Coisas inúteis nas terras selvagens

Todo mundo ama loot. Você massacra alguns orcs selvagens e encontra baús cheios de ouro, joias e coisas tão, tão valiosas! E está jogado num canto como se não tivesse valor! Esses selvagens nem sabem como […]

Todo mundo ama loot. Você massacra alguns orcs selvagens e encontra baús cheios de ouro, joias e coisas tão, tão valiosas! E está jogado num canto como se não tivesse valor! Esses selvagens nem sabem como criar um cofre? E aí você tem que viajar centenas de quilômetros até uma cidade onde alguém vai estar disposto a aceitar que aquilo é mais valioso que comida e você entende. Nas terras selvagens, aquilo é inútil. Peso morto. Você não pode comer ouro. Joias não vão proteger você da chuva ou do frio.

Isto não é para dizer, claro, que não existe comércio nas terras selvagens onde nossos heróis de fantasia estão se aventurando. Sociedades tribais são muito mais adeptas neste aspecto da civilização do que qualquer almofadinha em uma respeitada universidade vai admitir para você. Apenas que a lei da oferta e procura é implacável, fazendo com que o que é muito valioso numa grande cidade não receba um segundo olhar nas terras selvagens.

Mas o que é inútil e o que é valioso no comércio tribal que você pode encontrar enquanto está se aventureiro no meio do nada? Vamos começar pelo básico. Metais valiosos. Você provavelmente vai descobrir, nas suas viagens nas terras selvagens, que suas moedas de cobre subitamente vão subir de valor. Isto é porque elas possuem uma utilidade real, o cobre nas moedas pode ser misturado com estanho para produzir bronze. Bronze que pode ser utilizado para fazer armas, armaduras e uma pletora de aplicações no baixo nível de tecnologia que pode ser encontrado na maioria das terras selvagens em qualquer cenário. Suas moedas de prata ainda terão algum valor, mas muito menos que as de cobre, apesar de que isto pode mudar de acordo com a região. Veja, a prata é útil para a criação de “armas de prata” para lidar com monstros que são resistentes ou imunes a dano de outras fontes. Basicamente, qualquer vilarejo nas terras selvagens gostaria de ter algumas dessas armas em reserva para armar um campeão para lidar com o monstro da semana caso seja necessário, mas fora isto não há muita utilidade para prata aqui.

Ouro… será talvez a moeda mais desvalorizada que você vai carregar. Sim, elas brilham e são bonitinhas, talvez um colar de ouro possa atrair a atenção de alguns habitantes interessados em atrair o olhar de algum interesse romântico. Mas o que poderia comprar uma estalagem inteira na grande cidade aqui provavelmente vai ser negociado por uma dúzia de ovos.

Nas terras selvagens há um quarto metal precioso que ninguém imaginaria em terras mais civilizadas: ferro. Um quilo de ferro nas terras selvagens provavelmente tem o mesmo valor que um quilo de ouro em terras civilizadas. Este ferro pode ser fundido e produzir valioso aço. Uma espada ou armadura de bom aço é provavelmente o bem mais valioso que você pode carregar para um lugar onde armaduras de couro e lanças de bronze são o padrão. Eu lembro de uma vez criar uma cidade nas terras selvagens onde a moeda equivalente a peças de bronze eram as escamas de uma brunea, peças de prata um link individual de uma cota de malha e peças de ouro as talas que iriam numa cota de talas ou loriga segmentada. Meus jogadores odiaram, nunca me diverti tanto vendo eles chorarem.

Mas nem tudo que brilha é ouro, ou nem tudo que tem valor é metal precioso, neste caso. Veja bem, há um bem precioso para a sobrevivência de qualquer sociedade que é extremamente valioso na maioria das terras selvagens em qualquer cenário: sal. Indispensável para a manutenção da saúde física de qualquer criatura humanoide, o sal também é indispensável para a preservação de comida que pode ser a diferença entre a vida e a morte durante os invernos nas terras selvagens. A maioria das terras selvagens em cenários de fantasia ficam em áreas montanhosas ou pradarias distantes do oceano, portanto a fonte de sal mais comum serão as minas de sal-gema. Essas minas são mais valiosas que qualquer mina de prata ou ouro nas terras civilizadas, e guerras de sobrevivência são travadas entre tribos pelo controle delas. De fato, muito da influência política em qualquer sociedade tribal vem diretamente do controle dessas fontes de sal.

Peles são outro bem valioso. Roupas e cobertores capazes de manter alguém aquecido e saudável são importantes em qualquer lugar, mas uma pele de um animal exótico, perigoso ou belo é tão valioso em termos de status social nas terras selvagens quanto nas terras civilizadas. Mas não apenas pele e carne é um bem valioso a ser obtido da caça de animais nas terras selvagens. Ossos são tão importantes quanto. Os ossos de animais abatidos podem ser transformados em farinha de osso, que então pode ser utilizada para complementar a alimentação de animais domésticos e como fertilizante. Há também a criação de objetos de arte, esculturas de ossos estão entre as primeiras formas de arte em muitas culturas ao redor do mundo.

E já que estamos falando de arte, uma coisa precisa ser dita antes de mais nada. Sociedades tribais amam e valorizam arte tanto quanto qualquer sociedade civilizada. A diferença está na praticidade da arte em questão. Por exemplo, tribos nômades terão preferência por arte que possa ser facilmente carregada ou seja integrada a itens do dia a dia, como joias, tatuagens, pinturas sobre o tecido de tendas e adereços para montarias. Tribos sedentárias por outro lado optam por criar sua arte a partir de recursos facilmente obtidos na região, como esculturas em madeira ou osso, e também tem uma tendência a integrar sua arte a itens do dia a dia, se mais “permanentes” como residências e móveis domésticos. De fato, muitas vezes a maneira mais fácil de distinguir onde a residência do chefe tribal fica em um vilarejo é observar qual casa é mais ornamentada com entalhes e colorida com pinturas, já que a capacidade de investir recursos nestas coisas é típica daqueles com poder financeiro e político. A arte típica da civilização pode ser admirada como é, mas normalmente é considerada um desperdício de recursos ou um incômodo em sua forma natural e muitas vezes reciclada sem dó (“É uma bela estátua de bronze… quantas pontas de lança você acha que dá pra fazer com ela?”, “Essa tal Mona Lisa é bonita, vou falar pra esposa costurar isso na parte de dentro da tenda”).

Por último, uma das coisas mais valiosas nas terras selvagens e mais ignoradas em qualquer mesa de jogo: ferramentas e utensílios. É fácil ignorar uma frigideira de ferro fundido como um valioso item para trocas comerciais na civilização, onde elas são comuns e fáceis de produzir, mas uma frigideira de ferro fundido nas terras selvagens é um item divino. Fácil de carregar, perfeita para fritar carne e ovos, e se necessário numa emergência pode ser usada tanto como arma quanto escudo, a frigideira é um sucesso instantâneo com qualquer tribo nômade. Utensílios agrícolas de ferro como cunhas simples e aivecas ou colheitadeiras valem seu peso em ouro para qualquer tribo sedentária. Em geral, a construção de muitas das ferramentas e utensílios que são considerados simples mesmo para uma sociedade medieval de fantasia na verdade dependem de uma complexa rede de artesãos e “ferramentas que constroem ferramentas que constroem ferramentas.” E, portanto, são muito mais valiosas devido a sua utilidade e raridade nas terras selvagens.

Então já sabem, se querem se aventurar nas terras selvagens, preparem-se com um saco de sal, uma frigideira extra e moedas de cobre para pagar suas contas!

Sobre Alexander Waltz

Alex gosta de dormir, comida, gatos, videogame e RPG. Não necessariamente nessa ordem.