Crônicas de Meliny – 001 – Sombras da Guerra

Uma fina camada de gelo sujo cobria as terras devastadas. Nos campos, os corpos dos soldados dispostos da maneira que tombaram em combate eternizavam os momentos finais de uma batalha […]

Uma fina camada de gelo sujo cobria as terras devastadas.

Nos campos, os corpos dos soldados dispostos da maneira que tombaram em combate eternizavam os momentos finais de uma batalha sangrenta que se estendeu por todo aquele dia. Corvos enchiam os céus, aos milhares, pois havia pasto em abundância para as aves carniceiras. Os muros da única cidadela próxima ardiam nas chamas da danação unindo no fim nobres e plebeus e a fumaça repleta de cinzas que subia em golfadas irritadiças caia em flocos junto com a neve.

Em meio a desolação, um único homem cambaleava lentamente entre os mortos, puxando a perna direita ferida por uma flecha, afastando-se das muralhas enegrecidas do castelo. Seu olhar se perdia no horizonte longínquo que escorria por entre as montanhas ao leste. Mesmo vacilando a cada passo, mesmo com a dor lacerante pulsando nas têmporas, não ousava parar ou olhar para trás.

Tropeçava a esmo, tentando reorganizar os pensamentos. O elmo fendido por um golpe de espada cortava-lhe o rosto deixando o sangue fresco marcar um fio vermelho na face. Da boca ferida escapava o calor da respiração pesada, dançando no ar gelado. Caminhou assim, quase em transe por toda a colina até a borda do platô em que foi erguido o castelo-capital de Vyr. O vento soprava mais forte ali, à poucos metros do profundo abismo que o separava do fosso.

Com os olhos turvos, pôde observar todo o longo caminho percorrido pelas tropas desde que deixaram Zarrus semanas antes, matando todos aqueles que encontravam pelo caminho, guerreiros ou não. Inocentes ou culpados, não importava. Naqueles dias, todos eram inimigos. Crianças foram empaladas, mulheres estupradas e mortas. Deixaram-se levar pela loucura da guerra, pelo fervor da batalha. Deixaram de ser humanos para tornarem-se soldados.

Conforme o anoitecer avançava, podia ver ao longe como pingos de luz num caminho escuro as chamas que consumiram as vilas que incendiaram após saqueá-las. E por fim, por toda a volta, o lugar onde, combatendo as tropas enviadas de Lannus pelo falso rei, enfrentaram a última batalha na Colina do Castelo, o refúgio final de Achenedai Valen. A Guerra estava encerrada, os antigos reinos definitivamente destruídos e as Seis Guildas Arcanas desmanteladas. Tudo o que fora o mundo para ele não mais existia.

Apoiando-se em uma rocha, retirou dolorosamente o elmo, deixando um suplício de dor escapar pelos lábios ressecados. Fez o mesmo com o corselete feito com pequenas argolas metálicas que lhe serviram como proteção e pousou ambos à direita dele. Sem eles, já não era mais um lorde guerreiro, um senhor da guerra. Voltara a ser apenas um homem. Desfez-se também das manoplas, do estandarte, de toda a pompa. Precisava ser apenas ninguém. Demorou-se olhando para a espada nas mãos, o fio marcado pelos muitos golpes.

Ajoelhou-se ali, sem tirar os olhos da velha lâmina. Correu a mão por toda a extensão, sentindo o ferro frio através das luvas rasgadas. Espelhou-se no metal por alguns instantes, procurando no reflexo dos olhos alguma saída desesperada, mas nada encontrou. Resoluto, a ergueu em direção aos céus, oferecendo-a aos deuses noturnos. Com um gesto rápido, a girou, segurou o cabo com ambas as mãos e atravessou-a no próprio peito.

Um grito agonizante ecoou pelas paredes do castelo em chamas espalhando-se pelo vale. Dos céus, uma coluna de energia azulada caiu furiosa, pela qual centenas de milhares de rostos em pânico devorados pela dor e pelo medo gritavam em uníssono, reforçando o brado do guerreiro caído enquanto rodopiavam em uma espiral insana.

Como um tufão infernal, a luz devorou com fúria os campos de combate e percorreu em uma fração de segundo a distância que os soldados levaram semanas inteiras para vencer, explodindo de encontro às montanhas distantes. Tão rápido quando surgiram, a luz, os gritos e a dor cessaram. O silêncio sepulcral tornou-se denso de tal forma que parecia poder ser tocado quando o guerreiro caído abriu os olhos, agora sem vida e sorriu.

A guerra ainda não teria um fim.

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Sobre Marlon Teske

Marlon “Armageddon” Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.