Conto – Beijo de Tenebra

Magibol

Bueno, ano novo, tá na hora de tirar a poeira do Inominattus. E como estamos prestes a lançar um netbook adaptando o Magibol para o novo sitema Alpha do 3D&T, aproveito pra jogar pro alto alguns textos escritos pelo autor, Bruno BURP na mesma temática do esporte mágico futebolistico de Arton, o mundo do cenário Tormenta.

– Parece um beijo de Tenebra, esse guri! – comenta um velho necromante eufórico, perdido em meio à torcida que comemora. Um desinformado poderia achar que ele se referia à cor do jovem – não tão negro como um bárbaro da savana, mas ainda mais escuro que o normal para a região. A comparação, no entanto, foi muito mais sutil: assim como a aranha encontrada nos caminhos subterrâneos para Doherimm, que, com seu tamanho diminuto, se aproxima despercebida para dar sua picada mortal, também aquele jovem e pequeno atacante se movimentava pela defesa adversária como se ninguém o visse.

Indiferente à animação da torcida, Marcel rapidamente desfaz seu sorriso, pega a bola no fundo da rede e corre para o centro do campo para que a partida recomece. Seus companheiros vêm cumprimentá-lo, mas ele permanece sério.

– Ainda falta um. – diz, em tom quase profético. É a primeira vez que joga como um profissional, e a cada drible, a cada passe, ainda lhe passam pela cabeça imagens de poucos anos antes, quando arriscava seus primeiros toques na bola. Morava naquela época com seu pai, um necromante com um pequeno laboratório nas redondezas de Fauchard, no reino de Petrynia. Não era exatamente uma pessoa má, mas, sabendo dos preconceitos que sofreria por suas atividades, preferia mantê-las em segredo.

– Um dia nos mudamos para Wynlla, bem longe desse povo estagnado e preconceituoso. Então poderemos viver em paz! – dizia freqüentemente para o filho. Para não atrair suspeitas, viviam em uma gruta distante da população, e visitavam a cidade uma vez por semana apenas para compra de mantimentos. Foi em uma dessas visitas que Marcel conheceu o magibol.

Seu pai tinha negócios a tratar com alguns comerciantes, e deixou-o livre para se distrair na cidade enquanto isso, desde que o encontrasse no local combinado ao fim do dia. Talvez fosse estranho um pai simplesmente largar o filho em uma cidade grande como era Fauchard, mas Marcel sabia se cuidar bem – estava aprendendo magia, e, mesmo que não fosse muito experiente, conhecia feitiços suficientes para se defender se fosse necessário.

A hora chegou e Marcel não apareceu. Preocupado e quase em pânico, o pai saiu em sua procura. Encontrou-o finalmente em um pequeno campo nas redondezas, jogando bola com um grupo de sprites e alguns outros aprendizes de magia. Reprimiu-o e foram embora, mas já era tarde – o garoto havia se apaixonado pelo esporte.

Em casa, fez uma bola com algumas roupas velhas, e praticou sempre que pôde. Na semana seguinte lá estava ele com seus amigos, jogando novamente, e na outra semana também, e na outra. Seu pai não se incomodou muito com a nova brincadeira no início, acreditando que logo ele se cansaria e voltaria a se interessar pela prática da magia “de verdade”.

Mas estava demorando para acontecer. No ano seguinte, Marcel foi convidado pelos amigos para ir com eles até Malpetrim jogar o torneio anual da cidade – mas o pai não permitiu. Continuou jogando todas as semanas, e, no ano seguinte, novo convite e nova recusa, e outra vez no outro ano. Foi quando seu pai finalmente resolveu proibi-lo de jogar. As exatas palavras que disse naquele dia ainda ecoariam por anos nas lembranças de Marcel:

– Praticar esportes é coisa de bárbaros, esses brutamontes ignorantes que você encontra aos montes pela cidade! Magos são pessoas nobres e inteligentes, não foram feitos para isso!

– Então talvez eu não queira ser um mago!

– Mas você será! Como eu antes de você, e o seu avô antes de mim!

Discutiram por horas, até que Marcel finalmente desistiu de convencer o pai. Mas não de jogar magibol – naquela noite mesmo arrumou alguns pertences, e partiu para a cidade encontrar com seus amigos. Iria para Malpetrim e disputaria o torneio, depois resolveria o que fazer.

E que torneio ele disputou! Concentrado como nunca esteve antes, decidido a pensar apenas no jogo e esquecer de todo o resto, destacou-se facilmente dos demais jogadores. Levou quase sozinho a sua equipe – um time de amadores, que jogava apenas por amor ao esporte – até as semifinais. E ao final daquele jogo, exausto, foi abordado pelo técnico da equipe adversária.

– Você tem talento, garoto. – o velho halfling, fumando um cachimbo ornamentado, falava calmamente. – Não gostaria de virar profissional?

– Profissional?

– Isso mesmo: receber um salário, viver para praticar o esporte. – Marcel nem precisou pensar muito para responder; todas as opções que tinha passaram pela sua cabeça em frações de segundo. Voltar para Fauchard e ser castigado pelo pai? Ficar em Malpetrim e tentar arranjar algum outro emprego? Não, só havia uma escolha que podia fazer.

– Claro! – e foi assim que Marcel entrou para os Heróis de Malpetrim, o time de magibol mais popular do Reinado.

Os primeiros meses como profissional foram bastante difíceis. Jogadores de magibol, apesar de magos, não eram muito diferentes dos brutamontes de que seu pai falava – a prática do esporte e os constantes exercícios para manter o condicionamento físico lhes dava mais força e resistência do que seria esperado de um mago comum. Marcel, ao contrário, era pequeno e fraco, não tinha grande resistência para sustentar seus feitiços quando confrontado, e geralmente estava em desvantagem quando era necessário dividir a bola. Sua compensação era a velocidade, bem como um razoável domínio do jogo. Logo recebeu de seus companheiros o apelido de Marcel Pequeno, ou Marcel Little, como o chamava o técnico, usando um antigo dialeto anão que aprendera com um amigo e que gostava de usar para apelidar os jogadores.

O tempo passava depressa, e logo a Grande Liga se aproximava. Marcel ouvia falar dela desde a época em que jogava em Fauchard – o grande torneio realizado em Altrim, onde jogavam as mais importantes equipes de todo o Reinado pelo título de melhor time de Arton. Os Heróis, é claro, estariam disputando, e seu primeiro jogo seria contra os Touros de Tiberus – os atuais campeões, e que também haviam ganho os dois torneios anteriores. Um jogo duríssimo, que seria o primeiro teste de Marcel como profissional.

Escalado como reserva, o atacante apenas assistiu a um primeiro tempo disputadíssimo. Os Touros tinham uma defesa bem fechada, e um atacante meio-elfo muito habilidoso. Cada vez que se aproximavam da área dos Heróis, era perigo de gol. Por outro lado, os Heróis também tinham um time forte, com um atacante que freqüentemente retornava para buscar a bola no meio-campo, confundindo o seu marcador e conseguindo boas oportunidades de arremate. A primeira etapa, no entanto, terminou em 0 a 0.

Logo que começou o segundo tempo, os Touros marcaram um gol. O meio-elfo, com extrema habilidade, avançou por todo o campo assim que recebeu a bola, e no fim, tirando o goleiro da jogada, deixou seu companheiro de ataque livre para marcar. 1 a 0. O técnico dos Heróis suspirou, e virou-se para o banco de reservas. Olhou para um lado, para o outro, e novamente, até que parou os olhos em Marcel.

– É a sua chance, garoto. – um frio correu pela espinha do atacante quando ouviu isso. Mas ele se levantou e caminhou até o técnico, que lhe passou algumas instruções táticas; ao entrar em campo, já havia esquecido todas elas. E se estava nervoso demais para lembrar de instruções, muito mais estava para jogar – logo que recebeu a bola pela primeira vez, perdeu-a para o zagueiro adversário, armando um contra-ataque veloz que por pouco não terminou em gol.

Marcel balançou a cabeça e continuou a jogar. Logo recebeu a bola novamente, e partiu para o ataque, em velocidade. Mas encontrou novamente o zagueiro adversário, um minotauro enorme portando um símbolo sagrado do deus da força. Tentou driblá-lo, mas perdeu a jogada mais uma vez – a bola foi rapidamente lançada para o ataque dos Touros, que desta vez não desperdiçou. 2 a 0.

– Acorda! – gritou alguém na torcida. O atacante olhou para o banco dos reservas, e viu o técnico balançando a cabeça em desaprovação. Começou a tremer enquanto se dirigia para o centro do campo – não podia errar novamente, não lhe dariam outra chance depois disso. Talvez seu pai estivesse certo, afinal. Praticar esportes era coisa de brutamontes ignorantes, não de um mago pequeno e fraco como ele.

Não, seu pai não poderia estar certo! Não depois de tudo o que passou, não daria esse gostinho a ele. Levantou a cabeça, parou de tremer e voltou para o jogo. Tocou a bola para o seu companheiro no reinício da partida, e correu para o ataque, onde a recebeu de volta. E lá estava ele de novo a sua frente: o minotauro, enorme, assustador. Mas dessa vez estava determinado a vencer a disputa. Fintou para a esquerda, e ele manteve-se imóvel. Para a direita, e nada. Tentou levar a bola por um lado, e finalmente um movimento – o suficiente para Marcel tocar a bola por entre suas pernas, e correr pelo outro lado para pegá-la à frente, deixando-o para trás. Agora faltava apenas o goleiro.

O atacante correu pela esquerda, enquanto o adversário, em frente ao gol, apenas acompanhava a movimentação. Olhou para o lado, e viu seu companheiro pedindo a bola – tudo o que precisaria era de um passe, e o oponente ficaria totalmente sem ação, sem chance de defender um chute do colega. Mas não faria isso – esse era o seu momento, apenas seu, e de mais ninguém. Seguiu em diante, e, logo que entrou na área adversária, percebeu que iria ser confrontado. Pensando rapidamente, atirou a bola para cima, para além da área de efeito do feitiço adversário.

O minotauro e o outro atacante apenas observaram, sabendo que nada podiam fazer. O goleiro olhou para cima para tentar ver a bola, mas foi ofuscado pelo sol que vinha contra o seu rosto. Marcel nem moveu a cabeça: fez um rápido movimento com o braço, e a bola recebeu um forte chute, sendo lançada em direção ao gol. Parou apenas no fundo da rede – um golaço. E o atacante sorriu, sabendo que era apenas o primeiro.

– Parece um beijo de Tenebra, esse guri! – comentou um velho necromante eufórico, perdido em meio à torcida que comemorava.

Sobre BURP

Buenas, sou Bruno Schlatter, conhecido por alguns como BURP. Sou gremista, gaúcho, professor de História, RPGista, HQéfilo, gamemaníaco, anarquista desencantado, guitarrista frustrado, blueseiro apaixonado, leitor obsessivo, pseudo-escritor amador e outras coisas menos interessantes.