Crônicas de Meliny — 002 — O Lorde do Tempo

Muito longe, em algum lugar além das brumas do tempo, passos largos ecoavam pelos corredores de pedra branca. Um homem caminhava num rompante de fúria, avançando inexoravelmente em direção ao […]

Muito longe, em algum lugar além das brumas do tempo, passos largos ecoavam pelos corredores de pedra branca. Um homem caminhava num rompante de fúria, avançando inexoravelmente em direção ao salão principal. Deixava para trás um rastro de gotas d’água que caíam do capote de couro liso e do guarda-chuva que trazia consigo, mas a trilha molhada desfazia-se em instantes, como se jamais tivesse existido.

Alheio à beleza do lugar, o invasor passava por colunas de mármore esculpidas à perfeição por mãos dos homens de outrora, com entalhes em forma de folhas e vinhas. As mãos sujas e nodosas  do invasor empurraram a única porta de madeira escura que abriu-se de uma vez só, sem fazer porém qualquer ruído. No interior do grandioso salão, calor brotava de uma lareira tão alta quanto o anfitrião que, em silêncio, aguardava.

— Então aconteceu. E você não fez nada para impedir! — gritou o homem, a mão em riste, acusando. As barbas dele tremiam pela ira que queimava nos olhos velhos e profundos, parcialmente ocultos por um chapéu alto de aba larga. O único ouvinte, um homem calvo, de rosto escanhoado e sem uma idade aparente definida o observava de volta, inexpressivo. Vestia uma toga branca imaculada. O corpo dele não projetava sombra, nem provocava a menor alteração no ar. Era como se ele não existisse. E de fato, não existia. Pelo menos não no sentido físico da palavra existir.

— Tu sabes tão bem quanto eu, Neredas, que meu papel não é intervir. Devo apenas observar.

Observar, Cronus? — gritou o velho de volta. Um trovão ecoou ao longe — Besteira! Você já interveio antes quando lhe convinha. Porque não fazer nada agora? Sabe onde tudo isto irá parar se nada for feito?

— Obviamente — respondeu Cronus com o mesmo tom impassível e distante — Sou extemporâneo. Eu já vi a história acontecer. Conheço os rumos deste mundo desde o princípio. Quase nada me é desconhecido. Tudo já aconteceu. O destino está escrito.

— Falácias — resmungou Neredas, o guarda-chuvas batendo contra o chão em intervalos regulares como um metrônomo. Era um truque que havia aprendido em outra visita. Marcava um compasso mental para não enlouquecer naquele lugar onde o tempo apenas não existia — O passado é imutável, mas podemos reescrever o futuro. Não existe destino!

Os olhos vazios de Cronus iluminaram-se por um instante e então, com um gesto, o único mago do tempo de Meliny apontou uma mesa ao centro, preparada por ele há mais de vinte séculos, mas que Neredas notara apenas agora. Nela havia um mapa muito antigo daquele mundo, onde nomes de reinos que haviam sucumbido às eras ainda podiam ser lidos. Sobre ele estavam dispostas pequenas peças cuidadosamente esculpidas, representando pessoas e lugares. O velho reconheceu-se de pronto, de pé ao lado da torre branca.

— De fato. Não existe um destino, mas sim vários. Porém, ainda que há possibilidades de muitos futuros, a natureza tende ao equilíbrio de tal forma que, em geral, o caminho mais esperado é o tomado pela era. Veja — disse apontando para o esquema sobre a mesa — Esta é a situação atual de nosso mundo. Na verdade, venho estudando este momento em particular da história com grande interesse. Há poucas passagens que possuem mais do que um punhado de linhas de possibilidades alternativas divergentes do padrão estabelecido. Mas os dias que seguem possuem quase trinta! É verdade que uma delas é imensamente mais provável que todas as demais somadas. Mas mesmo assim, é intrigante.

— Intrigante. — Neredas não conseguiu evitar a repulsa na voz. Com um soco na mesa, berrou — Intrigante! O fim dos reinos pode significar o fim da raça humana! E você considera o problema intrigante? Cronus, maldito seja, você só está curioso! Quer pagar para ver, não é?

— Sou um estudioso — justificou-se o lorde, inexpressivo.

— Compreendo. Trinta possibilidades, você disse? — exasperou-se Neredas a ponto da longa barba encharcada tremer. Correndo os olhos pela mesa, recolheu um peão do norte distante e o levou até o sul, colocando-o próximo a uma torre negra.

— Isto eleva o número de possibilidades de futuro para oitenta — falou Cronus, contrafeito.

Passeando através das projeções moldadas em pedra, Neredas retirou um peão negro dos ermos e o colocou no coração das florestas ao sul. Não satisfeito, quebrou a pequena miniatura em duas, tirando uma parte dela e colocando-a ao norte, próximo às montanhas.

— É loucura — falou Cronus com o mesmo tom impassível, mas havia algo além das palavras dele. Havia uma ponta de dúvida. Neredas sorriu. Recolheu então uma peça maior que representava uma cidade inteira e a arrastou através do mapa, cada vez mais para o sul, cada vez mais próxima do lugar onde estava reunindo as peças.

— Quantas possibilidades? — perguntou o velho.

— Você não pode fazer isso — tentou argumentar o mago do tempo — É impraticável.

— Quantas! — insistiu o velho — Vamos lá. Me diga!

— Não há como calcular. São variáveis demais. E eu precisaria de…

— De tempo? Pois eu não vou lhe dar tempo! — falou. Com um gesto furioso, derrubou todas as peças da mesa, espalhando-as por todo o salão. Com o dedo em riste, Neredas sentenciou:  — Você pode ter todo o tempo do mundo, Cronus. Mas eu não vou lhe dar mais! Vou continuar com meu jogo até tudo tornar-se imprevisível e você será forçado a fazer alguma coisa!

— O tempo flui como as águas, Neredas — justificou o mago observando as peças rolando em toda a volta — Se mudar o curso dele, poderá causar mais destruição do que será capaz de evitar. Todas as peças que há muito haviam sido preparadas estão agora prontas. Cada qual em uma longa jornada através dos tempos espera pelo momento certo. Milênios foram necessários para que tudo se dirigisse para o lugar onde hoje nos encontramos. Crê que poderá fazer a diferença em pouco mais de meio século? E realmente traz consigo a prepotência de acreditar que esta sua visão de futuro será a melhor do que aquela que a própria era escolheu?

— Danem-se as eras. E dane-se também você, Cronus. Você podia ter evitado isto. Bastava um gesto, bastava abandonar a inércia. Mas você ficou curioso. Quis assistir o fim dos tempos do alto deste camarote branco. Pois esqueça. Não lhe darei espetáculo algum. Se alguém deve agir, eu agirei. E você não irá interferir, não é? Pois é isso que você faz. Você. Não. Interfere.
— Eu apenas observo — suspirou Cronus concordando — Mas isto não me impede de lamentar.

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Sobre Marlon Teske

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.