Brigada Ligeira Estelar: adicionando Vontade, uma nova característica

Neste artigo discutiremos uma das regras alternativas mais polêmicas para Brigada Ligeira Estelar: a adição de uma nova característica: Vontade. No ano passado o Alexandre Lancaster publicou uma série de regras […]

Neste artigo discutiremos uma das regras alternativas mais polêmicas para Brigada Ligeira Estelar: a adição de uma nova característica: Vontade.


No ano passado o Alexandre Lancaster publicou uma série de regras alternativas para 3D&T Alpha, para serem usadas em conjunto com Brigada Ligeira Estelar. Eu considerei em usar algumas na minha campanha, especialmente àquela descrita no 4º e último artigo: onde adicionamos uma nova característica para 3D&T Apha: Vontade, que em resumo representa a coragem, a convicção e a força de vontade do personagem.

Agora vamos a treta! A adição desta característica tem seus prós e contras:

Vamos começar pelos CONTRAS:

• Ela não propõe mecânicas novas que justifiquem sua adição, mas “rouba” parte das atribuições de Habilidade (uso de perícias sociais e de poderes mentalistas), e Resistência (resistência contra efeitos mentais, traumas, etc.).

• Ela bagunça o sistema de Pontos Heroicos (PH), criando excepcionalidades. Basicamente, os personagens jogadores passam a calcular seu PH = Vx5. O problema aqui é que não me parece fazer sentido robôs gigantes e outros veículos terem PH baseado em Vontade! Ou eles continuam calculando seu PH = Rx5, ou terão de usar outro sistema de recursos (como os Pontos de Ação sugeridos no Manual do Defensor, baseados em H).

• Não faz sentido máquinas e veículos terem Vontade (a menos que sejam sencientes, como os androides). Lancaster propõe que V seja usada para representar a segurança de software dos robôs, resistindo a invasões de hackers, mas isso é muito pouco para justificar uma nova característica para máquinas.

• Nos animes e mangás que inspiraram 3D&T, força de vontade e resistência física são sinônimos. Pense naqueles heróis que apanham pacas, mas sempre se levantam. O mesmo ocorre com os valentes pilotos de robôs gigantes, que continuam a lutar em meio a ferragens e seguem adiante mesmo sofrendo grandes traumas.

• Perícias já cumprem a função de suprir as habilidades sociais do personagem. Basta comprar Manipulação e você terá um bônus de +4 em todos os testes. Não precisamos repetir essa discussão, o BURP já tratou do assunto no Manual do Defensor.

Manual do Defensor

Melhor livro

Bom, depois dessa chuva de contras, vamos aos PRÓS:

• A adição de Vontade resolve o “dilema do líder indefeso”: alguém com grande carisma, coragem e força de vontade, mas frágil fisicamente. Esse é um arquétipo comum no gênero Real Robot (e.g. Relena Peacecraft de Gundam Wing; Euphemia Li Britannia e Lelouch Lamperouge, de Code Geass).

• Manipulação pode ser usado em conjunto com Resistência para evitar que o personagem seja manipulado, mas não cobre resistência contra os grandes traumas e provações comumente enfrentados pelos personagens do gênero.

• Num cenário onde idealismo, tramoias políticas e manipulações tem grande importância, ter uma medida específica para “habilidade social e convicção” pode ser interessante. Como defende o Lancaster em seu artigo, a adição de V pontua um aspecto relevante de BLE.

• Ainda sobre o tópico acima: enquanto que as perícias são binárias (o personagem é bom manipulador ou não), uma característica mostra diferentes níveis de personagens carismáticos – do jovem nobre ainda aprendendo o ofício até o grande líder capaz de influenciar milhões. Habilidade cumpre essa tarefa de forma limitada. De fato, admite-se no Manual do Defensor que “personagens carismáticos” são os mais difíceis de se criar em 3D&T.

Soluções Alternativas

Um bom 3D&Tista pode argumentar que é possível resolver o “dilema do líder indefeso” através da desvantagem Frágil que reduz os PV para Rx3 (Manual do Defensor, p.25), ou com a criação de uma nova vantagem, que dê um bônus para testes contra efeitos mentais.

Não é que tais soluções sejam ruins, mas falham se o que almejamos é toda uma miríade e gradações de personagens em relação aos aspectos de Vontade (convicções, idealismo, força de vontade, habilidade social). Além disso, existe uma questão de game design onde destacamos esses aspectos como centrais ao torna-los uma característica. Isso deixaria evidente para os jogadores o trade-off sobre investir nisso em detrimento de outros aspectos do personagem.

Outra possibilidade seria criar uma vantagem “Foco em Perícia”, que concede bônus extras aos testes com uma perícia. Desta forma teríamos diferentes níveis de manipuladores em jogo. No entanto, as perícias não abrangem a “resistência mental” e o “poder da convicção” a serem destacados no cenário.

Relena Peacecraftt Vontade para 3D&T

Princesa Relena (Gundam Wing): vontade de ferro para confrontar seu assassino.

Conclusão

Pelos motivos listados acima, acredito que Vontade pode ser bem interessante no contexto de Brigada Ligeira Estelar. A característica agregaria a experiência de jogo, justificando os eventuais problemas mecânicos que por ventura sua adição traria. Contudo, eu faria algumas modificações na proposta original do Lancaster:

• Robôs gigantes/veículos não possuiriam H ou V, ao menos que sejam autônomos/sencientes.

• Robôs/veículos possuem PHs, que são calculados do jeito tradicional: Rx5. Eu não usaria as regras para Pontos de Ação (PA).

• Hackear robôs e veículos passa a ser um teste de perícia de dificuldade mediana. Máquinas militares e de grandes organizações possuem a vantagem “Software Militar” (1 ponto), que tornam estes testes difíceis.

• Não usaria as regras de “Combate Moral”, onde se “ataca” com argumentos e técnicas de discurso, causando dano em algum tipo de “PV Social” ou PA/PH, que ao serem zerados simbolizam a vitória no embate. Eu particularmente acho essa regra beeemmm problemática, pois depende muito da vibe de cada grupo. Na maioria dos casos, estas cenas podem ser resolvidas rapidamente apenas na interpretação e rolagens de perícia (no máximo um teste estendido). Sistematizar isso como um combate me parece muito chato.

Outro argumento contra esta regra, é que ao abordar a interação social como um “combate”, isso pode ser MUITO mal interpretado por alguns jogadores, especialmente no uso de sedução.

Palavras finais:

Sei que a adição de Vontade é polêmica, mas espero que tenha conseguido listar os prós e contras aqui. Eu quase optei por usá-la em minha campanha de Belonave Supernova, não o fiz porque daria um certo trabalho adaptar as fichas e mecânicas, além do fato desta campanha em específica exigir pouco da característica.

E vocês, que acham? Já adicionaram Vontade ou outra característica em suas aventuras para 3D&T Alpha? Comentem!


Agradecimentos ao Alexandre Lancaster pelas discussões de regras.

A imagem de abertura deste artigo é da animação Code Geass (recomendo a todos). A imagem do final pertence ao anime Gundam Wing (a nostalgia é um mal conselheiro).

Sobre Edu Guimarães

Mestra RPG desde os 10 anos e nunca mais parou. É nerd, biólogo, Leal e Bom.