Diário de Campanha: Espionagem & Vampiros?

Ok, sei que diários de campanha não são exatamente uma tradição do .20, mas já que me decidi por voltar a falar mais de RPG e deixar o mimimi de lado, talvez falar das minhas partidas bizarras de sabádo à tarde ajude um pouco, certo? E também é uma boa idéia porque esta nova campanha conta com algumas regras novas que vão entrar no Beta 3 do Re.ação! que ficaram muuuito bacanas e é uma boa oportunidade de falar mais sobre elas.

Para começar, um leve briefing da coisa toda: campanha de Vampiro: A Máscara usando as regras do Re.ação! com personagens de 5º nível, humanos. Começamos com apenas dois jogadores, normalmente temos mais gente na mesa, mas por motivos diversos alguns não puderam comparecer (traduzindo: a Dona Encrenca, a.k.a. esposa, não deixou eles saírem de casa), e já fomos apresentando os personagens.

O Jairo resolveu jogar com uma médica que, depois de assassinar o marido que batia na filha, se torna lutadora de luta-livre (!) na prisão. E eu preferi ser um anão vermelho, como são chamados os ex-operativos da KGB que se tornaram freelancers da espionagem internacional depois da queda da URSS. Imaginei Sergei Romanov como uma versão russa do Solid Snake, com uma personalidade forte e apaixonado pela Rússia e pelo comunismo (mais clichê impossível, mas ei!, é só um jogo de final de semana!). E antes que me esqueça: obrigado, Senhor, por não ser o narrador com a responsabilidade de juntar dois personagens tão distintos em um grupo!

E as coisas legais do Re.ação! já começam a aparecer. É muito fácil criar um personagem. Queria um cara versátil: muitas perícias, forte em combate corporal e com potencial em armas de fogo. Comecei escolhendo as classes. Três níveis de Atacante e dois de Controlador eram uma boa pedida para o que eu queria. Me dariam boas perícias para começar e bons bônus e talentos para combate. Nas habilidades, usei meus doze pontos e coloquei logo meus valores mais altos em Destreza e Inteligência. Como não é preciso se preocupar em calcular dezenas de pontos e fazer malabarismos com atributos para pegar certos talentos, essa parte não me custou mais que alguns segundos.

Perícias? Como o Re.ação! usa o sistema do Star Wars Saga, ou algo inspirado nele, o que antes era um suplício agora se resumiu a escolher as perícias e determinar a qual classe elas pertenciam. O tempo para calcular o modificador final é irrisório. Você é treinado na perícia? Então tens um modificador igual a cinco mais nível na clase mais habilidade correspondente no teste.

Os talentos também foram show de bola. Não porque você tem que escolher menos deles, muito pelo contrário, meu personagem de 5º nível tinha onze talentos para escolher. Cinco pelo nível, um de humano, dois iniciais e três de classe. Pode parecer muito, mas já que as antigas caracteristícas de classe se tornaram talentos ? as classes agora só determinam o tipo de talento que você pode pegar, mantêm-se um certo equílibrio (interno, claro).

A grande sacada é a organização. Em vez de ter que procurar a arvóre de talentos para combate corporal entre as dezenas presentes no livro, tudo fica dentro do mesmo talento. Assim, ao pegar Artes Marciais, a descrição vem com um efeito básico e vários efeitos extras que podem ser comprados com outro talento, como Ataque Superior e Mestre ou mesmo o absurdo (e reservado para níveis épicos) Vorpal.

Provavelmente a parte que mais me tomou tempo foi a escolha do equipamento. E mesmo assim a ficha estava pronta em menos de quinze minutos (na verdade, uma hora mas, quarenta e cinco minutos foram perdidos discutindo Watchmen, os peitinhos da Espectral e se Max Payne é ou não um filme legal: eu acho que sim, o Adão não viu o filme e o Jairo diz que não é. Ou seja, é um filme legal).

Começamos o prelúdio do meu personagem em 1991, dois anos após a Queda do Muro de Berlim, em São Paulo. Há meses sem receber uma informação do seu contato na KGB, Sergei finalmente é contatado e recebe o itinerário de um político com a missão de evitar que ele seja assassinado. Este político irá declarar apoio à campanha pelo impeachmant de Collor naquele dia e por isso grupos que apoiam o presidente podem tentar elimina-lo antes da declaração pública.

Sem tempo para esperar apoio de um país em convulsão do outro lado do mundo, pergunto ao Adão o conteúdo do itinerário e descubro que este político vai passar a tarde em um bingo: má idéia. Seria fácil introduzir uma arma nesse ambiente e, depois de efetuar os disparos, se misturar na multidão em fuga e desaparecer. Sabendo que era preciso evitar que o infeliz fosse até lá, improvisei um explosivo caseiro, fui até o bingo e plantei a bomba perto de um vaso. Pouco antes do carro oficial chegar, a detonação ocorreu sem causar maiores danos além de uma planta morta, muito barulho e alguns arranhões em traunsentes.

De um prédio próximo, vi o carro se afastar. Se havia uma tentativa de assassinato esperando no bingo, ela havia sido frustada. Mas agora vinha a parte mais difícil: a declaração pública em um programa de TV. Eu não podia evitar que ela ocorresse. O político tinha que dar a declaração ou a missão simplesmente não teria sentido.

Fui para perto da estação de TV algumas horas antes da transmição e procurei por pontos de disparo onde um sniper poderia alvejar o alvo no caminho entre a limosine e a porta da estação com um teste de Prontidão. Não me preocupei tanto com disparos de curta distância. Eles se tornaram improváveis desde a explosão no bingo, que deve ter deixado a segurança em torno do homem mais rigída. Consigo um resultado razoável e encontro três bons lugares a até trezentos metros de onde um sniper poderia agir. Checo o primeiro, em um prédio abandonado, e percebo movimento no apartamento de onde o tiro poderia partir. Eles também me notam, mas não importa. Vou até um telefone público e ligo para a polícia denúnciando um esconderijo de traficantes no tal apartamento.

Dito e feito. Quinze minutos depois, a polícia chega, ocorre um tiroteio e um dos prováveis assassinos consegue fugir. Deixo que ele se vá porque preciso checar os outros pontos de disparo ainda. No segundo, encontro uma porta entreaberta e noto vestígios que denúnciam que um segundo sniper estava ali até pouco tempo, olho pela janela a tempo de ver o cidadão saindo do beco. Mas aí noto que me meti numa enrascada. A polícia aparece e decido fugir da mesma forma que o homem: pela janela e então pelo beco.

A treta é que não fui exatamente furtivo na pressa pra sair dali e o cara me percebeu. Ele me rende próximo dali e a me leva para dentro do estoque de uma loja deserta. Sem falar nada, ele começa a enroscar na pistola o silenciador, aproveito a deixa para iniciar uma manobra de Agarrar. Hora de elogiar de novo a simplicidade do sistema. Em D&D 3.5, Agarrar é praticamente um combate separado do outro, de tantas rolagens necessárias para resolver a situação. No Re.ação! só é necessário um teste. Você rola o seu bônus de Agarrar (BBA + Força + modificadores variados) contra a defesa do adversário (10 + BBA + Força + modificadores variados). Simples e direto. É apenas mais um ataque.

Coloquei o sujeito, provavelmente um finlandês, para dormir na rodada seguinte e a sessão terminou terminou por aí. Claro que entrecortando o meu prelúdio teve o prelúdio da personagem do Jairo, mas é melhor nem descrever a bizarria. Mas como na dele teve combate. Quero falar do sistema de dano que o Adão vai trazer no Beta 3 que eu achei realmente bacana.

É uma variante do sistema de vitalidade do M&M, mas sem perder a emoção da rolagem do dano. Funciona assim: pega a Fortitude do seu personagem, no caso do meu é 11, esse é número de pontos de dano que um atacante tem que lhe causar para marcar uma condição de dano, algo menor que isso fica sendo uma escoriação, um tiro de raspão, etc. Cada personagem tem um certo número de condições de dano de cada tipo. Enquanto você tiver a condição Leve, que são iguais a metade do seu nível, você pode agir livremente e não sofre nenhuma penalidade, enquanto que nas condições seguintes já há redutores e outras complicações.

É bastante equilibrado, e o melhor é que isso corta outra parte chata do sistema sem levar junto a parte legal. Porque contar pontos de vida sempre foi uma das minhas partes mais odiadas em D&D mas, causar dano, por outro lado, sempre foi minha parte favorita. 🙂

Ah, e onde estão os vampiros nesta história? Sei lá! O narrador é o Adão, ele que se vire pra explicar. Heheheh. 🙂

About Nume Finório

João Paulo Francisconi, entre outras enormes perdas de tempo, é blogueiro há dez anos, escreveu para a finada Dragon Slayer, publicou alguns livros de RPG e assistiu quatro episódios de Punho de Ferro.