A coisa mais difícil em ser Super-Herói

Ser um super-herói tem uma certa grandeza que sempre parecia inatingível para alguém como eu. Claro, eu sabia a diferença entre o certo e o errado – que é a parte mais fácil. A parte difícil é descobrir o seu talento especial. Algumas pessoas passam a vida inteira tentando descobrir isso e nunca experimentam a alegria de parar um único ato criminoso. Não existe um só asilo de idosos no quarteirão do meu escritório que não esteja cheia de sonhos de ser um super-herói. Sonhos como este deixam você ao mesmo tempo em que você deixar a sua vida e nem um momento mais cedo. Quando eu decidi ser um super-herói ou, pelo menos, começar a trilhar esse caminho, a percepção de que eu não tinha habilidades especiais ou quaisquer atributos físicos particularmente notáveis foi algo difícil de aceitar. Minha esposa me apoiou muito e me incentivou, dizendo que provavelmente algumas pessoas levam mais tempo para descobrir a sua identidade de super-heróis e que era para eu não me pressionar muito. Mas cada momento em que eu passava sem conhecer meu talento era uma vitória para o mal em toda parte.

Os grandes jogadores, Super-Homem, Aquaman, Mulher Maravilha, que são os sangue azuis neste negócio são realmente lamentáveis, porque eles não entendem como é difícil para o cara normal se tornar um herói. Eles já nasceram com suas habilidades únicas. Eles nunca tentaram se relacionar conosco ou compreender a nossa posição, enquanto nós buscamos a admiração deles. Claro, nós sabemos que eles são grandes, impedindo vilões de destruir o mundo uma ou duas vezes por semana. Mas eles não percebem o quanto nós contribuímos, combatendo os crimes menores, o que lhes permite focar de verdade nos caras maus. Para ser honesto, o Super-Homem é um babaca. Ele me enviou uma conta de um alfaiate uma vez, por ter rasgado a capa dele. Eu a emoldurei.

Já tentei algumas identidades. Eu apareci brevemente como O Hipnotizador, mas levava muito tempo para hipnotizar o criminoso e, geralmente, eles não se concentravam o suficiente no relógio, e também encontrar um relógio que imponha respeito não é nada barato. Além disso, eu levei quatro belas surras e sempre tive o relógio roubado. Minha tentativa seguinte foi como O Homem de Gude. Eu jogava um monte de bolas de gude nos meus inimigos. Infelizmente, nunca pude descobrir como acertá-los e eu continuava caindo e escorregando na rua. Outras encarnações menos bem sucedidos foram os Homem-Pneu, Johnny Lanterna, O Buzina e O Brilhoso. Nenhuma dessas era eu.

Alguns anos atrás, eu estava assistindo He-Man com o meu filho mais velho, Harry. Eu assistia Adam levantar sua espada para cima e todas as faíscas que a eletricidade produzia o transformavam de um príncipe simples, de voz fina, a um herói, musculoso e barítono. Levantei-me lentamente, sem falar, e depois saí da sala com o término do episódio. Esse episódio de He-Man estava falando comigo. Por anos, eu vinha procurando a minha identidade e agora eu sabia. Eu era Adam. Eu ia ser He-Man. Mais ou menos. Infelizmente, a coisa mais próxima de uma espada que eu tinha era um conjunto de tacos de golfe, e eu não conheço nenhuma bruxa. Eu nunca tinha ficado tão deprimido. Então, eu fui ao campo de golfe para dar umas tacadas. Esse é o meu lugar de pensar.

Era uma tarde escura e tempestuosa, mas eu não percebi, estava consumido demais com os meus pensamentos. Ninguém mais estava no campo. Estando sozinho e me sentindo completamente incapaz, mostrei meu taco número 3 na direção do céu e fechei os olhos, imaginando-me como Adam que recebe os poderes do Castelo de Grayskull. Foi tão real.

Eu acordei em um quarto branco com minha esposa e filhos ao meu redor, confuso e todo dolorido. O médico começou a me dizer que era um milagre que eu tivesse sobrevivido. Eu tinha sido atingido simultaneamente por três raios, de acordo com um funcionário do campo.

No fundo, eu sabia que o milagre foi não ter sobrevivido, mas ter renascido como um super-herói.

Postado por Relampejador at 8:43 PM

Original: My life as a superhero

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Sobre Alexandre

Estagiário do vice presidente júnior do RPGista, Alexandre começou a jogar RPG em 1991, só para poder usar miniaturas e jogar dados esquisitos. Ele é o jogador que faz os ninjas e rangers do grupo. Nunca magos (porque com eles não se brinca).