Série – O Enigma das Arcas – Ato I

Em meados de 2006, um grupo de amigos me convidou para participar de um PBEM (o famoso jogo de RPG por e-mail) ambientado no mundo de Tormenta. Como este foi […]

Em meados de 2006, um grupo de amigos me convidou para participar de um PBEM (o famoso jogo de RPG por e-mail) ambientado no mundo de Tormenta. Como este foi o primeiro cenário não-caseiro em que eu joguei, achei que seria uma boa oportunidade para desenferrujar o que lembrava ou deixava de lembrar sobre o mundo de Arton.

Pensei num personagem, e como de costume, enquanto o mestre organizava as coisas aprovando as fichas e históricos, resolvi escrever um conto introdutório sobre ele para ir publicando aos poucos para o grupo. Nada muito complicado, três ou quatro capítulos, dez páginas no máximo. Doce ilusão. Eu já devia saber que quando começo a contar uma história, eu nunca sei quando parar.

O PBEM acabou não acontecendo, e eu continuei digitando o conto “pré-campanha”. Um, dois anos passaram, e eu não estava enjoado dele e prossegui assim até chegar a quantidade absurda de texto que hoje tenho, ainda distante do final que imaginei logo para as primeiras páginas. Comecei uma história que se alimenta sozinha, com personagens sacanas com os quais acabei criando um tipo de laço invisível. Estranho, eu sei, não me olhem desta maneira.

Então, após três (quase quatro) anos, achei por bem terminar isso de uma vez, publicando aos poucos aqui no .20 o que já descrevi das desventuras de um mago amaldiçoado que precisa descobrir qual é enfim o Enigma das Arcas. O conto tem lá seus erros – tanto de cronologia quanto de gramática – pois resolvi que iria prosseguir de qualquer maneira até o desfecho, para então revisar tudo desde o princípio. Mas agradeço imensamente  a qualquer um que por ventura venha a me apontar esse tipo de coisa. Se catar um erro aqui ou ali, não se acanhem em dizer “mas tu é burro hein? Seiscentos não escreve com dois “S” . Quem sabe até o fim teremos algo organizado para jogar num PDF ou coisa parecida?

Marlon “Armageddon

A Estalagem

Em alguns momentos durante a noite, as sombras em torno de Enemaeon de Ridembar se tornavam mais espessas, sufocando-o em lampejos fúnebres de seu próprio destino. Via-se enclausurado em um sarcófago de pedra carmesim que pulsava malignamente, como olhos velando seu sono. Não se movia, sequer respirava, mas estava vivo de alguma forma. Profundamente mergulhado em sono eterno, apodrecendo com as mãos crispadas ante o peito. A carne se transformava em ossos, e os ossos em pó. Só então, após decompor-se completamente é que a dor lhe atingia.

Sua própria alma passava a ser sugada pela pedra, escorrendo e deformando-se em um misto de agonia e solidão tão intensas que o traziam de volta à realidade, banhado em suor e sentado de ímpeto em sua cama. Esta seqüência empírica lhe assaltava quase todas noites, e não fora diferente naquela.

Nos seus pés, o gato negro desperto pelo sobressalto se espreguiçava de forma lenta, e depois se sentava majestosamente, observando-o. Lembrava uma velha esfinge – foi o pensamento que o assaltou. Odiava aquele bicho e a forma como ele aparentemente lhe vigiava, mas não gostava de pensar muito nisso. Desde que ele surgiu há quatro dias, tentou livrar-se dele várias vezes – mas nunca de forma definitiva.

Mesmo assim o gato era o menor de seus problemas, mas não o último. Havia quase dois meses desde que encontrara com Merodach pela primeira e última vez, e a breve lembrança já o fizeram instintivamente levar a mão ao peito. Seu coração não batia. Continuava vivo, com todas as implicações que esta condição apresentava. Necessitava comer, dormir e efetuar as demais atividades que o classificavam como um homem comum. Entretanto, não havia mais nada comum em sua vida.

O ritual que trouxe Merodach dos planos inferiores fora realizado de forma metódica e sem falhas. Perfeito, em todos os aspectos, e Enemaeon sabia disso. Ser perfeccionista era apenas uma das muitas características da qual se orgulhava e apesar de não ser um exibicionista, sentia um prazer mórbido quando estava certo. E o ritual era o certo sem dúvidas. Os procedimentos foram impecáveis. O problema todo não estava no ritual em si. A fatalidade que o acometera foi porque atraíra o demônio errado. Um muito mais forte e poderoso do que pretendia inicialmente.

Fatalidades. Tornaram-se extremamente comuns desde então.

O demônio escarneceu das proteções erguidas previamente, agarrou o mago pelo pescoço e arrancou seu coração. No lugar deixou uma pequena lembrança da inesperada visita. Uma pedra infernal chamada Chama do Abismo que se alimentava da maldade. E agora, alguém que apenas vivia em benefício próprio deveria aprender a ser magnânimo com a até então inócua e insignificante presença de outros seres vivos naquele mundo. Apenas se realizasse um ato de estrema bondade seria absolvido, e a pedra finalmente terminaria de bater.

Provavelmente seu corpo pereceria, mas a alma estaria salva, e por um lado aquilo já seria relativamente satisfatório. Poderia, ainda, tentar enganar o demônio e mata-lo quando a hora chegasse. Isso provavelmente também acabaria com a sua vida, mas seria um pouco mais humano deliciar-se com este tipo de certeza. Danaria eternamente no inferno, mas o responsável já não mais estaria vivo para escarnecer dele. Opções.

Ergueu-se já sem sono, ou pelo menos com a menor vontade de repetir as sensações que os seus sonhos evocavam – pelo menos por aquela noite – e passou a concentrar-se em alguns dos tomos que levava consigo. Organizou-os à luz da lua de forma aleatória sobre a mesa, e então acendeu o lampião. A luz fraca espalhou-se pelo cômodo simples da estalagem mostrando as paredes sujas salpicadas de cal e as sombras que se projetavam nas telhas de barro cozido passaram a dançar de acordo com as evoluções da chama.

Abriu o tomo maior que carregava e desenrolou um velho papiro conseguido dias antes em Vectora. As letras estavam quase apagadas, e toda uma parte se perdera em um estranho e inexplicável chamuscado que devorava toda a extremidade superior do papel. Estava traduzindo o tomo já há alguns dias, mas ainda não conseguira passar da segunda linha. O idioma abissal possuía poucos adeptos em Arton já que a grande maioria dos mortos não fala.

Quando revirou outro dos seus livros em busca da letra correspondente à figura de um tipo que se assemelhava a um crocodilo com chifres, o gato saltou sobre a mesa de maneira ágil mas não delicada, derrubando a tinta sobre seu grimório. Teve ímpeto de esganar o animal ali mesmo, mas suspirando profundamente, apenas o enxotou do quarto, trancando a porta atrás de si. Rangeu os dentes de raiva e retornou ao trabalho. Os motivos de Merodach passavam a fazer sentido.

Um demônio nunca jogava para perder. Se a melhor maneira de pegar alguém era exigindo que ele fosse bom, porque não faze-lo? Enemaeon era um mago das trevas arrogante e que não media esforços para conquistar poder. Ele não era exatamente maligno, mas não se encaixava de forma alguma no estereótipo de uma pessoa boa. Ainda de encontro à porta, as mãos vacilaram em direção ao peito, e uma leve pontada se espalhou através de seu corpo numa breve torrente de dor.

Se seguisse seus próprios instintos morreria e seria escravo de Merodach para sempre. Um morto vivo privado de sua alma, destinado a sofrer e chorar para sempre os seus próprios erros do passado. Merecia aquele destino, talvez, mas não era um homem que se conformava facilmente. Buscou controlar sua respiração e retornou até o pergaminho sobre a mesa. Releu o que já conseguira até então e um sorriso lhe tomou o rosto.

“Merodach, pai do mal
Sejas para sempre temido
Entre as sete arcas da morte
Guardadas no túmulo de…”

O pergaminho era legítimo. E o levaria até um dos templos abandonados do demônio em Arton. Enemaeon virou-se em direção a janela do quarto e viu que o gato estava lá, encarando-o com aquele par de olhos amarelos enquanto lambia a própria pata. Agir de acordo com o que acreditava poderia ser considerado um ato de vilania aos olhos comuns. Mas naquele momento ele estava apenas querendo saber com o que estaria lidando. Aprender.

– Teremos uma longa viagem pelo visto, bichano – disse satisfeito, encontrando o significado para o crocodilo de chifres – Guardadas no túmulo de… Al-kapeera.

Os olhos ágeis de Enemaeon correram através das linhas do livro, lendo sobre Al-kapeera ainda em voz alta. Talvez por algum tipo de coincidência macabra, neste mesmo momento a luz da lua fora eclipsada pelas nuvens negras que avançavam. O trovejar de uma tempestade distante ressoava conforme as palavras brotavam de sua boca. O gato, assustado, saltou do beiral da janela e se escondeu sob a cama, deixando apenas o reflexo da luz do lampião em seus olhos manter viva a lembrança de sua presença.

– Al-Kapeera fora um guerreiro sagrado, servo dos deuses. Por muitos anos foi o responsável pelo templo que viria a se tornar seu túmulo, guardando as sete arcas que levam os Segredos de Marah, deusa da paz.

O livro foi fechado em um único rompante de excitação. Segredos de uma divindade ligada ao amor e a paz, protegendo o sono de um demônio era algo inusitado. Afastando os demais tomos de sua mesa, Enemaeon concentrou-se no pergaminho original. Reconhecera um detalhe imprescindível para sua demanda ali mesmo, diante de si. Um novo trovejar arrancou um miado assustado do gato que se ocultou completamente nas sombras. Àquela hora, os únicos olhos que brilhavam na noite eram os do mago. Em um canto quase deteriorado do pergaminho, a garatuja do autor deixava claro que estava na pista certa…

Al-Kapeera, Paladino dos deuses.
Deserto da Perdição.

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Sobre Marlon Teske

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.