Londres, o que torna uma tradução e adaptação bastante complicadas. O uso de gírias comuns acabou funcionando bem, acho eu, e o resultado é uma leitura fluida e fácil. O uso extensivo de notas de tradução, algo com a qual eu geralmente tenho algumas reservas, também serviu bem pra elucidar as poucas dúvidas que surgiram, e o seu posicionamento no fim dos capítulos não atrapalha o fluxo da narrativa – você pode facilmente ignorá-las por completo se assim quiser.</p>
<p>Enfim, <em>Rei Rato</em> é um livro muito interessante, o livro de estréia de um dos principais e mais premiados autores de fantasia atuais, finalmente publicado em português. Para os que tinham curiosidade a respeito mas não entendiam o suficiente de inglês para ir atrás dos originais, essa é a chance de vocês.</p>
<p><strong>Rei Rato (<em>King Rat</em>), de China Miéville traduzido por Alexandre Mandarino.<br />
</strong><strong>400 páginas, por R$ 56,00 ou <a href="http://www.tarjalivros.com.br/detalheprod.asp?produto=82" target="_blank">R$ 42,00 na loja da editora</a>.</strong></p>
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		<title>[Resenha] O Caçador de Apóstolos</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Aug 2010 04:54:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p><strong>O Caçador de Apóstolos</strong> é o mais recente trabalho de Leonel Caldela, cuja prosa vocês viram amadurecer desde <em>O</em> <em>Inimigo do Mundo</em>, passando pel&#8217;<em>O Crânio e o Corvo</em> e <em>O Terceiro Deus</em>, romances estes que compõem a chamada Trilogia da Tormenta. Diferentemente dos trabalhos anteriores, este se passa em um cenário da própria autoria de Caldela, bem distinto de Arton &#8212; se neste tínhamos uma <em>overdose</em> de efeitos pirotécnicos e a violação de praticamente qualquer lei da Física conhecida, n&#8217;<em>O Caçador de Apóstolos</em> a magia é sutil e misteriosa. No lugar de uma legião de deuses propensos a interferir diretamente nas picuinhas dos mortais, um deus único e distante, Urag, de cuja existência somos convidados a duvidar constantemente, ora com o que parecem ser provas de sua existência, ora com refutações convincentes. Se Tormenta é dita como &#8220;medieval&#8221;, mesmo não o sendo, aqui podemos nos abster do uso das aspas, visto que, ainda que se trate de fantasia, o mundo possui traços genuinamente medievais &#8212; a estrutura feudal, a Igreja culturalmente dominante, a sujeira e a ignorância onipresentes.</p>
<p><span id="more-4727"></span></p>
<p>Vale um aviso, pois é bom que tudo esteja às claras  &#8212; esta resenha foi escrita com base na leitura de uma cópia gentilmente cedida pela Editora Jambô para este fim. Isto certamente afetou minha leitura, mais cuidadosa, visto que eu teria de escrever esta resenha. O que não afeta, porém, minha impressões a respeito do livro. Sem falar que temos um &#8220;truque&#8221; aqui no <em>.20</em> &#8212; a designação das <em>review copies</em> é definida de acordo com o perfil do colunista, logo, são grandes as chances de que ele vai curtir a leitura do que vai resenhar. Não espere que títulos <em>d20</em> me sejam encaminhados para o mesmo fim. Mas para ficarmos com a consciência plenamente limpa, está agendada (assim que minhas finanças se, hã, estabilizarem) a compra de um exemplar a ser doado para a biblioteca de um colégio estadual próximo de meu domicílio. Assim, é como se eu efetivamente tivesse pago pelo exemplar. Agora prossigamos.</p>
<p>Uma característica marcante em <em>O Caçador de Apóstolos</em> é o narrador, que não é do tipo onisciente e impessoal, mas, sim, um personagem diretamente envolvido na ação, Iago, o escritor que aqueles que leram a prévia na <em>Dragonslayer 29 </em>devem conhecer. Um dramaturgo com raízes no teatro itinerante, acaba por despertar o interesse da nobreza e depois o da Igreja, com que acaba rompendo, e por isso o vemos na situação de fugitivo no primeiro capítulo. Este trânsito pelas mais diferentes camadas sociais é relevante, visto que ele há de narrar acontecimentos que se passam em suas esferas. Claro que, por estar envolvido nos acontecimentos, nosso narrador não é plenamente confiável &#8212; os leitores que cursaram pré-vestibular devem estar familiarizados com este convite à desconfiança, de quando ouviram sobre o personagem Bentinho, do <em>Dom Casmurro</em> de Machado de Assis: &#8220;ele está envolvido nos fatos que relata, logo, pode torcê-los por interesse pessoal, cuidado!&#8221;</p>
<p>Para o benefício de Iago, eu diria se tratar de um narrador insincero bastante sincero. Se embeleza a descrição de algum fato, o que parece ser uma crise de consciência  o impele a confessar o que acaba de fazer. Se relata acontecimentos que não experimentou diretamente, também faz saber: <em>&#8220;Agora volto a ser mentiroso. Não vi boa parte do que aconteceu, também não me contaram. Vi os resultados e criei o resto, pura especulação. (&#8230;)&#8221;</em> Como disse, um mentiroso bastante sincero. (Ou seria um ardil para nos ganhar a confiança?)</p>
<p>A outra característica que me chamou a atenção foi a construção do mundo e, principalmente, sua apresentação. Nos romances do <em>Tormenta</em>, o Leonel trabalhou com um cenário autorado por terceiros. Certo, ele criou diversos elementos (alguns dos mais interessantes do cenário, minha opinião), mas, de maneira geral, em termos de ambientação, se limitou a preencher lacunas e injetar detalhamento na criação de outrem. Aqui a criação é integral. Quando li a trilogia, eu já conhecia Arton de longa data, logo, possuía noções pré-concebidas e pouco era <em>realmente</em> novo &#8212; era mais questão de esperar quando este personagem ou aquele local dariam as caras na história. Com <em>O Caçador de Apóstolos</em>, eu era efetivamente virgem em relação ao cenário, e isto fez diferença.</p>
<p>Ao contrário do que muitos se sentem tentados a fazer, utilizando-se de uma enorme introdução para explicar o cenário (e, quando o ranço é maior, sua longa História e dinastias de reis&#8230;) e &#8220;preparar o terreno&#8221;, o Leonel nos apresenta o cenário aos poucos, através dos sentidos dos personagens. Inicialmente, sabemos apenas do ambiente que os cerca imediatamente, bem como a menção de se tratar de uma localidade insular. Implícito em elementos da narrativa, sabemos que é algo bem semelhante à Europa na Idade Média e que possui, como conseqüência, uma Igreja de religião monoteísta cultural e temporalmente dominante, afeita a queimar hereges e sustentar a veracidade de seus dogmas a qualquer custo. À medida que a trama progride, novos elementos se revelam aos poucos, como um passado muito diferente da conjuntura atual (mas do qual muito pouco os personagens conhecem), bem como os elementos sobrenaturais propriamente ditos, usados na trama com parcimônia e herdados do dito passado perdido, logo, pouco compreendidos, raros e, acima de tudo, misteriosos.</p>
<p>É difícil falar sobre a trama e seus personagens sem adiantar informação, o chamado <em>spoiler</em>, que, como o nome já diz, é um &#8220;estragador.&#8221; Iago já foi apresentado, é o narrador dramaturgo. Além dele, temos o personagem central, Atreu, que, de acordo com uma profecia, é o Guerreiro do Povo feito Soldado do Diabo. Benedict, ex-irmão de armas de Atreu e agora seu nêmesis, é, segundo a mesma profecia, o Cavaleiro Imaculado. Jocasta, outra personagem protagonista, é uma jovem de um vilarejo muito pobre e isolado, inteligente, mais culta do que parece ser plausivelmente possível em suas condições e que, aparentemente, possui uma conexão com o divino. Uma palavra de cautela: um dos temas recorrentes no romance é que nem tudo é aquilo que parece.</p>
<p>Quanto à trama, eu adoria discorrer sobre ela em detalhe, mas, por razões que já expus, só será possível algo em linhas muito, mas muito gerais. A primeira parte, <em>O diabo está morto</em>, tem como cerne uma rebelião contra a Igreja, encabeçada por Atreu. Aqui nos são apresentados os demais protagonistas, de ambos os lados do embate. Os generais rebeldes, além de Atreu, são D&#8217;Agostini, um marujo piratesco; Penélope, uma moça muito durona e cujos trajes de batalha, um tanto sumários, são tratados da forma mais realista que já vi, possivelmente uma subversão do triste e cansado clichê do <em>chainmail bikini</em> e armaduras &#8220;bundefora&#8221;; e Pugna Marco Segundo, de longe o personagem mais estranho do romance (opinião do colunista: leia-se <em>legal</em>), trajando uma decididamente anacrônica casaca com dragonas. A estes junta-se o deplorável Oberon, sobre o qual nada de positivo pode ser dito &#8212; sua caracterização, todavia, é muito eficiente em retratar a ignorância e falta de escrúpulos dominantes. Do lado da Igreja, temos Ganimedes, arqueiro extraordinário cujo fervor religioso beira a beatice, o já citado Benedict, e os líderes da Igreja de Urag, os cardeais.</p>
<p>A segunda parte, <em>O Retrato do guerreiro quando jovem</em>, nos conta a história de Atreu, e possui algumas funções: expande nosso conhecimento sobre o cenário, traz luz sobre as relações entre os personagens, e nos mostra até que ponto vão as maquinações e a corrupção da Igreja. Gente, trata-se de uma religião muito semelhante à cristã na <em>Idade Média</em> &#8212; alguém tinha dúvidas de que ela seria corrupta até não mais poder? A terceira parte, cujo título já entregaria parte da história e, portanto, é omitido, retoma os acontecimentos da primeira parte e os avança até um gancho para o segundo e último volume da série.  <em> </em></p>
<p>Pessoas muito religiosas podem se sentir desconfortáveis com o romance. Aqui a religião é abordada como o que é, um instrumento de dominação ideológica e manutenção da ignorância &#8212; da qual necessita para manter seus dogmas a salvo de questionamento. Além do conhecimento <em>versus</em> ignorância, há também a abordagem de História oficial <em>versus</em> fatos &#8212; até que ponto a classe dominante os distorce e fabrica de maneira a manter seu poder?</p>
<p>Como já visto nos outros trabalho do autor, temos uma forte presença de Escatologia &amp; Sadismo(TM). Não qualquer esforço, o menor sequer, de &#8220;proteger&#8221; o leitor da violência, do sexo e elementos, bem, <em>exóticos</em>, capazes de revirar o estômago de alguns &#8212; eles nos são apresentados em descrições brutas e vívidas. A ambientação medieval não é romantizada, exaltada e sanitizada, como ocorre na maior parte da fantasia que, de medieval, só tem mesmo o nome. Aqui você consegue sentir o cheiro da imundície, das latrinas a céu aberto e dos personagens que não têm nosso hábito brasileiro de tomar banho diariamente. O sexo é ou tomado à força ou usado como alavanca social &#8212; e, em ambas as categorias, é igualmente sujo. Viagens de dias, semanas até, sobre o desconfortável lombo do cavalo e sob o sol escaldante são estafantes, entediantes, e tornadas suportáveis graças à ingesta de álcool e drogas. O poder corrompe, e autoridades são tentadas a dele abusar &#8212; e sucumbem. Se ao se deparar com o termo &#8220;medieval&#8221; você espera aquele &#8220;saudosismo&#8221; tolkeniano capenga, o ranço de um passado inventado, totalmente <em>fake</em>, em que as coisas eram supostamente &#8220;mais puras&#8221; e &#8220;melhores&#8221;, suas expectativas serão magistralmente frustradas.</p>
<p>E temos também violência de combate. Muita. Isso era algo que temia, pois fui um que, nos romances de <em>Tormenta</em>, ou lia por cima ou simplesmente pulava aquelas descrições de combate longas e gratuitas. Aqui eu tive uma surpresa, pois, na maior parte dos casos, me vi interessado e curioso em relação ao desfecho. Desprovidos de pirotecnias arcanas e espadas com foguinho, os personagens se valem de táticas mais realistas como paredes de escudos (elas figuram em boa quantidade), saraivadas de flechas, etc. Nos combates entre exércitos, tais descrições táticas os dotam de verossimilhança. É interessante vermos também as impressões de personagens individuais em meio à batalha campal, sobretudo daqueles inexperientes no ofício, com cujas reações nós, filhos do século XX (e, portanto, também inexperientes nesses assuntos &#8212; jogos de <em>videogame</em> e <em>D&amp;D</em> <strong>não</strong> contam como experiência real), podemos mais facilmente nos identificar.</p>
<p>Nas lutas entre indivíduos, todavia, por vezes eu senti aquela pontinha de tédio. Pode ser dito que as descrições detalhadas dos golpes (e os ferimentos que produzem) emprestam cor à narrativa, mas, na maior parte, me parece gratuito. Existem <em>outras</em> descrições no livro que são muito melhores em dar cor e transmitir a atmosfera dos acontecimentos e nos elucidar sobre o mundo que desconhecemos. Já as coreografias golpe-a-golpe parecem ter a função de simplesmente prolongar o combate. Perto do final do livro, um combate entre Atreu e outro personagem que não posso revelar é o que mais me parece sofrer desse mal. O combate se prolonga em excesso, e o exagero nos ferimentos que um dos envolvidos sofre fez ruir um pouco minha suspensão de descrença. (Este é um livro com personagens humanos, e não personagens de <em>D&amp;D</em> com centenas de Pontos de Vida.)</p>
<p>Nos momentos finais, também, há uma cena com magia um pouco escandalosa e pirotécnica, o que me pareceu um pouco dissonante da mais discreta* do restante do livro.</p>
<p>*<em>Spoiler</em>, por sua conta e risco: (<span style="color: #ffffff">Existem no livro ocasiões de magia que gera efeitos espantosos, mas estes estão ou ligados a artefatos mágicos, ou são decididamente estranhos &#8212; vide <em>new weird</em>, no próximo parágrafo &#8211;, logo, a pirotecnia D&amp;Dêica parece deslocada.</span>)</p>
<p>Vale mencionar aqui algo que alguns já notaram nos trabalhos prévios do Caldela &#8212; uma inclinação para o <em>new weird</em>. Esta estética de fantasia é mais conhecida pelos trabalhos de China Miéville, como os romances puxados para o <em>steampunk</em> ambientados em Bas-lag (<em>Perdido Street Station, The Scar, Iron Council</em>) e, mais recentemente, <em>Kraken</em>, ambientado em Londres. A magia e o sobrenatural perdem aquele semblante  mais D&amp;Dêico de explosões de chamas e outros shows de luzes e se tornam mais, como o nome implica, estranhos. Em Bas-lag, geomantes lambem a terra para fazer suas adivinhações e, em <em>Iron Council</em>, um trem que passa pela Mancha Cacotópica (uma espécie de área mágica radioativa) tem um de seus vagões transformado em uma célula gigante (os tripulantes se transmutam em núcleos e outras organelas); em <em>Kraken</em>, adivinhos especializados na cidade de Londres abrem o próprio chão para consultar as vísceras literais da capital inglesa, e por aí vai. Em suma, a magia é bem pouco convencional, e este desapego às convenções é algo com que você vai se deparar quando a magia em <em>O Caçador de Apóstolos</em> começar a ser revelada.</p>
<p>(Prometo que é a última vez, mas <em>spoiler</em> de novo: você está careca de ouvir falar sobre necromancia, evocação, magia rúnica&#8230; Mas eu duvido que já tenha ouvido falar de <span style="color: #ffffff">Magia Conceitual</span>.)</p>
<p>A anal-retentividade me força a apontar uma incongruência. Em uma festa da nobreza, onde as donzelas aristocráticas são descritas como usando saias com amplas armações, que só surgiram no século XVIII. Sim, existem outros anacronismos de vestuário, como a casaca do Pugna que já citei, mas tal ocorrência acaba por ter uma ótima explicação (surpreendente, aliás). Já as tais saias são um anacronismo gratuito, e um pouco fora de lugar. Na Idade Média, com sua religião ultra-dominante na cultura, a silhueta era esquálida, vertical &#8212; uma clara negação dos atributos sensuais do corpo. Já as amplas saias à Maria Antonieta (com espartilhos), pelo contrário, são o fetiche por cintura fina e quadris ultra-largos levado às últimas conseqüências do exagero. Me pareceu incongruente ver o uso de uma silhueta tão sensualizada quando uma alusiva à negação do corpo seria tão mais consonante com a cultura retratada no cenário.</p>
<p>Concluindo: eu recomendo fortemente a leitura d&#8217;<em>O Caçador de Apóstolos</em>. A Idade Média é o período que menos me interessa na História, e meu desgosto por suas características marcantes é declarado, e, mesmo assim, o romance é suficientemente envolvente para passar por cima de meus preconceitos e me deixar realmente interessado na narrativa. Os personagens fogem do clichê do &#8220;grupo de aventureiros&#8221;, e em vez de simplesmente representarem estereótipos/classes de personagem, têm o aspecto de pessoas críveis, com motivações reforçadas por suas histórias de vida. Históricos estes que não se enveredam pelo caminho do <em>information dump </em>gratuito, mas, em vez disso, são expostos aos poucos, nos momentos em que tal informação é útil para nosso entendimento. O livro, ainda, troca a fantasia meramente escapista pela inclusão de temas que convidam à reflexão, sem precisar forçar desvios na trama para fazê-lo; traz uma mensagem eticamente positiva, mas sem ser panfletário ou piegas.</p>
<p><em>O Caçador de Apóstolos</em> nos mostra que temas maduros são mais poderosos que qualquer dragão ancião ou arquimago metralhador de bolas de fogo, e que humanos bem trabalhados fazem um trabalho melhor que uma centena de raças não-humanas meramente cosméticas &#8212; e que isto pode casar muito bem com ação e uma leitura divertida.</p>
<p><a href="http://rpgista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/cda.jpg" rel="lightbox[4727]"><img class="size-thumbnail wp-image-4741 alignnone" src="http://rpgista.com.br/wp-content/uploads/2010/07/cda-150x150.jpg" alt="cda 150x150 [Resenha] O Caçador de Apóstolos" width="150" height="150" title="[Resenha] O Caçador de Apóstolos" /></a></p>
<p><strong>O Caçador de Apóstolos.<br />
416 páginas em P&amp;B, capa mole.<br />
R$ 55,00 ou <a href="http://lojajambo.com.br/romances/romances-fantasia/o-cacador-de-apostolos-frete-gratis/" target="_blank">R$ 53,90 com frete grátis pela Loja Jambô</a>.</strong></p>
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		<title>Dungeons &amp; Dragons, Pastiche e Inovação</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Jan 2009 16:12:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Cenário]]></category>
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		<description><![CDATA[Tweet Quando se fala de pastiche &#8212; não é familiar com o termo? Então leia o texto do BURP sobre o assunto &#8211;, a coisa que costuma vir à cabeça...]]></description>
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p>Quando se fala de <strong>pastiche</strong> &#8212; não é familiar com o termo? Então <a href="http://brunos.multiply.com/journal/item/505">leia o texto do BURP sobre o assunto</a> &#8211;, a coisa que costuma vir à cabeça são &#8220;estranhezas&#8221; relativamente recentes, como o <em>Perdido Street Station</em> ou o <em>Kill Bill</em> do Tarantino. O pastiche pode ser encarado como aqueles mosaicos de azulejo do Gaudí &#8212; montes de fragmentos, pegos daqui e dali, aparentemente desrelacionados, que, graças ao arranjo, formam uma unidade coesa, ainda que peculiar.</p>
<p>Muitos RPGistas encaram o pastiche com algo próximo do horror &#8212; são &#8220;aberrações&#8221;, &#8220;colchas de retalhos&#8221;, maculam a &#8220;pureza&#8221; da &#8220;boa&#8221; fantasia medieval tradicional. &#8220;Ai, o<strong> Tormenta</strong> tem aqueles pistoleiros, e piratas &#8212; e aqueles patrulheiros (ou <em>rangers</em>) com <em>pranchas de surfe</em>!&#8221;. O <strong>Romância </strong>não escapou de tais invectivas &#8212; segundo um comentário antigo, é uma &#8220;mistureba&#8221; na qual &#8220;só faltava pôr uns E.T.s com poderes psíquicos no meio&#8221; (boa idéia, aliás) e que o que era bom era a &#8220;boa e velha fantasia medieval&#8221;. Mal sabem eles que o &#8220;puro&#8221; e &#8220;tradicional&#8221; <strong>Dungeons &amp; Dragons</strong> é ele próprio um pastichão!</p>
<p><span id="more-899"></span></p>
<p><span><!--[if gte vml 1]><v:shapetype id="_x0000_t75"  coordsize="21600,21600" o:spt="75" o:preferrelative="t" path="m@4@5l@4@11@9@11@9@5xe"  filled="f" stroked="f"> <v:stroke joinstyle="miter" /> <v:formulas> <v:f eqn="if lineDrawn pixelLineWidth 0" /> <v:f eqn="sum @0 1 0" /> <v:f eqn="sum 0 0 @1" /> <v:f eqn="prod @2 1 2" /> <v:f eqn="prod @3 21600 pixelWidth" /> <v:f eqn="prod @3 21600 pixelHeight" /> <v:f eqn="sum @0 0 1" /> <v:f eqn="prod @6 1 2" /> <v:f eqn="prod @7 21600 pixelWidth" /> <v:f eqn="sum @8 21600 0" /> <v:f eqn="prod @7 21600 pixelHeight" /> <v:f eqn="sum @10 21600 0" /> </v:formulas> <v:path o:extrusionok="f" gradientshapeok="t" o:connecttype="rect" /> <o:lock v:ext="edit" aspectratio="t" /> </v:shapetype><v:shape id="Picture_x0020_1" o:spid="_x0000_i1025" type="#_x0000_t75"  alt="http://www./wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif"  style='width:.75pt;height:.75pt;visibility:visible;mso-wrap-style:square'> <v:imagedata src="file:///C:UsersremoAppDataLocalTempmsohtmlclip1 1clip_image001.gif"   o:title="trans" /> </v:shape><![endif]--></span>Dê uma olhada no seu <em>Livro dos Monstros </em>e responda: quantas mitologias diferentes o D&amp;D predou para compor seu bestiário? Resposta: um <em>bocado</em>. Temos <em>trolls</em> nórdicos, medusas gregas, <em>couatls</em> com inspiração gritantemente pré-colombiana. E gólens hebreus. E fadas irlandesas. E olha a Grécia atacando novamente com o pégaso, a ninfa, e o titã. Os nórdicos, aliás, não cansam de emprestar: gigantes, anões, elfos. O que não falta ao D&amp;D é diversidade em suas fontes mitológicas.</p>
<p>Isso é o óbvio, logo, avancemos para outras fontes. O Jack Vance, com sua série <em>Dying Earth</em> emprestou o sistema de magia usado no jogo &#8212; aquele horroroso, cheio de <em>slots</em> que aprendemos a <a href="http://www./2008/04/28/sistemas-de-magia-d20-cansado-dos-slots/">substituir por outros</a> &#8211;; o sistema original de tendências (Ordem-Caos-Neutralidade) , por sua vez, saiu de outro romance &#8212; <em>Three Hearts and Three Lions</em> de Poul Anderson. E, é claro, as raças de que todo mundo gosta, os elfos, anões e elfos da obra do Tolkien &#8212; que, por sua vez, os emprestou da mitologia nórdica. Esse <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dungeons_%26_Dragons#Sources_and_influences">artigo da Wikipédia</a> fala sobre o assunto, se você tiver curiosidade.</p>
<p>Como vêem, é uma colcha de retalhos, um mosaico de multicoisas. Há sempre o argumento de que &#8220;poder, pode, mas tem que ser bem costurado&#8221;, mas, em geral, esse &#8220;bem costurado&#8221; é baseado apenas em gosto. Se eu gosto, é bem costurado; se eu não gosto, aí (vamos em)bora invocar que a coisa é uma colcha de retalhos. Eberron tem hobbits que montam dinossauros, &#8220;ciborgues&#8221;, os <em>warforged</em>, aqueles robôs meio-vivos-meio-máquinas, tatuagens transmitidas hereditariamente, &#8220;aviões&#8221; elementais. Tanta &#8220;bizarrice&#8221; quanto o Tormenta (ou até mais) e, ainda assim, vemos bem menos gente acusando o primeiro de mosaico, enquanto pro segundo não falta gente raivosinha, com uma nuvenzinha de chuva eternamente sobre a cabeça e pés em uma pocinha de ácido, prontos pra arremessarem pedras no &#8220;vitral&#8221; de Arton.</p>
<p>Talvez o D&amp;D passe batido por ser um pastiche <em>velho</em>. &#8220;Já estava assim&#8221; quando boa parte de nós veio ao mundo &#8212; eu, por exemplo, sou <em>made in the 80s</em> &#8211;, logo, jamais vimos a colcha ser costurada. Vimos a colcha pronta, e pronta há um bom tempo, tempo o bastante para a coisa se tornar costumeira, usual ao ponto de podermos ver a floresta, mas não as árvores que a formam individualmente. Tomamos a unidade acabada como algo dado, sem jamais parar para pensar na variedade das partes componentes.</p>
<p>E esse hábito de &#8220;ignorar as árvores&#8221; criou um hábito muito desagradável entre os RPGistas, o de ver o D&amp;D &#8212; e, em conseqüência, a fantasia medieval e, até certo ponto, a fantasia <em>em geral</em> &#8212; como algo monolítico, o universo de <em>todas</em> as possibilidades dentro do gênero. No máximo aceita-se D&amp;D <em>e </em>Tolkien, talvez porque o último seja a referência mais óbvia, e, por ser mais literal, mais &#8220;pura&#8221;. Quantos cenários você vê por aí que <em>não</em> têm elfos e anões? E em quantos os elfos <em>não</em> usam arco e flecha e os anões <em>não</em> são criaturas das montanhas/subterrâneos? Magia arcana e divina &#8212; e só essa última, por alguma razão, é capaz de curar ferimentos &#8212; alguém? Quando propus <a href="http://www./2008/12/26/elfos-artonianos-expandindo-o-conceito/">elfos &#8220;capoeiristas&#8221; pra Tormenta</a> &#8212; i.e. como tendo desenvolvido uma arte marcial graças à carência de armas em virtude da escravidão &#8211;, fui encarado com descrença, na base de que &#8220;os elfos não são assim&#8221;. Alguém já viu ou conversou com um elfo pra saber se eles são assim ou assado? Pois é.</p>
<p>Nossa fantasia é prisioneira do estereótipo. A coisa saturou, e se tornou incestuosa. E cruzamentos incestuosos, todos sabem, degeneram as linhagens, fazem-nas perder o viço. Como resolver? Parar de visitar somente nossos primos e primas, dar umas voltas pela cidade e <em>conhecer gente nova</em>. E recorrer ao mesmo processo que os pais do D&amp;D se utilizaram para pari-lo: a <em>pastichagem</em>. Mas, repito, não com nossas primas. Se você só freqüenta a casa dos seus parentes, aquela prima über-gostosa é, efetivamente, a mulher mais linda do mundo &#8212; e se você não sair pra ver que no mundo existem <em>muitas outras</em> mulheres igualmente (ou até mais) gostosas, você só vai profanar seu corpo pensando na bendita prima. Você, obviamente, sabe que o mundo tem mulheres bonitas de sobra, e que seria um desperdício concentrar todos seus esforços apenas na sua prima. Ainda assim, em se tratando de RPGs de fantasia, o que mais vemos é gente que não vê coisa alguma além da prima!</p>
<p>Não hesitemos em conhecer gente nova. A ficção científica não mora tão longe da casa da sua prima &#8212; mas que mudança de ares ela proporciona! Temos literalmente um mundo de culturas além da européia; temos toda uma História além da Idade Média. Por que não usar? Só porque o D&amp;D é medieval, e, portanto, não seria <em>troo</em> fazer de outra forma? Balela. É como viver dentro de um traje hermético, reciclando a água do próprio mijo quando há um enorme rio de águas límpidas bem ao lado.</p>
<p>A filosofia pode nos levar a sistemas de moral e ética bastante diferentes do nosso &#8212; o que é apropriado, já que os jogos de fantasia se passam em <em>outros</em> mundos &#8211;, então por que nos limitarmos ao judeo-cristianismo? Para quem já pensou no assunto mas nunca soube por onde começar, eu recomendo <a href="http://valberto.wordpress.com/2008/12/17/moral-etica-e-correlatos-em-fantasia-medieval/">esse excelente texto do Valberto</a> (que conta com uma <a href="http://valberto.wordpress.com/2008/12/22/colocando-em-pratica-o-pensamento-critico/">continuação</a> que trata de pôr em prática os conceitos abordados). E já que esses links te puseram no blogue do Valberto, aproveite e dê uma olhada nos posts de &#8220;repensando raças&#8221; &#8212; é ótimo material transicional, pois injeta novos ares nas raças com que você já está acostumado, logo, não estará pisando em &#8220;terreno estranho e hostil&#8221; abruptamente.</p>
<p>Se você tem o hábito de ler, não pense que só os livros de fantasia servem como inspiração. <em>Qualquer</em> coisa serve. Eu, particularmente, gosto mais dos de ficção científica, mas quem disse que os outros gêneros que você lê não têm adições interessantes para a fantasia? Pesquise também. A internet tem praticamente de tudo, só requer um pouco de <em>google-fu</em> (e nem muito, já que eu não sou particularmente habilidoso nessa arte e me viro bem). Seu cenário tem alquimia? Por que não dar uma pesquisada sobre o assunto? Há muito mais sobre alquimia do que misturar dois líquidos ou transformar chumbo em ouro &#8212; quem sabe alguma das minúcias sobre o assunto não te dá uma base pra algo bacana?</p>
<p class="MsoNormal">Claro que não podemos ser hipócritas &#8212; é difícil sair de nossa zona de conforto, aquele nicho tão familiar, conhecido, acolhedor e quentinho. Mas se a coisa for gradual, é mais fácil. Não vou mentir: eu mesmo já fui um &#8220;tradicionalista hardcore&#8221;. Me recusava a jogar <em>Mage</em> por causa da simples <em>presença</em> dos Filhos do Éter e dos Adeptos da Virtualidade &#8212; chegava a achar repugnante o pensamento de &#8220;magia&#8221; com quinquilharias tecnológicas; magia, para mim, era inexplicável, requeria muito abracadabra sem sentido e chapéus pontudos!</p>
<p class="MsoNormal">De certa forma, foram as guitarras elétricas do Romância que me salvaram. Sem querer, acabei criando uma explicação semi-científica pra possibilitá-las &#8212; por alguma razão, &#8220;deixei escapar&#8221; a chance de explicar com magia &#8211;, e, pra minha surpresa, foi a parte que meu grupo mais achou interessante, e isso me incentivou a buscar outras coisas na mesma linha. E isso foi expandindo. Caíram as monarquias (o sistema de governo de 9 entre 10 nações de fantasia) e entraram governos mais estranhos. A magia dos bardos tinha explicações baseadas na física do som, aí pensei &#8220;por que não expandir o modelo, pra que possa explicar <em>toda</em> a magia do cenário?&#8221; Com isso, caiu facilmente o modelo gygaxiano de magia arcana &amp; divina. Depois em descobri o China Miéville &#8212; e tomei um belo choque com <a href="http://www./2008/12/03/construindo-mundos-com-china-mieville/">esse artigo </a>dele &#8211;, e caíram os elfos, anões &amp; cia. E raças não precisam sair necessariamente de mitologias &#8212; dá pra tirá-las de qualquer lugar. Os elfos largaram o usual posto de &#8220;mais alta civilização&#8221; e, no lugar, pus os Eloi &#8212; sim, os humanos do futuro de traços delicados da <em>Máquina do Tempo</em> do H.G. Wells &#8211;, o que já serviu para tirar os humanos do posto de &#8220;macacos mais evoluídos&#8221;. Ontem eu terminei de ler <em>Foundation and Earth</em> do Isaac Asimov &#8212; e de lá saiu um elemento que era o tempero que faltava por meus Eloi. (Se você leu esse romance, já deve imaginar o que eu tirei de lá.)</p>
<p class="MsoNormal">Mesmo eu falando excessivamente do Romância e do China Miéville, não quer dizer que pra ser diferente e &#8220;estranho de um jeito legal&#8221; a coisa precise se enveredar pelo <em>steampunk</em> e afiliados. Longe disso. <em>Dá</em> pra fazer isso com medieval, e mesmo com elfos, anões e orcs. Mas não deixe o D&amp;D, o Gygax e o Tolkien te limitarem. Quer medieval? Pesquisa a Idade Média <em>de verdade</em> &#8212; e, com base nisso, dê o <em>seu</em> tratamento. O mesmo com elfos &amp; cia. &#8212; vá atrás dos mitos <em>originais</em>. O Tolkien e o Gygax podem ter feito realizações notáveis, mas eles são apenas macacos evoluídos, como você e eu, nem melhores e nem piores.</p>
<p class="MsoNormal">Então, quando você tiver alguma idéia que pareça &#8220;estranha demais&#8221; e aquela vozinha chata na sua cabeça começar a gritar &#8220;Isso não serve pra fantasia!&#8221;, mande-a, educadamente, ir dar meia hora de rabo e trabalhe a idéia. Muita gente reclama que não há nada de novo sob o sol do RPG brasileiro &#8212; então não fique só esperando, e ponha as mãos na massa. Os azulejos você tem, então é só montar o mosaico. E dá certo &#8212; foi assim, afinal, que o D&amp;D foi feito.</p>
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		<title>Lista de Presentes dos Sonhos</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Dec 2008 23:34:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nume Finório</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Tweet O Natal está quase aí, e muitos de vocês já torraram quase todo o décimo terceiro em presentes que certamente não são para si, e fica a pergunta: se...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="bottomcontainerBox" style="">
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			</div>			
			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p style="text-align: justify;">O Natal está quase aí, e muitos de vocês já torraram quase todo o décimo terceiro em presentes que certamente <em>não</em> são para si, e fica a pergunta: se pudesse gastar com você, meu caro nerd RPGísta, o que compraria? Aí vai a minha lista de presentes dos sonhos, dividida em categorias nerds de coisas nerds.<span id="more-650"></span></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Quadrinhos</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/278838/lobo+solitario+-+volume+1%5C?franq=270587" target="_blank"><strong>Lobo Solitário</strong></a>: Li alguns volumes emprestados de um amigo. Nada me faria mais feliz que poder acompanhar as histórias do samurai solitário e seu filho desde o princípio. Um dia eu me dou esse presente. Um dia.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://hqmaniacs.uol.com.br/osmortosvivos/index.htm" target="_blank"><strong>Os Mortos-Vivos</strong></a>: Eu sou louco por zumbis. E o gordinho é foda. Robert Kirkman usa o já trivial apocalipse zumbi com uma maestria sem igual, os mortos são uma força da natureza, mas são os personagens, tão profundos e cheios de conflitos em meio a descoberta do novo mundo, que chamam toda a atenção do leitor. Já tenho o primeiro volume da série, faltam os volumes seguintes agora.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://hqmaniacs.uol.com.br/invencivel/" target="_blank"><strong>Invencível</strong></a>: Eu já disse que o gordinho é foda? Pois é. Invencível é a visão deste prêmiado roteirista para o universo dos super-heróis. Eu quero, quero e quero.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Livros</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.submarino.com.br/produto/1/21377294/blackwater%5C?franq=270584" target="_blank"><strong>Blackwater</strong></a>: A Blackwater me fascina. A maior companhia de mercenários do mundo é tão grande que internamente é divida em três forças: exército, marinha e força aérea, como um exército convencional. E cria inventos da morte espetaculares, como a <strong>arma automática calibre .12 que dispara mini-granadas</strong> contra os inimigos.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.submarino.com.br/portal/Artista/51369/+terry+pratchett/?franq=270584" target="_blank"><strong>Discworld</strong></a>: Este aqui não é bem um livro, mas uma série de livros, a série <em>Discworld</em>. Se você ainda não conhece essa maravilha do inglês Terry Pratchett, você é um filho de um bugio e merece morrer <em>são</em> no reino de Nimb. Li o <em>Estranhas Irmãs</em> e até hoje estou correndo atrás de encontrar mais livros da série.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.submarino.com.br/produto/9/958851/perdido+street+station/?franq=270584" target="_blank"><strong>Perdido Street Station</strong></a>: Não costumo ler muitos livros direto em inglês, mas o <em>Shido</em> me deixou com água na boca com esse depois de traduzir um artigo de <a href="http://www./2008/12/03/construindo-mundos-com-china-mieville/"><strong>construção de mundos do China Mieville</strong></a>, destaque pra resenha bacanuda do BURP do livro.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>DVD&#8217;s</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.submarino.com.br/produto/6/21434447/batman:+o+cavaleiro+das+trevas-+duplo/?franq=270584" target="_blank"><strong>Batman, o Cavaleiro das Trevas</strong></a>: o DVD duplo do filme mais foda do ano. Não me entendam mal. Eu realmente não sou um fã dos quadrinhos do Batman. Acontece que <em>esse</em> filme ficou foda, Heart Ledger fez o melhor Coringa de todos.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.submarino.com.br/produto/6/1705283/supernatural+-+1%C2%AA+temporada+completa-+6+dvds/?franq=270584" target="_blank"><strong>Supernatural</strong></a>: Assisti alguns episódios avulsos no SBT e a série me pareceu muito boa. Além disso, os comentários dos meus amigos são sempre positivos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>RPG&#8217;s</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.submarino.com.br/produto/9/704440/discworld+roleplaying+game/?franq=270584" target="_blank"><strong>Discworld RPG</strong></a>: Pela Steve Jackson Games, o RPG do mundo de fantasia medieval mais engraçado de todos os tempos. Ah, mas eu queria isso!</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.ambrosia.com.br/2008/10/10/cthulhutech-mechas-contra-os-grandes-antigos/" target="_self"><strong>CthulhuTech</strong></a>: Robôs gigantes contra Cthulhu! Precisa dizer mais?</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.underhaven.com.br/index.php" target="_blank"><strong>Ao Cair da Noite</strong></a>: Sim, esse mesmo. Eu ia comprar ele em mês passado, mas aconteceram umas coisas e simplesmente não deu. Mas eu ainda vou comprar, ah, eu vou.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://astore.amazon.com/greenroninpub-20/detail/193244257X" target="_blank"><strong>True20</strong></a>: Eu li a SRD do True20 e uma boa parte do nosso Re.Ação! acabou sendo baseada nele. Mas eu nunca pus as mãos no original. Qualidade garantida.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.amazon.com/Ptolus-City-Spire-Malhavoc/dp/1588467899/ref=sr_1_7?ie=UTF8&amp;s=books&amp;qid=1229816754&amp;sr=8-7" target="_blank"><strong>Ptolus</strong></a>: O gigantesco livro do Monte Cook detalha totalmente a cidade do título. Maior que esse livro. Só o preço. A edição para colecionadores pode chegar a setecentos doláres. E há quem pague!</p>
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		<title>Construindo mundos com China Miéville</title>
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		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 12:16:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Traduções]]></category>
		<category><![CDATA[China Miéville]]></category>
		<category><![CDATA[Fantasia]]></category>
		<category><![CDATA[On World Building]]></category>
		<category><![CDATA[Perdido Street Station]]></category>

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		<description><![CDATA[Tweet Para quem não está familiarizado, China Miéville é o autor do romance Perdido Street Station &#8211; sobre o qual você pode saber mais se ler esta resenha tudo-de-bom do...]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="bottomcontainerBox" style="">
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			</div><div style="clear:both"></div><div style="padding-bottom:4px;"></div><p>Para quem não está familiarizado, <strong>China Miéville</strong> é o autor do romance <strong>Perdido Street Station </strong>&#8211; sobre o qual você pode saber mais se ler esta <a href="http://brunos.multiply.com/reviews/item/217">resenha tudo-de-bom do BURP</a> &#8212; e as seqüências <strong>The Scar</strong> e <strong>Iron Council</strong>. Tendo recebido, em 2001, o Prêmio Arthur C. Clarke e o Prêmio August Derleth da Sociedade Britânica de Fantasia, entre outros &#8212; incluindo o <em>Editors&#8217; Choice Award</em> da <a href="http://www.amazon.com/">Amazon.com</a> na categoria fantasia &#8211;, seja no gênero ficção científica ou fantasia, Perdido Street Station evade as convenções da fantasia tradicional. Bas-Lag, o mundo em que se passam as histórias, é complexo, detalhado e surpreendente, mandando às favas vários dos clichês da fantasia em detrimento da <em>coerência</em> &#8212; que, ao lado da originalidade, é justamente um dos atributos enaltecidos em suas obras. China Miéville é também autor de um ensaio sobre construção de mundos, <a href="http://runagate-rampant.netfirms.com/books/on_world_building.shtml"><em>On World Building</em></a>, que traduzo a seguir e penso ser de valia, seja para escritores, mestres de jogo ou criadores de cenário aspirantes.</p>
<p><span id="more-557"></span></p>
<p><strong>Sobre construção de mundos</strong></p>
<p><em>&#8220;Dezessete notáveis impérios ergueram-se no Período Médio da Terra. Estas eram as Culturas da Tarde. Todas, exceto uma, são sem importância para esta narrativa.&#8221;</em></p>
<p>Estas são as linhas de abertura da impressionante seqüência <em>Viriconium</em> de M. John Harrison, na qual ele casualmente escreve a mais importante regra de construção de mundos que eu conheço. Histórias, leis, culturas, estéticas &#8212; mundos &#8212; são colossais e colossalmente complexos. Não há como contar a história de um mundo todo. Não importa o quão detalhada seja sua linha do tempo, ou cuidadosamente ilustrado seu bestiário, não há como explicar tudo. Se algo não é importante para a narrativa, sequer tente &#8212; há um limite para despejos de informação que uma história pode aguentar, e eu guardo os meus para as coisas que o leitor precisa entender. O restante das coisas estranhas, ou raças, ou lugares &#8212; eles apenas estão lá. Eles apenas acontecem. Insira-os, descreva-os e deixe-os em paz, mesmo que isto deixe o leitor com incertezas. Sem problemas. Na verdade, isso é bom &#8212; é choque cultural.  Dando certo, isto comunica  que há um mundo além do livro, no qual ocorre a história, em vez de uma história com alguns acessórios de fantasia jogados dentro.</p>
<p>Há poucos prazeres maiores na <em>Weird Fiction </em>(&#8220;Ficção Estranha&#8221;)  que um monstro realmente legal ou uma inusitada raça alienígena. É por isso que não faz sentido escolher suas criaturas da lista usual de suspeitos &#8212; elfo, anão, centauro &#8212; você sabe.</p>
<p>O melhor da tradição fantástica &#8212; o Surrealismo, por exemplo &#8212; é sobre usar o fantástico para desafiar, alienar, criar o grotesco que mantenha o leitor surpreso. Geralmente, alienígenas estereotipados servem à função oposta, uma vez que não são nada alienígenas. São confortantes porque são tão reconhecíveis. Este tipo de fantasia não é nem de longe suficientemente fantástica.</p>
<p>Não estou dizendo que seja impossível escrever fantasia boa e inovadora com elfos e anões (<em>The Iron Dragon&#8217;s Daughter</em> de Michael Swanwick exemplifica isto). Só estou dizendo que eu não o faria. E, de qualquer forma, metade da diversão está em inventar estas criaturas &#8212; por que não aproveitar a oportunidade para criá-las do zero ou explorar mitologias mais inusuais que a <em>fairyland</em> tolkeniana? E uma vez tendo criado sua raça, lembre-se de que raça, cultura e caráter são três coisas muito distintas. Poucas coisas em fantasia me incomodam mais que uma raça em particular agindo como sinônimo para um tipo particular de personagem. Por que todos os elfos são inteligentes e feéricos? Existe algum anão que não seja ranzinza e bom com as mãos? E o que acontece se você é um orc mas não é, você sabe, mau?</p>
<p>Isso é estereotipação racial na terra da fantasia. E isso dá origem a explicações tão pouco convincentes quanto a mesma atividade no mundo real. Claro que teremos diferenças culturais entre diferentes raças, mas, novamente, por que estas raças precisam ser monolíticas? É realmente provável que, em seu mundo cuidadosamente construído, dois grupos de kobolds alados, separados por mais de 1.500km de distância,  sejam basicamente iguais? Com certeza serão tão variados quanto os astecas, os !Kung-San e os britânicos vitorianos. Assim como nós somos.</p>
<p>Mas é claro que nem mesmo em si estas culturas são monolíticas. Há toda uma massa de objetivos, interesses e impulsos conflitantes dentro de cada uma.  Conflito geralmente não é o resultado de um Lorde Maligno das Trevas que traz ameaça de fora. Geralmente há mais que suficientes tensões internas em aquecimento para deixar as coisas interessantes.  Até o mais simpático &#8220;Bom Rei&#8221; precisa tirar seu palácio de algum lugar, e é mais que provável que seja de onde seus equivalentes monárquicos da vida real tiraram os seus: pilhagens, metal afiado e os salários não-pagos dos camponeses. Lembre-se disto e provavelmente seu mundo será bem mais convincente.</p>
<p>É paradoxal tentar descrever um mundo que seja simultaneamente convincente e totalmente fantástico. Mas uma idéia une ambos impulsos: o reconhecimento de que as coisas não são certinhas e arrumadinhas ou monolíticas, mas complexas e contraditórias, possíveis, constantemente surpreendentes e muitíssimo mais interessantes em virtude disto. Isto poderia descrever a melhor e mais estranha fantasia, bem como o mais duro retrato da realidade. É por isto que Kafka é um realista, e é por isto que os dois jeitos são possíveis.</p>
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