Série – O Enigma das Arcas – Ato XXVIII

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A Invasão da Academia Arcana

- Enemaeon vai ser… pai?

As palavras do bêbado Felrond chegaram acompanhadas de uma gargalhada de escárnio que inundava o salão abarrotado de quinquilharias de Emengarda, a vidente. Uma das poucas, se não única humana que atuava em plena favela goblinóide. Tratava-se de uma ruína de mulher cinquentenária, de cintura tão larga quanto dois homens, suja, com um olho vazado substituído por um globo de vidro azul. Caminhava cambaleante, surgindo por detrás de uma cortina de contas e sementes que ainda chiava se movendo de um lado para o outro. Foi tal bruxa que trouxe a notícia de um descendente vindouro, fruto de uma noite inconsequente de luxúria do mago há poucas semanas.

- É uma isca e tanto, admito – falou Emengarda caminhando em torno da succubus com a mão apoiada sob o queixo, e seu olho único passava dela para o mago que observava fixamente a demônio – Em geral, é enviada até Arton para seduzir paladinos ou clérigos celibatários. Grandes heróis já caíram em desgraça perdendo-se entre as coxas de uma succubus. Estranho tal presente ser enviado até um necromante meio-morto como você, Furta-Corpos.

- E pensar que até cinco minutos atrás tudo isso era um gato! – caçoou Felrond observando detalhadamente cada palmo, cada curva do corpo escultural – O que, aliás, me leva a pergunta fatídica… Enemaeon, meu amigo… Onde estava com a cabeça quando sodomizou um felino?

- Faça um favor a todos e continue calado, Felrond – ralhou Enemaeon. Não tinha dúvidas de que de fato havia dormido com ela. Ela estava diferente na ocasião, é claro. A pele antes alva agora apresentava um tom rubro, ainda sensual, ainda irresistível. Mas os cabelos longos e escuros tinham o mesmo cheiro de flores e de sexo – A prostituta de Ridembarr. Achei que houvesse sido uma brincadeira de Grigori, ou de algum serviçal dedicado que conhece minhas preferências. Porém, aparentemente mesmo presa na forma em que estava, não pode resistir ao seus ímpetos.

A demônio sorriu com lábios perfeitos. Em um gesto calculado, estudado por séculos por uma criatura que nascera e fora criada para seduzir, desceu sua mão delgada pelo corpo nu, as correntes em seu pulso tilintando levemente conforme aproximava os dedos da vagina. Com eles, abriu levemente o sexo úmido e sussurou para o mago:

- Miau

- E a corte dá por encerrada a seção! – gritou Felrond com um soco surdo na própria perna – Por que por todos os infernos os deuses não fizeram Thwor Ironfist assim?

- Por que provavelmente um elfo não saberia apreciar algo tão perfeito e pleno quanto ela, seu bêbado imprestável – resmungou Mathias prostrado e inválido em seu canto – É uma succubus. A simples visão de uma destas faz o inferno valer a pena.

- Palavras estranhas pra alguém sem olhos, meio-homem – cuspiu Felrond.

- Ele não pode mais enxergar o nosso mundo, mas ainda é capaz de vê-la, assim como qualquer outra coisa relativa ao reino dos mortos – disse Enemaeon que aproximou-se do ponto onde a gata o observava de volta, imóvel, tocando o clitoris em movimentos delicados e arfando pequenos gemidos de prazer. O mago afastou uma madeixa dos cabelos dela revelando o seio farto – É uma mulher-demônio de Sszzass, saída direto de seu plano infernal onde Merodach aguarda por minha morte.

- Fui doce, com você, não fui? – sussurrou ela – Você também não foi nada mal. Eu estava tão carente, tão faminta. Presa no corpo de um animal, sendo maltratada por meu garanhão dia após dia, abandonada…sozinha. Foi tão bom sentir você em mim, foi único. Não vejo a hora de ter mais!

As mãos do mago desceram pelo corpo delgado dela e pousaram sobre o ventre rubro. Podia sentir a vida pulsar ali. Com uma reprimenda a si próprio, exclamou com pesar:

- Criança desgraçada! Nunca quis ser pai, fui um fardo para o meu por tantos anos que evitei que o mesmo ocorresse durante toda a minha vida. E agora, quando a semente vinga, tenho isto. Um infeliz filho de um bastardo e uma succubus. Emengarda… você conhece em parte o futuro. Tenho o direito de matá-los? Não é o melhor a fazer?

A bruxa soltou um arquejo, e com um sorriso debochado no rosto sentenciou:

- Nada do que fizer irá apagar seu erro, Furta-Corpos. Se a matar hoje, seu futuro andará ao lado. Ela não passa de maldade, mas apesar de tudo, a criança é parcialmente inocente. Ele é seu fardo.

- Outro… – ponderou o arcano apoiando-se em seu cajado. Afastou-se então da gata e avançou através da sala, passando por Emengarda e dirigindo-se ao ponto onde a mesma havia surgido. Como bem sabia, atrás das cortinas imundas só havia uma parede escura de terra e pedras, pouco abaixo do banheiro que gotejava lá fora. Uma olhadela em direção a anfitriã entumecida foi suficiente, e com um suspiro profundo, proferiu:

- Podemos fazer isso do modo difícil, se preferir.

- Não há necessidade – respondeu a mulher dando de ombros – Você não irá muito longe uma vez que colocar seus pés na Academia. Será morto rapidamente e todo este episódio esquecido.

- Isto é uma previsão ou pretende me amedrontar, velha? – comentou o mago tocando a fuligem escura com a ponta dos dedos – De uma forma ou de outra, guarde a verdade para si. Apostei a vida de um amigo contra todo o ouro que encontrar de que seria bem sucedido em minha viagem. E não desejo saber o resultado de antemão. Isso torna a aposta mais interessante.

- Mas não me deixa nem um pouco ansioso pelo que virá – resmungou Felrond levantando-se do lugar em que estava e por muito pouco não caindo ao chão. O efeito do álcool começava a espalhar-se por seu corpo turvando-lhe os pensamentos e tornando os movimentos difíceis. Enemaeon o observou de soslaio, agarrou uma garrafa na estante e a arremessou para o companheiro que a apanhou em pleno ar. Ainda não estava bêbado ao ponto de permitir que uma boa bebida se perdesse.

- Você fica, Felrond – sentenciou o mago – Preciso que alguém permaneça de olho na velha vidente. Duvido que algum goblinóide venha a entrar aqui com Vingança à porta. Entretanto, ela precisa ser vigiada. E além disso – comentou apontando com o cajado para a mulher-demônio – Isso também precisa de atenção. Será capaz de vigiar as duas ao mesmo tempo?

- Não pode enfrentar a Academia Arcana inteira sozinho – protestou o elfo.

- Não, sozinho não. Por isso Mathias irá comigo.

Tanto Felrond quanto o demonologista aleijado estavam prestes a protestar quando o mago virou-se na direção de Mathias e pisou-lhe violentamente sobre os dedos da mão. A ruína de homem gritou de dor mas Enemaeon não afrouxou um único milimetro. Com a ponta do cajado, o mago tocou a carcaça moribunda do hobgoblin decapitado. Esta passou a tremer com violentos espasmos irregulares até que por fim de um processo que durou alguns poucos instantes, levantou-se. O elfo observou a horrenda cena impassível, voltando seus olhos da garrafa e para o hobgoblim uma vez mais até dar de ombros. Monstros mortos e sem cabeça poderiam levantar, afinal de contas. Nada que magia ou bebida suficiente não explicassem.

Trôpega, a carcaça morta-viva cambaleou para frente e para trás, sem encontrar equilíbrio, tateando o chão com seus braços longos e peludos até encontrar a própria cabeça. Só após encaixa-la no lugar onde ela deveria estar é que pareceu conseguir melhorar sua coordenação, permanecendo relativamente imóvel. O sangue do corte ainda escorria, junto com os fluidos liberados com o relaxamento definitivo do corpo após a morte .

- Faça-me um favor, Felrond – falou Enemaeon levantando o pé enfim. Mathias, gemendo, levou os dedos encarquilhados à boca, tentando aliviar a dor latejante. Tinha perdido duas unhas. O mago prosseguiu com suas explicações – Preciso de um corte limpo no ventre do bicho, da esquerda para a direita. Haverá pouco sangue, garanto. Mas as tripas podem atrapalhar, se puder…

- Não na minha sala! – gritou Emengarda apontando para o lado de fora. Enemaeon ignorou-a, prosseguindo com as explicações. Ainda sentia-se fraco depois do ataque que sofreu e do gasto demasiado de magia arcana – Se puder remover os intestinos, eu agradeceria. Preciso de espaço.

O elfo bebeu um último trago antes de girar o corpo e num corte perfeito realizar a tarefa pedida. Não foi necessário muito esforço. Logo o conteúdo funesto da criatura derramou-se sujando os tapetes velhos de forma irremediável. Emengarda gritou de raiva, mas nada poderia fazer ainda além de amaldiçoar Furta-Corpos com um futuro terrível e breve. Muito breve. Mathias debateu-se furioso quando Felrond o ergueu e com certa dificuldade colocou sobre os ossos da bacia do hobgoblin. Tocando uma vez mais a pele esverdeada do monstro com seu cajado, Enemaeon fez com que os ossos das coselas se fechassem uns sobre os outros, prendendo o velho inimigo lá dentro.

- Mathias, considere o hobgoblin como um presente meu. Dentro de algumas semanas, se você sobreviver ao pequeno serviço que tenho para você hoje, toda a carne dele já terá apodrecido e caído. O esqueleto, porém, continuará funcional. Se você parar de debater-se e me amaldiçoar no idioma infernal por dois segundos, irá notar que ele responde aos seus comandos mais básicos com apenas um pensamento. Também irá notar que o seu poder mágico foi anulado. Ele está sendo drenado para manter o monstro funcional. Uma precaução menor: utilizei sua própria energia mística para realizar o encanto e lacrá-lo ali dentro. O pisão, confesso, foi gratuito. Considere um acerto de contas final. Emengarda… a senha do portal. Agora.

- Vectorius Fede – falou a entumecida mulher à contra-gosto. No fim da sala, a terra pouco a pouco começou a escorrer para dentro até que uma luz azul esverdada começou a dançar, girando em direção ao nada. Emengarda estava furiosa, mas não podia confrontar Furta-Corpos num combate entre magos, mesmo estando ele muito mais frágil do que há vários anos. Ele conhecia a necromancia, uma das mais perigosas e letais escolas de magia. Ela era uma maga de combate medíocre. Sua especialidade sempre foram as previsões astrológicas, o estudo das profecias e a futurologia. Não por menos era aluna favorita de…

- Madame Blavatzky! – falou a velha sem querer – O que você quer com Blavatzky, Furta-Corpos? Acha que ela é capaz de ver além do que eu própria fui capaz?

- Sem dúvida alguma, ela é a única que pode me ajudar agora, Emengarda – disse Enemaeon dirigindo-se ao portal. Instintivamente, o zumbi hobgolin o seguiu, apesar de Mathias tentar evitá-lo a todo custo. O mago notou a tentativa e divertiu-se – Como disse, você estará livre depois de me ajudar em minha demanda. Considere uma promessa. Não pretendo fugir às minhas responsabilidades. Nunca mais. E Felrond, repito: ninguém sai. Caso eu não regressar até o nascer do sol, mate a succubus e fuja.

O elfo acenou uma única vez, bebendo um longo gole em seguida. E sem dizer mais nada, o mago caminhou em direção ao portal, desaparecendo através dele sendo seguido de perto pelo seu servo desmorto.

Continua… (pra sempre pelo visto! XD)
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Sobre Armageddon

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.