Tormenta: isto não faz sentido…

O mapa de Arton que acompanha o suplemento O Mundo de Arton é provavelmente um dos melhores acessórios de jogo que você vai encontrar para o cenário. Mas para além […]

O mapa de Arton que acompanha o suplemento O Mundo de Arton é provavelmente um dos melhores acessórios de jogo que você vai encontrar para o cenário. Mas para além de ser uma ferramenta super útil para a sua mesa de jogo, este mapa também ajuda a perceber uma das falhas do cenário: a distribuição da população e prosperidade não faz quase nenhum sentido no cenário.

Vamos começar por determinar um fato: cidade e comércio são dois lados da mesma moeda. A formação de centros urbanos depende de um comércio robusto, e a mudança de rotas comerciais pode facilmente destruir cidades que elas ajudaram a criar. Quando as mudanças políticas e os conflitos armados causaram a queda do Império Romano do Ocidente, as rotas comerciais se ajustaram e Roma tornou-se um destino secundário, fazendo sua população cair de mais de um milhão durante o auge romano no século I d.C. para cinquenta mil habitantes no século VI d.C.

Isto posto, vamos ao próximo fato: logística é talvez uma das ciências mais importantes da prática do comércio. Não apenas o transporte de mercadorias é em si um custo que comerciantes devem estar atentos se pretendem evitar ruína financeira, mas também porque a maioria dos produtos comerciais mais importantes são os advindos da agricultura e criação de animais, os quais são perecíveis e portanto seu transporte para áreas urbanas deve ser feito o mais rápido possível.

E agora o fato mais importante que você precisa saber: o maior aliado da logística é o transporte fluvial e marítimo. Barcos são mais rápidos que caravanas comerciais porque eles não precisam parar para descansar animais de carga ou fazer acampamentos durante a noite, eles também tem a capacidade de carregar muito mais carga que essas caravanas e por isto são consideravelmente mais baratos em termos de custos operacionais. Barcos não precisam se preocupar com infraestrutura como estradas e pontes na sua rota, e mesmo a ausência de um porto no ponto de destino não impede que ele descarregue seus produtos por meio de múltiplas viagens de botes.

Agora que você sabe de tudo isto, olhe para o seu mapa d’O Mundo de Arton e me diga quantas das grandes capitais de Arton ficam a centenas de quilômetros de um rio navegável ou do oceano. Deixa eu responder para você: Valkaria (Deheon), Roschfallen (Bielefeld), Sophand (Wynlla), Zakharin (Zakharov), Milothiann (Portsmouth), Sambúrdia (Sambúrdia), Palthar (Namalkah), Vallahim (Tollon), Crovandir (Trebuck) e Grael (União Púrpura). Há também Linnanthas-Shaed na Pondsmânia, mas o lugar é uma árvore cheia de fadas que não segue lógica nenhuma então vamos deixar ela de lado. Kannilar, capital yudeniana, também parece ficar a pelo menos 50km do rio navegável mais próximo, o que pelo menos é melhor que as nove outras capitais que são separadas de escoadouros logísticos por centenas de quilômetros.

Você imaginaria então que essas capitais representam a parte menos desenvolvida do Reinado, certo? Nope. Valkaria tem um milhão de habitantes, Kannilar, 500 mil, e todas as demais com exceção de Sophand, Grael e Vallahim são grandes cidades com população na casa das dezenas de milhares. Como isto aconteceu é um mistério. Mas existem dois outros mistérios mais importantes: Sambúrdia e o Oeste de Arton.

Sambúrdia é conhecida como o Celeiro de Arton, porque a região possui terras extremamente férteis e fazendeiros dedicados a fazer bom uso delas, o que transformou o reino no maior fornecedor de produtos agrícolas para o restante de Arton. Lembra do que falei lá em cima sobre produtos agrícolas precisarem serem transportados o mais rápido possível para centros de consumo por causa da sua natureza perecível? Olhe para o mapa de Sambúrdia. Não há rios ou outros escoadouros logísticos por centenas de quilômetros em todas as direções. Não apenas isto, a rota comercial entre Sambúrdia (capital) e o leste do reino passa pela Floresta das Escamas Verdes, que tem esse nome por ser lar de um número de dragões verdes, incluindo Zadbblein, a Dragoa-Rainha dos Dragões Verdes. Então não apenas a produção agrícola tem que viajar por centenas de quilômetros de estradas no meio de uma enorme floresta, essa floresta é cheia de dragões verdes incluindo uma de nível épico, aí, quando eles passam por tudo isto, esses produtos perecíveis ainda precisam ser colocados num barco e viajarem mais centenas de quilômetros para atingir um porto, de lá caindo na estrada de novo por mais centenas de quilômetros para atingir um dos centros urbanos do leste de Arton. Isto não faz sentido. Quantas toneladas de produtos agrícolas estragam por ano nesse transporte? Quão caros são os produtos sambur quando os comerciantes precisam gastar tanto dinheiro com transporte?

Agora, se Sambúrdia é um exemplo de uma região próspera sem razão, o oeste de Arton é o contrário. Primeiro, uma lembrança dos produtos especiais dos reinos do oeste de Arton: Tollon tem a madeira Tollon, um produto de luxo não perecível que é utilizado em todo o continente na confecção de mobília. Petrynia tem uma “produção” de artefatos mágicos pilhados de Galrasia por expedições de aventureiros. E finalmente Hershey tem o Gorad, que é basicamente chocolate, um produto de luxo que pode durar mais de um ano antes de estragar. Agora olhe para o mapa. Das capitais do oeste de Arton, apenas Vallahim não está situada no litoral ou adjacente a um rio navegável. E mesmo assim Vallahim está a menos de 100 quilômetros do rio Kodai, e já que seu principal produto de exportação é um produto não perecível, não há pressa no transporte. Todos os reinos do oeste tem acesso a dois rios navegáveis ou mais, e todos tem acesso ao Mar Negro, que então dá acesso ao Rio dos Deuses e a todos os mercados consumidores tocados por este gigante fluvial e seus afluentes, que são: Deheon, Namalkah, Yuden, Zakharov, Callistia, Trebuck, Sambúrdia, Nova Ghondriann, Sallistick, União Púrpura e, antes da área de Tormenta aparecer em Trebuck, Schkarshantallas. O oeste de Arton, portanto, é a região com o maior potencial para crescimento econômico e populacional de todo o continente. No mínimo, deveria ter algumas das maiores cidades portuárias… Em vez disso, é uma das regiões mais subdesenvolvidas de Arton. Sua população total é incapaz de competir com os dois milhões que habitam Valkaria em época de colheita. Isto não faz sentido. Como é que Hershey, possuindo um produto comercial único que faz com que dezenas de rotas comerciais tenham como destino a ilha, tem uma população de apenas cinco mil? Hershey é um pouco menor que a Sicília, que tem 25 mil km², o que significa que a densidade populacional da ilha é de algo em torno de 0,25 habitantes por km², para comparar, o Saara Ocidental tem uma densidade populacional de 1 habitante por km². Então, após centenas de anos de colonização de uma área fértil onde cresce um exclusivo produto de luxo e há fácil acesso a rotas comerciais do Mar Negro e do Rio dos Deuses, a densidade populacional de Hershey é de um quarto da do DESERTO DO SAARA?!

Olha, não é a toa que Tapista decidiu tomar a região. Se em séculos de colonização o Reinado foi incapaz de tornar essa região rica em recursos e oportunidades comerciais nas mais prósperas nações de Arton, talvez o Reinado não mereça governar o oeste de Arton.

Sobre Nume Finório

João Paulo Francisconi, entre outras enormes perdas de tempo, é blogueiro há dez anos, escreveu para a finada Dragon Slayer, publicou alguns livros de RPG e assistiu quatro episódios de Punho de Ferro.