Liga Narrativa – Maio

Todos os meses, em algum dia incerto, alguns dos mais valentes blogs de RPG deste país trazem até você, leitor (sim, eu sei que a maioria dos leitores já fazem […]

Todos os meses, em algum dia incerto, alguns dos mais valentes blogs de RPG deste país trazem até você, leitor (sim, eu sei que a maioria dos leitores já fazem parte da Liga, mas vamos fazer de conta que não) contos relacionados a um tema escolhido por nós de maneira mesquinha e egoísta. No mês de maio, famoso por ser não apenas o mês das noivas e também o mês das mães, o tema não podia ser outro além de…

Heróis? Bem, procurem entender, pra casar e ser mãe hoje em dia tem que ser heróico mesmo… oks, admito, a gente não planejeou isso. Satisfeitos agora? Fiquem então com a minha singela contribuição de Maio.

Heróico Brado

Por Marlon “Armageddon

Por entre os prédios altos da Avenida Ipiranga, Pedro Malasartes, de pé descalço, pitava um caximbo de crack à socapa, tragando a fumaça e sorrindo aproveitando-se do barato que não tardaria a findar. Insatisfeito com a vida e com o frio que sentia nos bolsos, resolveu que precisaria, tal qual era seu costume, aproveitar-se  da ingenuidade de um desafortunado para ganhar algum. Jogou o que tinha em um saco de estopa da Cooperativa Verdes Montes e partiu altaneiro, ainda que os olhos estivessem amarelados e as pupilas dilatadas.

Não tardou a encontrar um alvo. Sujeito com cara de alegre apesar de desgraçado, aparentemente vivia do sub-emprego de vendedor de água no semáforo. Tempos difíceis para todos. De qualquer forma, tinha mais dinheiro do que ele, então não teve dúvidas. Encheu os pulmões de ar, tossiu por algum tempo até recuperar o fôlego, tornou a encher os pulmões, agora com mais cuidado e gritou, bradando aos quatro ventos:

– Mano! Saca só! Saiu o Bolsa-Miséria!

– Bolsa-Miséria? – questionou o calejado comerciante, sentindo as pulgas coçarem por detrás dos ouvidos diante de tão bela demonstração de domínio do idioma pátrio.

– Pra você ver, truta – começou a explicar Pedro Malasartes, gingando o corpo e dedilhando  tal qual disk jockey uma mesa de som imaginária – Os mano da quebrada do governo loquearam na parada e liberaram a verba. Agora é nóis na fita!

– E como é que funciona? – tornou a perguntar o comerciante – Pois, inegavelmente, sou pobre, vivo na miséria. Preciso de algo assim.

– Só chegar no banco e pagar uma taxa, véio. Mas se você descolar uma grana pra mim, eu mesmo faço o serviço pra você. Tamos aí, peixe. Larga a grana, cinquenta conto e a assinatura que a gente faz a treta de boa, na camaradagem.

E assim foi feito. Pedro partiu alegre com uma onça que seria transformada em mais fumo no bolso da calça rasgada e com um papel inútil onde podia ler – ainda que com dificuldade por ter abandonado o colégio – o nome Brasilino Fiel de Jesus.

Pobre Brasilino! Ingênuo vendedor de rua autônomo desde que perdera o emprego na última grande crise , confiando na criação de tal subsídio governamental, acabou enganado pelo sabichão Malasartes. Perdeu cinquenta reais, a dignidade e o respeito próprio por ter caído na conversa mole de um safado como aquele. Mas jurou a si mesmo que não ficaria assim. Se um dia tivesse a oportunidade, iria mostrar ao estelionatário a dor de perder alguns dentes! Ou, quiçá, sonhava proporcionar a ele um sangramento farto proveniente de fratura do nariz causada pelo peso de seus punhos. Reviveu a cena em seus pensamento dia após dia, enquanto labutava no semáforo para recuperar a cédula perdida.

Qual sua surpresa, quando, certo dia, reencontrou o menino acabado em um canto, tremendo de frio devido ao consumo de entorpecentes. Aproximou-se com passos decididos, estalando os ossos dos dedos, sacola e isopor à tiracolo. Estacou perante seu inimigo jurado, que não estava mais próximo da vida do que as pedras que lhe serviam de travesseiro. Brasilino, irritado consigo próprio, recolheu o menino de não mais de quinze anos tão leve que era só pele e osso e o carregou assim até o Pronto Socorro mais próximo.

Após confirmar que ele se salvaria, apesar de tudo, escorregou outra nota de vinte para o enfermeiro, pedindo o obséquio de pagar um lanche para o menino desnutrido quando desse alta do hospital, junto a um convite escrito para procurá-lo no lugar de sempre. Os vinte reais mais bem investidos de sua vida, pensou Brasilino; feliz voltando ao seu posto em passo apressado, pois o sinal acabara de fechar.

E Pedro Malasartes? Despertou, é claro, mais dia, menos dia. Comeu seu lanche, e estava prestes a sair quando o enfermeiro lembrou-lhe do pequeno bilhete deixado pelo homem que salvou sua vida. Ali, no papel tosco e sujo de pó, havia sido rabiscado em letra torta os dizeres “Bolsa-Futuro”.

Pedro sorriu. Ele, sem dúvida, precisaria daquilo.

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Sobre Marlon Teske

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.