Whatsapp, narração e newbies: o início

O ano é 2.222 d.C. e vocês estão na cidade-estado de Atacama City. O mundo já sofreu seis guerras mundiais e as coisas estão um pouco diferentes do que seus […]

O ano é 2.222 d.C. e vocês estão na cidade-estado de Atacama City. O mundo já sofreu seis guerras mundiais e as coisas estão um pouco diferentes do que seus avós contavam.

Seus personagens são feitos de Porrada, Malícia e Teimosia e vocês têm 5 pontos para distribuir entre eles. Também quero um nome e um estereótipo (mercenário, ninja, androide, alienígena, prostituta, clone ou gorila).

Essa foi a mensagem que meu grupo do WhatsApp recebeu. Tem uns anos que eu não jogo RPG e já estava tendo espasmos, aí resolvi jogar na marra com meus irmãos e primos, em um grupo de conversa fiada nossa no aplicativo. Nenhum deles nunca jogou RPG e a maioria nem sabe que isso existe, mas eu sabia que eles tinham potencial. Sempre contamos piadas, inventamos histórias e situações absurdas. Sempre soube que todos iriam gostar da coisa.

Mas aí que morava o problema: como iniciar meia dúzia de adolescentes e jovens em um jogo por bate-papo no celular? Se eu fosse explicar o que é um RPG e como funciona, eles achariam complicado demais e não iam querer experimentar. No máximo, alguns iam tentar, mas cheios de dedo, com aquela sensação de quem manuseia um objeto complicado e que pode quebrar a qualquer momento. Por isso eu joguei o cenário e um protótipo de sistema que eu tinha inventado dez minutos antes.

O cenário é um mundo pós-apocalíptico surreal onde qualquer coisa pode acontecer. A única regra que existe nele é a da diversão: se é legal pro jogo, está lá. Já o sistema está em evolução. Minha ideia era usar o máximo de elementos narrativos e tentar passar o bastão pra eles, mas conheço pouco desse universo e tenho minhas amarras nos RPGs mais mecânicos, cheios de aritméticas (e incluo o 3D&T aqui sem dó). O sistema, que nem batizado foi, tem crescido e mudado constantemente, mas isso não tem atrapalhado o jogo, pois tenho evitado situações mais mecânicas (como rolagens de dado) para dar lugar à narração e à diversão.

Pós-apocalipse: próximo o bastante pra qualquer um se identificar e fantástico o suficiente pra aceitar qualquer loucura. Cena de "Depois do Fim do Mundo", de Flávio R. Moura.

Pós-apocalipse: próximo o bastante pra qualquer um se identificar e fantástico o suficiente pra aceitar qualquer loucura. Cena de “Depois do Fim do Mundo”, de Flávio R. Moura.

Olhando assim, parece um desastre. Um grupo de pessoas que nem sabem o que é RPG (nem citei a sigla pra eles. Eles acham que é só um jogo sem nome), um mestre que não conhece a fundo os segredos dos RPGs narrativos e tudo isso acontecendo um uma salinha de bate-papo de um aplicativo de celular.

A grande notícia é que tem dado certo. Eles tem aprendido aos poucos que eles controlam as ações de seus personagens, mas o mestre define os resultados, sobre algumas coisas ruins acontecerem com os personagens, mas que isso é melhor para a história e por aí vai.

O jogo tem tido altos e baixos. Às vezes a galera se empolga e saem inventando coisas, procurando pistas e pensando em estratégias para resolver problemas. Às vezes preciso dar uma mãozinha, fazer coisas externas acontecerem que dão possibilidade de desenrolarem as coisas (como quando um caminhão surgiu para descarregar cerveja em um bar e eles explodiram o infeliz pra conseguir matar um agiota — nem sei se isso é possível, mas dane-se). Às vezes o ritmo cai e tenho que chutar o balde e mudar a situação pra eles animarem, mas tem sido divertido e a aventura está andando.

Eles são um grupo formado um Mercenário, um ladrão maneta (o mão-invisível), uma prostituta cowgirl, um androide com crise de identidade e um alienígena. A pedido de um senador de Atacama City, eles estão com a missão de matar o imperador do Japão, que está atrapalhando os negócios internacionais da cidade-estado e, nesse exato momento, eles estão criando confusão na Austrália Vermelha, um país governado por um tirano maluco.

Acho que um pecado meu foi dar de cara um objetivo gigante (viajar pra outro país e matar o líder supremo). Imagino que essa sensação de que a coisa não acaba nunca pode ser meio chata pra eles, por isso tenho montado a jornada em cima de pequenas cenas com pequenos problemas a serem solucionados. Quando chegar ao fim da coisa, quero uma resposta deles sobre o que acharam, se gostaram e se querem jogar mais. Se der certo, quero tentar colocar a próxima aventura em um mundo medieval fantástico, recheado de clichês e loucuras. Mas isso é algo que só saberemos na frente. Não sei se teremos uma nova aventura. Não sei nem se essa vai chegar ao fim. Mesmo que eles resolvam não jogar mais, ainda assim, terá valido muito a pena. Enquanto isso, vamos nos divertindo e criando uma aventura maluca.

No fim, o foco não é criar uma aventura épica enquanto se usa um sistema de regras impecável. É só contar uma história junto de amigos e dar risada, o que no fundo, é o objetivo de toda partida de RPG, saibam eles o que significa isso ou não.

Sobre Ásbel

Tudo que ele queria era chegar em casa antes da chuva. Sua mãe sempre o alertou sobre atalhos duvidosos e ele achou que uma única vez não faria diferença. Mas fez e ele parou em um lugar completamente diferente do esperado.
Hoje ele trabalha com publicidade, sonha com mundos que nunca ganharão vida e espera a chuva passar para, finalmente, voltar para casa.