Série – O Enigma das Arcas – Ato VI

Tweet Uma Mão lava a Outra Era difícil localizar a zona de meretrício em Paltar, pois todo o priorado lembrava de longe uma imensa latrina. Suja, cheirando a peixe e...

Uma Mão lava a Outra

Era difícil localizar a zona de meretrício em Paltar, pois todo o priorado lembrava de longe uma imensa latrina. Suja, cheirando a peixe e suor, equilibrava-se mal sobre as palafitas que lhe davam sustentação, e o mais leve caminhar através das vielas escuras deixava no ar os sons característicos da madeira surrada. Havia bêbados nas ruas, pescadores, prostitutas e mendigos. Crianças brincavam perseguindo ratazanas, e as gaivotas grasnavam alegres a cada nova embarcação que voltava do mar ou do rio.

Garlor conhecia bem a miséria, e por isso não conseguia ficar indiferente a tudo aquilo. O asco natural pelo cheiro que sentia apenas disfarçava a dor das lembranças de uma infância perdida em mendicância e pequenos furtos. Foi Hynnin que o tornou ladrão, e o alimentou quando ninguém mais o quis. Já o seu companheiro, o mago rico de Ridembar passava através das vielas sem sequer notar a balburdia. Estava preocupado há algum tempo. Uma sensação diferente, maligna.

Rupert, o menino guia, cortou caminho sob algumas redes de pesca que secavam ao sol e parou diante de um prédio caiado de branco. A porta, marcada de vermelho, deixava claro que o lugar não era exatamente uma residência de família. No segundo andar, uma mulher gorda de aparência azeda sorriu ao ver o garoto, mas arreganhou-se realmente diante da visão dos seus acompanhantes.

- Vejo que trouxe dois clientes ávidos por carinho, Rupert. Se eles tiverem as carteiras tão cheias quanto os últimos, poderá passar aqui mais tarde também.

- Tem coragem de cortejar um menino, senhora? – brincou Garlor que sabia bem que a coragem teria de ser toda do garoto em encarar um traste daqueles.

- Rupert tem quatorze anos, apesar de não aparentar. Não cresce por não comer o suficiente – respondeu ainda da janela retocando a maquiagem que escorria com o suor- Já se aliviava por aqui desde os onze.

- Eles não estão atrás de conversa Dindjer – cortou Rupert encabulado pelos rumos da conversa – São amigos do elfo.

- Felrond está aqui? – surpreendeu-se Enemaeon. Garlor, ao contrário, já esperava algo do tipo e não disse nada.

- Não saiu daqui nem para dormir – gargalhou Dindjer de seu pedestal imundo – Acorda, bebe, vomita e dorme com as garotas. Um verdadeiro porco, mas tem dinheiro.

Enemaeon já não mais ouvia os detalhes sobre Felrond. Deixou Garlor para trás e adentrou o prostíbulo com a ira brilhando em seus olhos. Desfazendo-se dos braços pedintes das meninas que lá trabalhavam, caminhou até a poltrona suja próxima ao bar. Ali, deitado em meio aos trapos com duas garotas, uma tamuraniana e outra de pele escura, talvez de Khubar, Felrond roncava.

O mago, usando de uma força que não sabia possuir, arrancou-lhe de seus sonhos sujos com um safanão. Erguendo-o pelo colarinho manchado de cerveja, sacudiu-o com vigor. Mesmo assim, tamanha era a sua embriaguez, levou alguns segundos para se dar conta do que estava acontecendo.

- O medalhão Felrond – perguntou Enemaeon prestes a socar a face do amigo. O elfo, contudo, não respondeu, colocando-se a rir com vontade. Enfiou a mão dentro das calças e de lá retirou uma peça dourada presa por um cordão de couro. Deixou-o balançando diante do olhar estupefato do mago que, perdendo o equilíbrio devido ao estômago que dava voltas, caiu em uma poltrona próxima.

- Preocupado com isso? – perguntou Felrond triunfante.

- Não – respondeu o mago levando ambas as mãos ao rosto – Estou preocupado com o paradeiro do medalhão que eu lhe pedi.

(…)

“Merodach, pai do mal
Sejas para sempre temido
Entre as sete arcas da morte
Guardadas no túmulo de Al-Kapeera”

Apenas nomes sem sentido. Foi tudo o que Villvert de Gallien conseguiu do Heladarion. Quem era Merodach ou o que eram as tais arcas, disto o artefato nada sabia. Apenas Al-Kapeera era conhecido. Um velho paladino de Marah, a deusa fraca e covarde. Uma perda total de tempo. Amaldiçoou a tola lenda sobre o sumo-sacerdote da deusa da sabedoria saber de tudo e acomodou-se sobre o seu cavalo de viagem.

Ao lado dele, Cedric, responsável pela guarda e pelo séqüito residente na Caverna do Saber desculpava-se. Ato este que não interessava em absoluto a Villvert. Levaria dois dias para regressar até a capital de Yuden e apresentar o vergonhoso relatório sobre sua busca. Não descobrira nada que pudesse indicar o responsável pela destruição da vila além de uma canção tola.

- Amaldiçôo o dia em que resolvi seguir o cortejo até aqui – praguejou o guerreiro de Keenn. Cedric apenas sorriu com a franqueza sem modos do homem que, apesar de seguir a mesma carreira, orava a um deus da violência e da guerra. Condizia com o perfil, sem dúvida.

- Se o Helladarion não pode lhe auxiliar, senhor Villvert de Gallien, dois devem ser os motivos. Ou nunca se soube mesmo sobre Merodach, ou algo grave em torno deste ainda irá ocorrer.

- O que quer dizer com isso? – inquiriu o clérigo, segurando com força as rédeas do cavalo que protestava ante o peso da armadura que cobria Villvert. A resposta de Cedric veio com um pergaminho lacrado com um selo rubro. Era a marca da fênix, a misteriosa igreja de Thyatis, o deus da ressurreição e do futuro.

- Não compreendo.

- Um homem nos entregou esta carta. Disse que deveríamos guardá-la até que um homem da guerra viesse atrás de respostas, mas só encontrasse mais perguntas. Creio se tratar de você. Villvert segurou o pergaminho desajeitado, e após observá-lo por alguns instantes, confessou o motivo de seu silêncio a Cedric.

- Eu não sei ler. Nunca me pareceu necessário.

- Bem, e creio que não devo ser eu a pessoa mais indicada para lhe contar o que está escrito neste pergaminho, senhor Villvert. Pois como bem sabe…

- Você contaria tudo ao primeiro que perguntasse – suspirou o guerreiro esporeando o cavalo e afastando-se a galope da Caverna do Saber.

(…)

Era a quarta vez que a cabeça de Felrond imergia de dentro da tina d’água. O elfo aspirou o ar com pressa, aproveitando o máximo que pode antes das mãos firmes de Garlor novamente o enfiarem lá. Mesmo se debatendo, buscando escapar dos braços do companheiro, estava alcoolizado e fraco demais para conseguir. Em um canto próximo do quarto, sentado sobre o catre, Enemaeon observava com o rosto apoiado nas mãos, fumando distraído um cachimbo de madeira escura. Aos seus pés, o gato se protegia como podia dos respingos. Já havia conhecido água demais por um dia.

- Eu deveria mesmo matar você. – bravejou Garlor trazendo o rosto de Felrond para o ar viciado do quarto, erguendo-o pelos cabelos.

- Eu não… tinha como saber! – reclamou o arqueiro já com os olhos vermelhos pela falta de ar.

- Antes de partir eu fui bem claro quanto ao formato do medalhão, Felrond – era Enemaeon – Lhe mostrei o pergaminho com o desenho dele, e lhe disse que era feito de três partes. Uma delas adquiri junto com o próprio pergaminho, a segunda está em Dahar, e a terceira…

- Com Moranler… eu sei. Foi um erro. Mas você não sabe como foi difícil. Acha que qualquer marujo pode entrar no quarto do capitão assim?

- Moranler? – interveio Garlor largando o elfo ensopado e exausto com um vigoroso empurrão que o colocou enfim ao solo. A água havia diminuído a sensação de embriagues, mas não era suficiente para afastar a dor de cabeça resultante de três dias de festa.

- Deve conhecê-lo Garlor – afirmou Enemaeon tragando uma quantidade especial de fumaça, que soltou ao ar antes de continuar sua narrativa – Moranler Silverdal, Capitão do Tortura.

- Claro que o conheço, mas como foi que…

- Ele precisou de mais homens após sofrer algumas baixas em combate. Sabe que a marinha de Tapista está à caça dele. Estava em Kriegerr na época, e consegui uma vaga para o nosso velho amigo aqui.

- Foram seis péssimos meses na verdade – defendeu-se Felrond – E o pagamento não foi tão bom assim.

- Você gastou o que restava dele com três noitadas de bebida e prostitutas – lembrou o mago – E, se bem me lembro, o trato era o de me trazer o medalhão, o que você não fez. Por isso, está claro que você me deve.

- Eu não tenho como lhe devolver o dinheiro agora. Mas vou pagar.

- Sim, vai pagar – sorriu Enemaeon – Inclusive, sei bem como o fará.

Continua…

Encontre o restante da Série clicando aqui.

Artigos relacionados:

  1. Série – O Enigma das Arcas – Ato V
  2. Série – O Enigma das Arcas – Ato IV
  3. Série – O Enigma das Arcas – Ato II
  4. Série – O Enigma das Arcas – Ato III
  5. Série – O Enigma das Arcas – Ato I

Sobre Armageddon

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.